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Caracterização do sistema de produção de leite da Amazônia Oriental

POR COWTECH - CONSULTORIA E PLANEJAMENTO

COWTECH

EM 15/12/2000

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João Paulo V. Alves dos Santos

No início dos anos 70, com a construção da rodovia transamazônica, por meio da colonização, a agricultura pioneira transformou-se na principal atividade econômica da região. A abertura da Transamazônica proporcionou uma agricultura caracterizada em função do corte e da queima, resultando na exploração florestal e plantio de culturas anuais. Em solos ricos, tipo terra roxa, foram implantadas culturas como cacau, pimenta do reino e café.

Atualmente, tem-se tido muito poucas informações a respeito da produção de leite na Amazônia. Porém, desde 1989, inúmeros projetos para iniciar e/ou desenvolver a exploração leiteira, apresentados por produtores familiares, foram enviados para o programa de financiamento público denominado Fundo Constitucional de Financiamento Norte (FNO). A mobilização destes produtores acabou chamando a atenção de pesquisadores brasileiros da EMBRAPA, que resolveram realizar um programa de levantamento de dados, em conjunto com pesquisadores da França e Portugal, com o intuito de caracterizar a atual situação da pecuária de leite na Amazônia. Foi conduzido, no período compreendido entre 1994 e 1995, um levantamento em 88 estabelecimentos leiteiros ao longo da rodovia Transamazônica (BR-230), nos municípios paraenses de Uruará, Brasil Novo, Altamira, Vitória do Xingu e Senador José Porfírio. Tal levantamento foi feito por meio de um questionário aplicado aos produtores, sendo levantados dados gerais sobre o sistema de produção agrícola e as características particulares da atividade leiteira. Com relação à produção de leite foram levantados particularmente dados sobre: sistema de produção das atividades leiteiras, atividade leiteira das propriedades, comercialização de leite e papel da produção de leite na região.

De acordo com os dados obtidos, a produção de leite é uma especialidade da agricultura familiar, sendo que quase metade das propriedades possui menos que 100 ha e apenas 5% destas possuem mais que 500 ha. As menores propriedades na sua maioria situam-se próxima à Transamazônica, enquanto que as maiores são localizadas em locais mais distantes. Um detalhe bastante interessante é que nenhum dos produtores entrevistados apenas pratica a pecuária de leite, ou seja, executam outras atividades em paralelo como: cultivo de arroz, milho, feijão, cacau, pimenta do reino, café e diversas frutíferas.

Outra atividade exercida por grande parte dos produtores de leite é o "casamento" entre a suinocultura e produção de leite, principalmente nas propriedades que fabricam queijo caseiro, pois o soro do leite (subproduto da fabricação de queijos) somado ao milho ou casca de mandioca, fazem parte da base da alimentação destes animais. A pecuária de corte também faz parte do cenário das propriedades leiteiras, uma vez que muitos animais com dupla aptidão (carne e leite) são utilizados. A base genética dos animais provém das raças Gir e Holandesa, não havendo uma raça definida (animais mestiços), sendo que o tamanho médio dos rebanhos gira em torno de 100 cabeças, com um número médio de 40 vacas, das quais 24 são utilizadas na atividade leiteira (60% de vacas em lactação).

Com relação ao aspecto nutricional, a única suplementação fornecida aos animais é a mineral, através da mistura do sal comum com outros elementos minerais. As revendas que oferecem tais produtos, por sua vez, são de qualidade bastante variável. A utilização de capineiras é uma prática conhecida pela grande maioria dos produtores, porém sem aplicação prática. Em 75% das propriedades, a produção anual é inferior a 1000 litros/vaca, com um período de lactação variando de 5 a 9 meses, com uma média diária de 4 a 5 litros/vaca/dia. De acordo com os pesquisadores, vários motivos fazem jus ao baixo desempenho animal, destacando-se a baixa qualidade da forragem, a falta de boa mineralização e pouca aptidão leiteira do rebanho.

A ordenha é bastante rudimentar, não havendo critérios e orientação a respeito de procedimentos higiênicos mínimos, com instalações e equipamentos inadequados. A fabricação do queijo é realizada sempre que a comercialização do leite é dificultada em função da distância de centros consumidores. Segundo aqueles que realizaram tal levantamento, o acesso ao mercado é, certamente, o fator que mais condiciona o tipo de produto comercializado. Em outras palavras, os produtores que se encontram próximos das cidades vendem leite in natura, ao passo que aqueles mais afastados têm no queijo uma única saída, principalmente devido à dificuldade de transporte no período das águas. A comercialização é feita de diversas maneiras. Cerca de 60% do leite in natura é distribuído diretamente pelo produtor, de porta em porta. Os mesmos possuem sua própria "clientela" e rota de distribuição diária. Os restantes 40% dos produtores vendem seu leite para distribuidores, lojas de revenda nas cidades. O preço do leite vendido ao consumidor é de R$0,50/litro. De acordo com a presente pesquisa, o mercado de leite in natura das cidades da Transamazônica foi estimado em torno de 1500 litros/dia para cerca de 10000 habitantes, ou seja, 150 ml/habitante/dia ou 55 litros/per capita/ano. A comercialização de queijo e requeijão realiza-se principalmente por comerciantes, atravessadores ou lojas de vendas, com renda bruta girando em torno de R$0,12 a R$0,15/litro de leite.

Comentário MilkPoint: essa caracterização da atividade leiteira na Amazônia retrata de maneira fiel o perfil da maioria das propriedades leiteiras pouco desenvolvidas em diferentes regiões do Brasil. Devemos chamar atenção em relação a tópicos importantes para o bem estar social como o consumo per capita anual e mercado totalmente informal, com matéria prima (leite in natura) de baixa qualidade. Os dados relatados acima indicam o leite como atividade estabilizadora das propriedades, pois de acordo com os dados obtidos pelos pesquisadores, a pecuária de leite cria uma renda diária capaz de cobrir as despesas das famílias de cada produtor, mesmo sem ser a principal fonte de recursos nas propriedades, como é o caso daquelas especializadas em outras atividades. O que podemos constatar é a importância que o sistema de produção de leite exerce, em termos de receita no dia-a-dia dos produtores. A falta de orientação e conhecimento técnico é bastante comum, gerando baixos índices zootécnicos. Em regiões com tal característica, grandes avanços poderiam ser obtidos com programas de extensão, sendo os mesmos de extrema importância para melhoria, crescimento e desenvolvimento econômico da região, possibilitando maior oferta e melhor qualidade de um alimento imprescindível à vida. Caso a aplicação do PNMQL se dê nos moldes atualmente preconizados (a partir de 2004 nas regiões norte e nordeste), o cenário descrito pelo trabalho, bastante comum na região, tem cerca de 3,5 anos para ser alterado.

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fonte: Anais da XXXIV Reunião da SBZ (1997), “A produção leiteira na fronteira agrícola da Amazônia oriental brasileira: situação atual e perspectivas”

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