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Você entende o que seus bezerros estão te falando?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 29/12/2009

5 MIN DE LEITURA

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Não é de se espantar quando se escuta algum técnico de campo dizer que conhece um tratador de animais que, sem muito estudo, rapidamente consegue identificar um animal doente ou com comportamento anormal. E não é somente nos dias atuais que tratadores de animais provam suas habilidades na detecção de doenças. Segundo dados históricos, desde os primórdios da agricultura e da criação de animais estas habilidades já eram valorizadas entre os antigos Egípcios.

Fragmentos de papiros que datam de 1850 aC. descrevem doenças de bovinos, cães, aves e peixes, mostrando que os antigos egípcios sabiam reconhecer sinais associados a doenças importantes. Ainda no mundo antigo, Hipócrates, o pai da medicina moderna, argumentou que as doenças são produtos de fatores ambientais, incluindo a dieta e hábitos de vida (Tratado: "Sobre a Doença Sagrada" ~ 400 aC.). Ele também recomenda o uso de cuidadosas observações para identificar sinais de doenças e reconheceu que havia diferenças em como os indivíduos expressam esses sinais (O Livro de Prognósticos ~ 400 aC.).

Ao longo das últimas décadas, a relação entre comportamento e saúde animal surgiu como um tema de discussão acadêmica, através da criação de organizações como a Sociedade de Etologia Veterinária (hoje Sociedade Internacional de Etologia Aplicada) e a publicação de obras como Abnormal Behavior in Animals ("Comportamento Anormal em Animais") de Fox (1968).

Assim, atualmente a discussão entre diversos pesquisadores tende a centrar-se sobre como identificar e resolver problemas que tem como origem alterações simples no comportamento animal. Segundo um grupo de pesquisadores (D.M. Weary e colaroradores, 2008), sinais comportamentais têm sido considerados indicativos de algumas doenças ou distúrbios, como, por exemplo, alterações no padrão de alimentação e também a diminuição das atividades normais.

Surpreendentemente, são poucas as pesquisas científicas que abordam especificamente o valor do comportamento animal como um indicador de doença. No entanto, as taxas de detecção de doenças poderiam ser melhoradas através da utilização de critérios mais apropriados e de melhor treinamento do tratador no que diz respeito a observação de alterações de comportamento.

De maneira geral, quase todas as avaliações comportamentais relacionas a doenças tem sido baseadas em avaliações subjetivas. Normalmente são considerados como doentes os animais que se apresentam deprimidos, apáticos ou sem se alimentar e estes indicadores são, muitas vezes, utilizados com base na experiência acumulada pelos tratadores. No caso de bezerros em lotes, o isolamento de animais também pode ser considerado como uma alteração de comportamento, muitas vezes revelando algum problema de saúde de animais. Este é um aspecto importante, principalmente para animais recém-desaleitados, que podem estar com problemas nesta fase de grande estresse para o animal. O isolamento também pode revelar problemas de dominância no lote, que com o tempo vão resultar em redução no desempenho individual de animais e, em algumas situações, problemas de saúde.



Figura 1. Na sequência, foto de bezerra saudável, bezerra com orelha caída (sinal de morbidez) e animal isolado do lote.

Infelizmente, avaliações subjetivas podem estar propensas a pouca confiabilidade, ou seja, nem sempre podem ser repetidas sem erros. Isso geralmente ocorre quando pessoas diferentes dão opinião sobre um mesmo fator, ou avaliam o mesmo animal com alteração em seu comportamento. No entanto, é comum encontrarmos tratadores bem treinados que por simples observação do comportamento dizem inclusive que o animal pode estar com febre. Um bom exemplo disso é a funcionária responsável pelo bezerreiro do Sistema de Produção de Leite da Embrapa Pecuária Sudeste.

Por experiência, e também amor pelo que faz, Dona Leni consegue ao chegar ao bezerreiro, identificar bezerros que possam estar com problemas de saúde. Não foram poucas as vezes que ao chegar ao bezerreiro pela manhã juntamente com esta extraordinária funcionária ela comentou sobre a possibilidade de um determinado bezerro estar com febre. Ao se medir a temperatura do animal em questão, comprovávamos sua experiência na observação dos animais. A sensibilidade do tratador no que diz respeito a perceber qualquer alteração no comportamento dos animais é crucial para o rápido diagnóstico de problemas e consequente redução não só no uso de medicamentos e no custo de produção, mas também nas taxas de mortalidade, que também impactam o custo de novilhas de reposição.

Outros tipos de alterações de comportamento podem estar relacionados ao condicionamento animal a uma rotina diária e não necessariamente a um problema de saúde. Um bom exemplo disto é observado em experimentos com alimentadores automáticos de leite para bezerros. Neste tipo de manejo alimentar, animais saudáveis visitam com mais freqüência os alimentadores para as chamadas visitas não-nutritivas, ou seja, sem o consumo de leite, já que o leite somente está disponível em quantidade e horários pré-determinados para cada animal. Comportamento semelhante observa-se nas fazendas, onde as bezerras saudáveis, ou seja, as que não apresentam quadro de diarréia ou qualquer doença manifestam comportamento mais ativo durante os horários de fornecimento do leite em comparação aos animais adoecidos.

O comportamento também pode ser parte de todo sistema de comunicação dos animais, sendo possível identificar indícios antes mesmo de o animal adoecer. Para isso, é sempre importante a fazenda possuir funcionários de confiança, bem treinados, principalmente na criação de bezerras, que tem a saúde bastante frágil durante as primeiras semanas de vida e também nas semanas de transição (pouco ante e pouco depois do desaleitamento). É importante também saber diferenciar comportamentos relacionados a doenças de "comportamentos de dependência", comum em animais recém nascidos. Este sinal, muito comum em bezerras mais jovens está relacionado à necessidade inerente aos animais de procurar o cuidado da mãe, parecendo muitas vezes que estão apáticos e frustrados.

Por fim, técnicos e principalmente tratadores, que diariamente estão em contato com animais devem, constantemente, se preocupar em aperfeiçoar seu conhecimento em relação ao comportamento do animal que tem maior contato. Da mesma forma, pesquisas devem ser desenvolvidas para padronizar algumas questões ainda bastante subjetivas e de conhecimento de poucos. A grande dificuldade na criação de animais, para muitos, está no fato de que estes não podem falar, dizer quando sentem fome, sede ou dor. Entretanto, apesar da fala não ser possível como forma de comunicação, constantemente os animais expressam suas vontades e desejos na forma de comportamentos padronizados, permitindo, assim, uma maior eficiência no trato e contato diário, podendo refletir diretamente no desempenho e principalmente em retorno financeiro.

Bibliografia consultada

WEARY D.M.; HUZZEY J.M.; von KEYSERLINGK, M.A.G. Using behavior to predict and identify ill health in animals Journal of. Animal Science, v.87, p.770-777, 2009.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 12/03/2012

Caro Albino,

Muitas vezes, dependendo da dieta, o consumo é estimulado pelo maior número de fornecimentos. Se você está alimentando suas novilhas com cana ou mesmo com silagem, esse pode ser o caso. Dietas mal balanceadas ou fornecimento além das demandas também podem resultar em mais sobras no cocho. tente verificar todos estes pontos. Boa sorte!

Carla.
ALBINO GONÇALVES NUNES NETO

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/03/2012

Gostaria de saber se o ideal de tratar novihas é uma vez no dia ou duas vezes? Estou tratando uma vez só e estou vendo uma sobra muito grande.
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/08/2010

Caro Marcelo,
Obrigada pelos comentários!
Abs.,
Carla Bittar
MARCELO ERTHAL PIRES

BELÉM - PARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/08/2010

Ótimo artigo, Carla e Lucas, o diagnóstico em bezerros é uma questão de sensibilidade individual, mas também pode ser treinada. A sintomatológia é discreta, mas os poucos sinais, são capazes de denúciar um início de uma doença(infecciosa, parasitária ou de outras etiologias). Voces tocaram em um ponto primordial, pois quanto mais cedo se trata, mais fácil fica de atingir um sucesso na cura. Redobro meus aplausos, pelo tema que abordaram. respeitosamente marcelo
ROSÂNGELA SOARES WILLRICH

BAGÉ - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/12/2009

Excelente o artigo. Concordo plenamente. Parabéns aos autores!
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