FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

O manejo nutricional da minha bezerra durante o aleitamento pode afetar seu desempenho reprodutivo e produtivo no futuro?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 27/10/2009

7 MIN DE LEITURA

6
0
O sistema de manejo de alimentação de bezerras mais comumente empregado por produtores de leite geralmente baseia-se no fornecimento de leite integral ou substituto de leite (sucedâneo) diluído a 12,5% de MS, fornecidos a 10% do peso vivo da bezerra, normalmente 2 litros em duas refeições.

Entretanto, estudos mais recentes mostraram que o crescimento de bezerras e o ganho de peso no período de aleitamento podem ser melhorados quando os animais são alimentados com maiores quantidades de dieta líquida durante este período. Além disso, maiores taxas de crescimento durante os primeiros estágios da vida do animal podem ser mais rentáveis e compensar o investimento, por resultar em animais maiores para o período de crescimento pós-desaleitamento.

No entanto, é importante salientar que o custo em alimentação, por kg de ganho de peso vivo, são maiores para bezerras alimentadas com maiores quantidades de leite ou sucedâneo que aqueles alimentados convencionalmente. Porém, alguns pesquisadores mostram que este custo em alimentação pode não ser maior, ou ser até mesmo próximo ao custo de produção de bezerras alimentadas com volumes restritos de dieta líquida, com ganhos menores (400 g/d), com o fornecimento de concentrado a vontade.

Por outro lado, reduzir a idade ao primeiro parto (IPP) para cerca de 23 a 25 meses de idade, pode reduzir os custos de criação de novilhas de reposição em alguns sistemas de produção. No entanto, pode também reduzir o peso vivo dos animais ao primeiro parto e, consequentemente, a produção de leite na primeira lactação. Isto ocorre devido a uma grande correlação entre o peso vivo durante o período de aleitamento e a produção de leite durante a primeira lactação (Hoffman & Funk, 1992). Assim de acordo com Van Amburgh et al. (1998) para se reduzir os custos de produção de uma novilha em sistemas normalmente baseado em confinamento durante todo o período de criação, o ideal seria uma idade ao primeiro parto alvo de cerca de 22 meses de idade, alcançada para um peso na parição de 544-567 kg, maximizando assim a produção de leite na primeira lactação.

Embora a maioria dos estudos baseados na redução da idade ao primeiro parto esteja sempre focada no efeito da nutrição no crescimento antes e após a puberdade, alguns poucos estudos mostram que o período de aleitamento deve ser considerado. Dessa forma, em grupo de pesquisadores espanhóis (Terré et al., 2009) desenvolveram um trabalho bastante interessante com o objetivo de verificar se as taxas de crescimento durante o período de aleitamento poderiam influenciar no desempenho reprodutivo e produtivo de novilhas durante a primeira lactação.

Para realizar esta pesquisa, 60 bezerras da raça holandesa foram avaliadas desde a primeira semana de vida até a primeira lactação.

Durante a fase de aleitamento, os animais foram divididos em grupos, de acordo com o programa de alimentação:
1)Alimentação convencional: 4 litros/dia de sucedâneo comercial de qualidade com 12% de MS no produto pronto durante os primeiros 3 dias e seguido do fornecimento de sucedâneo preparado com 15% MS final até o final do período de aleitamento, que foi de 56 dias;
2)Alimentação intensiva: 4 litros/dia nas 3 primeiras semanas de vida; 6 litros/dia durante a 4ª semana; 7 litros/dia na 5ª semana; 6 litros/dia na 6ª semana dia e 3 litros/dia, somente à tarde, na 7ª semana de aleitamento, até completar os 56 dias de um sucedâneo com 18% de MS no produto pronto.

Além do sucedâneo, os animais tinham acesso a um concentrado de qualidade e água a vontade desde os primeiros dias de vida.

Após o desaleitamento, as bezerras foram mantidas nos mesmos grupos até atingirem 116 kg, quando então começaram a ser divididas em grupos, de acordo com o peso vivo, sendo fornecida a todas as novilhas uma mesma ração total, que variava a sua composição nutricional conforme a exigência dos animais. As novilhas eram manejadas entre os lotes somente quando atingiam o peso alvo pré-determinado, sendo as pesagens realizadas a cada 15 dias.

Como os animais era provenientes de diversas fazendas da região, quando atingiam cerca de 1 mês antes da parição, as novilhas eram transferidas de volta às fazendas de origem, e alimentadas a partir desde momento conforme o sistema de cada fazenda.

Os resultados encontrados pelos pesquisadores mostraram que os animais que consumiam grandes quantidades de sucedâneo apresentaram um menor consumo de concentrado, conforme pode ser observado na Tabela 1. Entretanto, o consumo total de matéria seca (MS) pelos animais não foi diferente, mostrando que os animais que consumiam menos sucedâneo compensavam essa menor ingestão consumindo mais concentrado ao longo de todo período de aleitamento.

Tabela 1. Desempenho dos animais do período de aleitamento até a fase de crescimento.



Entretanto, quando se observa os ganhos de peso dos animais de ambos os tratamentos durante o período de aleitamento, verifica-se que os animais do programa de aleitamento intensivo apresentaram maior ganho no período. Porém, esta diferença no ganho de peso não foi observada durante o período de crescimento, ou seja, após o desaleitamento. Um dado importante que pode ser observado é um maior consumo de concentrado e conseqüentemente um maior ganho de peso (sem diferença estatística) pelos animais que foram aleitados de forma convencional no período pós-desaleitamento. Isto se deve, provavelmente, a maior capacidade digestiva destes animais, já que durante o período de aleitamento, apresentavam maior consumo de concentrado, o que pode ter contribuído para um maior desenvolvimento ruminal.

Em relação ao desempenho reprodutivo dos animais não foram verificadas diferenças na idade em que os animais aleitados de forma convencional ou intensiva durante o período de aleitamento apresentaram peso para inseminação ou prenhez confirmada, além da produção de leite na primeira lactação, conforme mostra a Tabela 2.

Tabela 2. Desempenho reprodutivo e produtivo na primeira lactação.



De maneira geral, os resultados deste trabalho de pesquisa mostram que o aleitamento intensivo com o objetivo de se obter maiores taxas de ganho pelos animais no período de aleitamento pode reduzir o consumo de concentrado e, consequentemente, o desenvolvimento ruminal, fator essencial para que o desempenho após o desaleitamento não seja prejudicado. No entanto, o consumo de concentrado pelos animais após algumas semanas do desaleitamento não apresenta diferenças, mostrando que as bezerras recém desaleitadas apresentam grande capacidade de adaptação a nova dieta.

Além disso, os resultados mais importantes deste trabalho são em relação ao desempenho reprodutivo e produtivo, que não mostraram vantagem quando os animais alimentados sobre aleitamento intensivo foram comparados a animais sob manejo convencional.

Apesar da não ter sido encontrada diferença estatística para o parâmetro produção de leite na primeira lactação, numericamente é possível observar maior produção pelos animais que durante a fase de aleitamento consumiram maior quantidade de sucedâneo. Este resultado deve ser considerado quando se optar por este sistema, verificando-se se um maior investimento na bezerra durante o aleitamento será compensado quando esta estiver em produção.

Referências

Hoffman, PC; Funk DA Applied dynamics of dairy replacement growth and management. Journal of Dairy Science, v.75, p.2504-2516,1992.

Van Amburgh, ME; Galton, DM; Bauman DE; Everett, RW; Fox, DG, Chase, LE; Erb, HN. Effects of three prepubertal body growth rates on performance of Holstein heifers during first lactation. Journal of Dairy Science, v.81, p.527-538, 1998.

Terre, M; Tejero, C; Bach, A. Long-term effects on heifer performance of an enhanced-growth feeding programme applied during the preweaning period. Journal of Dairy Research, v.76, p.331-339, 2009.


Comentários:

Este é um dos trabalhos recentes que vem estudando os efeitos da alimentação intensiva durante o período de aleitamento sobre o desempenho produtivo e reprodutivo de fêmeas de reposição. Diversos trabalhos têm sido conduzidos neste sentido tendo em vista as várias observações de aumentos na produção de leite na primeira lactação quando animais receberam 50% mais nutrientes via dieta líquida em comparação ao sistema convencional de alimentação. De maneira geral estes trabalhos mostram claramente a relação inversa entre volume de dieta líquida fornecida e consumo de concentrado. Neste aspecto, os programas de aleitamento intensivo devem se preocupar com níveis de consumo de concentrado para o desaleitamento fazendo uso de redução do volume fornecido ao final do período de aleitamento ou aumentar a idade ao desaleitamento de forma que o consumo de concentrado tenha atingido níveis adequados. O trabalho mostra uma compensação no consumo com maior consumo de concentrado quando se fornece quantidades restritas de dieta líquida, o que não resulta em ganho de peso similar ao sistema intensivo. As taxas de crescimento no período subseqüente, assim como a idade a puberdade e ao primeiro parto, não são afetadas pelo sistema de aleitamento. No entanto, embora isso não tenha sido claro neste trabalho, uma grande revisão mostrou aumentos na produção de leite entre 400 e 1400 kg em animais aleitados de forma intensiva em comparação ao convencional. È de se frisar que este sistema implica em maior custo por animal desaleitado e que podem existir problemas para o desaleitamento, o que pode resultar na perda de ganho de peso adicional conseguido com o fornecimento de maiores volumes de dieta líquida.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

6

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 26/11/2009

Caro Marcio,

Colocar concentrado no fundo do balde durante o fornecimento do leite é uma prática que alguns produtores usam para estimular o consumo de concentrado. No entanto, não temos visto benefício desta prática e, quando mal feita pode resultar em menor consumo da dieta líquida. A melhor estratégia é na verdade oposta a esta. Ao invés de se colocar concentrado no leite, se colocar leite em pó ou um sucedâneo no concentrado. O leite em pó funcionaria desta forma como um palatabilizante, acelerando o consumo de concentrado.
Att.,
Carla Bittar.
MARCIO RANGEL BORGES

GUAÇUÍ - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/11/2009

Tenho uma duvida, posso misturar o concentrado batido em liquidificador diretamente no leite? sendo em concentrações adequadas e dividido em duas mamadas.
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 16/11/2009

Caro Antônio,
As coisas não são tão simples assim. É bom sempre lembrar que a maior parte dos trabalhos gerados com animais em crescimento são americanos, em sistemas de produção baseado em confinamento total. Nas nossas situações, dificilmente o ideal seria a parição aos 22 meses, isso não seria economicamente viável nos nossos sistemas de produção. O ultimo levantamento que fiz, considerando o sistema de confinamento total, do início ao fim da criação, resultou em um custo final de R$ 2700. Assim, este seria o custo máximo, podendo ser bastante reduzido de acordo com o sistema de criação.

Embora em termos de peso e idade ao primeiro parto as bezerras aleitadas com maiores quantiddes de leite acabem perdendo as vantagens nas fases subsequentes ao aleitamento, vários trabalhos mostram aumentos na produção de leite destes animais na primeira lactação. Tem trabalhos mostrando aumentos de 400 até 1400L na primeira lactação. Este seria o maior atraente financeiro, como você diz na pergunta.

Att.,
Carla Bittar
ANTÔNIO CORDEIRO COSTA JÚNIOR

ÁGUAS BELAS - PERNAMBUCO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/11/2009

Bom dia Drª Carla.

Gostaria de entender:
1-O ideal para novilha seria parir aos 22 meses com aproximadamente 18 a 19 arrobas, acreditando-se que não haveria queda na produção de leite no 1º parto.
2-A influência positiva no aleitamento intensivo, se perde nas etapas subsequentes, pois as bezerras não teriam um pleno desenvolvimento dos pré estomagos, o que traduzindo é: partem na frente mas chegam iguais a idade de cobertura.
3-Para atingir as condições do item 1, é necessário o confinamento permanente das bezerras, garrotas até novilhas, até a idade de 22 meses.

Gostaria de saber:
1-Se o acima descrito ocorrer a contento, qual o custo desta novilha ao parto?
2-Se há algum trabalho fazendo a comparação entre os custos da novilha confinada versus semi-confinada (parto aos 36 meses) versus criadada a pasto (parto aos 48 meses).
No meu entender, so justifica a adoção da intensificação da criação se houver um ganho financeiro atraente.

Artigos como este, são bons para despertarmos a necessidade de investirmos no aumento da rotatividade do capital, pois a pecuária de leite é um investimento de médio a longo prazo.

Parabens a Drª Carla e ao Dr. Lucas pelo artigo acima.
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/10/2009

Caro Paulo,
Os animais não receberam volumoso durante o período de aleitamento, somente concentrado, dieta líquida e água. Após o desaleitamento os animais foram agrupados e passaram a receber um dieta completa, contendo concentrado e um fonte de volumoso. Por que você acha que os animais não atingiram peso ideal após a desmama? Os animais foram desaleitados com 41 dias apresentando pesos de 79,9 e 84,5 para os tratamentos convencional e intensivo respectivamente. Além disso, as taxas de ganho de peso nos diferentes períodos avaliados foram sempre bastante satisfatórias.
Quanto ao seu manejo, acredito que o desaleitamento possa ser feito mais cedo sem prejuízos para o desepenho dos animais ou ao seu potencial produtivo, e com benefícios econômicos devido ao menor forneciemnto de leite.
Att.,
Carla Bittar
PAULO BRAGA

BAURU - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/10/2009

Bom dia
Os dois lotes de bezerras de acordo com o programa de alimentação foram fornecidos somente leite e ração ou feno também?
As bezerras que não atingiram o peso ideal após a desmama qual foi o procedimento adotado?
Estou efetuando o desaleitamento aos 90 dias de idade com fornecimento de 6 litros de leite até os 30 dias e após 4 litros de leite ao dia.

Parabéns muito boa a pesquisa, serve para nos orientar como devemos melhorar o nosso procedimento.
MilkPoint AgriPoint