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Efeito dos níveis de extrato etéreo do leite sobre o desenvolvimento corporal de bezerros

CARLA BITTAR

EM 09/05/2006

7 MIN DE LEITURA

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Carla Maris Bittar1 e Vanessa Pillon dos Santos2

O principal alimento nos primeiros dias de vida para bezerros é o leite, sendo a variável de maior custo dentro desta atividade de criação de novilhas de reposição. Dessa maneira, para que o desenvolvimento do bezerro não seja prejudicado, algumas alternativas que diminuam este elevado custo podem ser adotadas.

Para que o sistema seja rentável recomenda-se a utilização de colostro excedente, dieta líquida em quantidades limitadas, fornecimento de concentrado e o desaleitamento precoce a partir da segunda semana de idade, quando o consumo de concentrado for adequado.

Bezerros recém-nascidos têm baixa reserva corpora e alta exigência energética. A ingestão de energia pode ser aumentada através do manejo nutricional como o aumento no fornecimento de dieta líquida, fornecimento de dieta líquida mais rica em sólidos ou com suplementação de gordura suplementar de alta digestibilidade e fornecimento de concentrado inicial contendo ingredientes de alta digestibilidade e alta palatabilidade.

Em regiões com baixas temperaturas e altas precipitações pluviométricas, a taxa de crescimento desses animais pode ser fortemente reduzida, quando estes fatores são associados ao estresse. Nestas situações, demanda de energia para manutenção da temperatura corporal é aumentada, diminuindo assim a disponibilidade de energia para o crescimento ou para o sistema imunitário dos animais.

Com o propósito de aumentar a densidade energética, diminuir a incidência e a severidade das diarréias, possibilitar auxílio na absorção de vitaminas lipossolúveis, reduzir o estresse e o índice de doenças pulmonares pela redução da poeira do alimento, suplementos de gordura são freqüentemente adicionados à dieta líquida de bezerros jovens. Dentre as várias opções para se aumentar o nível de gordura no sucedâneo pode ser incluído nas dietas:

• Sebo bovino: gordura pouco aproveitada pelo animal, devido à presença de ácidos graxos saturados (esteárico e palmítico) de baixa digestibilidade;

• Gordura suína: presença de ácidos graxos mais digestíveis, dentre eles o oléico (42%), palmítico (28%), linoléico (9%), palmitoléico (2%) e mirístico;

• Gordura vegetal: também pode ser uma fonte alternativa eficiente na composição dos sucedâneos lácteos em substituição a gordura animal, como exemplo, tem-se o óleo de soja, de palma e de coco. No entanto os óleos vegetais apresentam maior custo quando comparado com a gordura animal. Entretanto, vários trabalhos demonstraram que sucedâneos com fontes de gordura vegetal devem ser fornecidos para bezerros com mais de 3 semanas para resultarem em bom desempenho.

Estudo realizado por Aita et al. (2006) objetivou avaliar o desenvolvimento corporal de bezerros da raça Jersey, do 8o ao 90o dia de idade, alimentados com sucedâneo lácteo contendo diferentes níveis de extrato etéreo (EE) e determinar o melhor nível de inclusão deste nutriente no sucedâneo.

Material e Método

Para avaliar o desenvolvimento corporal de bezerros alimentados com diferentes níveis de EE e determinar o melhor nível de inclusão foram utilizados 20 bezerros da raça Jersey com peso inicial de 27,5 kg ± 3,0.

A dieta líquida foi composta por leite integral ou sucedâneo com 10, 15 ou 20% de EE na matéria seca (MS), onde para cada 100g de sucedâneo fornecido padronizou-se a adição de 1,87; 6,90 e 11,92 g de gordura suína, respectivamente.

Os animais permaneceram com as mães durante as primeiras 72 horas após o nascimento para ingerir o colostro e depois foram transferidos para abrigos individuais.

A partir do oitavo dia de idade os bezerros recebiam pela manhã, aproximadamente 0,15 kg de concentrado comercial peletizado, feno de alfafa ad libitum, além de 3L da dieta líquida divididas em duas vezes ao dia.

A partir do 30o dia a dieta líquida passou a ser fornecida uma vez ao dia até o 56o dia de vida, quando os bezerros foram desaleitados. Os animais tiveram livre acesso a água. O concentrado fornecido foi composto basicamente por farelo de soja, farelo de arroz, farelo de trigo, milho moído, melaço, minerais e vitamina.

Amostras de leite, sucedâneo, concentrado e feno de alfafa foram coletadas periodicamente para análise de composição, sendo os valores médios apresentados na tabela 1.

Tabela 1. Valores médios da composição química (% MS) dos alimentos fornecidos


Os animais foram pesados e a altura de cernelha e perímetro torácico medidos semanalmente. Diariamente era registrado o consumo de dieta líquida e do concentrado comercial para o cálculo da conversão alimentar aparente (consumo de dieta líquida + consumo de concentrado em kg de MS/ganho em kg de peso).

Resultados

Consumo de Concentrado

O consumo de concentrado (CC) durante todo o período experimental, ou seja, dos 8 aos 90 dias não apresentou diferenças significativas entre as dietas líquidas (tabela 2). No entanto, durante o aleitamento, os animais que receberam leite integral consumiram menos concentrado que aqueles que receberam sucedâneo lácteo com 10% ou 15% de EE, não diferindo de 20% de EE.

Bezerros que consomem mais energia através da dieta líquida reduzem o consumo de concentrado, podendo atrasar o desenvolvimento ruminal, premissa básica para a realização do desaleitamento sem redução no desempenho animal.

Tabela 2. Consumo de concentrado por bezerros recebendo dieta líquida com diferentes teores de extrato etéreo


Peso e Ganho de peso médio diário

O peso dos bezerros aos 56 dias de idade variou significativamente entre as dietas líquidas, onde os animais que receberam o leite integral e o sucedâneo lácteo com 10% de EE apresentaram os maiores pesos corporais (tabela 3). Este resultado pode ser explicado pela maior concentração de energia no leite e pelo maior consumo de concentrado observado em bezerros recebendo sucedâneo contendo 10% EE.

A dieta líquida afetou de forma significativa o ganho de peso diário na fase de aleitamento (8 aos 56 dias), sendo os ganhos superiores para os animais que receberam leite integral e sucedâneo com 10% de EE em relação aos bezerros que ingeriram o sucedâneo com 15 a 20% de EE.

Após o desaleitamento (57 aos 89 dias), os animais que receberam leite integral durante o aleitamento apresentaram valores de ganho de peso diário superiores a todos os outros tratamentos (tabela 3). Estes resultados se devem provavelmente ao maior consumo de concentrado observado por estes animais, além da maior ingestão de energia proveniente do leite durante o aleitamento. Entretanto, Matos et al. (1984) não encontraram diferenças significativas entre as médias de GP no pós desaleitamento, utilizando leite integral e três tipos de sucedâneo lácteo.

Tabela 3. Ganho de peso médio diário dos bezerros do 8o ao 56o (kg/dia) e do 57o ao 89o (kg/dia)


Altura de Cernelha e Perímetro Torácico
Não houve diferença significativa para altura de cernelha (AC) obtida aos 56 dias de idade entre os tratamentos. Porém diferenças foram encontradas aos 90 dias de idades, de modo que os bezerros que receberam o leite integral apresentaram maior altura de cernelha quando comparado com aqueles que receberam sucedâneo lácteo.

Dos 8 aos 56 dias de idade o perímetro torácico (PT) variou significativamente entre os tratamentos, onde os bezerros que receberam leite integral apresentaram perímetro torácico superior ao dos que se alimentaram de sucedâneo (tabela 4). Os mesmos resultados foram encontrados após o desaleitamento.

Tabela 4. Altura na cernelha e perímetro torácico de bezerros recebendo dieta líquida com diferentes teores de extrato etéreo


Análise econômica

Na fase de aleitamento o maior custo foi observado para os bezerros que receberam o leite integral do que aqueles que receberam o sucedâneo (tabela 5). Os animais que receberam sucedâneo com 10% de EE apresentaram uma relação custo:ganho de peso corporal melhor, resultando em um menor custo.

Tabela 5. Quantidade utilizada de alimento e custo médio da dieta líquida e do concentrado durante o período experimental (valores em R$ por bezerro em junho de 2003)


Conclusão

O fornecimento de sucedâneo lácteo com 10% de EE proporcionou ganho de peso corporal superior à dieta líquida com 15 e 20% de EE. Entretanto, resultou em desenvolvimento corporal inferior ao observado em bezerros aleitados com leite integral.

Por outro lado, o fornecimento de sucedâneo contendo 10% de EE apresentou benefício quanto à relação custo:ganho de peso corporal, apresentando vantagem do ponto de vista econômico.

Referências

Matos, L.L.; Campos, O.F.; Pires, M.F.A. Comparação entre leite integral e diferentes sucedâneos do leite na alimentação de bezerros. Revista da Sociedade Brasileira de Zootecnia, v.13, n.4, p. 447-452, 1984.

Aita, M.F; Fischer, V.; Stumpf Jr., W. Efeitos dos níveis de extrato etéreo no sucedâneo do leite sobre o desenvolvimento corporal de bezerros Jersey. Revista Brasileira de Zootecnia, v.35, n. 1, p. 193-202, 2006.

Comentários

A suplementação de gordura através de sucedâneos de leite tem sido prática comum para aumento do aporte energético para bezerros em situação de estresse térmico por frio. Na maior parte do Brasil esta não é uma prática necessária mas poderá ser realizada durante o inverno na região sul, podendo trazer benefícios ao desempenho de animais recém-nascidos.

Neste trabalho, conduzido na região sul, não foram observados benefícios da inclusão de gordura suína provavelmente devido ao fato de ter sido conduzido durante o período quente do ano (outubro a maio), o que sugere que este benefício depende do aumento da exigência energética devido ao estresse por frio.

Também se demonstrou que o maior aporte energético via dieta líquida deverá reduzir o consumo de concentrado, podendo atrasar o desaleitamento de bezerros, e conseqüentemente aumentar o custo de produção de novilhas de reposição durante a fase de aleitamento.

Assim, sucedâneos devem apresentar teores médios de 10% de EE, provenientes de fontes de alta digestibilidade, de maneira a estimular o consumo de concentrado e idades precoces e resultar em bons índices de desenvolvimento corporal. É bom salientar que a inclusão de produtos de origem animal em dietas para bovinos apresenta uma série de restrições de acordo com portaria do ministério da agricultura e do abastecimento.



__________________________
1 Depto. de Zootecnia - ESALQ/USP. carla@esalq.usp.br
2 Aluna de mestrado em Ciência Animal e pastagens - ESALQ/USP

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