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2015 - Perspectivas do Mercado Internacional de Leite

Por Otavio A. C. de Farias
postado em 05/02/2015

14 comentários
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Em 2014, houve grande volatilidade no mercado mundial de leite, com forte alta no inicio do ano, seguida de queda consistente até inicio de 2015.

Como se vê em relatórios de mercado, analistas estimam que mercado poderá ainda ficar fraco até pelo menos meados de 2015; alguns, mais pessimistas, estimam uma melhora apenas no final deste ano. Em dezembro de 2014, o banco holandês Rabobank estimou que uma recuperação sustentada levaria ainda “um ano para ocorrer” devido ao excesso de oferta no mundo.

Entretanto, aos preços atuais das commodities, processadores têm perdas. Logo, a recuperação deverá vir, tanto pela redução na produção na base (produtor de leite), como pela natural reativação da demanda aos preços atuais (ou uma combinação de ambos).

Se por um lado o leite e seus derivados se mostram relativamente inelásticos, a queda nos últimos meses de cerca de 50% nos preços do complexo leite pode gerar aumento de demanda nos próximos meses. Algumas indústrias alimentícias, panificação, sorvetes, etc. e também consumidores no varejo em alguns países, substituem os lácteos por substitutos ou análogos lácteos (os chamados “blends”, “analog cheeses”, etc.). Com a queda dos preços mundiais, o produto regular 100% lácteo tende a ser mais atrativo, ajudando a reequilibrar a demanda e recuperar preços nos mercados.

Apesar de uma leve recuperação recente na América do Sul, Estados Unidos, Europa e Oceania, os principais fundamentos apontam para um mercado ainda fraco. Espera-se, entretanto, volatilidade com picos de demanda e recuperação nos 1º e 2º trimestres de 2015, até que haja novo equilíbrio internacional entre oferta e demanda:

- Dólar: Com fim do estímulo monetário nos Estados Unidos (de 2008 a outubro de 2014) e também alguns fatores de aversão a risco, houve a valorização do dólar contra a uma cesta de moedas. Com alta da moeda americana, importadores tendem a reduzir seu preço-alvo denominado em Dólar em suas negociações;

- Euro: A queda da cotação Euro nos últimos meses (observe o gráfico 1) foi impulsionada pela redução dos estímulos nos Estados Unidos, posteriormente pela recente livre flutuação do Franco Suíço e seguida pela medida de estímulo monetário do Banco Central Europeu, com injeção mensal de EUR 60 bilhões prevista até 2016. Com isto, a Europa (28 países membros), que domina cerca de 1/3 das exportações mundiais de lácteos, tende a ser um player mais competitivo (em Dólares) nos próximos meses. Um bom exemplo desta competitividade será visto no fechamento de uma grande licitação em fase de negociação no Norte da África. Além disto, a extinção, no próximo dia 31 de março, das quotas de produção de leite que limitaram crescimento do setor desde o ano de 1984, poderá trazer disponibilidade adicional de leite para os mercados, ainda que não seja viável neste momento a expansão da oferta;

Gráfico 1. Taxa de câmbio – Euros/Dólar

Fonte: Bacen
Período: Jan/06 a Dez/14
 
- Produção: O aumento na produção de leite foi notável em praticamente todas as regiões produtoras no mundo entre 2013 e 2014, respondendo à crescente demanda internacional. Na Oceania, o mais impressionante crescimento é verificado na Nova Zelândia com 9%. A Austrália cresceu em cerca de 2%. No Mercosul, Argentina reduziu sua produção em 4,3% enquanto o Uruguai teve crescimento um pouco abaixo de 1%. O Brasil, com um dos maiores ganhos de produção no mundo, teve aumento de mais que 7% (algumas indústrias apontam até 12% de aumento na captação). A Europa (28 países membros) teve crescimento de 4,5%, um ganho substancial para o bloco Europeu cuja produção é de 140 bilhões de litros anuais. Os Estados Unidos tiveram aumento de 2,4% na produção;

- Petróleo: A correlação entre petróleo e leite já se verificou nos últimos anos (observe no gráfico 2). Um dos aspectos desta correlação está no fato de que exportadores de petróleo são também grandes importadores de leite. Outro aspecto é a reduzida atratividade do biodiesel pela concorrência com petróleo, afetando preços de grãos para ração animal, ajudando na redução do custo de produção de leite. A queda já ocorrida do petróleo e sua manutenção aos níveis atuais podem por algum tempo manter os lácteos em baixa.

Gráfico 2. Preços internacionais do petróleo (Brent) e do leite em pó integral

Fonte: USDA e Banco Mundial
Período: Jan/05 a Dez/14

Um índice mais amplo, o Baltic Dry Index (BDI), reflete a situação geral do mercado de commodities secas como grãos, minérios e outras, transacionadas mundialmente em navios graneleiros Capesize, Panamax, Supramax e Handysize. Os fundamentos do índice não necessariamente tem correlação com o complexo leite. Mas como uma referência, no ano de 2007 e 2008 houve o boom dos preços das commodities. Em maio de 2008, pouco antes da crise econômica americana, o índice chegou a quase 12 mil pontos, baixando 94% a 663 pontos em apenas 6 a 7 meses. Ontem (29 de Janeiro), o Índice do Báltico fechou a 632 pontos, baixa de 5.11% em um único dia:


Fonte: Bloomberg
Período: 5 anos até Jan/15

Neste cenário, há ainda que considerar variações de clima que possam afetar os mercados. Mas, com bases nas variáveis acima, as esperanças de melhora ficam, por enquanto, frustradas.

No entanto, alguns fatores podem impulsionar os mercados nos próximos meses.

Em primeiro lugar, a queda de preço ao produtor ao redor do mundo deve desacelerar produção (observe a evolução recente dos preços ao produtor nos principais mercados no gráfico 3).

Gráfico 3. Preços do leite ao produtor em diferentes mercados (US$/kg)

Fonte: Diferentes fontes internacionais

Nos mercados importadores, o continente Africano que é mais sensível a preços altos, tenderia a aumentar demanda de leite em pó, queijos e manteiga a preços agora reduzidos. Na China, onde as importações já haviam atingido em meados de 2014 quase todo o volume importado de 2013, houve excesso de oferta e queda brusca nas importações, forçando queda dos preços no mercado internacional. Com isso, atualmente o produto importado passou a ser muito mais competitivo do que o produto chinês. Especula-se que a produção poderia estagnar ou mesmo decrescer em razão da atratividade do produto de fora, o que reforçaria a dependência dos lácteos importados na China. A reativação deste mercado poderá impulsionar o preços internacionais. Já a Rússia, um grande importador de leite e derivados, que demanda um terço das exportações da Europa, mantem um embargo aos produtos europeus. A expectativa de fim deste bloqueio poderá levar a aumentos significativos de preços nos próximos meses.

Da perspectiva dos exportadores de leite, a Europa, que teve queda brusca nos preços de leite em pó, proteínas, queijos e manteiga, tende a ser mais competitiva com a queda do Euro em relação a outras moedas, principalmente o Dólar. No entanto, com demanda concentrada nos próximos meses no Norte da África e em outros mercados, já se vê recuperação de preços no mercado spot. Os estoques privados atualmente tem volumes relativamente baixos em comparação ao passado, um total de 26 mil toneladas de manteiga e 17 mil toneladas de Leite em pó desnatado.

Na Estados Unidos, cuja participação no mercado mundial aumentou significativamente nos últimos anos, houve queda recente dos preços de queijo, que levou a redução dos leites crú Class III e Class IV, aprofundando a crise de preços do leite desnatado, afetando preços do leitelho e também do WPC 35. Os preços baixos já chamaram atenção de compradores e vendas volumosas foram confirmadas no México, Ásia e Oriente Médio recentemente. Preços neste mercado tiveram recuperação nos últimos dias na bolsa de Chicago e no mercado spot físico.

Na América do Sul, houve queda de produção na Argentina nos últimos meses. Lá, os preços domésticos têm estado melhores do que os demandados no mercado externo. Como a inflação no país é alta e o dólar mantém-se relativamente estável em relação ao Peso Argentino, as exportações passam a ser menos atrativas. Isto limitou maior queda de preços no Mercosul.

O Uruguai é mais dependente das exportações, mas tem tido no Brasil e Venezuela mercados para escoamento da sua produção a preços melhores do que os praticados no mercado mundial.

Já o Brasil tem uma dinâmica distinta de outros mercados. O Brasil tem um grande mercado interno e também grande produção de leite. O mercado é protegido por taxas de importação e medidas antidumping e tem um sistema de licenciamento que dificulta o fluxo das importações. A dependência de importações é relativa e sazonal. O parque industrial do setor cobre boa parte da demanda doméstica. A atratividade da importação de leite em pó, queijos e manteiga se dá em função da oportunidades de preço no mercado externo aliada à taxa de câmbio e custo de produção local. A exportações brasileiras são, em geral, pouco competitivas, dependendo da situação do mercado externo.

O forte aumento de produção no Brasil em 2014 levou à plena disponibilidade de leite no último trimestre, enfraquecendo preços de leite cru (ao produtor), e também no atacado e varejo na virada do ano. Espera-se recuperação do mercado já no mês de fevereiro, com a volta às aulas e melhora após o Carnaval.

Otávio A. C. De Farias é diretor da Alliance Commodities – Brasil
o.farias@alliance-commodities.com.br

Administrador de empresas com especialização em economia internacional e fusões e aquisições, é consultor para entidades e empresas no Brasil e exterior na cadeia de valor do leite; Trader especialista no comércio internacional de commodities lácteas desde 1997.
 


 

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Comentários

Roberto Jank Jr.

Descalvado - São Paulo - Produção de leite
postado em 06/02/2015

Ao contrário do que sugere o Otávio,  cujo ponto de vista respeito, acho que o Brasil tem resolvido sua situação de forma exemplar no contexto comercial internacional. Basta dizer que em 2014 aumentamos significativamente as exportações,  crescemos a produção em 10%, somos praticamente autossuficientes e não participamos do rallye  de preços que a NZ está enfrentando, por exemplo. Isso prova que a política comercial ajustada entre as lideranças do setor e o governo tem trazido sustentabilidade  e crescimento, ao contrário do que ocorria no final do século passado, quando viramos o penico do mundo com relação à importações. Claro que falta  a contrapartida da qualidade do leite,  mas isso não diminui as ações corretas no combate às práticas desleais de comércio e às instabilidades do pequeno comércio mundial de leite.

nelsomar pereira fonseca

Mutum - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 08/02/2015

Parabéns pêlo artigo, foi interessante as informações, principalmente sobre os nossos vizinhos, e também a esperança de reações nos preços. O maior problema que vejo em nosso país e quê para descer despenca de uma vez, quando vai subir e muito lento, os preços não acompanham na mesma velocidade. Vejam só que segundo informações somos o único país no mundo que os combustíveis está subindo, e ainda temos uma mistura maior de etanol, e sem preocupação com o consumidor, que ainda possui o carro antigo, que ainda não e flex.
Estamos na maior seca na região sudeste, sem preparação e tempo para recuperação para produção de alimentos para os rebanhos, seja fe espécies forem, mas se falando em leite, não teremos pastos suficiente, silagem, fenos, cana de açúcar, pois não tivemos chuvas em quantidade suficiente para o desenvolvimento das pastagens e culturas. Infelizmente não temos uma política para o setor, ou seja para o setor agropecuário, que venha assegurar e dar suporte para esse intempéries. Hoje temos que pagar pelos roubos desta e de outas administrações, como esta da PETROBRÁS, e outras que aida virão.
Até quando os agropecuarista, vão aguentar o prejuízo?
Abraços
Nelsomar Pereira Fonseca

Otavio A. C. de Farias

São Paulo - São Paulo - Trading & Consultoria
postado em 10/02/2015

Caro Roberto,
Agradeço seus comentários e o debate de sempre sobre o setor no Brasil.
Concordo com as medidas de proteção implantadas há cerca de 15 anos, tempos dos subsídios à exportaçao na EU e o programa DEIP nos USA. Julgo desnecessária a manutenção das mesmas medidas quem foram prorrogadas nos últimos anos, sobretudo em tempos de alta dos preços internacionais.
Como pode-se verificar nas estatísticas, o Brasil segue importador até mesmo quando preços no mercado mundial sobem.
E o Brasil segue importando também a preços mais altos quando preços no mercado externo caem. Esta realidade se dá pois os preços locais são inflacionados pelas barreiras que temos num mercado fechado (licenciamentos, quotas, etc.).
Essa inflação dos preços domésticos é que inviabilizam as exportações do Brasil de forma estrutural.
Entre 2013/2014, a competitividade do Brasil se deu com a valorização do Dólar e forte aumento de preços no mercado internacional, atingindo ou superando os US$ 5,000/ton para LPI e manteiga a US$ 4,000.
No entanto, o principal mercado a que foi destinado nosso Leite em Pó foi a Venezuela, destino este que paga premio sobre do mercado mundial, não exigindo competitividade do Brasil.
As nossas negociações para Africa e Oriente Médio, que foram bem sucedidas entre Dez 2013 até Fev 2014, logo cessaram à medida que outras origens se mostraram mais agressivas em poucos dólares a tonelada.
Há ainda acordos bilaterais que caducaram em países na Africa e Oriente Médio, impedindo nossas exportações para alguns mercados, levando a cancelamentos de volumes substanciais.
Em 2014 o Brasil cresceu praticamente todo a produção do Uruguai - aproximadamente 2 bilhões de Litros - 7,5% (fonte IBGE) de 33 bilhões de litros. As exportações tiveram aumento, mas não corresponderam nem a metade deste total.
Mais do que proteger o mercado, precisamos agora trabalhar na competitividade de nossa produção.
Mantida taxas de crescimento desta ordem, ao mercado externo teremos que alocar os excedentes.
Abraços,
Otavio A. C. de Farias

Fernando Antonio de Azevedo Reis

Itajubá - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 17/02/2015

Otávio,
Sou produtor de leite, pouco entendo de mercados, mas tentando entender sua resposta ao Roberto fiquei mais confuso, entendi que você é contra a manutenção  das medidas de proteção implantadas pelo fato dos preços internacionais estarem alto e mesmo assim houve importação, imagina então sem essas medidas de proteção, maior será a importação.
Insumos caros no Brasil dificulta produzir a um preço baixo e sempre haverá momentos onde teremos leite externo produzido em ambiente mais favorável que o nosso e seremos sempre massacrados no preço do litro de leite, bastava uma triangulação pela Argentina ou Uruguay e despencava todo o preço mesmo que fosse um pequeno volume, esse mercado é muito manipulado e especulativo.

Otavio A. C. de Farias

São Paulo - São Paulo - Trading & Consultoria
postado em 19/02/2015

Caro Fernando Antonio de Azevedo Reis,
Agradeço seu comentário e oportunidade de debater sobre o assunto.
Medidas de proteção são justificadas em determinadas circunstancias e durante certo período. A manutenção do protecionismo tem efeitos econômicos que são verificados claramente no supermercado aí perto da sua casa.
Veja o preço de queijos, leite pasteurizado e compare a países vizinho ou até mesmo nos Estados Unidos.
Para toda intervenção na dinâmica de mercado (tarifaria ou não-tarifaria), há resultados que podem positivos em algum momento (proteção antidumping), mas também prejudiciais em circunstancias normais de mercado sem estoques de intervenção, sem subsídios a exportação como temos há anos.
O sistema de barreiras no Brasil são:
1. Tarifaria para origens fora do Mercosul, além de taxa anti dumping para Europa e Nova Zelândia
- 28% imposto de importação para LPI e LPD origens extra–Mercosul
- Alem do imposto de importação, Europa tem antidumping 14.8% (total de 42,8%)
- NZ/Aus antidumping 3,9% (total de 31,9%)
2. Quotas para importação de Leite em Pó da Argentina
3. Licenças de importação para qualquer origem que pode levar 2, 3 meses ou mais.
Estes fatores geram inflação dos derivados de leite no Brasil.
Este custo então recai sobre o consumidor, que tende a consumir menos leite e derivados. Quanto mais altos os preços, menor a demanda.
Com preços altos no Brasil, vende-se menos no Brasil mas vende-se menos ou nada lá fora também, como ocorreu durante anos até fins de 2013. Eu sou exportador de leite, e posso te dizer que o trabalho desenvolvido na primeira decada dos anos 2000 foi praticamente perdido.
Temos uma combinação complicada no Brasil - Além de produtividade do setor ser menor do que os países exportadores, temos produtos caros e não competitivos para mercado externo.
O Brasil precisa investir em produtividade e na competitividade da cadeia do Leite ou seremos eternos importadores, pois preços locais estarão sempre acima dos preços de fora.
E não conseguiremos expandir no mercado mundial - somente seremos exportadores quando houver alta do dólar e alta dos preços no mercado externo. Dependeremos sempre de fatores externos, e não dos nossos fatores internos de competitividade e produtividade para amadurecer a cadeia do leite.
Abraços, Otavio

Roberto Jank Jr.

Descalvado - São Paulo - Produção de leite
postado em 20/02/2015

Otávio, humildemente discordo.
O leite no Brasil dificilmente é vendido por mais de U$ 1,00 no varejo (média) e não existe leite ao consumidor europeu, norte americano, sequer na NZ, vendido por, no minimo, 1 euro; no caso dos queijos a diferença é muito maior, ainda que sejam queijos diversos. Estranhamente esses países colocam pó de leite mais barato aqui no Brasil, anarquizam nosso mercado e essas alternativas (pó e soro em pó) ajudam inclusive na fraude.
Certamente você não vai encontrar correlação entre os preços domésticos e os valores de exportação do leite nesses países. A NZ é um ótimo exemplo: anunciou valores de U$ 5,00/kg de sólidos (R$ 1,20/ litro com 8,5% de sólidos) ao consumidor no inicio dessa temporada enquanto vendia leite em pó na GDT por U$ 2,5 mil (R$ 0,71/litro) ; veja que a conta não fecha.
O Brasil tem muitos defeitos. Mas a politica comercial internacional de lácteos não é um deles, como já foi no passado e com danos graves ao setor.
abraços,

Otavio A. C. de Farias

São Paulo - São Paulo - Trading & Consultoria
postado em 20/02/2015

Caro Roberto,
Aprecio esse debate e acho que devemos aprofundar as ideias.
As cadeias de Leite priorizam o varejo e em segundo plano vêm as commodities.
Na Europa, a prioridade da indústria é queijos, seguido de produtos de consumo como iogurtes, leites frescos e por último vêm as commodities.
Os produtos de consumo são quase sempre mais altos em relação às commodities transacionadas no mercado externo.
Isto é obvio pois há custos agregados de vendas, marketing, logística e distribuição além de custo de embalagens individuais ou de consumo familiar doméstico. Portanto, você não vai encontrar correlação entre os preços domésticos e os valores de exportação do leite nesses países, conforme você mesmo frizou.
Se formos por esta análise, as exportações serão sempre dumping, o que não acho que seja (necessariamente).
As commodities sofrem diretamente dinâmica de oferta e demanda pela pressão de escoamento de parte da indústria e pela concorrência perfeita a que estão submetidas no mercado, tanto do lado dos compradores como dos vendedores.
Assim como petróleo, minérios e grãos oscilam ao sabor do mercado, Leite em Pó, Queijos e Manteiga chegaram a oscilar 20, 30 até 50% em meses a depender de oferta, demanda, clima e câmbio.
Se houver excesso, há queda de preços e havendo falta, preços saltam.
o Leite em Pó na NZ a US$ 2,500/ton realmente não fecha a conta aqui ou NZ, Europa ou América do Norte; neste aspecto estou de acordo.
Mas há que se escoar esse volume de commodities via leilões ou força de vendas institucionais e industriais (atacado), domesticas ou internacionais.
Sem as commodities, não se alcança escala de produção para manter preços estáveis ao consumidor.
E discordando de seu argumento, Leite A B e UHT custam muitas vezes US$ 1,00 (ou bem mais) no Brasil ao consumidor.
Em SP se paga R$ 3,40 ou mais para leite A, Leite B é um pouco menos do que isto mas custa bem mais de US$ 1,00 no supermercado - é mais caro que UHT e mais barato do que Leite A.
O Leite UHT esteve barato nos últimos meses a R$ 1,50 até R$ 1,80 nas prateleiras mas já chegou a mais de US$ 1,00 o litro nos últimos anos como pode-se verificar. Os preços atualmente de Leite Pasteurizado ou UHT no exterior, que podem diferir entre regiões e cidades, são:
- USA:          USD 3,30 a 3,80/galão ou US$ 86 cents a 1,00/lt (Fresco)
- Holanda:          EUR 0,97/lt (Fresco)
- Franca:          EUR 1,10/lt (UHT) e EUR 1,20-1,31/lt (Fresco)
- Reino Unido:     GBP 1,00/lt (Fresco)
- Uruguay:          UYU 18,50/lt = US$ 0,75/lt (fresco, controlado governo), UYU 40/lt = US$ 1,63/lt
- Nova Zelandia:     NZD 2,70/lt = US$ 2,04/lt (fresco), NZD 2,09 = US$ 1,58 (UHT)
Abracos, Otavio

Roberto Jank Jr.

Descalvado - São Paulo - Produção de leite
postado em 20/02/2015

Caro Otávio, obrigado pelo debate.
Uma correção: Leia-se "produtor" ao invés de "consumidor" quando mencionei acima que  "A NZ é um ótimo exemplo: anunciou valores de U$ 5,00/kg de sólidos (R$ 1,20/ litro com 8,5% de sólidos) ao PRODUTOR no inicio dessa temporada enquanto vendia leite em pó na GDT por U$ 2,5 mil (R$ 0,71/litro) ; veja que a conta não fecha".

Otávio, seus valores do leite no exterior confirmam os meus. Já para o Brasil, estou falando exclusivamente de Longa Vida, que, se olhado pelos extremos, hoje tem leite no RS vendido a R$ 0,69 ao consumidor. Leite A é nicho; representa 0,2% da produção Brasileira, ou seja, nada. É muito menos que o % de  leite orgânico no exterior.
Já o leite B, infelizmente não existe mais; foi (erroneamente) suprimido da nova legislação.
Se considerarmos leite pasteurizado de saquinho (antigo tipo C) + longa vida, certamente o valor médio é inferior a U$ 1,00. Em outras palavras e usando sua ótica, o Brasil não é um pais de leite caro ao consumidor e o valor não é relevante para o consumo da população; especialmente quando comparado com os mercados domésticos de países exportadores.
Desta forma, continuo considerando que a entrada de leite em pó impacta negativamente na evolução da produção nacional, com reflexos malignos e de variação excessiva na oferta para o próprio consumidor.
abraços    

Fernando Antonio de Azevedo Reis

Itajubá - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 20/02/2015

Otavio,
Conceitualmente entendo que protecionismo pode trazer acomodação e perda de competividade, mas gostaria de saber os motivos destas medidas protecionistas, pois lembro que se comentava de  leite importado subsidiado na origem.
A minha impressão de produtor é que se caírem essas barreiras a pecuária leiteira no Brasil vai sofrer com as especulações como já ocorria antes, onde um pequeno volume importado era motivo para despencar o preço de leite ao produtor.
Conseguir produzir leite a um baixo custo envolve insumos baratos, gostaria de sua análise nestes aspectos, gostaria de saber não apenas o comparativo de preços das commodities  mas medicamentos  que em grande parte são as mesmas multinacionais, equipamentos,  mão de obra, produtividade.
Para abaixar o custo de produção são muitos fatores envolvidos.
Agradeço pois estou aprendendo com você e com o Roberto Jank.

Otavio A. C. de Farias

São Paulo - São Paulo - Trading & Consultoria
postado em 24/02/2015

Prezado Fernando Antonio de Azevedo Reis,
Realmente, o protecionismo traz acomodação dos setores beneficiados (protegidos), leva a inflação de preços domésticos, impacta economia de modo geral. Veja lista de paises na América do Sul e observe correlação entre abertura economica e crescimento do PIB, inflação, taxa de juros, etc. Abertura comercial significa maior bem-estar econômico, com repercussão em toda atividade econômica, não somente a cadeia do Leite.
Com relação aos insumos a que voce se refere, eu suponho que outros países estejam também sujeitos às mesmas variáveis, inclusive à valorização ou desvalorização do câmbio. Agora aqui temos o chamado Custo Brasil, com estrutura tributária caótica, burocrática, custo de capital - Esta sim nao é uma variável comum a outros paises. Mas essa é uma discussão ainda mais ampla, e demanda ação dos nossos governos e politicas tributárias, monetárias e também de investimento em infra estrutura.
Abraços, Otavio

Otavio A. C. de Farias

São Paulo - São Paulo - Trading & Consultoria
postado em 24/02/2015

Caro Fernando Antonio de Azevedo Reis,
Com relação a subsidios, favor notar que já faz anos que nao há subsidios a exportação. O mundo tem precisado cada vez menos de subsidios, pois os mercados tem demandado mais leite.... O protecionismo no Brasil tem seguido mesmo com a explosão de preços no mundo em 2007 e recentemente em 2013 e 2014.
Anteriormente, há muitos anos, o mercado internacional tinha excedentes de produção que eram mantidos em estoques de intervenção (centenas de milhares de toneladas) tanto nos Estados Unidos como na Europa. Outra forma de se escoar estes excedentes era por meio de subsidio direto ao exportador, os chamados Export Refunds oferecidos pela Comissão Europeia, dái a medida antidumping instalada no Brasil. Na Nova Zelandia nunca houve subsidios a exportação - eles são eficientes mesmo em custo, em escala de produção e integração da cadeia do produtor ao mercado mundial. Eles tem ganho de eficiencia de 20% só nos solidos do leite, ou seja - 7 litros de leite para 1 kilo de Leite em Pó Integral enquanto nós precisamos de 8,5 litros para 1 kilo de LPI.
Fica então um questionamento - Com alta dos precos no mercado mundial, há justificativa para manutencao de barreiras tarifarias (imposto de importacao), e barreiras nao tarifarias como quotas de importação e licenças de importação que levam até 3 meses para ser liberadas ? Assim, mesmo com alta do mercado mundial, o Brasil continua com preços acima do mercado mundial. E quando há baixa, o Brasil continua caro, sendo um destino para exportações de outros países. A falta de competitividade no Brasil tem sido crônica portanto. E quando houver excedentes, como ocorreu nos ultimos 6 meses, os precos aqui cairão pois nao teremos agilidade nas exportações para descomprimir o mercado doméstico. E a consequência direta é queda dos preços ao produtor.
Abraços, Otavio

Otavio A. C. de Farias

São Paulo - São Paulo - Trading & Consultoria
postado em 24/02/2015

Caro Fernando,
Ainda a proposito de nosso debate que é muito importante, sugiro ler o artigo " Porque o Brasil cresce tão pouco em relação aos outros emergentes ? " de Edmar Bacha, economista e um dos pais do Plano Real. Abracos, Otavio

Roberto Jank Jr.

Descalvado - São Paulo - Produção de leite
postado em 24/02/2015

Lembrando apenas que o Brasil apresenta um dos maiores crescimentos percentuais da produção ao ano e provavelmente é o maior do mundo em termos absolutos (aumento de litros produzidos por país/ano).
Há competência do setor para prover o mercado e, em futuro próximo, ajudar a atender a demanda mundial, visto que os países exportadores atingiram sua capacidade plena de produção e exportação. isso significa que o aumento marginal de produção nesses países tem custo mais alto do que seu custo médio.

Narciso Djedje

OUTRA - OUTRO - Moçambique - Produção de leite
postado em 09/04/2015

Ola, sou de Moçambique, e desde cedo trago comigo a paixão pela criação de gado e produção de leite. Meu interesse é conseguir uma formação básica e realizar meus sonho. Sei que não é facil nem impossível, principalmente por ter um país vizinho como a África do Sul bem desenvolvido. Infelizmente, estou num país que apesar de ser vasto com muitas terras férteis e araveis , nada está ser feito nesta área, por isso, tudo é importado. Tenho um fundo para o arranque, mas não quero fazê lo na ignorância. Se alguém poder me dar uma dica, ficarei grato. Boa sorte a todos.

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