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Trocas térmicas em bovinos leiteiros - Parte II

POR MIGUEL MACHADO

E IRAN JOSÉ OLIVEIRA DA SILVA

PRODUÇÃO

EM 20/07/2018

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Trocas térmicas com o ambiente

O calor sensível pode ser transferido do animal para o meio por três mecanismos: radiação, convecção e condução. A radiação consiste na transferência de energia térmica de um corpo para outro por meio de ondas eletromagnéticas que não podem ser vistas. A convecção é a transferência de energia térmica (calor) por meio do deslocamento de um fluido, como por exemplo o ar durante a respiração, que troca calor com o tecido do sistema respiratório, ou então, pela força dos ventos, podendo ser natural ou mecânico (com o uso de ventiladores), que ao passar pelo corpo do animal realiza troca de calor com ele. Já a condução é o mecanismo de troca térmica entre dois corpos sólidos que estão em contato físico.

A energia térmica se desloca por condução sempre do corpo mais “quente” (maior energia) para o mais “frio” (menor energia). Por isso muitos animais se deitam em superfícies frias na tentativa de se refrescar. Já a forma latente de transferência de calor se dá por meio da evaporação, tanto pelo sistema respiratório dentro dos pulmões (ofego), como pela superfície da pele (transpiração), que transfere a energia térmica (calor) para a água transpirada, transformando-a em vapor (evaporação).

Exigências térmicas dos animais

Para que os bovinos leiteiros consigam manter a temperatura corporal com a mínima mobilização dos mecanismos termorreguladores, sem prejuízos produtivos, a temperatura ambiente precisa ser mantida dentro de uma determinada faixa conhecida como de zona de termoneutralidade, onde a temperatura ambiente é considerada ideal.

Dentro dessa zona, o animal encontra-se em conforto térmico, ou seja, mantém a temperatura corporal facilmente, sem a necessidade de acionar mecanismos termorregulatórios para diminuir ou aumentar a temperatura corporal. No entanto, esta faixa de termoneutralidade varia conforme o estado fisiológico do animal, a fase de produção, idade e sexo. Porém, de forma geral as temperaturas entre 12 e 21°C são termicamente confortáveis para vacas em lactação (Tabela 1).

Quando a temperatura ambiente excede a zona termoneutra (ou zona de conforto térmico), a vaca estará sofrendo de estresse causado pelo excesso de calor. Assim, o estresse térmico muda o status fisiológico da vaca, o que consequentemente afeta a produção de leite e também a reprodução. Quando em estresse térmico, os animais reagem com mudanças fisiológicas e comportamentais e as principais medidas fisiológicas utilizadas como indicador do estresse térmico em bovinos são a frequência respiratória e a temperatura corporal.

A temperatura retal (utilizada como parâmetro da temperatura corporal) pode variar de 38,0ºC a 39,3ºC para animais leiteiros. De acordo com Berman et al. (1985) pequenos acréscimos na temperatura retal, a partir de 39ºC, são negativamente correlacionados com a produção de leite. Dentre as alterações comportamentais que se observam nos animais sob estresse térmico podem ser destacadas o aumento no consumo de água, a diminuição da ruminação e do consumo de alimento, diminuição do pastoreio diurno e aumento do pastoreio noturno, e aumento do tempo de ócio. Além disso, as vacas nessas condições de desconforto procuram constantemente por sombreamento.

Vale também ressaltar as seguintes características que identificam situações de estresse térmico em vacas leiteiras que podem ser facilmente visualizadas:

  • maior frequência de ida e permanência nos bebedouros;
  • diminuição do consumo de alimentos;
  • maior tempo em ócio;
  • menor quantidade de animais ruminando;
  • animais pastejando a noite; 
  • animais ofegantes com a língua para fora e babando;
  • constante busca e disputa por sombreamento;
  • animais aglomerados em uma área de sombra.

Soluções para o conforto térmico

Felizmente, existem algumas ferramentas já utilizadas em muitas propriedades que são capazes de amenizar os efeitos do clima quente sobre os animais. Tais ferramentas incluem:

1) Os sistemas de ventilação mecânica por meio do uso de ventiladores que promovem o deslocamento do ar no interior de instalações e melhoram a sensação térmica dos animais graças a convecção;

2) Os sistemas de resfriamento evaporativo, como a nebulização que por meio do uso da água consegue causar redução da temperatura no interior de instalações principalmente em condições de baixa umidade, além da aspersão de água sobre os animais

3) O provimento de sombra natural ou artificial (áreas cobertas com telas) suficiente para todos os animais em pastejo.

4) Assegurar ventilação natural adequada e suficiente para a renovação do ar por meio de um correto dimensionamento das instalações (pé direito alto, aberturas laterais mínimas de 1m² para cada m² de piso, impedimento da entrada de raios solares no interior, abertura na cumieira do telhado, ausência de outras instalações ou estruturas que possam bloquear a passagem dos ventos).

5) Mais recentemente tem-se sugerido também a utilização da cama refrigerada como ferramenta de transferência de calor do animal para o ambiente, por meio do uso de novos materiais.

Portanto, é interessante o conhecimento sobre os mecanismos de trocas térmicas em bovinos leiteiros e os meios que podem ser utilizados para garantir o conforto térmico aos animais de forma que estes possam expressar todo o seu potencial genético e produtivo, sem perdas de produtividade devido ao calor. As ferramentas de ventilação e resfriamento estão disponíveis aos produtores para auxiliar nesse processo e o monitoramento das variáveis ambientais e do comportamento dos animais “mostram” ao produtor se os animais estão encontrando o conforto térmico ou não, para que o sistema seja ajustado e o mais eficaz e produtivo possível.

Nessa visão, justamente quando estamos na estação mais fria do ano, que é o inverno, acreditamos que seja o momento de reavaliação das condições da exploração leiteira para que as medidas sejam tomadas visando o próximo período de altas temperaturas, que no caso do Brasil inicia-se na primavera, onde temos também o veranico (grande período com altas temperaturas e sem chuva). Esse é o momento de pensarmos no planejamento a médio prazo visando as melhorias das condições de produção e consequentemente a redução de perdas.

Confira a primeira parte deste artigo aqui > Trocas térmicas em bovinos leiteiros - Parte I

IRAN JOSÉ OLIVEIRA DA SILVA

Engenheiro Agrícola, Professor Livre-Docente ESALQ/USP. Coordenador e Pesquisador responsável pelo NUPEA - Núcleo de Pesquisas em Ambiência. Especialista em Ambiência e bem-estar de animais de produção.

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