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Substituição de proteína vegetal por nitrogênio não-protéico na dieta de ovinos

VÁRIOS AUTORES

PRODUÇÃO

EM 08/03/2010

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Com o crescimento do interesse em biocombustíveis, alguns alimentos utilizados em dietas para ruminantes, que a princípio, tinham a alimentação de não ruminantes e humana como concorrentes, atualmente, concorrem também com a indústria energética. Sabe-se que, dos ingredientes de uma ração, os protéicos são os mais onerosos e sua utilização implica em maior custo por kg de terminação em confinamento.

A substituição de uma fonte protéica vegetal, por uma com alta concentração de nitrogênio (N), como ureia de liberação lenta ou ureia, pode resultar na redução dos custos do confinamento além de minimizar os efeitos negativos da excreção de N pelos ruminantes para o meio ambiente. Isto ocorre porque a ureia tem um grande equivalente protéico e um preço inferior à proteína verdadeira, viabilizando sua utilização em sistemas de confinamento, nos quais a alimentação responde por grande parte do custo total de produção (Souza et al., 2004).

Os microrganismos ruminais são capazes de sintetizar proteína microbiana a partir de amônia e esqueleto carbônico, sendo o nitrogênio não-protéico (NNP) uma das fontes de amônia para os microrganismos. Portanto, a ureia pode atuar como fonte de NNP que tem a vantagem de geralmente apresentar custo mais baixo que uma fonte de proteína verdadeira, na mesma quantidade de nitrogênio (Oliveira JR, 2002).

Além disso, a grande vantagem dos ruminantes é a transformação de uma fonte de NNP em proteína de altíssimo valor biológico (proteína microbiana) quando comparada às fontes de proteína vegetal (Tabela 01). A proteína microbiana é equilibrada na maioria dos aminoácidos essenciais em relação à proteína do leite ou do tecido muscular (Bechielli et al., 2006).

Tabela 01 - Comparação dos perfis de aminoácidos essenciais (AAE) dos tecidos corporais e leite com os microrganismos ruminais e fontes comuns de alimentos para ruminantes.



A suplementação com NNP, além de fornecer amônia para síntese de proteína microbiana (principalmente em bactérias, mas também de maneira mais reduzida em protozoários e fungos) e ao menor custo (kg de N), apresenta outras vantagens:

1 - cria uma ação tamponante no rúmen, de modo a manter o pH em uma faixa mais adequada para a digestão da celulose;

2 - altera o hábito alimentar no sentido de refeições mais frequentes, resultando em um possível incremento na eficiência energética da dieta (Huber, 1994);

3 - diminui a excreção de resíduos nitrogenados para o meio ambiente.
A quantidade de N exigida pelos microrganismos é função da quantidade de energia disponível no rúmen, porque os protozoários e bactérias precisam de N e energia, simultaneamente, para que ocorra uma proliferação desejável (Lucci, 1997).

Em estudo realizado por Souza et al. (2004) houve substituição da proteína verdadeira da dieta por níveis crescentes de ureia (0; 0,4; 0,8 e 1,2% da matéria seca total) em cordeiros mestiços Ile de France x Corriedale confinados e não foi observado efeito nas características de desempenho e características de carcaça.

Os autores também avaliaram o custo das dietas, e verificaram redução do preço das rações, conforme foi adicionada a ureia, concluindo que a sua utilização foi uma prática viável, recomendando o nível de 1,2% de ureia na matéria seca total, tendo em vista o menor custo apresentado. Por outro lado, a suplementação protéica pode interferir no consumo de matéria seca, seja pela disponibilidade de frações nitrogenadas para a maximização da fermentação ruminal e síntese microbiana, ou pela quantidade e perfil de aminoácidos disponíveis para a absorção no intestino delgado (NRC, 1996 citado por Fernandes et al., 2009).

Neste contexto, Menezes et al. (2009) verificaram que a inclusão de até 2,0% de ureia na dieta de cordeiros aumentou o consumo de matéria seca, assim como trabalhos realizados por Zinn et al. (2003) com bovinos, que constataram um aumento no consumo de matéria seca com os teores crescentes de ureia e proteína bruta (PB) na dieta (0% de ureia e 10,5% de PB; 0,4% de ureia e 11,5% de PB; 0,8% de ureia e 12,5% de PB; 1,2% de ureia e 13,5% de PB).

Segundo Campling et al. (1960) e Russell et al. (1992), a ureia é prontamente utilizada para a síntese de proteína microbiana no rúmen e atua no crescimento das bactérias digestoras de fibra e quando utilizada em conjunto com alimentos ricos em constituintes fibrosos, mostra-se eficiente, pois "doa" grupamentos nitrogenados necessários para a síntese de proteína microbiana, estimulando o crescimento de bactérias que têm a função de degradar a parede celular.

Menezes et al. (2009) avaliaram o efeito da inclusão de níveis crescentes de ureia (0,1,2 e 3 % na matéria seca) em dietas contendo 60% de co produto de vitivinícolas desidratado e 40% de palma forrageira in natura em ovinos machos inteiros Santa Inês e verificaram que a inclusão de até 2,0% de ureia na matéria seca das dietas aumentou o consumo de matéria seca e o coeficiente de digestibilidade dos nutrientes.

Outra fonte de NNP que pode ser empregada como suplementação protéica na dieta de ovinos é a ureia de liberação lenta, a qual apresenta reduzida taxa de liberação de amônia (Van Soest, 1994).

Segundo Bartley & Deyoe (1975) complexos de liberação lenta de ureia melhoram o fornecimento de amônia no rúmen, aumentando a síntese de proteína microbiana, o consumo de matéria seca, a digestibilidade da fibra e proporcionando um maior consumo de energia pelo animal, além de reduzir problemas com toxidez.

Galina et al. (2006) estudaram o desempenho e parâmetros ruminais de cordeiros alimentados com uma dieta controle, a qual era composta por 100% de cana-de açúcar e outras duas dietas com milho ou cana-de-açúcar, ambas com 4% de ureia de liberação lenta na matéria seca. A digestibilidade, o consumo de matéria seca e o ganho de peso foram maiores para os animais alimentados com as dietas suplementadas com a ureia de liberação lenta. Segundo os autores as dietas com ureia de liberação lenta proporcionaram a elevação do pH do rúmen e adequado suprimento de NNP, aminoácidos essenciais, enxofre e fósforo as bactérias ruminais, melhorando a utilização de celulose.

Portanto, é de fundamental importância o emprego de NNP, independente da fonte, ureia ou ureia de liberação lenta em dietas de cordeiros, principalmente para o suprimento das exigências dos microrganismos ruminais. Além disto, a utilização de ureia é benéfica, sobretudo quando associada a uma fonte de proteína verdadeira, aumentando a eficiência da síntese microbiana.

Contudo, o principal fator de decisão de utilização destas fontes em substituição a proteína vegetal é o custo, pois a ureia pode ser utilizada como única fonte suplementar de nitrogênio sem efeito negativo no desempenho e com vantagens econômicas.

A associação de forrageiras com ureia e alguns subprodutos pode ser uma alternativa viável no semi-árido nordestino, onde a ovinocultura de corte é explorada.

Referências bibliográficas

BARTLEY, E.E.; DEYOE, C.W. Starea as a protein replacer for ruminants: review of 10 years of research. Feedstuffs, Minnetonka, v.47,p.42-44, 1975.

BERCHIELLI, T.T.; RODRIGUEZ, N.M.; OSÓRIO NETO, E. et al. Nutrição de ruminantes. Jaboticabal: Funep, 2006. 583p.

CAMPLING, R.G., FREER, M., BALCH, C.C. Factors affecting the voluntary intake by cows. 3. The effect of urea on voluntary intake of oat straw. The British journal of nutrition,v.19, p. 1248-1255, 1960.

FERNANDES, J.J.R; PIRES, A.V.; OLIVEIRA JR, R.C.; et al. Farelo de soja em substituição à ureia em dietas para bovinos de corte em crescimento. Ciência Animal Brasileira, v. 10, n. 2, p. 373-378, 2009.

FORERO, O.; OWENS, F.N.; LUSBY, K.S. Evaluation of slow-release urea for winter supplementation of lacting range cows. Journal of Animal Science , v. 50, p. 532-538, 1980.

GALINA, M.A; GUERRERO,M.; PUGA,C.D. Fattening Pelibuey lambs with sugar cane tops and corn complemented with or without slow intake urea supplement. Small Ruminat Research, v.70, p.101-109, 2006.

HUBER, J.T. Ureia ao nível do rúmen. In: SIMPÓSIO SOBRE NUTRIÇÃO DE BOVINOS,2; Piracicaba, 1994. Anais. Piracicaba: FEALQ, 1994, P. 1-17.

LUCCI, C.S. Nutrição e manejo de bovinos leiteiros. São Paulo: Manole, 1997.
MENEZES, D.R; ARAÚJO, G.G.L; SOCORRO, R.L. et al. Níveis de ureia em dietas contendo co-produto de vitivinícolas e palma forrageira para ovinos Santa Inês. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.61, n.3, p.662-667, 2009.

OLIVEIRA, R.C. Substituição do farelo de soja por ureia e amiréia em dietas de bovinos de corte. I. Digestibilidade dos nutrientes, balanço de nitrogênio, parâmetros ruminais e sanguíneos; II. Desempenho e III. Avaliação de indicadores de digestibilidade. 200. 196 p. Tese (Doutorado). Escola Superior de Agricultura: "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo, Piracicaba, SP, 2002.

RUSSELL, J.B., O´CONNOR,J.D., FOX, D.G. et al. A net carbohydrate and protein system for evaluating cattle diets: Ruminal fermentation. Journal of Animal Science,v.70, n.11, p.3551-3561, 1992.

SOUZA, P.P.S.; SIQUEIRA, E.R.; MAESTÁ, S.A. Ganho de peso, características de carcaça e dos demais componentes corporais de cordeiros confinados, alimentados com distintos teores de ureia. Ciência Rural, v.34, n.4, p. 1185-1190, 2004.

VAN SOEST, P.J. Nutritional ecology of the ruminant. 2.ed., Cornell University, Ithaca. 476P, 1994.

ZINN, R. A.; OWENS, F. N. Ruminal escape protein for lightweight feedlot calves. Journal of Animal Science, v. 71, n. 7, p.1677-1687, 1993.

ANGÉLICA SIMONE CRAVO PEREIRA

Médica Veterinária e Professora doutora da FMVZ-USP

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ROSANA R.P.S. CORTE

LEME - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/05/2010

Prezado Ricardo,

Tentar fixar doses ótimas ou máximas generalizadas de uréia por animal, como feito no passado, deixou de fazer sentido com o desenvolvimento dos sistemas protéicos atuais, que permitem balancear a ração em proteína degradavel no rúmen (PDR). A adequação de PDR da ração deve ser o critério determinante da dose ótima de uréia. Deve-se levar em conta também se a uréia é fornecida via concentrado, misturada ao volumoso ou a ração completa (BERCHIELLI, T.T.; RODRIGUEZ, N.M.; OSÓRIO NETO, E. et al. Nutrição de ruminantes. Jaboticabal: Funep, 2006. 583p.).
RICARDO SILVA

CATANDUVA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 26/04/2010

Rosana,

Qual é a dosagem máxima (em gramas) diária, que poderia ser fornecida de uréia para ovinos?

Obrigado.
ROSANA R.P.S. CORTE

LEME - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/04/2010

Prezados,

Normalmente redução de custos é o objetivo de muitos produtores. Já quanto a quantidade de ureia a ser aplicada em dietas com volumosos, vai depender muito da quantidade de energia da forrageira que se está utilizando, ou seja, da quantidade de carboidratos solúveis da mesma. O importante é que ocorra uma sincronização entre as taxas de degradação dos carboidratos (energia) da forrageira
com a ureia. Na literatura recomenda-se utilizar até 2% de ureia na matéria seca da dieta total (concentrado + volumoso) e 1% de ureia na matéria seca do concentrado.

Entretanto, neste link http://www.editora.ufla.br/BolExtensao/pdfBE/bol_101.pdf,vocês podem encontrar algumas dicas de associações de forrageiras com ureia e suas quantidades.
Abraços
LUIZ AUGUSTO BRANDÃO RACTZ

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/03/2010

Pessoal
Crio ovinos em Soledade/RS e estou interessado em começar a usar dietas a base de ureia pois meus animais são criados em campo nativo e a geada e o frio baixam a qualidade do pasto sendo necessário suplementar os animais com milho, soja e aveia. Se alguém tem "receitas" que posso usar no RS fico muito grato. Abraço a todos!
ROSANA R.P.S. CORTE

LEME - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 10/03/2010

Prezado Aldo,
Realmente a substituição de proteína vegetal por NNP é uma forma de reduzir os custos. Qualquer dúvida, estamos a disposição. Abraço.
ASSIS DE VASCONCELOS

SALVADOR - BAHIA - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 09/03/2010

Caros colegas,

Em nada adianta para o produtor, principalmente o pequeno, emitirmos estudos de que o NNP (ureia) é bom para os ruminantes e tem um grande papel em termos de custos no preparo de uma ração.
O que o produtor precisa é de como aplica-la em quantidades definidas para uma formulação e/ou aplicação direta sobre um volumoso. Precisamos perder o medo de errar e também fazermos um esforço para tirar do produtor o preconceito de uso constante na alimentação de seus animais. Ureia não mata quando bem utilizada dentro dos princípios técnicos.

Sds
Assis Vasconcelos
CABANHAFREIROGERIO@YAHOO.COM

LAGES - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 08/03/2010

Muito bom! É uma forma de reduzir custos visto que pretendo trabalhar com confinamento de ovinos.
Forte abraço. Aldo