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Sistemas de produção de leite ovino

POR RODRIGO MARTINS DE SOUZA EMEDIATO

E SIRLEI APARECIDA MAESTÁ

PRODUÇÃO

EM 31/10/2007

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Na ovinocultura de leite, quando se fala em sistemas de produção, deve-se ter em mente que isto significa muito mais do que apenas decidir se os animais serão confinados ou criados em pastagem ou se vai ser extensivo, intensivo ou semi-intensivo, até porque estas três últimas estão mais relacionadas ao nível tecnológico empregado na propriedade do que simplesmente ao sistema de alimentação. Mas e os cordeiros? O que fazer com eles, já que o leite é o principal objetivo da atividade?

Quando se pensa em entrar nesta atividade, antes de tudo, deve-se planejar a atividade e adequá-la à condição financeira do investidor/empresário/produtor, espaço físico da propriedade e qualidade, disponibilidade e custo da mão-de-obra.

Na Europa, maior bacia leiteira ovina do mundo, a ovinocultura é um ramo importante da economia, mas é composta basicamente por pequenos produtores, que utilizam em sua grande maioria a mão-de-obra familiar como base da força de trabalho, semelhante ao que acontece no Brasil na ovinocultura de corte. O rebanho varia de 200 a 1000 matrizes leiteiras e existem laticínios que compram o leite e o beneficia, produzindo diversos tipos de queijo.

Lá a mão-de-obra é de qualidade, mas quando um produtor precisa de ajuda para "tocar" a propriedade, ele precisa colocar tudo na ponta do lápis para ver se é uma contratação viável, pois o custo para isso é muito elevado.

Assim, muitos fatores precisam ser analisados com antecedência antes de contratar um ajudante e adotar um sistema de produção, como por exemplo:

• Qual o potencial de produção de leite das ovelhas?
• Qual a produção diária de leite da propriedade?
• O que será feito com o leite? Queijo? Iogurte? Vendido para laticínio?
• Quantas pessoas/funcionários serão necessários?
• Quanto custa o aleitamento artificial dos cordeiros?
• Qual a área disponível para produção de alimento?

Nos países onde a ovinocultura leiteira é tradicional, utilizam-se diversos sistemas de produção, mas a maioria deles é empregada em propriedades de ovinocultura de corte que aproveitam que a cadeia produtiva de leite ovino já está estruturada e consolidada e após a desmama dos cordeiros, entregam o leite de esgota das ovelhas para gerar uma renda extra. Na verdade, esta variação de sistemas, é apenas uma combinação de manejos de desmama e ordenha com diferentes períodos de duração.

Em propriedades leiteiras, são basicamente 3 sistemas empregados, os quais são ilustrados na figura abaixo.


Figura 1. Sistemas de produção de leite ovinos mais utilizados em propriedades leiteiras.

Sistema DESMAMA PRECOCE de produção de leite

Muito semelhante ao que atualmente ocorre em propriedades leiteiras de bovinos, com exceção daquelas que ordenham com o bezerro ao pé, aqui o cordeiro é desmamado com menos de uma semana de idade. Isto será determinado pela produção de colostro das ovelhas. Geralmente de 2 a 5 dias, pois o colostro é um leite mais ácido e de composição centesimal diferente muito do leite, como pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1. Composição centesimal média de colostro no 1º dia de lactação e do leite durante a lactação de ovelhas Bergamácia


Após a desmama precoce do cordeiro, as ovelhas começam a ser ordenhadas diariamente, geralmente 2 vezes ao dia, mas este número pode ser de apenas 1 ou 3 vezes ao dia. Esta decisão irá depender do potencial de produção e do tamanho do úbere das ovelhas.

Os cordeiros são então confinados, de preferência afastados do local (pasto ou confinamento) onde suas mães ficam após a ordenha e são alimentados artificialmente com sucedâneo próprio para cordeiros (o de bezerro não serve devido à proteína ser em grande parte de origem vegetal) ou leite de outra espécie (caprino, bovino, bubalino).

No sistema Desmama Precoce, as ovelhas produzem mais leite comercial, ou seja, leite que poderá ser processado em derivados ou consumido de forma fluida (pouco comum) pelo homem. O ambiente de ordenha não é um fator de estresse para as ovelhas e acontece de forma tranqüila, rápido e silenciosa e a composição centesimal do leite durante toda a lactação é normal, sem qualquer alteração.

Sistema MISTO de produção de leite

No sistema misto, apenas uma ordenha diária é realizada, geralmente pela manhã, e os cordeiros permanecem com suas mães logo após esta ordenha, sendo separados no final da tarde, ou de um período pré-estipulado, com separação definitiva somente à desmama, que geralmente varia de 30 a 60 dias.

Neste sistema não há o aleitamento artificial dos cordeiros, a própria ovelha alimenta seus filhos durante o dia, após a ordenha. À noite, eles são separados e os cordeiros têm acesso à água limpa e de qualidade, concentrado balanceado e algum tipo de volumoso.

Este sistema é muito utilizado em todo o mundo para ovinos e caprinos leiteiros com o objetivo de maximizar a produção de leite comercial e o crescimento do filhote, permitindo a ordenha e a amamentação (MCKUSICK et al., 2001).

Segundo LABUSSIÈRE (1988), no sistema misto de produção de leite ovino, durante a transição da desmama para exclusiva ordenha mecânica, observa-se queda na produção total de leite de cerca de 30%, relacionada a quatro fatores:

• menor freqüência de esvaziamento do úbere durante a transição de várias mamadas por dia para uma situação onde o úbere é esvaziado apenas 2 vezes ao dia pelas ordenhas (MARNET & MCKUSICK, 2001);
• estimulação menos efetiva da ordenhadeira nas ovelhas comparada com a presença e sucção dos cordeiros ao mamarem (MARNET & NEGRÃO, 2000);
• ambiente de ordenha como um fator de estresse, pois há uma pequena queda na liberação de oxitocina quando as ovelhas são ordenhadas em salas de ordenha comparada com a ordenha em baias (MARNET & NEGRÃO, 2000);
• vínculo mãe-filho e as conseqüentes retenções de leite devido à separação parcial durante o início da lactação, a qual permanece até poucos dias após a desmama permanente (MARNET & NEGRÃO, 2000).

O vínculo mãe-filho parece ser um forte regulador de secreção de oxitocina (MARNET & MCKUSICK, 2001). Apesar do efeito negativo de "seletividade" sobre a ejeção do leite, o sistema misto de produção mostrou benefícios econômico (MCKUSICK et al., 2001) e lactacional (HERNANDEZ et al., 1998) para a produção de leite durante a lactação.

MCKUSICK et al., (2001) avaliaram 3 sistemas de produção de leite com ovelhas da raça East Friesian, e verificaram que o sistema com desmama precoce às 24 hs após o parto (D1) apresentou produção total de leite 14% maior do que o sistema misto (MT) (260,1 vs 235,8 litros/lactação respectivamente).

Entretanto, o pico de produção do MT foi maior (2,93 l/ovelha) do que o da desmama precoce (2,81 l/ovelha), explicado pelo fato de os cordeiros esvaziarem o úbere de suas mães várias vezes ao dia, enquanto que no D1 isto acontecia apenas 2 vezes ao dia com as ordenhas. Com relação à porcentagem de gordura do leite, as ovelhas do MT apresentaram 2,80% de gordura quando ainda amamentavam, contra 4,82% do D1, e a porcentagem de gordura média na lactação de 4,53% e 5,06% para o MT e D1, respectivamente.

De acordo com MCKUSICK et al., (2001), ovelhas em sistema misto de produção de leite produzem menos leite comercial durante o período de amamentação, comparado às ovelhas em sistema de desmama precoce. Embora seja principalmente devido às diferenças de freqüência de ordenha durante o início da lactação, isto também pode ser explicado em parte, pela inibição da ejeção do leite durante a ordenha mecânica.

No sistema Misto, as ovelhas ficam agitadas durante a ordenha, com freqüentes balidos e muitas vezes "sapateando" e pulando na plataforma de ordenha, pois o ambiente da sala de ordenha torna-se um fator de estresse para elas, que querem estar com seus filhos. A ordenha é mais demorada e a composição do leite é alterada no teor de gordura, até que a desmama definitiva seja realizada.

Sistema ORDENHA TARDIA de produção de leite

Neste sistema, do parto aos 30 dias de lactação, as ovelhas não são ordenhadas e ficam sempre com seus cordeiros. Aos trinta dias de idade, os cordeiros são desmamados definitivamente e confinados quando inicia-se a ordenha. No entanto, aproximadamente 25% do total de leite de uma ovelha é produzido durante os primeiros 30 dias de lactação (RICORDEAU & DENAMUR, 1962), portanto, esperar até o 30º dia de lactação para iniciar a ordenha, pode reduzir o retorno econômico devido à menor quantidade de leite comercial produzido na lactação (GARGOURI et al., 1993).

Estudos revelaram que mais leite comercial é produzido quando as ovelhas são ordenhadas duas vezes ao dia, ou no mínimo uma vez, além da amamentação dos cordeiros durante os primeiros 30 dias de lactação, comparado com ovelhas que não são ordenhadas neste período (MCKUSICK et al., 2001).

Com relação à ordenha, não observa-se qualquer alteração de comportamento ou na composição do leite, pois o vínculo mãe-filho acaba alguns dias após a desmama.

Abaixo é apresentada uma tabela do trabalho desenvolvido pela Universidade de Wisconsin, quando comparou-se os três sistemas de produção.

Tabela 2. Médias de características de ovelhas em produção de leite (PL) em cada sistema de produção (Desmama Percoce - D1, Misto - MT, Ordenha Tardia - D30)


Como pode ser observado, a escolha do sistema de produção é muito mais importante do que decidir se as ovelhas lactantes serão confinadas ou criadas em pasto. Apesar de o sistema Misto ser muito utilizado, tem-se que lembrar que o leite ovino é praticamente todo utilizado na produção de queijos e a alteração na composição do leite pode prejudicar a qualidade do queijo processado, assim como diminuir o rendimento do processo, interferindo diretamente na rentabilidade, caso o leite não seja pago pelo teor de sólidos totais ou gordura.

Já o sistema Ordenha Tardia, não há prejuízo na qualidade do leite, mas principalmente queda da produção total na lactação.

Estes dois sistemas são muito comuns na Europa, pois como a mão-de-obra lá é muito cara, parece ser economicamente viável ter menor produção de leite ou receber menos por um leite mais pobre em gordura, do que pagar pelo aleitamento dos cordeiros. Por isso é muito importante adequarmos o sistema à nossa realidade e não importarmos o que é feito no exterior.

Será que no Brasil o custo desta mão-de-obra inviabiliza a desmama precoce?

Acredito que talvez a qualidade da mão-de-obra seja o fator mais importante, pois este aleitamento artificial precisa ser impecável na higiene e pelo menos 3 vezes ao dia durante as 3 primeiras semanas.

Acredito que este artigo gere muitas dúvidas, mas já adiantamos que o próximo artigo será dedicado ao sistema Misto, para explicar melhor os motivos de tanta alteração na composição do leite.

Bibliografia Consultada

gargouri. a., CAJA, G., SUCH, X., CASALS, R., FERRET, A., VERGARA, H., PERIS, S. Effect of suckling regime and number of milkings per day on the performance of Manchega dairy ewes. In: 5th International Symposium on Machine Milking of Small Ruminant Research. Hungarian Journal Animal Production (Suppl. 1), p.468-483, 1993.

HERNANDEZ, H., POINDRON, P., DELGADILLO, J.A., RODRIGUEZ, A.D., SERAFIN, N., MARNET, P.G. Using the flexibility of suckling behaviour in goat kids to increase milk collection in double purpose management goats. In: Proceedings 32 International Congress of ISAE, July 21-25, Clermont-Ferrand, France, p.73, 1998.

LABUSSIÈRE, J. Review of physiological and anatomical factors influencing the milking ability of ewes and the organization of milking. Livestock Production Science, v.18, p.253-274, 1988.

MAESTÁ, S.A. Desempenho produtivo, composição química e concentração de IgG do colostro e do leite de ovelhas e cordeiros de corte sob distintos níveis de proteína e energia. Tese de doutorado. Faculdade de medicina Veterinári e Zootecnia, Universidade Estadual Paulista - UNESP. Botucatu. 2003.

MARNET , P.G., NEGRÃO, J.A. The effect of a mixed-manegement system on the release of oxytocin, prolactin, and cortisol in ewe during suckling and machine milking. Reproduction Nutrition Development, v.40, p.271-281, 2000.

MARNET, P.G., MCKUSICK, B.C. Regulation of milk ejection and milkability in small ruminants. Livestock Production Science, v.70, p.125-133, 2001.

McKusick, B.C., Thomas, D.L., Berger, Y.M. Effect of weaning system on commercial milk production and lamb growth of East Friesian dairy sheep. Journal of Dairy Science, v.84, p.1660-1668, 2001.

RICORDEAL, G., DENAMUR, R. Production laitière des brebis Préalpes du Sud pendant les phases d'allaitement, de sevrage et de traite. Analles de Zootechnie, v.11, p.5-38, 1962.

RODRIGO MARTINS DE SOUZA EMEDIATO

Consultoria no planejamento da atividade, dimensionamento de instalações, pastagens, implantação de pastagens, controle de pragas, balanceamento de dietas, manejo sanitário, reprodutivo e elaboração de um plano de melhoramento genético do rebanho.

SIRLEI APARECIDA MAESTÁ

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FELIPE AUGUSTO NASCIMENTO ALVES

LAVRAS - MINAS GERAIS - ZOOTECNISTA

EM 14/04/2016

excelente artigo. bom trabalho, difícil encontrar materiais desta qualidade, muito esclarecedor.
PEDRO NOBRE

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS DE LEITE

EM 28/03/2009

Prezados Pesquisadores,

Todos os elogíos a respeito do artigo já foram feitos anteriormente, e estou de pleno acordo com todos eles, só acrescentando que o fornecimento de tais informações aos ovinocultores acarretarão em bons e proveitosos frutos, pois ajudam significativamente a sistematizar os poucos conhecimentos disponíveis na ovinocultura de leite. Aguardamos o próximo artigo sobre o sistema misto que nos parece o mais indicado para o pequeno produtor.

Saudações,
REINALDO MICAI

ITU - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/10/2008

Muito bom o trabalho, de grande importância para a aplicação prática. Avaliações científicas de bom conteúdo, que ajudarão os criadores a decidir pela forma mais produtiva em suia propriedade.
Parabens aos pesquisadores.
FERNANDO ESCOLÁSTICO DA SILVA NASCIMENTO

FEIRA DE SANTANA - BAHIA - ESTUDANTE

EM 25/11/2007

Artigo sensacional visto a pobre literatura nacional condizente ao assunto, e também à baixa prática desse tipo de produção em nosso país, o que nos coloca em uma condição de importador do leite e/ou subprodutos do leite ovino.
Parábens aos autores.
FRANCISCO LUIZ DA SILVA PONTES

LIMOEIRO DO NORTE - CEARÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/11/2007

Excelente artigo.Parabéns para os autores.