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SAG da carne ovina brasileira: resultados 2008 e perspectivas

POR DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

PRODUÇÃO

EM 23/01/2009

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1. Introdução

Nos últimos seis anos o sistema agroindustrial (SAG) da carne ovina brasileira vem sofrendo um processo de transição, partindo de um cenário estritamente rural e de forte informalidade nos seus elos centro-direitos para atender um mercado urbano que mescla exigência por qualidade, sofisticação gastronômica e estabilidade de oferta.

Embora ainda de pouca expressão econômica dentro do agronegócio brasileiro de carnes, o SAG da carne ovina tem experimentado um expressivo crescimento e desenvolvimento em todas as regiões do país, em função do fortalecimento de uma demanda crescente por produtos cárneos ovinos nas capitais e nos grandes centros urbanos do país.

Com um efetivo ovino em torno de 13,8 milhões de cabeças distribuídos em um pouco mais que 435 mil estabelecimentos pecuários, a cadeia produtiva da carne ovina (Figura 1), segundo dados da FAO, têm alcançado uma produção ao redor das 78 mil toneladas por meio do abate de 4,7 milhões de cabeças.

Figura 1. SAG da carne ovina brasileira.



2. Produção doméstica

Segundo dados dos sistemas de inspeção estadual e federal (SIE/SIF/MAPA), e de estimativas feitas pela DAS Consultoria, o volume de abates em 2008 (Gráfico 1), contabilizou uma queda de 7,8% em relação à 2007, após anos seguidos de intenso crescimento, como resultado de um menor número de animais abatidos no estado do Rio Grande do Sul - o maior produtor e fornecedor do mercado interno.

Gráfico 1. Volume anual de abates inspecionados, em mil unidades.



Dessa forma, e considerando carcaças de 16 kg, a produção doméstica formal em 2008 deve alcançar o patamar das 4,7 mil toneladas com o abate de aproximadamente 294 mil cabeças, havendo uma retração de cerca de 0,4 mil toneladas em relação à 2007.

Adicionalmente, vale ressaltar a imensa participação da clandestinidade, que está associada à uma rede de relações comerciais existente no interior do país e no meio rural, naturalmente caracterizada pela informalidade no processamento, industrialização, distribuição e comercialização dos produtos pecuários, assim como, à marcada presença do autoconsumo.

Com base no fato de que apenas 4,7 mil toneladas ou cerca de 6% do total produzido de 78 mil toneladas, são processadas sob condições de inspeção estadual e federal - sob as quais se encontra a grande maioria das plantas frigoríficas especializadas - é possível estimar que o nível de informalidade dentro da SAG da carne ovina doméstica não seja inferior a 90%.

3. Importações

O Uruguai foi a origem de não menos do que 97% de toda a carne ovina importada pelo Brasil em 2008 e apresenta um papel essencial no abastecimento do mercado interno, uma vez que, cerca de 63% do total de carne ovina formalizada consumida no país é importada.

De acordo com o Gráfico 2, o volume importado de produtos cárneos ovinos tem mantido um crescimento regular e firme desde 2004, atingindo 8,13 mil toneladas em 2008, superando em 4,3% o mesmo período de 2007, sendo estimulado também pelo déficit na oferta interna. Também é possível observar que a tendência de valorização da carne ovina importada permanece, acentuando-se cada vez mais o descolamento do valor em relação ao volume, o que resultou em cifras de aproximadamente 23,9 milhões de dólares em 2008, quase 30% superior a 2007.

Gráfico 2. Volume importado e valor de produtos cárneos ovinos em mil toneladas e em milhões de dólares.



No entanto, esse fenômeno não é apenas um reflexo da valorização da carne ovina no mercado internacional, mas também resultado da mudança da demanda brasileira em relação aos produtos cárneos ovinos importados, com uma atual participação absoluta de cortes, com e sem osso, em um percentual de 90,3% em relação ao volume total importado, como resultado de uma maior demanda por produtos de melhor qualidade direcionados para o mercado consumidor existente nos grandes centros urbanos, mais exigente e de maior poder aquisitivo.

A Tabela 1 mostra os valores médios dos produtos ovinos importados pelo Brasil durante o ano de 2008, com base na cotação média do dólar em 2008 de R$ 1,83.

Tabela 1. Valores FOB para produtos cárneos ovinos uruguaios, 2008.



Considerando o valor médio dos cortes com osso em 2008 e que os mesmos correspondem a cerca de 86,5% do volume total de produtos cárneos ovinos importados, ainda é possível constatar a alta competitividade da carne ovina uruguaia no mercado interno, onde o preço médio da carcaça de cordeiro no presente ano fechou em R$ 6,39/kg (praça Bahia).

4. Consumo doméstico

Em 2008, o consumo formal sofreu uma leve retração de 0,4% em relação ao ano anterior, em decorrência da queda na produção doméstica que foi compensada pelo aumento nas importações, mantendo o consumo na faixa das 12,8 mil toneladas, conforme o Gráfico 3.

Gráfico 3. Produção doméstica, importações e consumo doméstico, em mil toneladas.



5. Perspectivas e considerações finais

Embora crescente em alguns Estados do país, a produção doméstica formalizada em 2008 sofreu uma leve retração em relação ao ano passado, como conseqüência de um menor fornecimento de animais para abate, principalmente no Rio Grande do Sul, que acabou tamponando o aumento da produção existente em algumas outras regiões do país.

Ao mesmo tempo, as importações de produtos cárneos ovinos oriundos do Uruguai continuam a crescer, no entanto, com a crise econômica vigente e a forte desvalorização do real a partir de outubro de 2008, haverá uma redução nas margens dos importadores, porém, com os valores praticados no mercado doméstico para os produtos cárneos ovinos, as importações continuarão a ser uma boa alternativa e, essenciais para o abastecimento do mercado interno.

Como os produtores uruguaios tomam suas decisões baseados no mercado da lã, e o mesmo se apresenta em baixa ao mesmo tempo em que o preço do cordeiro se mantém em bons níveis, a tendência é de que o volume de abates se mantenha alto e que a redução do efetivo de cria continue, o que manterá a produção em níveis próximos aos atuais a curto prazo, mas podendo ter uma queda significante a partir de 2010.

Dessa forma, esse fato tende a impactar o SAG brasileiro da carne ovina a médio prazo, uma vez que o abastecimento do mercado interno poderá ficar comprometido, o que elevará os preços do cordeiro, pela tradicional limitação de oferta por parte do setor produtivo nacional associado ao aumento da demanda por parte de frigoríficos, canais de distribuição e de consumo, afetando negativamente o consumo interno tanto pela alta dos preços quanto pela menor disponibilidade de produtos.

Bibliografia consultada

EMATER-RS. Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural - Rio Grande do Sul. Sumário de Informações: assistência técnica e extensão rural, 5ed., Porto Alegre: EMATER/RS-ASCAR, 2006. 98p.

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. FAOSTAT. Disponível em: . Acesso em: 05 jan. 2009.

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Agropecuário 2006 - resultados preliminares, Rio de Janeiro: IBGE, 2007. 146p.

MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretária de Defesa Agropecuária - Serviço de Inspeção Federal. Disponível em: . Acesso em: 16 jan. 2009.

MDIC. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Comércio Exterior - ALICE Web. Disponível em: . Acesso em: 16 jan. 2009.

TAMBLER, A. Producción ovina: análisis y perspectivas. In: ANUARIO 2008, Montevideo: OPYPA-MGAP, p. 49-61, 2008.

DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

Médico Veterinário, MBA, D.Sc., especializado no sistema agroindustrial da carne ovina. Consultor da Prime ASC - Advanced Sheep Consulting.

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DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 26/02/2009

Caros Vladimir, Gustavo, Edgar e Roberis,

Todos os pontos levantados por vocês são importantissímos e cruciais para o pleno desenvolvimento da cadeia produtiva no Brasil.

Como já foi colocado, a cadeia da carne ovina no Brasil, como uma estrutura formalizada, apenas começou a se desenvolver a uns 5 anos atrás, ou seja, é muito nova. Mas apesar disso, o potencial de crescimento horizontal e vertical é imenso e eu realmente acredito na ovinocultura empresarial no Brasil.

Um outro ponto que se deve ressaltar, é que não se pode comparar ou tentar traçar paralelos entre o mercado formal e o mercado clandestino. O mercado formal e informal existe em quase todos os segmentos agropecuários e na carne ovina não é e não será diferente. É preciso separar e distinguir essas 2 realidades contrastantes, embora algumas vezes elas se defrontem. Como exemplo cito a cadeia da carne bovina, a qual também acompanho, e se estima que aproximadamente 40% da carne bovina produzida no país é de origem clandestina.

Com isso, precisamos focar nossos esforços no desenvolvimento e crescimento do mercado formalizado, aquele mercado que está vinculado aos grandes centros, com demanda crescente e consumidores exigentes por produtos de qualidade.

Mas boa parte das soluções virá com o tempo pois creio que seja também uma questão de amadurecimento da própria cadeia produtiva. E isso leva algum tempo.

Bem, finalizando, gostaria de agradecer a participação construtiva de todos e continuem interagindo.

Grande abraço,

Daniel
ROBERIS RIBEIRO DA SILVA

SALVADOR - BAHIA

EM 21/02/2009

Ola companheiros debatedores,

Antes de mais nada parabenizo o Daniel por estar sempre informando e atualizando os agentes da cadeia produtiva da ovinocaprinocultura no Brasil.

Contudo, tenho uma visão um pouco diferenciada dealguns debatedores. Sem dúvida alguma o "FRIGOMATO" ou abate clandestino é um grande desafio não só para os frigorificos de caprinos e ovinos como tambem é um caso de saúde pública e que deve ser fiscalizado pela vigilância sanitária dos municípios.

Penso que as importações de carne ovina do Mercosul, e em especial do Uruguai, no cenário atual não significa nenhum desafio, até porque o câmbio nesse momento nos favorece em relação ao preço pago ao produtor Uruguaio. E quanto aos preços pagos aos produtores brasileiros a questão ainda é muito complexa visto que, o rebanho brasileiro na sua maioria se concentra nas mãos do pequeno produtor, que possui um rebanho que não ultrapassa 70 matrizes.

Esta condição favorece a existência de intermediarios na compra e venda dessa matéria prima aos frigorificos, essa realidade é muito clara no norte e nordeste do Brasil. Penso que quando o Brasil se tornar exportador de caprinos e/ou ovinos é que teremos de fato os preços pagos alinhados aos preços do mercado internacional, em outras palavras, pagaremos aos produtores brasileiros preços compatíveis com os pagos pelos Uruguios, Australianos e a Nova Zelândia.

Cordeiros pesados e leves com um preços mais remunerador e animais capão ou velhos pela metade do preço do cordeiro.

Enquanto isto temos que melhorar a informação ao nosso consumidor final, que ainda consome caprino como ovino e vice versa.

E políticas pública que melhorem a produção deste pequeno produtor assim como reativar o sistema cooperativista nesta cadeia como forma de acelerar esse processo.

Ou então presenciar frigorificos pagando preços distorcidos da realidade, ou seja, remunerando animais de valor inferior pelo mesmo preço de animais superior e enfretando a falta de oferta no segundo semestre devido a falta de estruturação das produção.
EDGAR FUQUES

ITAPIPOCA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 20/02/2009

Parabenizamos o articulista e a FarmPoint pela oportunidade e obtenção de fonte alternativa de informações. Após estudar o mercado consumidor, optamos pela ovinocultura, notamente dos "deslanados" aqui no nordeste.

Nossa experiencia na ovinocultura remonta aos tempos de "guri", ajudando nosso pai, nas cabanhas na cidade de Uruguaiana-RS, trabalhando com os "lanados" para produção de lã.

Hoje, voltando as lides campeiras estamos pesquisando os "gargalos" existentes na cadeia produtiva vinculada a ovinocultura. Pretendemos futuramente aproveitar o espaço e publicar as possiveis soluções encontradas. No momento estamos buscando dados, visitando diversos produtores no Nordeste, pretendemos estudar o mercado Nordestino, Paiuista e Mineiro.
GUSTAVO MOLINARO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 19/02/2009

Olá Daniel.

Parabéns pelo seu artigo, o mercado precisa evoluir em todos aspectos e é muito carente de informações consistentes.

Concordo plenamente com o o Wladimir, a ovinocultura brasileira está apenas engatinhando, mas temos que aproveitar este momento para que a evolução deste mercado aconteça com alto nível de profissionalismo. Produzir cordeiros de qualidade, aumentar a quantidade de frigoríficos e criar uma sinergia na cadeia produtiva. Tem que ser a política do ganha-ganha, criar novos padrões nas negociações onde o produtor, o frigorífico, atacado e varejo sejam benefiados.

Temos um grande exemplo da pecurária bovina que focou em genética para melhorar os resultados, aperfeiçoando as raças, aumentando a precocidade e consequentemente reduzindo o tempo de abate. Deixaram de ser apenas criadores e tornaram-se produtores de carne bovina.

Precisamos nos unir, incentivar a ovinocultura brasileira, um país como o nosso com esta extensão territorial tem que ser líder mundial, senão em todos, mas na maioria dos segmentos do agronegócio.

Abraço.

Gustavo.
VLADIMIR PEREIRA FARIAS

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 13/02/2009

Caro Daniel,

A clandestinidade existe porque existem também várias lacunas na cadeia produtiva que precisam ser imediatamente preenchidas.

No seu texto está claro que nós temos um mercado consumidor interno pronto para consumir nosso produto. Tanto é que, como você mesmo narrou, 63% da carne ovina consumida no Brasil é importada.

Nossas dificuldades: 1)produzir um cordeiro que atenda às exigências deste mercado; 2)exitência de frigoríficos que paguem um preço justo aos produtores por este produto diferenciado; 3)precisamos também ter cordeiros em quantidade suficiente para abastecer os frigoríficos.

Soluções: 1)os produtores devem se unir em micro-regiões em uma espécie de associação, para custear um bom veterinário e um técnico agrícola, comprar insumos e rações em grande quantidade para conseguir melhores preços e ratear despesas com frete, trocar experiências e animais entre si, para obter um produto padronizado e montar uma escala de produção para que esta micro região tenha sempre cordeiros para fornecer ao frigorífico. 2) As prefeituras e governos estaduais também podem ajudar, dando incentivos fiscais aos produtores e frigoríficos, principalmente nesta fase inicial, onde a ovinocultura brasileira está "engatinhando", pois precisamos estimular novos investidores/produtores a entrarem na atividade, só assim teremos cordeiros em quantidade e qualidade suficientes para abastecer este imenso mercado brasileiro e, por que não, o mercado internacional.

A ovinocultura brasileira tem tudo para dar certo e ser a melhor e maior do mundo, mas para isso precisamos de empreendedores de atitude e uma politica fiscal favorável, que não pense apenas no hoje, mas sim no futuro promissor que esta atividade vislumbra.
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 12/02/2009

Caro Daniel,

Cree usted que las futuras exportaciones para el NAFTA puede influir negativamente en la oferta de carne ovina uruguaya para Brasil, ya que habría una tendencia a la concentración de las exportaciones para los mercados de la UE y NAFTA?

Muchas gracias por su participación y las valiosas informaciones.

Saludos.

Daniel
DANIEL BOUZAS

MONTEVIDEO - MONTEVIDEO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/02/2009

Amigo Daniel de Araújo.

Apenas um dado da realidade.

El gobierno de Estados Unidos de América y de México han aceptado la habilitación del ingreso de carne ovina sem osso de Uruguai en aquellos mercados.

Además en las próximas semanas comenzará una visita de auditoría del gobierno de Canadá con la misma finalidad.

Se estima que en el segundo semestre de 2009 van a comenzar las exportaciones de carne ovina sem osso de Uruguai para el mercado del NAFTA.

Esto deja muy bien conceptuada a la cadena carnica ovina de Uruguai y del MERCOSUL´, ya que depois poderia extenderse a la produçäo brasileira no futuro.

Las condiciones de producción de esta carne es muy aceptable y debemos llevarla a la excelencia con precios adecuados y accesibles.

No es fácil pero es un desafío muy interesante.
Saludos.