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Radar Sanidade: Cálculo renal ou urolitíase em pequenos ruminantes

POR SARITA BONAGURIO GALLO

PRODUÇÃO

EM 28/01/2014

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*Sarita Bonagurio Gallo é professora de Nutrição e Produção de Pequenos Ruminantes da USP – Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) - Departamento de Zootecnia. 

O uso de tecnologias na criação de ovinos e caprinos no Brasil tem crescido nos últimos anos sendo o confinamento uma delas. Alguns criadores acreditam que o seu uso evitará doenças e é pego desprevenido quando surgem animais doentes no confinamento, sendo o cálculo renal uma das enfermidades mais comentadas. Este texto busca esclarecer algumas dúvidas sobre essa doença, começando por sua definição, quais as categorias mais problemáticas, sintomas, tratamento e prevenção.

Como definição o cálculo renal ou urolítiase é uma doença que tem como característica a formação de cálculos urinários, orgânicos ou inorgânicos, compostos por fosfato de amônio de cálcio ou magnésio ou de outros materiais como oxalato. A formação dos cálculos pode ser metabólica ou ainda uma predisposição genética da raça ou animal.

Existem vários tipos de cálculos. Os cálculos formados dependem do tipo de alimentação recebida, por exemplo: em condições de pasto seco, onde a pastagem ou alguns tipos de fenos constituem a dieta básica, cálculos de silicato podem ser formados. Dietas ricas em cálcio produzem cálculo de calcita. O cálculo mais comum em animais em engorda com dietas ricas em concentrado com composição mineral erroneamente balanceado, com altos teores de fósforo e baixo em cálcio, irá formar os cálculos de fosfato podendo ser de cálcio, magnésio e de amônio.

Os cálculos podem ter uma superfície lisa ou áspera; podem ser sólidos, macios ou friáveis. Podem ter várias cores como branco, acizentados, amarelados ou marrons, dependendo da sua composição. Ainda podem ter diferentes tamanhos, sendo que os cálculos pequenos podem ser eliminados na urina, mas tipicamente os cálculos causam obstrução urinaria.

A categoria animal com maior predisposição a doença são os animais em engorda, mas também pode acometer animais adultos em reprodução. Pode ocorrer tanto em machos como em fêmeas, mas é muito mais comum nos machos devido as diferenças anatômicas e hormonais. Uma vez os cálculos formados, normalmente são eliminados sem dificuldade pelas fêmeas, pois a uretra é ampla e curta. Já os machos possuem uma uretra muito estreita e o trajeto para o exterior é muito longo e tortuoso. Além disso, o diâmetro no arco isquiático, flexura sigmoide e no processo uretral complicam mais ainda, pior ainda nos bodes e carneiros. A castração de machos jovens retira a influencia hormonal necessária para o desenvolvimento do pênis e uretra, complicando ainda mais o problema, pois toda a região fica ainda mais estreita. Por isso se for castrar e depois engordar, fazer isso de preferencia após os seis meses de idade.

Os principais sintomas da doença iniciam-se (Figura 1) com desconforto abdominal e cólica, tentativas frequentes de micção seguidas por movimentos de cauda. Antes da oclusão completa, a urina pode gotejar pela uretra, o animal começa a se isolar, recusa-se a beber ou comer. Com o avanço da doença a região fica distendida (Figura 2), a coloração da pele fica vermelha, febril (Figura 3), a obstrução pode causar ruptura da uretra ou bexiga seguida da morte do animal. Todos esses eventos podem levar de 3 a 7 dias.

Em caso de ruptura uretral os tecidos envoltos estarão hemorrágicos e necróticos (Figura 4). No caso de rupturas na bexiga a urina se espalha no abdômen (Figura 5).

Figura 1. Micção normal com um livre fluxo contínuo de urina. O gotejamento de urina é altamente suspeito de obstrução uretral. Fonte: http://www.nadis.org.uk/bulletins/ram-diseases-pre-and-post-sale.aspx



Figura 2. Inchaço do prepúcio e da região do abdomem em um cordeiro do confinamento, primeiros sintomas. Fonte: http://www.flockandherd.net.au/sheep/reader/urolithiasis%20diet.html



Figura 3. Inchaço do prepúcio e da região do abdomem em um cordeiro com tonalidade avermelhada. Fonte: http://www.nadis.org.uk/bulletins/ram-diseases-pre-and-post-sale.aspx


Figuras 4. Hemorragia da uretra de um cordeiro com cálculo renal. Fonte: http://www.flockandherd.net.au/sheep/reader/urolithiasis%20diet.html




Figura 5. Distensão da bexiga urinária e pelve renal de um cordeiro. Fonte: http://www.flockandherd.net.au/sheep/reader/urolithiasis%20diet.html


O tratamento com medicamentos ou outra intervenção só é viável se for diagnosticado no estagio inicial. A consulta ao um médico veterinário é sempre necessária. O tratamento cirúrgico só é recomendado para animais cujo valor comercial se justifique. Caso o animal esteja próximo da época do abate e não haja ruptura de bexiga ou perfuração da uretra é melhor optar pelo abate.

Importante na fase inicial é a interrupção do fornecimento do concentrado e o fornecimento de volumoso grosseiro, muita água limpa, fresca e de fácil acesso. A consulta a um zootecnista para a formulação adequada da dieta se faz necessária.

Como a nutrição pode influenciar e como o nutricionista deve agir?

A incidência é maior quando a dieta é rica em grãos e esta balanceada com uma proporção mais ou menos de 1:1 de cálcio e fósforo. A melhor forma de prevenir a doença é oferecer dietas bem balanceadas, água limpa, fornecimento adequado de vitamina A (pois há evidências que a sua deficiência predispõe os animais a doença).

O pH da urina influencia a produção de urólitos ou cálculos; urólitos de fosfato e de carbonato se formam mais prontamente em urina alcalina do que em urina ácida (a urina de ruminantes adultos é alcalina, com pH entre 7 e 9). No entanto, em alguns casos, cálculos de oxalatos são formados em pH ácidos.

É importante manter uma relação cálcio:fósforo da dieta acima de 1,5:1; o teor de magnésio da dieta deve ser mantido baixo, em alimentos concentrados utilizar até 3% de sal na sua composição (acredita-se que isso tenha mais um efeito iônico do que indutor de diurese). Tais dietas, ricas em concentrados, só devem ser usadas quando o fornecimento de água for à vontade e de qualidade. A adição de acidificados da urina ao alimento, como cloreto de amônia ou ácido fosfórico também podem ser útil.

Lembrando que alimentos como milho, farelo de soja, farelo de algodão, aveia, trigo, dentre outros, possuem um teor maior de fósforo e baixos teores de cálcio. Já alimentos como feno de gramíneas, cana-de-açúcar, polpa cítrica, dentre outros, possuem maiores teores de cálcio e menores de fósforo.

Referências bibliográficas:

ANDREWS, A.H.; BLOWEY, R.W.; BLOYD, H.; EDDY, R.G. Medicina bovina: doenças e criações de bovinos. Editora Roca, 2° Edição.1067p., 2008.

FRASER, C.M, et al. Manual Merck de Veterinária. Editora Roca, 7° Edição. 1997.

McGAVIN, M.D.; ZACHARY, J.F. Bases da patologia em veterinária. Editora Elsevier, 4° Edição, 1476 p., 2009.
 

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SARITA BONAGURIO GALLO

Professora de Pequenos Ruminantes, FZEA/USP

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LUIZA AMBRÓSIO

EM 15/07/2019

Um texto importante e de ótimo conteúdo sobre o cálculo renal (nefrite). Recentemente também escrevi sobre o mesmo assunto, caso tenha interesse em saber mais: www.drentrega.com.br/.../nefrite-saiba-todos-os-detalhes-dessa-doenca-inflamatoria
WASHINGTON SANTOS

EM 18/04/2018

Muito boa sua dica,parabens
THIAGO CAMPOS

BOFETE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 25/01/2015

Ola  Sarita estou com problemas de calculo no confinamento,a racao e total e ja vai proporcional o sal branco 1% e nucleo de boa marca 1,5% sera q se eu colocar sal nos saleiro das baias vai aumentar o problema . E sera q pode ser por conta do tamanho da fibra que eu uso como volumoso que é palha de trigo e palha de soja?

Fazenda 3 Rios Bofete proprietario Wilson Sega .
SARITA BONAGURIO GALLO

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 13/02/2014

Oi Marcelo, obrigada pela dica, e realmente quando esta no inicio se tirar a causa que é o desbalanço de Ca: P (na maioria das vezes) o animal pode se recuperar porque os cálculos são pouco e pequenos.

Mas obrigada pela dica.

MARCELO GOMES

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL

EM 13/02/2014

Parabens pela matéria Sarita,

tambem tive problemas com urolitiase em cordeiros de 3 - 4 meses.Estavam em campo nativo e comento ração comercial duas vezes ao dia.Detectei o problema quando ainda os cordeiros conseguiam urinar com dificuldade, (apenas gotejamento).Consegui reverter o problema usando sal-amoniaco (0,25 g/Kg PV) por via oral, e troquei a marca da ração.

ABÇ a todos, qq duvida estou a diposição.
SARITA BONAGURIO GALLO

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/02/2014

Oi Bruno, que bom que ajudou. Não existe um produto comercial que evite o problema, o que existe são produtos que ajudam na formulação das dietas. Mas o que realmente resolve é trabalhar com a relação correta de Ca : P.

Obrigada.

SARITA BONAGURIO GALLO

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/02/2014

Oi Marcos, pode ocorrer sim, principalmente por formação de oxalato. O ideal é bebedouro por perto, com água limpa, fácil acesso e a vontade. De preferencia não castrar os machos que forem abatidos antes da puberdade da raça.

Obrigada.

BRUNO DE BARROS RIBEIRO DE OLIVEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 03/02/2014

Prezada Sarita, boa tarde.

Agradeço pelas informações.

Acredito que o problema seja devido a proporção do milho x pellet. Atualmente, usamos 85% milho e 15% pellet. No nosso proximo confinamento, farei conforme recomendado.

Quanto aos outros detalhes, já realizamos conforme sugerido acima.

Não existe nenhum produto comercial preventivo que eu possa usar?

Parabéns novamente e agraço por sua atenção.
MARCOS CAETANO

SOBRADINHO - DISTRITO FEDERAL - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 03/02/2014

Parabéns pela matéria. Tenho a certeza que nos ajudará para obtenção de um manejo adequado.

Gostaria de saber se para os casos de alimentação a pasto verde se existe grande probabilidade de ocorrência de tal enfermidade. grato pelas orientações.
SARITA BONAGURIO GALLO

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/01/2014

Oi Luciano

Muito obrigada e fico a disposição para esclarecer qualquer dúvida.
SARITA BONAGURIO GALLO

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/01/2014

Oi Junior, que bom que os animais sobreviveram pois esta doença tem alto índice de mortalidade.



SARITA BONAGURIO GALLO

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/01/2014

Oi Bruno, primeiro queria agradecer pela participação.

Em dietas sem volumoso o pellet normalmente já vem formulado para evitar esses tipos de problemas metabólicos, mas mesmo assim pode reduzir os problemas com algumas medidas simples:

1°) Se o grão que você esta  usando é o milho, evitar de usar em quantidades acima de 80% da dieta. O milho é muito rico em fósforo e fica difícil manter a proporção de Ca:P adequada quando nessas dietas o milho entra na proporção de 85% ou 90%.

2°) Água de fácil acesso aos animais.

3°) Fornecer a dieta total do dia parcelada em duas ou três ofertas, isso ajuda a diminuir a seleção que os animais fazem. Passar mexendo no cocho para que o pellet e o grão não fiquem tão fácil do animal selecionar.

Importante lembrar que existe uma predisposição genética de alguns animais a terem cálculo renal e não castrar os machos que vão para o confinamento e serão abatidos antes da puberdade.

Espero ter ajudado e fico a disposição para qualquer esclarecimento.

LUCIANO FERREIRA DOS SANTOS

MIRANTE - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/01/2014

   Parabéns pela matéria, com certeza será de muito valia para nosso dia a dia.
JUNIOR

FEIRA DE SANTANA - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE CORTE

EM 28/01/2014

Já tive dois casos parecidos, os animais ficaram bem debilitados, chegando a cair toda a parte inferior do abdomen com a uretra, ficou muito feio, mas sobreviveram.
BRUNO DE BARROS RIBEIRO DE OLIVEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 28/01/2014

Prezada Sarita, boa tarde.

Primeiro, gostaria de parabeniza-la sobre o excelente artigo.

As informações chegaram em um momento bem propicio, pois realizamos diversos confinamentos, com dieta de alto grão, e sempre deparamos com animais apresentando o sintoma de urolitiase, chegando alguns até a morte.

Portanto, como nossa dieta não possui volumoso e nem sal mineral, existe um meio de remediarmos estes acontecimentos?

Informo que são casos esporádicos, em torno de 1 a 3% do lote total.

Espero que sua experiência me ajude a sanar este problema.

Fico no aguardo de seu retorno.

Agradeço por sua atenção.

Att.,

Bruno de Barros