FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO

Quanto de carne produz um cordeiro? Parte V

POR MARIA ANGELA FERNANDES

E CARINA BARROS

PRODUÇÃO

EM 28/04/2010

1
0
Esse texto faz parte de uma série de artigos que têm como objetivo discutir os fatores que podem interferir nos rendimentos de carcaça de ovinos. Nos textos anteriores, discutimos a importância do rendimento de carcaça (Quanto de carne produz um cordeiro - Parte I); os efeitos do peso e da idade de abate (Quanto de carne produz um cordeiro - Parte II); do sexo (macho e fêmea) e da castração (Quanto de carne produz um cordeiro - Parte III) e do sistema de terminação (Quanto de carne produz um cordeiro - Parte IV) sobre os rendimentos de carcaça. Nessa quinta parte iremos discutir como a qualidade (quantidade de energia, proteína bruta e fibra) do alimento pode afetar os rendimentos de carcaça dos ovinos.

Em primeiro lugar, é importante que todos conheçam alguns termos técnicos que serão utilizados ao longo desse e do próximo artigo:

Alimentos concentrados: são aqueles que possuem menos de 18% de fibra bruta (FB) na matéria seca (MS). São alimentos ricos em energia e/ou proteína.

* concentrados protéicos têm mais de 20% de proteína bruta (PB) na MS, exemplos: farelos de soja, de amendoim, de algodão, etc.

* concentrados energéticos têm menos de 20% de PB na MS, exemplos: milho, sorgo, farelo de arroz e de trigo, etc.

Alimentos volumosos: são aqueles que possuem mais de 18% de FB na MS. Exemplos: forrageiras verdes, silagens, fenos, pré-secados, palhas, entre outros.

Conversão alimentar (CA): é a capacidade do animal converter o alimento em uma unidade de produto animal. Ou seja, quantos kg de alimento o animal deverá comer para ganhar 1 kg de peso vivo. Portanto, quanto maior o valor da CA pior é o desempenho do animal (mais ele deve comer para ganhar peso).

CA= consumo de alimento (kg)/ ganho de peso (kg)


Digestibilidade: normalmente é expressa em porcentagem e significa a quantidade de alimento consumida, que não foi eliminado pelas fezes e, consequentemente, foi utilizada pelo animal para suprir as funções de manutenção, produção e reprodução. Ou seja, quanto do alimento ingerido será digerido e aproveitado pelo animal.

Ração: é a quantidade total de alimento (volumoso + concentrado) consumido por um animal em um período de 24 horas. Cuidado para não confundir esse termo com concentrado.

A formulação de rações balanceadas para ovinos deve ter como objetivo principal o fornecimento de quantidades adequadas de nutrientes (energia, proteína, fibra, vitaminas, minerais) resultando, assim, num melhor desempenho e produtividade dos animais, qualidade da carcaça e carne.

Efeito do nível de fibra na dieta

A fibra é uma fonte de carboidratos utilizada pelos microrganismos do rúmen e tem sido usada para caracterizar alimentos (volumosos e concentrados) e para estabelecer limites máximos de ingredientes nas rações (Van Soest, 1994). É importante salientar que a fibra é um componente essencial na dieta dos ruminantes pois os ácidos graxos voláteis produzidos durante a sua fermentação ruminal são as principais fontes de energia para o animal (Mertens, 2001). No entanto, não existe um valor de concentração ideal de fibra para a otimização do consumo de energia pelos ovinos e que não limite o consumo de alimento pelo animal.

A concentração de fibra na dieta de ruminantes tem sido considerada como um dos fatores envolvidos na regulação do consumo em função de sua lenta degradação e baixa taxa de passagem pelo trato gastrintestinal. Alguns estudos têm mostrado que a ingestão de alimentos com alto teor de fibra detergente neutra (FDN), como os volumosos, podem ter sua ingestão restringida pela ocupação de espaço do trato gastrintestinal, limitando, com isso, a expressão do máximo potencial genético do animal para produção (Carvalho, 2002).

Por outro lado, quando se utilizam rações com baixa proporção de FDN e alto teor de energia (alimentos concentrados), a demanda energética do animal pode ser suprida em níveis menores de ingestão (Mertens, 1983). No entanto, os ruminantes requerem um mínimo de fibra efetiva na dieta para manter a função normal do rúmen e evitar a ocorrência de distúrbios metabólicos como acidose e timpanismo, que podem comprometer o desenvolvimento e até ocasionar a morte do animal.

A fibra insolúvel em detergente neutro (FDN) representa a fração de carboidratos estruturais dos alimentos (parede celular) e tem sido relacionada à regulação da ingestão de alimentos, digestibilidade, taxa de passagem e atividade mastigatória dos ruminantes. Na figura abaixo podemos observar o efeito do aumento do teor de fibra na dieta de cordeiros não castrados, mestiços Ile de France X Texel, desmamados aos 42 dias de idade e terminados em confinamento. Os animais foram abatidos com peso médio de 31 kg (Cardoso, 2005).

Figura 1 - Efeito do nível de fibra detergente neutro (FDN) da dieta sobre o ganho médio diário (GMD), a idade de abate (IA), o rendimento de carcaça quente (RCQ%), o rendimento de carcaça fria (RCF%) e o percentual de gordura na carcaça de cordeiros desmamados.



Observe que houve redução no desempenho dos animais, nos rendimentos de carcaça e na deposição de gordura com o aumento do percentual de fibra na dieta dos cordeiros. O aumento do teor de fibra também foi acompanhado pela diminuição da eficiência de utilização do alimento ingerido pelos animais (aumento da conversão alimentar: 3,04; 3,13; 3,28 e 4,21; respectivamente). Essa redução no rendimento de carcaça pode ser explicada pelo efeito depressivo causado pelo aumento de FDN na dieta sobre a velocidade de passagem do alimento pelo trato gastrintestinal, o que fez com que os animais alimentados com maior teor de fibra (37% e 43% de FDN) tivessem maior quantidade de alimento no trato digestivo no momento de abate.

A utilização do nível adequado de FDN na ração deve ter como objetivo a máxima produção, utilizando-se o máximo de volumoso sem, entretanto, provocar restrição na ingestão alimentar pelo efeito do enchimento do trato gastrintestinal, com consequente comprometimento do desempenho e elevação do tempo necessário para atingir o peso de abate. Não se esqueça que a fibra é muito importante para manutenção do rúmen, desempenho e saúde do animal!

Efeito do nível de proteína da dieta

Entre os componentes da dieta dos ruminantes, a proteína bruta deve receber especial atenção devido seu elevado custo. Além disso, a suplementação com níveis adequados de proteína na dieta tem influência direta no desenvolvimento, no consumo de matéria seca, na conversão alimentar, no ganho de peso e nas características da carcaça dos animais.

A quantidade e a qualidade da proteína na dieta podem modificar o consumo da dieta pelos ruminantes. Redução no teor de proteína bruta (PB) da ração para níveis abaixo de 12%, ou na disponibilidade de nitrogênio não protéico (ureia), poderá reduzir a digestão da fibra e, consequentemente, restringir o consumo (Roseler et al., 1993).

Na tabela abaixo são apresentados os efeitos de quatro níveis de proteína bruta (12, 16, 20 e 24%) sobre o desempenho e as características da carcaça de cordeiros mestiços (½ Texel + ¼ Bergamácia + ¼ Corriedale), com média de 5 meses de idade, confinados durante 57 dias (Zundt et al., 2002).

Tabela 1 - Efeito do nível de proteína da dieta sobre o desempenho de cordeiros mestiços.



Observe na tabela acima que houve melhoria na conversão alimentar e no ganho de peso dos animais que receberam as dietas com os maiores níveis de proteína. No entanto, não foi observado efeito do aumento no teor de PB% na dieta sobre as características da carcaça dos cordeiros.

O efeito do teor de proteína na dieta dos ovinos sobre o consumo, o desempenho e as características da carcaça dos animais pode ser observado com maior clareza nas dietas com níveis muito baixos de proteína (menos de 12% de PB). Isto porque a restrição de proteína degradável na dieta limita a atividade microbiana, afetando assim, a ingestão de alimento e a digestibilidade dos nutrientes.

Efeito no nível de energia na dieta

Dentre os nutrientes a serem supridos, a energia deve receber atenção especial por ser de fundamental importância para o funcionamento dos órgãos vitais, para a atividade e renovação das células. A energia é um dos constituintes mais limitantes na produção de ovinos, pois atrasa principalmente o ganho em peso, com consequente aumento na idade de abate, além de resultar em menor resistência as endoparasitoses (verminoses). No entanto, devemos tomar muito cuidado porque o excesso de energia na dieta pode aumentar muito a deposição de gordura na carcaça.

A recomendação nutricional do National Research Council - NRC (1985) para cordeiros com potencial de crescimento moderado (250 g/dia), pesando entre 10 a 30 kg (média de 20 kg) é de cerca de 17% de PB e 2,8 Mcal EM (energia metabolizável). Na figura abaixo podemos observar a influência de três níveis de energia (2,23; 2,54 e 2,85 Mcal de EM/kg de MS) na alimentação de cordeiros inteiros, mestiços Texel, abatidos aos 32 kg de PV (Piola Junior et al., 2009). Observe que o último tratamento contém o nível de energia estipulado pelo NRC (1985). Já os tratamentos com 2,23 e 2,54 Mcal corresponderam, respectivamente, a 78 e 89% das recomendações do NRC (1985).

Figura 2 - Efeito do nível de energia metabolizável sobre o ganho médio diário (GMD), o número de dias em confinamento, o rendimento de carcaça quente (RCQ%) e o rendimento de carcaça fria (RCF%) de cordeiros confinados.



Clique na imagem para ampliá-la.

Observe na figura acima que os níveis energéticos mais elevados proporcionaram maiores ganhos diários e consequentemente, diminuição no tempo de confinamento. Essa redução na idade de abate é muito interessante do ponto de vista econômico, pela enorme redução no tempo de alimentação. Também houve acréscimo nos rendimentos de carcaça quente e fria.

Apesar do aumento observado no ganho de peso com a elevação do teor de energia da dieta, os mesmos foram inferiores ao estabelecido pelo NRC (1985). Segundo os autores, este resultado demonstra que as indicações de ganho de peso das tabelas de exigências nutricionais internacionais nem sempre podem ser alcançadas em nossas condições devido a influência de vários fatores (diferenças de potencial genético dos animais, nas dietas utilizadas, temperatura, umidade relativa do ar, luminosidade, entre outros).

Considerações Finais

Como observarmos ao longo desse texto, a qualidade da dieta está diretamente relacionada com os índices produtivos (ganho médio diário, idade de abate, conversão alimentar, rendimento de carcaça, deposição de gordura, etc.) e consequentemente com a eficiência econômica da criação. Lembre-se que a alimentação é um dos itens responsáveis pelos maiores custos de produção na ovinocultura. Por isso, é fundamental conhecer as características do alimento que irá utilizar (composição química: MS%; PB% NDT%; FDN%; FDA%; Ca; P; etc.) com o objetivo de obter uma dieta nutricionalmente equilibrada, que atenda as exigências de cada categoria e permita a exploração da máxima da capacidade digestiva dos animais para alcançar o potencial genético da raça. A principal forma de alcançar estes objetivos é ajustar a quantidade e qualidade da dieta baseando-se nas exigências nutricionais dos animais.

No próximo artigo iremos discutir como o uso de alimentos volumosos e/ou concentrados podem afetar os rendimentos de carcaça dos ovinos.

Referências bibliográficas

CARDOSO, A.R. Níveis de fibra em detergente neutro na dieta de cordeiros confinados na fase de terminação. 2005. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Zootecnia) - Universidade Federal de Santa Maria,.Santa Maria, RS, 2005.

CARVALHO, S. Desempenho e comportamento ingestivo de cabras em lactação alimentadas com dietas contendo diferentes níveis de fibra. 2002. Tese (Doutorado em Zootecnia) - Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG, 2002.

MERTENS, D. R. 1983. Using neutral detergent fiber to formulate dairy rations and estimate the net energy content of forages. Page 60 in Proceedings... Cornell Nutr, Conf. Feed Manuf., Syracuse, NY. Cornell Univ., Ithaca, NY.

MERTENS, D.R. Physical effective NDF and its use in formulating dairy rations. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL EM BOVINOS DE LEITE, 2., 2001, Lavras. Anais... Lavras:UFLA-FAEPE, 2001. p.25-36.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL - NRC. Nutrient Requirements of Sheep. 6. ed. Washington: National Academy Press, 1985.

PIOLA JÚNIOR, W.; RIBEIRO, E.L.A; MIZUBUTI, I.Y.; et al. Ganho de peso e características da carcaça de cordeiros recebendo diferentes níveis de energia na ração. Revista Semina: Ciências Agrárias, Londrina, v. 30, n. 4, p. 935-944, 2009.

ROSELER, D.K.; FERGUSON, J.D.; SNIFFEN, C.J. et al. Dietary protein degradability effects on plasma and milk urea nitrogen and milk nonprotein nitrogen in Holstein cows. Journal of Dairy Science, v.76, n.2, p.525-534, 1993.

VAN SOEST, P.J. Nutritional Ecology of the Ruminant. Comstock Publ. Assoc. Ithaca, 1994. 476 p.

ZUNDT, M.; MACEDO, F.A.F.; MARTINS, E.N.; et al. Desempenho de cordeiros alimentados com diferentes níveis protéicos. R. Bras. Zootec. [online]. 2002, vol.31, n.3, pp. 1307-1314.

MARIA ANGELA FERNANDES

Médica Veterinária pela UFPR
Doutoranda do Programa de Ciências Veterinárias da UFPR
Integrante do LAPOC - Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos da UFPR

CARINA BARROS

Médica veterinária
Mestre em Ciências Veterinárias UFPR
Doutora em Nutrição e Produção Animal FMVZ-USP
Pós-doutorado FMVZ-USP
Atuação na avaliação econômica e modelagem

1

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

MARITA VIDAL

ARAPARI - PARÁ - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 28/04/2010

Ótimo o artigo Maria Angela e Carina. Gostaria que vocês falassem um pouco sobre FDA também. Normalmente nos artigos, se fala muito de FDN e pouco de FDA. Qual é a relação dele com o enchimento e as outras coisas que você citou no artigo? Muito obrigado!