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Qualidade de Peles e Couros Ovinos

POR MANUEL ANTONIO CHAGAS JACINTO

E ENEAS REIS LEITE

PRODUÇÃO

EM 28/07/2006

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O rebanho ovino tem sofrido alterações no efetivo ao longo dos anos. No período de 1990 a 1996, o rebanho ovino lanado decresceu no Rio Grande do Sul por causa da perda de competitividade da lã, comparada aos baixos custos de produção do fio sintético (Figura 1).

No mesmo período, as peles decorrentes dos abates aumentaram de 4,8 para 5,3 milhões. Após aparente estabilização entre 1996 e 2003, no patamar de 4,2 a 4,4 milhões de peles anuais, nos anos de 2004 e 2005 foram disponibilizados aproximadamente 4,7 milhões de peles, apesar dos estoques continuarem estáveis entre 14 e 15 milhões de cabeças.


Figura 1: Efetivo do rebanho ovino brasileiro e disponibilidade de peles anuais (FAO, 2006).

O rebanho ovino brasileiro ocupa a décima nona colocação no cenário dos maiores produtores mundiais (FAO, 2006), condição modesta que permitiu exportar em 2005 cerca de 500.000 couros, 10,6% do total produzido (4,7 milhões), com um resultado de US$ 7,617,029 (Tabela 1). Números aquém do desejável, uma vez que os grandes centros de consumo do país apresentaram forte demanda de carne ovina, fato condicionante das freqüentes importações. Em 2005, o Brasil importou 2.980.000 Kg de carne ovina (FAO, 2006).

Tabela 1: Exportações brasileiras de peles e couros em 2005.


Fonte: SECEX 2006.

A pele ainda é considerada um subproduto da exploração pecuária e, como tal, relegada à condição secundária da produção animal, porém, seu valor é representativo quando comparado com o valor de venda da carcaça do animal, que pode ser contabilizada como lucro se for de boa qualidade extrínseca e intrínseca.

A qualidade extrínseca da pele é determinada durante o período em que o animal permanece na propriedade rural e naquele que se estende do abate à conservação. Nos dois períodos, as peles estão sujeitas às ocorrências que definirão sua qualidade e seu preço no mercado. Portanto, o empresário rural e o abatedor têm grande influência na qualidade das peles e, conseqüentemente, na qualidade dos couros, após o curtimento.

Os empresários de curtimento, por intermédio do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), preocupados com a baixa qualidade das peles, matéria-prima para suas indústrias, desenvolveram até 2005 o Programa Brasileiro da Qualidade do Couro, com o apoio da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (SEBRAE/MDIC).

O Módulo III do Programa (Caprinos e Ovinos) teve o propósito de divulgar informações em cartilhas, folhinhas, vídeos e CDs sobre medidas de melhoria da qualidade das peles para os compartimentos da cadeia produtiva: para os produtores, a importância das boas práticas de manejo dos animais; para a indústria de abate, as técnicas de insensibilização, sangria e esfola; e para as cooperativas ou entrepostos de compra, a conservação e o armazenamento de peles.

Freqüentemente, as peles são avaliadas pelas cooperativas ou pelos entrepostos, que as compram do produtor e vendem para a indústria responsável pela transformação em couro. O valor arbitrado pelo comprador está diretamente relacionado com a qualidade extrínseca, cuja avaliação é visual.

Estudos sobre o genoma funcional de bovinos mostram que será possível a identificação do seqüenciamento de genes relacionados com a resistência a parasitos e, em conseqüência, a qualidade das peles. Contudo, os animais continuarão sob a influência do manejo do sistema de produção adotado, e as peles, dos processos industriais, nos quais poderão adquirir defeitos. Assim, mesmo que as peles tenham um ganho de qualidade por meio de aperfeiçoamento genético animal, as ações de conscientização dos atores da cadeia produtiva serão necessárias.

Um aspecto importante, valorizado pelos curtumes, é a espessura da pele. Para eles, as peles dos animais adultos são mais adequadas à industrialização por serem mais espessas. Outro aspecto relevante é a relação entre a densidade de fibras colágenas e a densidade folicular da pele. Essas diversidades são inversamente proporcionais, ou seja, quanto maior a densidade de folículos primários portadores de fibras (lã ou pêlo), menor a densidade de fibras de colágeno (Jacinto, 2005a).

Associadas aos folículos primários portadores de lã ou pêlo existem estruturas acessórias, como glândulas sebáceas e sudoríparas, que, com o músculo eretor do pêlo, são denominadas de "unidade do folículo piloso". Portanto, quanto maior o número de folículos pilosos primários, maior será o espaço necessário para abrigar as glândulas, diminuindo, dessa forma, o espaço para conter feixes de fibras de colágeno e, conseqüentemente, a resistência da pele e do couro (Jacinto, 2005b).

A camada termostática da derme abriga, além das glândulas, os folículos pilosos, os músculos eretores dos pêlos e o sistema circulatório e sensorial. As espessuras das camadas termostática e reticular, que compõem a derme, variam entre as raças. Nos ovinos produtores de lã fina e nos de dupla aptidão (carne e lã), a relação é de aproximadamente 2/3; já nos ovinos com pêlo, é de cerca de 1/2. Menor espessura da camada reticular significa menor resistência mecânica. Por isso, é importante que os cruzamentos visando aumentar a eficiência dos sistemas produtivos considerem as interações genéticas, pois estas determinam a qualidade intrínseca das peles.

A produção de couros compreende o período que se estende da pré-industrialização, passando pelo armazenamento das peles, até o final do processo de curtimento nas indústrias.

A qualidade do couro, definida durante o curtimento, é avaliada por testes destrutivos que evidenciam a resistência físico-mecânica das amostras retiradas de diferentes regiões e posições (direções). A qualidade é determinada por comparação com especificações estabelecidas em metodologias aceitas internacionalmente.

A qualidade intrínseca dos couros ovinos depende dos aspectos microestruturais das peles, e estes dependem das interações genéticas, idade, nutrição, entre outros fatores, e das etapas mecânicas e químicas pelas quais as peles passam durante o processo de curtimento.

Um couro de boa qualidade intrínseca pode ter baixo valor no mercado se o número ou os tipos de defeitos das peles (qualidade extrínseca), adquiridos durante a criação do animal, forem suficientemente altos que cheguem a comprometer o aspecto visual do produto final. Portanto, é fundamental que a qualidade seja tratada de forma sistêmica, com procedimentos que garantam ganhos progressivos na cadeia produtiva, do empresário rural ao empresário industrial.

Referências Bibliográficas

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. FAOStat data, 2006. Disponível em: . Acesso em: jun. 2006.

JACINTO, Manuel Antonio Chagas; LEITE, Eneas Reis; COSTA, Roberto Germano. Produção de peles e couros caprinos e ovinos. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 42. 2005. Goiânia: SBZ, 2005a.

JACINTO, Manuel Antonio Chagas; SILVA SOBRINHO, Américo Garcia da; COSTA, Roberto Germano; LEÓN, J M. Características fisicomecánicas del cuero de ovinos lanados y de pelo tras el processo de curtido. Ovis, Madrid, n. 97, p. 29-36, 2005b.

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ARTHUR YAMAMOTO

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 02/09/2008

O artigo é excelente, mas convém lembrar que o produtor não é remunerado pela pele. Esse sub-produto é apropriado inicialmente pelo intermediário que efetua o abate (o "marchante", o abatedouro municipal ou o frigorífico, raramente o produtor), e a pele prossegue por "n" intermediários, até chegar ao curtume.

Ou seja, não há estímulo nenhum para que o produtor invista na qualidade da pele (evitar danos mecânicos por cercas de arame farpado ou espinhos, por exemplo) já que ele não é recompensado por esse cuidado adicional na hora de vender o animal vivo.
E atualmente, mesmo o "marchante" não está vendo muita vantagem em cuidar do processo de esfola (da qualidade da pele, portanto), pois o mercado está pagando (no Nordeste) algo em torno de 5 a 8 reais a peça, quando há quatro anos atrás chegou a pagar 15 reais.

Além disso, a importação de peles de países africanos e do Oriente Médio, de melhor qualidade e preços mais acessíveis, esvaziam o interesse pelos programas de incentivo à melhoria da qualidade do produto nacional.
CRISTINA DE MELLO

TAPERA - RIO GRANDE DO SUL

EM 31/07/2006

Ótimo tema do artigo apresentado. É preciso lembrar também que a produção de fios de lã de ovelha é uma alternativa lucrativa para o mercado de artesanato, visto que o trabalho artesanal agrega valor ao produto fabricado e comercializado pelo produtor rural.