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Planejando a estação de monta em ovinos (parte 2)

POR JORDANA ANDRIOLI SALGADO

E STHEFANY KAMILE DOS SANTOS

PRODUÇÃO

EM 14/05/2019

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A seleção dos reprodutores, conforme apresentado na parte 1 deste artigo, é essencial para se atingir o sucesso reprodutivo no rebanho. Mas, também é possível associar algumas estratégias de manejo que ajudam a melhorar a eficiência da monta, gerando maiores taxas de concepção e prolificidade, além de maior controle zootécnico.

Época da monta

É importante lembrar que os ovinos são poliéstricos estacionais de fotoperíodo negativo, isto é, ciclam quando as horas de luz do dia diminuem (geralmente no final do verão para o início do outono).

Segundo Sá e Sá (2006), a estacionalidade é mais evidente quanto mais distante da linha do equador estiver a criação, sendo que, nas fêmeas, a estacionalidade reprodutiva é mais perceptível do que nos machos. Algumas raças apresentam mais acentuada essa estacionalidade, principalmente as lanadas, dependendo muito dessa época para a manifestação do cio. No Brasil, animais deslanados, como por exemplo, os da raça Santa Inês, praticamente apresentam cios ao longo de todo o ano, desde que apresentem adequadas condições nutricionais.

Quanto mais próximo da época do ciclo estral das ovelhas, melhor será o sucesso nas taxas de concepção, não deixando de considerar os vários fatores que envolvem a reprodução animal. Sendo assim, quando não se induz o cio nos animais, por meio de protocolos hormonais, planejar e controlar a monta nesta época reprodutiva favorável é fundamental para se obter uma boa taxa de nascimento de cordeiros.

Estratégias para otimizar a monta:

Efeito flushing

A nutrição afeta todos os eventos do ciclo reprodutivo, tanto no macho quanto na fêmea, sendo que nas ovelhas, a taxa de ovulação é muito sensível às condições nutricionais (Barbosa, 2007). Uma estratégia nutricional para favorecer o aumento da taxa de ovulação em ovelhas, resultando em maior número de partos gemelares é o “flushing”.

A técnica do flushing (ou também chamado de “peso dinâmico”) consiste no fornecimento de um maior aporte nutricional para as ovelhas por um período de aproximadamente 2-4 semanas antes e após a estação de monta. O flusinhg melhora a condição corporal das ovelhas e, consequentemente, aumenta as taxas de ovulação e de concepção. Além disso, o incremento nutricional após a monta contribui para reduzir a reabsorção fetal no início da gestação, além de aumentar o índice de partos gemelares.

As melhores respostas ao flushing são vistas em ovelhas com balanço energético negativo (ingestão menor do que o gasto) e com escore de condição corporal (ECC) mais baixos a moderados. Dessa forma, se por algum motivo não foi possível atingir o ECC ideal para início da monta (3,0 - 3,5), o uso do flushing pode trazer melhores condições de reprodução para estes animais.

Para a realização do flushing é necessário que a dieta esteja balanceada por um profissional, dentro dos requerimentos nutricionais da categoria animal. De forma geral, pode-se incrementar a dieta com ração balanceada na medida de 200 a 250g/ovelha/dia. Ou ainda, pode-se alocar esses animais em pastos de melhor qualidade nutricional. O importante é melhorar significativamente a dieta das ovelhas que irão para monta.

No caso de raças estacionais, que ciclam em determinada época, o flushing é eficiente para aumentar as taxas de ovulação, desde que aplicado no período reprodutivo desses animais. Mas também, mesmo em animais submetidos a protocolos hormonais o flushing pode ser satisfatório, auxiliando no ganho de peso e aumento do ECC (Gottardi et al., 2014).

É importante lembrar que esta técnica deve ser bem empregada, pois tanto a subnutrição quanto a supernutrição contribuem para as perdas reprodutivas. Assim, o flushing não deve ser continuado por períodos longos, pois além de reduzir os benefícios do “efeito dinâmico” da suplementação em curto prazo, gera custos desnecessários ao sistema.

Tosquia

A lã, apesar de ter um papel importante na regulação térmica do ovino, quando em excesso e com a presença de sujidades, pode ocasionar desconforto ao animal, principalmente em regiões quentes. A tosquia favorece a maior regulação térmica, reduzindo o estresse pelo calor e melhorando o bem-estar dos animais, fazendo com que permaneçam por mais tempo em pastejo. Além disso, a tosquia previne o acúmulo de sujidades em épocas importantes, como no pós-parto, evitando miíases (bicheiras).

Em animais que entrarão em estação de monta, além de gerar renda na propriedade pela comercialização da lã, a tosquia pode ser utilizada como uma estratégia para indução do cio (Flushing natural). Esse efeito ocorre, pois estimula o consumo de alimento no período pós-tosquia, contribuindo para o maior aporte nutricional dos animais, o que, como já mencionado, favorece o aumento da ovulação, interferindo positivamente na reprodução.

Sendo assim, o produtor poderá utilizar a tosquia por mais ou menos 15 dias antes da monta, obtendo um efeito similar ao “flushing”. Adicionalmente, este manejo pode ser associado a outras técnicas reprodutivas para potencializar seu efeito, tal qual suplementação alimentar (o flushing, propriamente dito) e ao efeito macho.

Efeito macho

O efeito macho é um mecanismo natural de indução e sincronização de cio nas ovelhas. Este método consiste na introdução do carneiro no lote de fêmeas que estavam sem contato nenhum com os machos por certo tempo. Como para uma estação de monta o reprodutor já vai estar separado do rebanho, esta é uma estratégia bastante simples de ser utilizada.

Este efeito só é perceptível quando o isolamento das ovelhas é total, não permitindo que elas escutem ou sintam o cheiro dos carneiros. Assim, recomenda-se uma distância mínima de 1 km entre as fêmeas e o reprodutor, ou o mais longe possível. Quando o carneiro é reintroduzido no lote, por meio de estímulos hormonais (ferormônios), visuais, olfativos e do contato físico com o macho, o estro das ovelhas é estimulado, permitindo sua cobertura de maneira concentrada (com poucos dias de intervalo entre as matrizes).

O período que o reprodutor deve ficar separado das ovelhas ainda é incerto nos estudos. Mas, um tempo entre 30 a 60 dias parece ser suficiente para induzir o efeito macho nas fêmeas. Esta técnica, em regiões onde os animais são mais estacionais (longe dos trópicos), pode ser utilizada no período de transição (a partir de novembro/ dezembro), quando as ovelhas ainda estão voltando a ciclar. Nessa situação, o efeito macho funciona como um acelerador, induzindo o estro, e fazendo com que as ovelhas retornem mais rapidamente para a fase reprodutiva.

Atenção especial deve ser dada à relação macho:fêmea utilizada quando se aplica o efeito macho no rebanho. Como as ovelhas tendem a apresentar o cio em um período muito próximo entre elas, um menor número de ovelhas por carneiro (aproximadamente 20:1) pode ser necessário para garantir que o reprodutor possa realizar a monta em todas as fêmeas.

Relação macho: fêmea

O número de machos em relação ao de fêmeas depende de vários fatores relacionados à saúde do reprodutor e à sua aptidão sexual. Além disso, o sistema de produção no qual os animais estão inseridos, assim como a topografia do terreno, pode interferir na facilidade de monta.

Carneiros em ótimo estado de saúde e fertilidade, em sistemas de produção com terrenos planos, conseguem cobrir cerca de 50 ovelhas. Esse número é reduzido para 20-30 ovelhas no caso de reprodutores jovens (machos ou fêmeas), em terrenos com relevo, ou quando se deseja um melhor efeito macho na indução de cio.

Identificação de animais cobertos

É importante se ter um controle zootécnico da monta para que a habilidade dos reprodutores seja atestada. Ou seja, quantas ovelhas o macho cobriu? Das ovelhas que ele cobriu, quantas emprenharam? Nas condições da fazenda, o número de ovelhas foi adequado para o carneiro? Essas informações irão direcionar para a seleção de carneiros e matrizes no rebanho.

Algumas ferramentas simples podem facilitar essa organização. Uma delas é o uso de uma tinta marcadora no peito do macho, que pode ser o pigmento em pó (tipo xadrez) misturado em óleo ou graxa, o colete marcador para reprodutores – buçal peitoral, ou o bastão marcador de cera para animais (Figura 1).

Figura 1. Opções de tintura para marcação e controle da monta (da esquerda para a direita): bastão marcador de cera para animais; pigmento em pó + óleo; e colete marcador (buçal) com carimbos de cera.

estação de monta em ovinos

Fazendo isso ao soltar o carneiro com as matrizes (Figura 2 e 3), é possível anotar diariamente os animais que foram cobertos, visualizando as ovelhas com a garupa marcada (Figura 4).

Figura 2. Reprodutor com o peito pintado utilizando a mistura do pigmento em pó com óleo.

estação de monta em ovinos

Figura 3. Reprodutor utilizando o colete marcador (buçal).

estação de monta em ovinos

Figura 4. Matrizes com a garupa marcada pelo reprodutor, indicando que foram cobertas.

estação de monta em ovinos

Recomenda-se a cada 15 dias trocar a cor da tinta do peito do carneiro (de uma cor mais clara para uma cor mais escura). Neste sistema, é possível determinar quais animais apresentaram cio já no início da estação de monta e também mensurar o número de serviços do carneiro para concepção e a taxa de retorno ao cio, ou seja, quantas vezes a ovelha precisou ser coberta para emprenhar.

Também, essa ferramenta pode ser utilizada para o rufião identificar a fêmea no cio e diminuir o desgaste do reprodutor. Logo, apenas a fêmea que foi marcada pelo rufião poderá ser colocada junto ao reprodutor, que deverá ter uma tinta de cor diferente.

A simples anotação do dia em que as ovelhas foram cobertas permite saber com maior precisão qual é a provável data de parto (cerca de 150 dias a partir da cobertura) e ter maior controle da parição. Como eventualmente nem todas as ovelhas cobertas ficam prenhes, dos animais marcados, pode-se lançar mão da ferramenta de ultrassonografia, já nas 3 semanas após a monta. Com o diagnóstico de gestação, é possível formar um lote de ovelhas prenhes para um manejo mais adequado a essa categoria, além de determinar a taxa de concepção, que seria a porcentagem de ovelhas gestantes em relação ao total de ovelhas que foram cobertas.

Considerações gerais

Os tópicos aqui discutidos apresentaram medidas simples, mas importantes, que podem aumentar o sucesso reprodutivo dos animais. São práticas de manejo fáceis e de baixo custo para serem implementadas, mas que favorecem uma maior produtividade e controle do rebanho.

Outras ferramentas adicionais, envolvendo biotecnologias da reprodução (indução de cio, inseminação artificial, transferência de embriões…) também podem ser empregadas por produtores que desejam investir em maior nível de tecnologia na produção. De qualquer forma, para que sejam alcançadas boas taxas na reprodução do rebanho, os carneiros e matrizes devem ser selecionados previamente.

Referências bibliográficas:

ALIYARI, D., et al. Effect of body condition score, live weight and age on reproductive performance of Afshari ewes. Asian J. Anim. Vet. Adv, v. 7, n. 9, p. 904-909, 2012.

BARBOSA, D. A. Flushing: como aumentar o índice de prolificidade no meu rebanho? Milkpoint, 2007.

GOTTARDI, F. P., et al. Efeito do flushing sobre o desempenho reprodutivo de ovelhas Morada Nova e Santa Inês submetidas à inseminação artificial em tempo fixo. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.66, n.2, p.329-338, 2014.

SÁ, C.O., SÁ, J.L. Estacionalidade reprodutiva em ovinos. Milkpoint, 2006.

SHAD, F. I., et al. Flushing in ewes for higher fecundity and fertility. Livestock international, v. 15, n. 2, p. 10-1, 2011.

VATANKHAH, M., et al. Relationship between ewe body condition score (BCS) at mating and reproductive and productive traits in Lori-Bakhtiari sheep. Small Ruminant Research, v. 106, n. 2-3, p. 105-109, 2012.

 

JORDANA ANDRIOLI SALGADO

Médica Veterinária (UFPR).
Mestre em Ciências Veterinárias (UFPR/LAPOC).
Doutora em Biociências e Biotecnologia (UENF).
Pós doutoranda em Ciência Animal (PUCPR)
Consultora em ovino/caprinocultura e doenças parasitárias.

STHEFANY KAMILE DOS SANTOS

Médica Veterinária formada pela Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO. Mestre em Ciências Veterinárias - UNICENTRO. Doutoranda em Ciência Animal na PUCPR. Atua com ênfase nos temas relacionados a sanidade e produção de ovinos de corte.

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