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Pesquisas com fitoterápicos para o controle da verminose

POR ANA CAROLINA DE SOUZA CHAGAS

PRODUÇÃO

EM 15/05/2007

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Introdução

De uma forma geral, os parasitas de animais de produção desenvolveram forte resistência aos antiparasitários hoje disponíveis comercialmente. No estado de São Paulo é comum propriedades que vermifugam 100% do rebanho ovino a cada 30 ou 60 dias e a alternância de princípios ativos é feita de forma indiscriminada.

Infelizmente, é desta maneira que muitos criadores têm percebido que é necessário que se encontre ferramentas adequadas para o manejo da relação parasita-hospedeiro, de forma que não ocorram prejuízos na produção animal. O controle da verminose é visto de forma isolada e muitas vezes a alimentação, a idade e o estado fisiológico dos animais não são considerados fatores importantes no manejo sanitário.

O clima do nosso país possibilita condições muito boas de sobrevivência e reprodução dos estágios de vida livre dos vermes ou nematóides gastrintestinais, durante praticamente todas as estações do ano. Os ovos e larvas presentes nas pastagem se apresentam bastante resistentes à dessecação pelos raios solares, mesmo durante a estação seca, e os estágios parasitários, ou seja, aqueles presentes no hospedeiro como os vermes adultos, desenvolvem resistência contínua a cada princípio ativo utilizado.

É importante que os técnicos envolvidos com o manejo sanitário do rebanho compreendam que a possibilidade de erradicação dos vermes de pequenos ruminantes é extremamente remota. Na tentativa de reduzir ao máximo o problema da verminose em uma propriedade, os parasitas têm sido expostos rotineiramente ao contato com os vermífugos, que acabam por ter um período de vida útil bastante reduzido.

Diante da ineficácia constantemente observada no uso dos produtos comerciais para o controle de parasitas, muitas pesquisas têm sido realizadas na tentativa de se encontrar atividade antiparasitária em extratos vegetais. Este tipo de estudo sempre gera muita expectativa, pois há vários anos não se desenvolve um novo princípio ativo com este objetivo na indústria farmacêutica.

Antiparasitários originados de plantas tendem a ter baixa toxicidade aos mamíferos, rápida degradação e desenvolvimento lento da resistência. Tais características fazem com que o desenvolvimento de fitoterápicos ou fitofármacos (substâncias ativas isoladas de extratos vegetais), que possam ser aplicados à parasitologia veterinária, permita o controle de parasitas de uma maneira menos agressiva ao meio ambiente, minimizando também o problema de resíduos das drogas veterinárias e seus metabólitos nos produtos animais como carne, leite e seus derivados.

Pesquisas com fitoterápicos para controle parasitário

No Brasil, os estudos com fitoterápicos para controle de nematóides gastrintestinais se iniciaram principalmente no final da década de 90 e especialmente no Nordeste, onde além da criação de pequenos ruminantes ser tradicional, a cultura regional preserva e utiliza os conhecimentos da medicina popular.

A necessidade fez com que os estudos para avaliação de extratos vegetais sobre parasitas aumentassem de maneira notória nos últimos anos. Entretanto, também é importante destacar que muitos desses estudos têm sido executados em condições inadequadas de experimentação e análise, consideradas importantes para a validação científica.

A constatação de tal fato tem gerado discussões importantes entre os especialistas. As próprias revistas científicas têm analisado e exigido informações importantes, tais como o uso de metodologias padronizadas, existência de grupos controle e análises estatísticas adequadas.

Em parasitologia veterinária, os experimentos que buscam a avaliação de plantas e seus extratos, devem seguir várias etapas para que ocorra a validação científica: identificação da planta, avaliação da ação dos extratos vegetais em testes laboratoriais (Figura 1, A e B), estudo fitoquímico das frações que foram ativas sobre o parasita, testes toxicológicos em cobaias e avaliação dos extratos quanto ao seu efeito tóxico e antiparasitário na espécie alvo como em ovinos e caprinos.



Figura 1. A: Placa contendo ovos de nematóides gastrintestinais imersos em fitoterápicos sendo visualizada em microscópio invertido no Laboratório de Sanidade Animal da Embrapa Pecuária Sudeste; B: Contagem da número de ovos (seta branca) e larvas (seta verde) para cálculo da eficácia do extrato vegetal quanto à inibição da eclodibilidade das larvas.

O estudo fitoquímico é importante no sentido de se identificar e quantificar as substâncias presentes no extrato vegetal, já que pode ocorrer variação de acordo com a estação do ano em que ocorreu a coleta, parte da planta utilizada, etc. Desta forma, pode-se saber qual é o bioativo responsável pela ação antiparasitária, seu possível modo de ação e farmacocinética, estimar a quantidade mínima para se conseguir níveis eficazes de controle, verificar possibilidades de produção sintética e fornecer informações básicas para controle de qualidade da matéria-prima.

Os testes toxicológicos detectam a ocorrência de efeitos indesejados dos extratos vegetais nos animais, observando a reação 24 h após a administração (toxicidade aguda) e após a administração de doses repetidas (toxicidade sub-crônica e crônica).

As principais plantas investigadas no Brasil quanto à sua ação anti-helmíntica em caprinos e ovinos são: Allium sativum (Alho), Annona squamosa (Fruta-do-conde), Aster lanceolatus (Margarida-de-são-miguel), Axonopus purpusii (Capim-rola), Azadirachta indica (Neem), Camomilla recutita (Camomila), Canavalia brasiliensis (Feijão-bravo-do-Ceará), Carica papaya (Mamão), Cereus jamacaru (Mandacaru), Chenopodium ambrosioides (Mastruço), Citharexylum myrianthum (Pinhoreta), Cratylia floribunda (gramínea), Croton sp. (Velame), Cucurbita spp. (Abóbora), Cymbopogon citratus (Capim-santo), Dicksonia sellowiana (Xaxim), Digitaria insularis (Capim-açu), Discolobium pulchellum (Cortiça do brejo), Dioclea spp. (gramíneas), Dorstenia brasiliensis (Carapiá), Erythrina velutina (Mulungu), Eucalyptus spp. (Eucaliptos), Eugenia uniflora (Pitanga), Genipa americana (Jenipapo), Hymenaea spp. (Jatobás), Hyptis crenata (Hortelãzinha do campo), Jathropha curcas (Pinhão-branco), Lippia sidoides (Alecrim-pimenta), Lippia alba (Erva-cidreira), Lobelia hasleri, Luffa operculata (Bucha-paulista), Mangifera indica (Manga), Melia azedarach (Lírio ou Cinamomo), Melochia villosa (Coraçãozinho), Mentha sp. (Hortelã), Momordica charantia (Melão-de-são-caetano), Musa spp. (Bananeiras), Ocimum gratissimum (Alfavaca-cravo), Operculina sp. (Batata-de-purga), Oryza latifolia (Capim-arroz), Ottonia martiana (Anestésica), Pavonia angustifolia (Roseira do brejo), Petiveria alliacea (Guiné), Polygonum acuminatum (Fumo-bravo), Psidium araça (Araçá), Pterocaulon interruptum, Punica granatum (Romã), Sabicea aspera (Cipó), Senna aculeata (Maria-mole), Siparuna guianenses (Pau de rato), Smallanthus sonchifolius (Yacon), Spigelia anthelmia (Erva lombrigueira), Trichilia pallida (Pitombeira), Tynnantus fasciculatus (Cipó-cravo) e Vernonia scabra (Assa-peixe).

Os trabalhos realizados em laboratório com ovos e larvas de helmintos muitas vezes apresentam resultados bastante animadores. Entretanto, na maioria das vezes, ocorre perda de parte da eficácia da planta ou do extrato quando estes são avaliados no animal. Várias plantas foram adicionadas na ração de ovinos e caprinos ou seus extratos foram administrados via oral para os animais como o alho, cinamomo, neem, melão-de-são-caetano e fruta do conde.

Na prática, entretanto, não observou-se redução significativa do OPG (número de ovos por grama de fezes) ou do número de vermes adultos contados no sistema digestivo em necropsia, especialmente para Haemonchus contortus, considerado o nematóide gastrintestinal de maior importância na ovinocaprinocultura.

Vários experimentos realizados com Azadirachta indica ou Neem têm indicado que o consumo da folha pelos animais não tem nenhum efeito sobre os vermes, já que a Azadirachtina A, substância considerada ativa sobre os parasitas, está presente em quantidades mínimas nas folhas, podendo também estar ausente. Em experimentos laboratoriais realizados com extratos aquosos das folhas verdes e secas de Neem, detectou-se boa eficácia em concentrações muito elevadas, que na prática são inviáveis de serem administradas aos animais (Tab. 1).

Tabela 1: Eficácia (%) de extratos aquosos de folhas verdes e secas de Neem sobre ovos e larvas de nematódeos gastrintestinais de caprinos, em cinco diferentes concentrações (ppm).


Em outros países como na África, muitas plantas regionais são fornecidas para ingestão direta pelos animais objetivando o controle anti-helmíntico. Isto ocorre principalmente devido à falta de recursos financeiros de muitos criadores para obtenção de vermífugos comerciais.

Entretanto, a variação em termos de princípio ativo que pode ocorrer no material vegetal, o risco de toxicidade para o animal, associados à queda da ação anti-helmíntica quando a planta ou seu extrato passam pelo trato gastrintestinal dos animais, indica que a fitoterapia pode ser melhor utilizada.

Os extratos vegetais têm potencial para serem explorados de outras formas, pois devido à diversidade dos tipos estruturais, constituem uma fonte rica de compostos que podem ser associados a outras substâncias em formulações e também obtendo-se produtos resultantes de modificações estruturais.

Conclusão

Equipes multidisciplinares têm se formado para a realização das pesquisas em fitoterapia. Esforços maiores devem ser investidos em trabalhos com diferentes formulações. Assim, novas tecnologias poderão ser pesquisadas na tentativa de se conseguir sucesso não somente nos testes laboratoriais, mas também no controle parasitário a campo.

Problemas com a absorção pelo trato gastrintestinal e com a solubilidade em água, são os principais obstáculos no desenvolvimento de formulações fitoterápicas com boa biodisponibilidade e eficácia anti-helmíntica. Entretanto, muito se tem avançado nesta área e espera-se em breve obter bons resultados a campo com formulações que tenham substâncias vegetais ativas em sua composição.

ANA CAROLINA DE SOUZA CHAGAS

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LUIZ ANTONIO CARRERI JUNIOR

SIDROLÂNDIA - MATO GROSSO DO SUL - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 08/02/2008

Olá. olha, sobre ovinos, não sei comentar, mas em cães e bezerros e porco, a semente de abóbora, semente de mamão e ou aquele pinhãozinho roxo, nossa, derruba todos os vermes, e o animal em poucos dias se torna irreconhecível, de tanto que engorda.
At
Luiz
PEDRO ALBERTO CARNEIRO MENDES

FORTALEZA - CEARÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/09/2007

Cara Ana Carolina

Li com atenção sua matéria e a considerei por demais oportuna, pois demonstra o quanto é errado e perigoso a administração dessas plantas simplesmente "por ouvir dizer que sua ação e bastante eficiente". No Ceará ja se planta o Neem com o intuito de controlar a verminose em ovinos e caprinos.