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Perfil dos países exportadores de carne ovina - Parte II de V

PRODUÇÃO

EM 24/08/2010

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Este artigo faz parte do Estudo de Mercado Externo de Produtos e Derivados da Ovinocaprinocultura da editora Méritos. Este trabalho foi viabilizado pela Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) do Sistema Agroindustrial, cuja gestão cabe ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC.

Sua execução foi possível graças à celebração de convênio entre a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (ARCO) e o MDIC. Elaborado a partir de proposta da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Caprinos e Ovinos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) - representa sinergia entre as ações das Câmaras Setoriais do MAPA e a PDP do Sistema Agroindustrial do MDIC. O estudo está disponível para download nos sites: www.mdic.gov.br, www.arcoovinos.com.br, www.agricultura.gov.br, www.conab.gov.br, www.cnpc.embrapa.br

A primeira parte, publicada no dia 02/08 no FarmPoint, é referente ao capítulo Perfil dos Países Exportadores - Nova Zelândia. Esse segunda parte é referente ao mesmo capítulo, porém, o desfecho é sobre a Austrália.

Austrália

A Austrália tem características diferentes em relação à Nova Zelândia, mas também é exportador importante de carne bovina, carne ovina e de lã, além de ser o principal exportador de carne caprina, apesar de seu rebanho desta espécie não ser grande. É uma característica fundamental da Austrália a existência de extensas áreas áridas e semiáridas. A lã tem importância crucial para o país, que é responsável por 30% da produção mundial e têm sua qualidade de fibra reconhecida pela indústria em todos os países.

Setor primário

As propriedades australianas, em sua maioria, produzem carne ovina como subproduto da lã, da qual a Austrália é o 2º maior produtor mundial. São apenas oito mil produtores (especializados ou não), que produzem carne de cordeiro, de um total de cerca de 40 mil ovinocultores. Já os caprinocultores são pouco mais de oito mil no total, muitos deles especializados em produzir pelos finos. A maior parte do rebanho ovino australiano é composto por ovinos da raça Merino, de aptidão lanífera, e suas cruzas.

Deve ser considerado que está ocorrendo uma transição marcante da ovinocultura do país, com um enfoque cada vez maior na produção de cordeiros. Isto se reflete no percentual maior de fêmeas matrizes no rebanho, diminuindo a quantidade de machos castrados, que servem para a produção da lã. Assim, cresce o interesse em produzir animais de duplo propósito, usando principalmente as raças Dohne Merino e South África Meat Merino, que possibilitam bons cordeiros, sem grande perda na qualidade da lã. Desta forma, os produtores podem aproveitar o mercado promissor da carne ovina sem abandonar o mercado tradicional da lã.

O rebanho ovino australiano vem diminuindo de tamanho nos últimos 20 anos. Em anos mais recentes, a persistência de uma seca que atravessou 40 meses foi um agravante extra para os produtores reduzirem seus plantéis. Ao mesmo tempo, o aumento no preço pago pela carne de animais velhos estimulou o abate de parte do rebanho. No entanto, o percentual de fêmeas no rebanho tem se mantido estável, o que indica que a tendência de se produzir animais de duplo propósito está se confirmando.

Algumas estimativas apontam que o rebanho caprino australiano mais que dobrou nos últimos 10 anos, chegando a 520 mil cabeças, sem contar as cabras selvagens, que são estimadas em mais de um milhão de animais. Cerca de 90% da produção de carne caprina é oriunda de animais derivados da raça nativa semisselvagem chamada de Rangeland Goat, mesclada a outras raças. A introdução da raça Boer é considerada como ponto de partida para a Austrália ter se consolidado como maior exportador mundial de carne caprina. O rebanho ovino na Austrália é concentrado em três estados, que juntos detêm quase 80% dos animais.

O preço pago ao produtor reflete a diferença que o mercado consumidor percebe em relação à qualidade da carne de animais jovens e adultos. O preço do cordeiro é mais do que o dobro do preço do animal adulto. No entanto, nos últimos anos, o preço pago pelos animais adultos teve um percentual de aumento levemente maior, possivelmente pelo aumento das exportações de ovinos vivos para o Oriente Médio.

Indústria

Como um país fornecedor importante do mercado mundial, a Austrália tem buscado habilitar seus frigoríficos para atender às exigências dos consumidores dos diversos países. A indústria de abate está concentrada nos estados de Victoria, New South Wales e ao sul de Queensland. A Austrália tem 44 frigoríficos habilitados para exportar para a União Europeia. Destes, 20 abatem ovinos (sete destes também abatem caprinos). São 69 frigoríficos com certificação para abate Halal de ovinos e 37 para abate Halal de caprinos. O mercado orgânico também interessa aos frigoríficos australianos e são 19 plantas habilitadas para abater ovinos e caprinos visando atender aos consumidores de produtos orgânicos.

O principal frigorifico é o grupo JBS, proprietário das empresas locais Swift e Tasman Group, com sete abatedouros de bovinos, suínos e ovinos (capacidade de abate de 16 mil ovinos por dia), que também opera um confinamento em New South Wales com capacidade para 35 mil ovinos. Outro grupo importante é o Fletcher, com duas plantas com capacidade de abate total de 90 mil ovinos por semana e propriedades rurais para produção ovina que somam cerca de 85 mil hectares.

Mostrando o aumento da eficiência reprodutiva do país, a produção de carne de cordeiro está aumentando e ganhando participação na produção total de carne ovina. De 52% em 2000, passou a 62% em 2008, apesar de o rebanho estar diminuindo. A previsão é de que a exportação de cordeiros aumente cerca de 30% nos próximos cinco anos.

Tabela 1 - Abate inspecionado de ovinos na Austrália (milhões de cabeças).



O abate inspecionado de caprinos é informado como sendo de 990 mil cabeças em 2008, número maior do que o rebanho oficial. Isso se deve ao fato de ser abatida grande quantidade de cabras selvagens, dentro do programa de controle de mamíferos exógenos, que são considerados como pragas na Austrália. Quase toda a carne caprina é exportada, sendo os consumidores domésticos principais alguns açougues que vendem carne para os muçulmanos do país, comercializando carcaças menores do que aquelas destinadas ao mercado externo.

Em 2007 foram exportados vivos mais 3,78 milhões de ovinos. Somando ao abate realizado no período, chega-se a um desfrute de 43,2% para o rebanho australiano. Em 2008, a exportação de ovinos vivos subiu para 4,21 milhões de cabeças. O porto de Fremantle, em Western, Austrália, exporta 82% dos ovinos vivos. Já os caprinos vivos são exportados principalmente via aérea, chegando a 96% do total em 2008. As alianças de produtores de carne ovina são menos desenvolvidas do que em outras cadeias produtivas locais, como aves e suínos.

Diversos motivos são apontados para isto, mas o mais forte é a falta de especialização na produção de carne ovina pelos criadores. Cerca de metade da produção de animais para abate é vendido no sistema de leilão. Uma iniciativa de relacionamento moderno que está dando certo é a WA Q Lamb, que reúne frigorífico, redes varejistas e mercado externo. Esta aliança oferece garantia de preço e um prêmio sobre qualidade, desta forma a indústria tem suprimento constante e o varejo, garantia para promover uma marca premium em suas lojas. Já funciona há quase 10 anos, tendo o estado de Western Australia como base, e serve de exemplo para outras tentativas de organização da cadeia produtiva. No outro extremo da Austrália, no estado de Victoria, outra aliança exitosa é a Castricum Lamb, nos mesmos termos e que aplica sua marca inclusive em peles ovinas.

O trabalho que está sendo desenvolvido na valorização da cadeia de exportação de animais vivos é apontado como um dos mais fortes indutores de alianças produtivas entre criadores e indústria, pois está mostrando aos criadores com rebanhos mais numerosos que vale a pena garantir o suprimento de determinada empresa em troca de prêmios por qualidade do animal.

Aspectos institucionais e organizacionais

Os produtores de ovinos fundaram em 1978 o Sheepmeat Council of Australia - Conselho da Carne Ovina da Austrália (SCA, na sigla em inglês) -, com a finalidade explícita de representar e promover os interesses dos produtores de carne ovina. Sua atividade é voltada para o desenvolvimento de políticas públicas e influenciar as decisões governamentais. Influenciado pelo SCA, foi estimulada pelo governo australiano a fundação do Goat Industry Council of Australia - Conselho da Cadeia Produtiva da Caprinocultura (GICA, na sigla em inglês) -, com os mesmos objetivos.

O SCA e o GICA fazem parte do Meat & Livestock Australia - Carne e Rebanho Australiano (MLA, na sigla em inglês) -, que é uma iniciativa dos produtores, incluindo de bovinos, que trabalha em parceria com o governo e com a indústria, com o objetivo de manter a cadeia produtiva das carnes vermelhas num nível rentável e sustentável. Tem mais de 43 mil associados e proporciona pesquisa, desenvolvimento e marketing para toda a cadeia produtiva. Algumas metas permanentes do MLA são aumentar o consumo de carne vermelha, garantir acesso ao mercado dos diferentes países e incrementar a competitividade da cadeia.

Algumas das atividades desenvolvidas pela MLA são: promoção da carne australiana dentro e fora do país; organização de cursos de boas práticas de produção dos produtores aos varejistas; participação nas negociações de sanidade e tarifas para garantir acesso aos mercados de cada país; desenvolvimento de inovações industriais; estímulo à formação de alianças de suprimento.

Uma das funções mais valorizadas do MLA é o fornecimento de estatísticas e informações ao mercado. Assim, são editados boletins semanais sobre a carne ovina, sobre a lã e, desde 2003, sobre a carne caprina. É a principal fonte confiável de estatísticas australianas, sendo muito respeitada por todos os participantes da cadeia.

O Lambplan é um dos programas da MLA, em parceria com outras entidades; é uma ferramenta que os produtores podem usar para otimizar suas técnicas de manejo de pastagem e dos animais. Seu objetivo principal é orientar o uso de raças e reprodutores, em função de um ranking que compara os animais de cada ovinocultor entre si e com a média obtida pelos demais participantes. A ideia é que seja reduzido o risco associado à escolha do carneiro reprodutor e com isso aumente-se o ganho genético dos rebanhos. São escolhidos sempre os carneiros que obtêm filhos com características importantes para a produção, como ganho de peso acelerado, resistência a parasitas, produção de lã etc.

Para os caprinocultores existe um programa semelhante, chamado Kidplan. Persiste há vários anos a discussão de proibição de exportação de animais vivos, devido a possíveis danos à indústria e também por pressão dos grupos ligados à proteção dos animais. Porém, estudos australianos mostram que os ganhos que o setor industrial pode ter com a proibição são inferiores aos ganhos que a cadeia produtiva como um todo tem com a exportação de animais vivos. De fato, o governo australiano apoia a venda de animais vivos - ovinos, caprinos e bovinos - para o exterior.

A exportação de animais vivos é supervisionada pelo governo. Os principais padrões a serem seguidos estão descritos nos Padrões Australianos para a Exportação de Animais Vivos, a cargo do Ministério de Agricultura. São definidos padrões de preparo na fazenda, embarque e transporte terrestre, aéreo e aquático. Também é necessária uma licença de exportador fornecida pelo Serviço Australiano de Quarentena e Inspeção. O mesmo organismo realiza uma inspeção no navio antes da partida, para dar o certificado de bem-estar animal, em conjunto com o Departamento de Segurança Marítima. Além disso, todos os estados têm leis próprias que tratam da prevenção de crueldade com os animais. Os navios sempre viajam com um veterinário australiano e um responsável-chefe pelo tratamento dos animais, credenciados pelo governo.

Os exportadores de animais vivos estão organizados numa entidade chamada LiveCorp, que é mantida com contribuições das empresas sobre os animais exportados. Os objetivos principais são a defesa do interesse dos exportadores de animais vivos, o acesso a mercados e a educação e treinamento do pessoal envolvido na cadeia - dentro e fora da Austrália.

Mais recentemente, foi fundada uma entidade com a finalidade específica de prover o mercado, os consumidores e a opinião pública com informações sobre o tratamento dado aos animais vivos exportados. Chamado Australian Livestock Export Animal Welfare Group - Grupo Australiano de Bem-Estar na Exportação de Animais Vivos (ALEAWG, na sigla em inglês) -, esta entidade tem o apoio do governo e é formada por diversas outras entidades representativas, incluindo a MLA, a SCA, a Federação de Agricultura e outros.

Os produtores rurais estão organizados em torno da Australian Livestock Exports Council - Conselho de Exportação de Animais Vivos (ALEC, na sigla em inglês) -, que é formada por representantes das associações estaduais de criadores. A ALEC tem assento na LiveCorp e trabalha em conjunto com o MLA no Programa de Exportação de Animais Vivos. O ALEC, o LiveCorp, o MLA e o ALEAWG, em conjunto com o governo australiano estão realizando investimentos desde 2007 para fortalecer os mercados de animais vivos e também para esclarecer melhor a opinião pública australiana.

Algumas ações voltadas à qualificação da mão-de-obra são treinamento dos estivadores responsáveis pelo embarque em portos australianos, do pessoal encarregado de vacinar e cuidar dos animais e do pessoal encarregado do transporte rodoviário, entre outros. Além disso, tem sido feito marketing da importância social da atividade, principalmente no estado de Western Austrália (onde as exportações de animais vivos estão concentradas), demonstrando as preocupações do setor com o bem-estar dos animais que são vendidos e transportados a outros países.

Estão sendo feitos investimentos em benfeitorias nos portos de chegada e no treinamento do pessoal local nos países importadores de animais vivos: Oman, Israel, Kuwait, Arábia Saudita, Qatar, Bahrain, Egito, Jordânia, Emirados Árabes, Indonésia e Malásia. Estes projetos incluem: cursos de treinamento de bem-estar animal e técnicas de manejo e transporte; construção de rampas de desembarque nos portos importadores para os animais saírem direto do navio para os caminhões; modernização dos abatedouros no Kuwait;

Algumas políticas públicas australianas favorecem mais os exportadores de animais vivos do que as indústrias. Da mesma maneira, os países importadores oferecem subsídios para a importação de animais vivos e aplicam taxas maiores na importação da carne processada. Existem custos que os processadores australianos têm e que os exportadores de animais vivos não, principalmente: observância da legislação sanitária e ambiental, mais restritiva na Austrália do que nos países de destino; custos com a mão-de-obra, diretos e indiretos, também mais altos na Austrália; custos com a utilização de água e energia, que na Austrália apresentam taxações que vão além da simples cobrança pelo consumo, como é feito na maioria dos países.

Um fato a ser considerado é que a diminuição constante do rebanho está provocando uma pressão da cadeia produtiva para que sejam limitadas as exportações de animais vivos. Esta discussão está tomando corpo e devem ocorrer alguns fatos importantes no decorrer de 2010 que podem diminuir as exportações australianas de ovinos vivos. Em janeiro de 2006 foi instituído um programa chamado National Livestock Identification Scheme - Regime Nacional de Identificação do Rebanho -, buscando garantir a integridade da cadeia ovina e caprina através da possibilidade de identificar e rastrear rapidamente os animais. Assim, minimiza-se os danos em caso de necessidade por segurança alimentar ou por emergências sanitárias relacionadas ao aparecimento de doenças nos animais. A finalidade é proporcionar que os consumidores - domésticos ou estrangeiros - tenham confiança na reputação da Austrália como produtora de carne vermelha segura e com qualidade. Fazem parte do programa brincos de identificação coloridos (com a cor identificando o ano de nascimento) nas orelhas dos animais e emissão de documentos de vendas semelhantes à Guia de Trânsito de Animais (GTA) utilizada no Brasil. A partir de julho de 2009, quando os animais forem vendidos para outras propriedades, será necessário colocar um brinco cor-de-rosa adicional.

Exportações

A carne ovina representou mais de US$ 1 bilhão de exportações em 2008. As exportações australianas de carne aumentaram proporcionalmente mais do que as da Nova Zelândia, também refletindo o aumento de oferta provocado pela diminuição do rebanho. Existe uma preocupação da cadeia produtiva com a sustentabilidade deste fornecimento de carne, pois o abate tem aumentado de forma constante. Mais de metade da carne é exportada na forma de cortes congelados com osso. A carne refrigerada tem participação maior do que no caso da Nova Zelândia.

Gráfico 1 - Tipo de carne exportado pela Austrália (mil t).



O produto australiano tem destinos mais diversificados do que o da Nova Zelândia. O maior mercado de carne ovina, os EUA, representam apenas 16% do total exportado.

Gráfico 2 - Destino das exportações de carne ovina da Austrália (mil t)



A carne congelada tem como destino diversos países, incluindo aqueles de renda média menor. Seu preço, de US$ 2.756 a tonelada, é menos do que a metade do obtido pela carne refrigerada. Já a carne refrigerada tem como destino principal os países mais ricos, com os EUA, a União Europeia e o Japão representando mais da metade das exportações, com preço médio de US$ 6.562 por tonelada.

A Austrália exportou mais de 4,2 milhões de ovinos vivos, principalmente com destino ao Golfo Pérsico. O Kuwait, a Arábia Saudita, Oman e Bahrein representam mais de três quartos das exportações de ovinos vivos da Austrália. A exportação de caprinos vivos foi de quase 80 mil animais em 2008, dos quais 67,7 mil foram com destino à Malásia. O preço médio dos ovinos foi de US$ 64 por cabeça, enquanto os caprinos alcançaram US$ 97 por animal.

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