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Pecuária intensiva em áreas de pastagens: importância do planejamento forrageiro

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PRODUÇÃO

EM 21/07/2010

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As áreas de pastagem se configuram na maior cultura agrícola do Brasil, ocupando mais de 172 milhões de hectares, aproximadamente 20% da área agriculturável do nosso território (IBGE, 2007). Assim, o pasto é o alimento quase que exclusivo de um rebanho de aproximadamente 180 milhões de cabeças, tendo em vista as estimativas de que 97% dos animais abatidos são alimentados somente com pastagens.

Apesar da inegável importância das pastagens nos sistemas pecuários brasileiros, levantamentos citam que 80% das pastagens cultivadas se encontram em algum estado de degradação (Barcellos e Vilela, 2001) ou em áreas com solos degradados.

Esse descaso com as áreas de pastagens é histórico, e decorre de uma mentalidade extrativista que até hoje perdura na atividade pecuária. Pecuaristas que tradicionalmente consideram o boi como reserva de capital e a bovinocultura como atividade de baixo risco, ou então, atividade cujo intuito principal é a posse da terra (Veiga et al., 2004). Ao longo desse processo extrativista, as grandes áreas degradadas aparecem como resultado de uma sucessão de erros comumente cometidos pelos pecuaristas, como: a escolha errada da espécie ou cultivar de planta forrageira a ser implantado, o manejo inadequado das plantas forrageiras, a exaustão da fertilidade e a falta de conservação dos solos.

O manejo inadequado das plantas forrageiras está invariavelmente ligado à negligência com uma das condições básicas para o desenvolvimento sustentável de um sistema pecuário, a adequação entre o suprimento e a demanda de alimentos, resultando normalmente em situações de ocupação excessiva de áreas de pastagens e conseqüente superpastejo.

Apesar de sistemas de produção animal em pastagens apresentem certo grau de flexibilidade no que se refere às metas de manejo do pasto e a tolerância a períodos de estresse climático, desajustes muito intensos ou por períodos muito prolongados entre suprimento e demanda, comprometem a capacidade produtiva da planta e, por conseqüência, do sistema de produção.

Um dos principais obstáculos para a correção desse problema é o fato de a alimentação de animais em pastagens resultar da combinação de processos biológicos complexos que determinam a produção e utilização da forragem. Muitos desses processos não são passíveis de intervenções ou controle, e assim incorporam grande variabilidade ao sistema, dificultando seu planejamento.

Para contornar esses problemas a pecuária brasileira tem adotado sistemas extensivos de produção. Assim, sistemas pastoris com baixas taxas de lotação apresentam baixa eficiência de colheita da forragem, resultando em acúmulo de forragem suficiente para tamponar variações inesperadas na produtividade da pastagem, e eventuais efeitos negativos no desempenho animal.

Essa opção, apesar do baixo risco, tem levado a índices de produtividade e rentabilidade muito pequenos e nos últimos anos à substituição da pecuária por outras atividades agrícolas conforme indicam os dados preliminares do último censo agropecuário segundo o qual a área de pastagens diminuiu 3% na última década enquanto a área de agricultura aumentou 83% (IBGE, 2007).

A menor rentabilidade da atividade decorre não apenas da baixa produtividade, mas também da valorização da terra em relação ao boi, e do aumento dos custos de produção combinada a uma nova conjuntura. Nesse cenário, o desmatamento e abertura de novas áreas estão cada vez mais difíceis, restringindo a expansão da fronteira agrícola, com isso inserindo a pecuária em um novo contexto com base na intensificação (Barioni et al., 2003). Taxas de lotação mais elevadas, com a razão entre estoque e demanda de forragem estreita, levando as alterações na taxa de crescimento da pastagem a se refletirem rapidamente na massa de forragem e no desempenho animal, diminuindo de maneira sensível a capacidade de tamponamento do sistema pastoril (Barioni e Martha Junior, 2003).

Nessa nova realidade, a adoção de tecnologias que possibilitem prever a magnitude da produção, e a sua distribuição ao longo do ano, identificando possíveis momentos de déficit ou excesso de alimentos passa a ser um grande diferencial para o sucesso ou fracasso da atividade.

Em geral, pastagens apresentam acentuada variação estacional na produção de forragem. Além disso, a demanda de forragem pode apresentar padrões sazonais em razão das épocas de compra e de venda de animais, da estação de monta e parição, e da taxa de crescimento dos animais. Mudanças na área de pastagens e no número de animais do rebanho também podem ocorrer durante o desenvolvimento de um projeto de pecuária.

O planejamento torna-se, portanto, essencial para garantir o equilíbrio entre produção e demanda de forragem, visando a assegurar alta eficiência de utilização das pastagens e a manutenção de condições favoráveis à sua produtividade e ao desempenho animal.

O orçamento forrageiro é um instrumento no planejamento alimentar que visa a apoiar a tomada de decisões quanto à taxa de lotação e manejo dos recursos forrageiros nos níveis estratégico e tático (Milligan et al., 1987). Decisões estratégicas têm horizonte igual ou superior a um ano, normalmente envolvendo metas para três a cinco anos (longo prazo). Assim, se estabelece as metas para a produtividade, se estima os fluxos financeiros e os índices econômicos, além de se proceder a avaliações de impacto social e ambiental.

Em relação aos recursos forrageiros, o planejamento estratégico do sistema de produção estabelece, em linhas gerais, estimativas da quantidade de forragem produzida em cada área ou piquete e as metas para taxa de lotação, produtividade animal e quantidade demandada de forragem.

O planejamento tático aborda decisões de médio-prazo e tem por objetivo promover ajustes no planejamento estratégico, considerando ações aplicáveis a um horizonte inferior a um ano (Milligan et al., 1987). Isso envolve, por exemplo, mudanças nas datas para compra e venda de animais em resposta à constatação de uma condição indesejada da pastagem (redução da massa de forragem abaixo da meta, superpartejo); na utilização de áreas para conservação de forragem; na área ou no método de renovação de pastagens em razão de oportunidades de mercado (abertura de novas linhas de crédito, aquisição de sementes, calcário, fertilizantes com relação benefício/custo mais favorável, etc.); na necessidade de controle de pragas, doenças e plantas daninhas; e na formulação de suplementos e na estratégia de suplementação do rebanho.

O nível operacional (não contemplado no orçamento forrageiro) envolve atividades cotidianas, de curto prazo (dias ou semanas). No caso do planejamento forrageiro, são tomadas decisões relacionadas ao manejo do pastejo (tempo de ocupação e descanso, intensidade de pastejo e remanejamento de animais entre lotes).

O objetivo de estabelecer essas metas em diferentes níveis é priorizar as atitudes a serem tomadas (as metas de nível estratégico devem ser prioritárias). Não se pode, por exemplo, estabelecer um plano operacional de pastejo sem primeiro especificar quais forrageiras, categorias animais, taxas de lotação ao longo do ano e épocas de compra e venda de animais serão utilizadas.

Dessa forma, pode-se revisar os planos iniciais para fazer as modificações necessárias em relação às áreas de produção (como compra, venda, arrendamento, formação ou mudança de utilização de áreas de pastagem, intensificação no uso de insumos, etc.), às mudanças nas condições externas, às atitudes pessoais e às repostas imprevistas do sistema, identificadas durante o monitoramento. A revisão do planejamento depende das respostas monitoradas do sistema, logo a gestão assume um caráter cíclico, envolvendo planejamento, implementação, monitoramento e controle.

Então, o orçamento forrageiro é necessário no planejamento estratégico e tático, ajudando na previsão das variações do estoque de forragem de um sistema pastoril com base nas suposições dos fluxos de entrada e saída de forragem. Assim, o fluxo de entrada é definido pelo acúmulo de forragem (crescimento - senescência) e o fluxo de saída é caracterizado pelo desaparecimento de forragem (consumo + perdas).

No orçamento forrageiro, a massa de forragem em estoque no futuro (MFi+1) é prevista somando-se o acúmulo e subtraindo-se o desaparecimento de forragem à massa de forragem atual (MFi), conforme a Equação 1:

MFi+1 = MFi + Acúmulo - Desaparecimento Equação 1

em que MFi é a massa de forragem inicial e MFi+1 é a massa de forragem estimada.

Se o fluxo de saída for mais intenso que o fluxo de entrada, haverá uma redução da quantidade em estoque até sua exaustão (nesse caso, o estoque de massa de forragem não pode assumir valores negativos) ou o fluxo líquido é positivo, e, portanto, haverá uma elevação do estoque ao longo do tempo.

Exemplificando, se a MFi for de 1.500 kg/ha de massa seca (MS), o acúmulo de forragem no período for de 400 kg/ha MS e o desaparecimento de forragem (consumo + perdas), nesse mesmo período, for de 350 kg/ha de MS, utilizando-se a equação 1 encontra-se que a MFi+1 será de 1.550 kg/ha MS (MFi+1 = 1.500 + 400 - 350). Analogamente, se o desaparecimento de forragem no período fosse de 600 kg/ha MS, a MFi+1 seria de 1.300 kg/ha MS (MFi+1 = 1.500 + 400 - 600).

Com essa simples orçamentação, nas áreas de pastagem da fazenda, é possível identificar eventuais desbalanços estacionais entre acúmulo e desaparecimento de forragem para uma determinada estratégia de manejo. O conhecimento do equilíbrio entre demanda e oferta de forragem na propriedade, permite avaliar qual a estratégia gerencial e quais os ajustes de manejo são necessários. Assim, assegura-se que a pastagem seja bem utilizada e mantenha condições favoráveis à sua produtividade e ao desempenho animal, evitando períodos de escassez de forragem, aumentando a produtividade e a lucratividade do sistema reduzindo riscos.

O horizonte temporal para o planejamento forrageiro não é rígido. Quando o foco do planejamento relaciona-se à estacionalidade de produção de forragem, o horizonte temporal mais conveniente é o de um ano, permitindo contemplar os padrões sazonais de produção de forragem. No caso de projetos de desenvolvimento de empreendimentos agropecuários, o orçamento forrageiro deve considerar o horizonte temporal de maturação do projeto, até a estabilização da área de pastagem (suprimento de forragem) e do rebanho (demanda de forragem), normalmente entre 3 e 10 anos. Nesse caso um cronograma para formação de pastagens, substituição de espécies forrageiras, compra de animais, arrendamento, cultivos para suplementação, entre outros, deve ser considerado.

Em alguns casos, pode-se estudar decisões táticas (médio prazo), com horizonte temporal variando de três a seis meses. A orçamentação forrageira para decisões táticas normalmente contempla ajustes na orçamentação estratégica (longo prazo - anual ou plurianual), tanto pela inclusão de novas modalidades de intervenção, como pela mudança na intensidade das intervenções originalmente previstas para controle da massa de forragem. Como exemplos pode-se citar: mudanças nas épocas de vendas de animais, adoção de suplementação ou mudanças nas quantidades e composição de suplementos, adubação ou mudança nas doses e fontes de fertilizantes, diferimento de pastagens ou mudança nas áreas diferidas, utilização de lavouras (refletindo o efeito residual do fertilizante para a pastagem) e proporção de áreas na fazenda com integração lavoura-pecuária, etc.

Os cálculos da variação do estoque de forragem são usualmente realizados para intervalos mensais, particularmente nos orçamentos anuais e plurianuais. Alguns técnicos preferem utilizar intervalos semanais ou quinzenais nos orçamentos táticos (de três a seis meses). Entretanto, é necessário ressaltar que intervalos de tempo dessa magnitude poderão comprometer a acurácia e precisão da orçamentação forrageira. Primeiramente, porque os métodos de estimativa da massa de forragem de plantas forrageiras tropicais dificilmente detectam variações em intervalos menores que três a quatro semanas. Adicionalmente, a variabilidade nas taxas de acúmulo de forragem, em períodos semanais, é extremamente alta e de difícil previsão. Assim, o uso de intervalos menores que um mês, deve ser criterioso devido às limitações e possíveis erros de interpretação.

Como em qualquer outro instrumento de planejamento, a avaliação de uma determinada estratégia se dá por meio de indicadores pré-estabelecidos. No orçamento forrageiro o valor de massa média de forragem projetada para cada período do ano constitui no principal indicador utilizado. Assim, é necessário expressar o estoque de forragem também em termos de massa de forragem por unidade de área (kg/ha) para avaliar se essa quantidade de forragem se mantém em níveis adequados para o desempenho da planta forrageira e dos animais.

Diversos outros indicadores, que não a massa de forragem (ou de folhas), têm sido propostos para estabelecer condições ideais para o manejo operacional da pastagem, tais como: altura da pastagem, índice de área foliar e interceptação luminosa. Entretanto, pelo fato de a produção (acúmulo), a demanda (desaparecimento) e o estoque de forragem serem quantificados em termos de massa, a massa média de forragem ou de folhas são os indicadores mais adequados para refletir a condição da pastagem no orçamento forrageiro. Ainda assim, pode ser conveniente converter o valor esperado de massa de forragem em outros indicadores utilizados no manejo operacional da pastagem.

Essa conversão pode ser realizada por meio de equações calibradas para situações específicas. Entretanto, o orçamento forrageiro, como instrumento para o manejo da pastagem, nos níveis estratégico e tático não trata da alocação dos animais em piquetes individuais ou da condição da pastagem em pré e pós-pastejo, mas somente do balanço geral entre suprimento e demanda e da condição média da pastagem. Essas variáveis são, todavia, condições necessárias para viabilizar a adequada realização do manejo (operacional) da pastagem.

Fontes:

BARCELLOS, A. de O.; VILELA, L. Restabelecimento da capacidade produtiva de pastagens por meio da introdução de Stylosantes guianensis cv. Mineirão. Comunicado técnico 65, Embrapa: Planaltina, 2001. 4p.

BARIONI, L. G.; MARTHA JÚNIOR, G. B. Método para Estimar o Tamponamento Nutricional para Vacas de Corte em Sistemas Pastoris. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2003. 4p. (Embrapa Cerrados. Comunicado Técnico, 100).

BARIONI, L. G.; MARTHA JÚNIOR, G.B; RAMOS, A. K. B.; VELOSO, R. F.; RODRIGUES, D.C.; VILELA, L. Planejamento e Gestão do uso de Recursos Forrageiros na Produção de Bovinos em Pastejo. In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO DA PASTAGEM, 20; 2003. Piracicaba: FEALQ, 2003. p. 105 - 153.

IBGE, 2007 Censo Agropecuário 2006: Resultados Preliminares. IBGE: Rio de Janeiro, p.1-146.

MILLIGAN , K. E.; BROOKES, I. M.; THOMPSON, K. R. Feedplanning on pasture. In: NICOL, A. M. (Ed.) Livestock feeding on pasture. Hamilton, N.Z.: New Zealand Society of Animal Production, 1987. p. 75-88. (New Zealand Society of Animal Production. Occasional Publication, n. 10).

VEIGA, J.B. DA; TOURRAND, J.F.; PIKETTY, M.G.; POCCARD-CHAPUIS, R.; ALVES, A.M; THALES, M.C. Expansão e Trajetórias da Pecuária na Amazônia. Brasília: UNB, 162p. 2004.

FELIPE TONATO (NÃO USAR)

LUÍS GUSTAVO BARIONI (NÃO USAR)

BRUNO CARNEIRO E PEDREIRA

Pesquisador da EMBRAPA Agrossilvipastoril

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