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Opções de integração da ovinocaprinocultura com a agricultura irrigada nos sertões do São Francisco

PRODUÇÃO

EM 07/01/2015

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Clovis Guimarães Filho, médico veterinário, M.Sc. em Produção Animal, ex-pesquisador da Embrapa Semiárido, coordenador de ATER da Plena Consultoria e Projetos Ltda./Projeto Pontal Sequeiro-PE. E-mail: clovisgf@uol.com.br

A integração das atividades agropecuárias exercidas nas áreas de sequeiro com as irrigadas nos sertões baiano e pernambucano do São Francisco representa um formidável potencial de benefícios econômicos, sociais e ambientais ainda hoje negligenciado nos projetos públicos e privados implantados nessas duas áreas. Somente na área do dipolo Petrolina-Juazeiro já são cerca de 80 mil hectares irrigados e mais de 20 mil em implantação e/ou programados. Na prática, já existe uma forte interdependência entre as duas áreas, embora, os perímetros públicos se apresentem como verdadeiros guetos de riqueza rodeados de favelas de pobreza e de subdesenvolvimento.

A fruticultura irrigada é altamente dependente do esterco da zona de sequeiro. Ela também necessita fundamentalmente da sua mão-de-obra, condicionando a área de sequeiro a uma bacia de empregos de baixa qualificação. Outras formas de integração entre as duas áreas compreendem trocas e serviços mais qualificados que começam a proliferar (restos de cultivos irrigados para alimentação animal, podas, pulverizações, polinizações, serviços mecanizados, fornecimento de carne e leite, transporte, etc.). Para o caprino-ovinocultor, contudo, a exploração dessas espécies em integração com as áreas irrigadas pode representar a opção mais promissora para a região, considerando a possibilidade de beneficiar os dois espaços de uma maneira econômica, social e ambientalmente mais sustentável. Potenciais formas de exploração integrada incluem, principalmente, as seguintes atividades: (1) o desenvolvimento de etapas de criação em áreas de sequeiro e etapas complementares em áreas irrigadas; (2) a produção intensiva de caprinos e ovinos nas áreas irrigadas; (3) a produção de forragem em áreas irrigadas para alimentação dos rebanhos criados em sequeiro e, (4) a produção de insumos agrícolas na área de sequeiro para suprimento da área irrigada.

A primeira atividade corresponde ao que sempre se fez nos países de pecuária mais desenvolvida, etapa de cria nos pastos nativos e terminação no cocho. Isto já começa incipientemente na região: criar na caatinga caprinos e ovinos e engordá-los em área irrigada, a pasto ou em confinamento, como forma de complementar a atividade agrícola. Esta é também a melhor forma de abater animais em idade mais jovem (pelo menos 30 kg de peso vivo aos 120 dias de idade), aliviando a pressão sobre a caatinga em época de escassez. Esta complementaridade entre as duas áreas pode ser feita por um mesmo produtor que possua esses dois tipos de propriedades ou por dois produtores distintos. Há uma tendência para, mais adiante, contarmos com produtores especialistas, no caso “matrizeiros” e “terminadores”. A forma mais eficaz de terminação dependerá de uma série de fatores, mas a princípio o confinamento parece mais promissor, considerando as fortes limitações de espaço nas áreas irrigadas, a maior possibilidade da formação de condomínios de terminação e a geração em maior escala de outro produto, estratégico para a agricultura irrigada, o esterco.

Figuras 1, 2 e 3: Cria de cabras na caatinga, Confinamento de cabritos e Confinamento de cordeiros.



A segunda atividade é a produção intensiva de caprinos e ovinos exclusivamente nas áreas irrigadas, a qual vem aumentando rapidamente no São Francisco. Considerando o custo de oportunidade, poucas opções dentro da atividade, têm potencial para apresentar viabilidade econômica, quando comparadas a fruticultura de exportação. Entre elas, pelos seus altos níveis de desempenho, a produção de leite e derivados de caprinos e ovinos e a produção de animais de elite (caprinos de ovinos de corte ou de leite), ambos a pasto e/ou semiconfinados. A terminação de ovinos em condições de consórcio com a fruticultura, denominada frutiovinocultura, é outra alternativa que começa a ser praticada incipientemente na região, especialmente em pomares de mangueiras, videiras e coqueiros, utilizando os pastos nativos existentes entre as fileiras de fruteiras. Quando utilizada adequadamente, com pastejo em sistema de rotação em piquetes móveis de pasto cultivado, permite reduzir acentuadamente o custo de produção da fruta, melhorando gradativamente as condições do solo e agregando uma receita adicional da produção animal.

Figuras 4, 5 e 6: Cabras leiteiras a pasto irrigado, Dorper em pastejo rotacionado e Ovinos em consórcio com videiras.



A terceira atividade, produção de forragem em áreas irrigadas para comercialização sob as mais diversas formas, é uma alternativa que tem aumentado rapidamente em função dos últimos e consecutivos períodos secos que assolaram o semiárido. É uma prática muito comum em países como a Argentina, Estados Unidos e Austrália, onde os produtores na realidade são agricultores de alfafa, cujos fardos ou pellets são os produtos absolutamente predominantes. Para o São Francisco as opções poderiam ser a forragem verde (inclusive a palma tanto para consumo como para produção de sementes para o plantio no sequeiro), fenada, ensilada, e até resíduos amonizados de culturas. A silagem de milho e sorgo, principalmente acondicionadas em sacos plásticos especiais, tem sido produzida e comercializada crescentemente no São Francisco. O milho apresenta produtividades acima de 140 toneladas de matéria verde/ha/ano. A opção de feno, baseada mais no capim tífton, tem a dificuldade natural da escassez de mão de obra para enfardamento e os altos custos de aquisição de enfardadeiras, só viáveis para produção em áreas maiores de cultivo. A produção de forragem em áreas irrigadas é uma alternativa muito promissora para os pequenos irrigantes e mini empresários que sofrem com as incertezas de seus cultivos irrigados de ciclo curto, bem como para as milhares de “roças” existentes ao longo das margens do rio.

Figura 7, 8 e 9: Ensilagem de milho em saco, Feno de Tífton em fardo e Tífton irrigado para produção de feno.



A quarta atividade tem como ponto mais forte a produção de esterco caprino e ovino no sequeiro para a venda aos exportadores de frutas, uma alterativa já tradicional, porém operada em condições rudimentares, tanto na produção (pastejo ultra extensivo, baixa qualidade) como na comercialização (domínio da rede de intermediação). Um produtor exportador de uva ou manga já está pagando na faixa de 600 a 700 reais por uma carrada de esterco em um simples caminhão “toco”. A agregação de valor, via compostagem, melhoraria bastante a receita do produtor do sequeiro, já forçado, pela necessidade de “fazer a feira” e a vender um insumo tão essencial para seus próprios cultivos. A melhor organização do caprino-ovinocultor propiciaria a obtenção de um preço mais alto pela venda conjunta e direta do seu esterco e a obtenção, pelo produtor da fruta, de preço mais baixo na compra do produto.

Figura 10, 11: Coleta de esterco para venda e Esterco transformado em composto.


A reformulação na concepção dos novos projetos públicos de irrigação, incorporando uma visão que busque integrar essas áreas com as áreas de sequeiro, apresenta-se como uma exigência fundamental no processo de desenvolvimento econômico, social e ambiental da região. Com esse propósito a Codevasf já iniciou um processo de validação de um sistema baseado na categorização do produtor no acesso à água, procedimento que permitirá multiplicar expressivamente as áreas beneficiadas pelos projetos públicos de irrigação, hoje limitadas a verdadeiros “guetos” de uso intensivo de capital e tecnologia, rodeados de “favelas” de pobreza e de subdesenvolvimento. O projeto Pontal Sequeiro, em Petrolina-PE, contempla uma área em torno do perímetro irrigado convencional, na qual a água é disponibilizada para cada caprino-ovinocultor de sequeiro irrigar uma área muito restrita (0,5 a 1,0 hectare), com forragens de alta produção de massa por unidade de área para assegurar uma oferta regular de forragem para seus rebanhos nos períodos secos e, eventualmente, a comercialização de forragem excedente (verde, silagem ou feno). Essas parcelas individuais são agrupadas em manchas de solo identificadas pela pedologia, e geridas coletivamente por grupos de 10 a 20 produtores de base familiar, de acordo com um modelo de gestão especificamente delineado para este fim. Cada conjunto de parcelas restritas forma uma área coletiva chamada de “pulmão verde”.

A proposta para a caprino-ovinocultura representaria a primeira etapa de um plano de desenvolvimento territorial, incluindo etapas subsequentes de ampliação e qualificação dos demais fluxos existentes, gerando mais oportunidades de ocupação e renda para as populações locais e consolidando, nesse espaço, um eixo econômico agricultura irrigada-caprino e ovinocultura-agro ecoturismo. A região preenche todos os requisitos para responder positivamente a um programa dessa natureza, contribuindo para um melhor ordenamento e um maior equilíbrio no seu processo de integração econômica e social.

Quadro 1: Resumo das alternativas de exploração integrada de caprinos e ovinos com as áreas irrigadas.



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VOLMAR MEDEIROS

EM 20/02/2015

CARLOS LBERTO ALVES DE LIMA

FRECHEIRINHA - CEARÁ - TÉCNICO

EM 13/01/2015

Acho que a caprino-ovinocultura solteira é de difícil sustentação econômica financeira, contudo, o quadro muda de figura quando associada à utilização de subprodutos de atividades existentes na propriedade como milho verde, mandioca, mandioca mansa etc.



Com a racional utilização dos subprodutos dessas culturas juntamente com o manejo correto da caatinga, a atividade se torna altamente rentável.



carlos Alberto
JOSÉ RICARDO BARRETO DA FONSECA

SALVADOR - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/01/2015

Es tá prática sempre foi evidenciada por muito agricultores, teve a época da criação consorciada com as mangueiras, goiabeiras, coqueiro, etc...

Em algum momento, apareceu pesquisadores combatendo tal prática pois o exterior, a exportação condenou o consorcio, mas graças a vontade do ribeirinho e a última estiagem que em muito lugares durou 4 a 5 anos, também, o mercado exterior perdeu fôlego, as frutas tem dado resultados fracos, assim, acredito ser uma grande saída para sustentação da caprinovinocultura para o alto sertão da Bahia.
EDIJANE DELMONDES

EM 12/01/2015

O artigo é de grande relevância, pois ressalta sobre uma nova visão sobre a prática agrícola e pecuária, que em conjunto favorecem para o bom rendimento do criatório e adubação do solo,  sendo a MO produzida a partir de rejetos vegetais proveniente de diferentes fatores da digestibilidade animal.