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O mercado doméstico da carne ovina em 2012

POR DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

PRODUÇÃO

EM 28/03/2013

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Pelo terceiro ano consecutivo a produção formal de carne ovina, sob inspeção federal, sofreu uma significativa retração em seus números, fechando 2012 com um volume de abates (barras em azul, valores à esquerda) de 237,7 mil cabeças, configurando uma queda de 10,8 pontos percentuais em relação aos resultados alcançados em 2011, conforme o Gráfico 1.

           

A partir dos dados disponibilizados pelo Serviço de Inspeção Federal (MAPA) é possível estimar uma produção (linha em vermelho, valores à direita) de aproximadamente 3,8 mil toneladas em 2012, valor muito próximo das 3,65 mil toneladas alcançadas em 2006.

Nesse último ano, praticamente, todos os Estados com participação relevante na produção doméstica (Gráfico 2) tiveram importantes reduções em suas escalas.

              

Conforme o Gráfico 2, a tradicional liderança do Rio Grande do Sul permanece, com um volume de abates atingindo a marca das 190,8 mil cabeças, cerca de 5,3% menor quando comparado à 2011, o que correspondeu a um déficit de 10,6 mil animais. No Estado de São Paulo, 2012 fechou com um volume de quase 23,9 mil unidades e queda de 25,8%, o que representou menos 8,3 mil cabeças na escala de abate dos frigoríficos, em relação ao ano anterior. Por sua vez, Bahia e Mato Grosso do Sul, apresentaram retração de 6,4 e 60,2%, respectivamente, enquanto no Sergipe, a produção SIFada permaneceu estável.

Em 2012, as importações brasileiras de carne ovina (Gráfico 3) atingiram a marca das 6,52 mil toneladas (peso de embarque), um incremento de 26,3% comparado à 2011, com um valor de US$ 36,1 milhões de dólares, aproximadamente 6,2 pontos percentuais acima dos valores alcançados no ano anterior.

      


Embora a produção uruguaia tenha sofrido mais um ano de queda, o volume das exportações se manteve relativamente estável, de forma que, em 2012, o montante embarcado para o Brasil foi superior em cerca de 11% ao de 2011, como resultado da menor demanda na zona do euro, o que permitiu um redirecionamento para o mercado doméstico brasileiro.

Do volume total importado pelo Brasil em 2012, aproximadamente 93% teve sua origem no Uruguai, enquanto o restante saiu da Argentina (3,8%) e Chile (2,8%), com uma singela participação da Nova Zelândia (0,3%) e Austrália (0,1%), que reapareceram na carta de fornecedores do Brasil, após mais de 12 anos de ausência.

Por outro lado, o destino dos embarques foi diverso, como é possível observar no Gráfico 4.

                 

Do total embarcado em 2012, quase 90% foi destinado aos Estados do Mato Grosso do Sul, Rio Grande, Paraná e Santa Catarina, sendo o restante distribuído entre Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo e Ceará. No entanto, grande parte da carne ovina que chega ao Mato Grosso do Sul e ao Rio Grande do Sul é redirecionada para o setor varejista de São Paulo.

Com o dólar fechando 2012 em uma média de R$ 1,95, os preços dos produtos importados, conforme a Tabela 1 abaixo, permaneceram bastante atrativos para os setores de processamento e varejo, considerando os preços ao produtor e ao consumidor praticados no mercado interno, e as amplas margens trabalhadas por esses elos.

         


Consequentemente, a associação entre a maior disponibilidade de produto uruguaio para o Brasil e os preços atrativos impulsionou as importações em 2012, compensando em parte a redução na produção doméstica, de forma que a disponibilidade interna formal (Gráfico 5), nos principais centros de consumo do país, fechou o presente ano com uma alta de 9,4%, alcançando o patamar das 10,3 mil toneladas.

        

Com isso, a participação dos produtos importados no mercado interno saltou de 54,7% em 2011 para 63,1% em 2012, tornando a cadeia produtiva brasileira cada vez mais dependente do mercado externo.

Apesar da maior oferta de carne ovina no mercado interno em 2012, os preços nominais do cordeiro (em R$/kg carcaça, Gráfico 6) permaneceram relativamente elevados em relação à 2011, com altas de 8,2% e 0,7% nas praças de São Paulo e do Rio Grande do Sul, respectivamente, e baixa de quase 2,2% na Bahia.

         


Com isso, as cotações encerraram o ano com uma média de R$ 8,59 no Rio Grande, R$ 8,70 na Bahia e R$ 11,37 em São Paulo, sendo reguladas, sobretudo, pela oferta, uma vez que a demanda continua dando sinais de congelamento.

Considerando os valores nominais e os respectivos períodos analisados, o cordeiro apresentou uma variação de 127,7% na Bahia e de 76,0% no Rio Grande do Sul ao longo dos últimos 10 anos, e de 39,7% desde 2009 em São Paulo. No entanto, quando tais valores são corrigidos pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna, da Fundação Getúlio Vargas) e o efeito da inflação é inserido na análise, verifica-se que até o ano de 2007 o cordeiro passou por um forte processo de desvalorização no Rio Grande e na Bahia, passando a um ciclo de valorização real somente a partir de 2008, conforme o Gráfico 7.

        

Com exceção de São Paulo, onde a variação ao longo do tempo é positiva (21,5%) e houve um aumento real de 3,0% no cordeiro em 2012 comparado à 2011, a remuneração dos produtores nas praças gaúcha e baiana foi afetada negativamente, uma vez que 2012 fechou com quedas reais de 4,0 e 6,9% em relação à 2011, respectivamente, apesar da tendência crescente dos valores deflacionados nos últimos 4 anos.

Em face da decrescente produção inspecionada, a cadeia produtiva da carne ovina no Brasil assume uma posição de elevada dependência das importações para sustentar as operações indústrias e a demanda institucional existente no mercado interno, que, ao longo de 2012, se mostrou claramente estagnada frente aos elevados preços dos produtos cárneos ovinos disponibilizados ao consumidor final.

Na prática, estamos sofrendo um processo reverso que está direcionando a ovinocultura comercial aos números praticados em 2006.

Que não cheguemos nos primórdios!

Fontes consultadas


EMATER-RS. Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural.

FGV. Fundação Getúlio Vargas.

INAC. Instituto Nacional de Carnes.

MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

MDIC. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

SEAGRI-BA. Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária do Estado da Bahia.

UNICETEX-USP. Centro de Inovação Tecológica e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo.


 

DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

Médico Veterinário, MBA, D.Sc., especializado no sistema agroindustrial da carne ovina. Consultor da Prime ASC - Advanced Sheep Consulting.

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DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 09/04/2013

Caro Jorge,



Não tenho dúvida que a iniciativa privada é o alicerce fundamental da cadeia ovina. O pouco que avançamos nos últimos 10 anos é fruto da iniciativa privada e não se iluda, continuará a ser assim.



E concordo plenamente com o seu amigo: quando o governo não atrapalha, já ajuda muito mesmo!!



Abraços e obrigado pela participação!!



Daniel
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 09/04/2013

Olá Luciana,



Embora o parasitismo gastrintestinal seja um fator que limite os resultados finais da ovinocultura comercial, não acredito que a mesma possa ter um impacto de tal dimensão sobre a produção nacional.



Ainda creio que os resultados atuais de contração na produção são o efeito, principalmente, dos níveis elevados de abate de fêmeas ocorrido em anos anteriores.



Obrigado pela participação e pelas palavras!



Abraços,



Daniel
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 09/04/2013

Caro Venâncio,



Não tenho dúvida que a iniciativa privada é o alicerce fundamental da cadeia ovina. O pouco que avançamos nos últimos 10 anos é fruto da iniciativa privada e não se iluda, continuará a ser assim.



E concordo plenamente com o seu amigo: quando o governo não atrapalha, já ajuda muito mesmo!!



Abraços e obrigado pela participação!!



Daniel
LUCIANA DINATO

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO

EM 03/04/2013

Daniel,



parabéns pelo artigo.



Podemos relacionar essa redução na participação de todos os estados na produção doméstica com algum problema sanitário? Por exemplo, com a verminose?





DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 03/04/2013

Olá Tacia,



Com relação à retração na produção, o alicerce do problema está na elevada taxa de abate de fêmeas. Nossa experiência acompanhando algumas linhas de abate e o resultado de alguns estudos em diferentes regiões do país tem identificado taxas de abate de fêmeas superiores a 50%.



Esse fenômeno tem ocorrido com uma frequência prejudicial e tem sido motivado por vários fatores, principalmente, preços elevados (estimulando a comercialização), baixa tecnologia (sustentando a reduzida produtividade e elevando perdas de toda natureza), uso equivocado do cruzamento (levando ao abate indiscriminado das fêmeas F1), visão de curto prazo (resultados econômicos imediatos) e desinteresse na atividade (visão da ovinocultura como atividade secundária e/ou fundo financeiro para momentos de aperto econômico).



Valores de taxa de abate de fêmeas próximos ou maiores que 50% são percentuais condizentes com rebanhos estabilizados (e que não produzem cordeiras/borregas para reposição) e não em crescimento.



Assim, a relativa constância desses níveis, principalmente no período entre 2006 e 2010, tem como consequência a baixa produção atual.



Obrigado pela participação e pelas palavras.



Abraços,



Daniel
JORGE AUGUSTO QUEIROZ CAVALCANTE

VENÂNCIO AIRES - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 02/04/2013

Qualquer analise feita sobre demanda e oferta de carne ovina no Brasil, constata-se uma lacuna enorme no que toca a uma organização a nível nacional , desde cadastramento de produtores,aos  ítens de sazonalidade, de produção, qualidade, uniformidade de carcaças, etc,etc...Na verdade,  carecemos de uma politica    que  venha a nortear a produção de carne ovina no Brasil.As iniciativas meritorias são pontuais, e atestam tão somente esforços isolados.A iniciativa privada de alguns grupos e cooperativas comprovam o quanto carecem de assistencia os que labutam no setor.Quanto ao governo, que deveria ser o principal interessado; como afirma um amigo meu: Quando não atrapalha, já ajuda muito!!.  Abraços .
TACIA GOMES BERGSTEIN

CURITIBA - PARANÁ

EM 02/04/2013

Daniel,

primeiramente parabens pelo artigo!

Gostaria de saber se você arrisca alguma explicação para essa retração de produção sendo que, de modo geral, o preço ainda apresenta alta?

ANDRÉ LUIS ROCHA

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/04/2013

Legal Daniel;

Parabéns pela matéria !!
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 01/04/2013

Olá André,



Sim, os dados expostos no artigo estão relacionados aos abates sob inspeção federal, como informado no mesmo.



No que diz respeito aos abates sob inspeção estadual, infelizmente, essa é uma falha do sistema brasileiro, uma vez que é difícil contabilizarmos os abates sob inspeção estadual de cada Estado.



No entanto, em escala nacional, os abates sob SIE são em muito menor número comparado àqueles sob SIF, e mesmo se incluíssemos os números estaduais, a curva dos gráficos e a tendência não se modificaria, apesar do leve aumento no volume.



A nível estadual, para alguns Estados, os abates SIE podem ser significantes, mas do ponto de vista de Brasil, os mesmos são de pouca relevância.



Abraços,



Daniel
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 01/04/2013

Prezados Juan, Demis e Marcelo,



Obrigado pela participação de vocês e pelas palavras de apreço.



Abraços,



Daniel
MARCELO VICENTE FREITAS

IMPERATRIZ - MARANHÃO - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 31/03/2013

dr. daniel muito interessante este dados ,parabéns pela materia.marcelo(imperatriz-ma)
DEMIS MENEZES

PALMAS - TOCANTINS - PESQUISA/ENSINO

EM 30/03/2013

Parabéns pelo artigo Daniel, assim podemos ver que o Brasil apesar de possuir todas as condições para produzir e exporta carne ovina, estar importando, principalmente, do Uruguai. Temos que fazer algo para melhorar este cenário.
ANDRÉ LUIS ROCHA

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/03/2013

Olá Daniel.

É importante salientar que os dados são relativos ao SIF, por exemplo aqui em Goiás o abate da CAVA Alimentos teve média de 500 animais mês todos em inspeção estadual como ocorre em outros estados.
JUAN FERELLI

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 29/03/2013

Prezado Daniel, parabéns por suas análises. São informações muito importantes para compreender esta cadeia produtiva.

Juan Ferelli

Pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos