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O manejo nutricional afeta a composição do leite? Parte 1/2

POR JUNIO CESAR MARTINEZ

PRODUÇÃO

EM 03/03/2011

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A nutrição é o fator mais rápido e prático de se alterar a composição do leite, uma vez que os componentes do leite são sintetizados a partir de nutrientes que provém da dieta ou das reservas corporais. No entanto, a relação entre os componentes da dieta e os componentes do leite é complexa.

Dos três principais componentes do leite, a gordura pode ser alterada em até 3 pontos percentuais, a proteína muito menos, sendo alterada na ordem de um quinto da gordura, e a lactose menos ainda. Neste radar será abordado os fatores dietéticos que afetam maléfica e/ou beneficamente a composição do leite.

Carboidratos

Os carboidratos da dieta exercem grande efeito sobre a concentração de gordura do leite, principalmente devido à alteração do padrão de fermentação ruminal (Tabela 1).

Tabela 1. Fatores relacionados aos carboidratos e seus efeitos na variação do teor de gordura.



Os carboidratos da parede celular (celulose e hemicelulose) estão mais relacionados com a produção de ácido acético e butírico pelas bactérias ruminais, enquanto que os carboidratos do citoplasma (solúveis) estão mais relacionados com a produção de ácido propiônico.

Os ácidos graxos constituintes da gordura do leite, com até 16 carbonos, são sintetizados pelas células secretoras a partir do ácido acético e butírico. Os ácidos graxos com mais de 16 carbonos são obtidos diretamente do sangue, oriundos da dieta ou da mobilização das reservas corporais.

Sendo assim, o teor de gordura do leite possui relação positiva com a concentração molar de ácido acético e butírico no rúmen, e possui relação negativa com a concentração de ácido propiônico. As modificações dietéticas que afetam a fermentação ruminal incluem a concentração de carboidratos não estruturais na dieta (ou relação volumoso:concentrado), e o tipo de carboidrato oferecido.

Relação volumoso:concentrado

Em geral, o aumento do concentrado da dieta ocasiona maior produção de propionato, maior produção de ácido lático, redução no pH ruminal, e menor produção de acetato no rúmen. A queda do pH pode levar a diminuição da atividade das bactérias celulolíticas, afetando a digestibilidade da fibra.

A mudança no padrão de fermentação pode levar a um decréscimo no teor de gordura do leite. Entretanto, para que o ácido propiônico exerça efeito significativo sobre o teor de gordura deve estar em porcentagem molar maior do que 25% (Linn 1991).

Existe uma relação positiva entre a taxa molar Acetato/Propionato e o teor de gordura do leite (Figura 1). Ocorre um aumento linear na gordura do leite à medida que a taxa Acetato/Propionato cresce até 2,2. Acima de 2,2 ocorre pequeno aumento no teor de gordura do leite (Linn, 1991).


Figura 1. Relação entre a taxa ruminal Acetato/Propionato e o teor de gordura do leite.

A relação volumoso:concentrado crítica, levando em conta os fatores acima citados, parece ser de 40:60. Abaixo desta relação o acréscimo do concentrado pode levar a reduções drásticas no teor de gordura do leite (Tabela 2). Um teor mínimo de 22% de FDA na matéria seca da dieta seria necessário para a manutenção do teor de gordura do leite (Sutton, 1989).

Tabela 2. Efeito da relação volumoso:concentrado sobre a fermentação ruminal.



O tamanho da fibra também é importante para a determinação do teor de gordura do leite. Fibras de tamanho extremamente reduzido podem diminuir o estímulo à ruminação e à produção de saliva, diminuindo o pH ruminal e aumentando a concentração de propionato, levando à produção de leite com menores teores de gordura (Emery, 1991 - Tabela 3).

Tabela 3. Efeito do Tamanho de Partícula da Fibra sobre a Porcentagem de Gordura do Leite.



O tamanho médio mínimo de partículas de forragem para prevenir a queda do teor de gordura do leite parece se situar entre 0,6 a 0,8 cm. Abaixo deste valor pode ocorrer queda substancial do teor de gordura do leite (Sutton, 1989).

Outro fator indireto do propionato sobre o teor de gordura do leite seria, segundo Emery (1991), seu efeito sobre a secreção de insulina. Por ser glucogênico, estimularia a secreção de insulina e o desvio de acetato da glândula mamária para o tecido adiposo, uma vez que o tecido secretor da glândula mamária não é sensível a insulina, diminuindo o aporte energético. No entanto, estudos recentes (Neville e Picciano, 1997) demonstraram que vacas submetidas a altos níveis plasmáticos de insulina não apresentaram alteração na síntese de gordura do leite.

Estes autores em trabalho de revisão sugerem que ácidos graxos trans podem ser responsáveis pela redução do teor de gordura do leite. Certas dietas, ricas em grãos, resultariam em hidrogenação incompleta do C18:2 e aumentariam a absorção de trans-C18:1. Apesar de não haver evidências diretas para este fato, os autores sugerem que o trans-C18:1 poderia reduzir a atividade da esteril-CoA desaturase, acetil-CoA carboxilase e acil transferases nas células secretoras, causando depressão da neosíntese de ácido graxos e da incorporação de ácidos graxos aos triglicerídeos (que compõem 98% da gordura do leite) (Neville e Picciano 1997).

Ao contrário do efeito sobre o teor de gordura do leite, o aumento no consumo de energia digestível, devido ao maior fornecimento de concentrados na dieta, leva a maior fermentação ruminal, maior produção de ácido propiônico, maior produção de proteína microbiana e aumento no teor de proteína do leite.

O aumento no teor de proteína do leite ocorreria devido a maior disponibilidade de precursores glucogênicos no sangue (propionato), diminuindo a necessidade de gluconeogênese a partir de aminoácidos (glutamato), aumentando a disponibilidade dos aminoácidos para a síntese protéica na glândula mamária.

Emery (1978) reportou um aumento de 0,015% no teor de proteína do leite para cada megacaloria adicional de energia líquida consumida.

JUNIO CESAR MARTINEZ

Doutor em Ciência Animal e Pastagens (ESALQ), Pós-Doutor pela UNESP e Universidade da California-EUA. Professor da UNEMAT.

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ADRIANO

TAQUARIVAÍ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/12/2017

Boa noite tenho 20 vacas com media 29 lts diario e  247 DEL com uma recomendação de 22kg de silagem de aveia 6,5kg de racão 20% 4,5 de fuba de milho  3,5 de polpa citrica 0,300 de gordura protegida 0,100 de ureia esses animais estao confinados em compost barn vacas pesam entorno de 500 a 650 kg 10 delas estao prenhas 11 delas abaixo de 200 dias em lactaçao 4 delas enduzidas minha duvida essa dieta que estou utilizando nao ira provocar laminiti nos animais
CASSIANE GOMES DOS SANTOS

DIAMANTINA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 27/04/2016

Prezado Dr.

Na sua opinião quais os nutrientes que tem relação direta com a composição do leite ?
RALF AUGUSTO SILVA MARINS

BANANAL - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 18/09/2013

Prezado Dr.



Outro questionamento: vivencio uma situação em que a dieta à base de concentrados ocasionou um nível médio de 2,5 % de gordura no leite e o nutricionista fez a orientação de uso do caroço de algodão na dieta, conforme o Sr. mesmo o fez neste fórum. Qual o prazo médio (considerando a adaptação da flora do rúmen) para surtir os devidos efeitos (ou seja, aumento do teor de gordura)?
RALF AUGUSTO SILVA MARINS

BANANAL - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 18/09/2013

Prezado Dr.



No caso de dietas ricas em concentrados conforme descrito no artigo é esperado, além da diminuição do teor de gordura e do aumento de teor de proteína, alguma outra alteração do leite ? Faço este questionamento porque foi me dito que o nível de acidez do leite pode aumentar em tal situação.
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 19/09/2011

Prezado Eder.


A resposta é sim. Pode-se esperar uma melhora de desempenho quando da utilização de ionóforos. Entretanto, a sua eficácia realmente comprovada não posso "bater o martelo", pois em muitos estudos não houve diferenças significativas entre tratamentos.
EDER GHEDINI

TAPEJARA - RIO GRANDE DO SUL

EM 18/09/2011

Tudo bem Professor Martinez?


A utilização do leite como ferramenta para avaliarmos o comportamento nutricional e metabólico dos bovinos é sem sombra de dúvida simples e eficaz. Podemos observar, através da sintese dos componentes do  leite uma estreita relação com o metabolismo dos alimentos. Nobre professor, pergunto-lhes a respeito da utilização de ionóforos, sua eficácia é realmente comprovada neste contexto? Grato pela sua atenção, envio-lhes um cordial abraço.
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 15/06/2011

Prezada Maryzabel,

O uso de leveduras pode causar uma modificação no perfil de fermentação no rúmen. Entretanto, os dados de literatura ainda são muito contraditórios. O último deles foi uma tese de doutorado recentemente defendida na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiróz", da aluna Carolina de Almeida Carmo. Portanto, o meu conhecimento atual não me deixa confortável para uma recomendação precisa de leveduras, embora sabendo que tragam benefícios.
MARYZABEL

CASTRO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 23/05/2011

Caro junio

Não houve em seu artigo citação sobre o uso de leveduras, tenho pesquisado bastante o assunto e vejo que algumas cepas possuem capacidade de manter um Ph mais estável, o que melhora a colonização por microorganismos, já que favorece o meio para os mesmos, tendo visto até resultados na relação acetato/ propionato, já que o aproveitamento da fibra tem sido otimizado. Sou nutricionista e gostaria de saber se seria uma opção para incluir nas dietas de vacas leiteiras de alta produção, já que o uso de concentrado é bastante significativo.
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/04/2011

Prezado Marcelo,
Ao fornecer o caroço de algodão inteiro e com linter, o lipídio estará encapsulado, dentro do caroço. Somente os caroços que sofrerem ação da ruminação (quebra) poderão liberar os lipideos. Portanto, ao fornecer caroço estamos estimulando ruminação, ou seja, uma fonte de fibra e não propriamente uma fonte de lipidios livres. Caso o caroço seja de dificil obtenção, pode ser um feno de baixa qualidade. Aparentemente, o importante no seu caso é ter uma fonte de fibra para estimular ruminação, produção de saliva, etc. Caso isso não resolva será necessário uma avaliação visual dos seus animais. Boa sorte!
MARCELO GODINHO MIAZATO

ITAJUÍPE - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/03/2011

Muito obrigado Dr. Martinez pela resposta, vou experimentar sim! Sempre ouvi falar que os lipídios reduziam a atividade celulolítica bacteriana, por isso não cogitei essa opção, visto que pretendo ao máximo trabalhar em cima de dietas volumosas. Terei problemas com a aquisição sim, mas nada impossível ao menos para se avaliar o resultado. Abraços!
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 24/03/2011

Prezado Marcelo,
Caso tenha disponibilidade na rua região, inclua 10% de caroço-de-algodão na dieta e acompanhe o que acontecerá com a gordura do leite. Muito provavelmente irá resolver o seu problema.

Prezada Raquel,
Obrigado pela colaboração. Sim, digitei errado, o correto é menos volumoso e mais concentrado (30:70). Peço desculpas pelo engano ao digitar.

Prezado Gustavo,
Não existe uma só resposta para sua pergunta, pois o comportamento ingestivo do animal, na situação por ti apresentada, vai variar em função dos ingredientes que compõe a dieta e de como estava o ambiente ruminal quando da presença do concentrado em alta quantidade. Caso o ambiente ruminal estava em condições sub-ótimas e o volumso é de excelente qualidade, sim, poderia se esperar um aumento significativo em consumo de volumoso, caso contrario, não.
GUSTAVO PÁDUA LOPES

ORIZONA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/03/2011

Prezado Dr., é certo que se eu reduzir o concentrado na dieta as vacas vao ingerir mais volumoso? tanto a pasto como em silo?
Obrigado, parabens pelo artigo
KLEBER WILLIAN GONTIJO DE ARAÚJO

TIROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 15/03/2011

Muito bom o artigo . . . Parabéns
RAQUEL RODRIGUES MAIA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 06/03/2011

Prezado Dr. Junio,
Muito bom o artigo! Mas, na tabela 2, não seria 30:70 (volumoso: concentrado)?
MARCELO GODINHO MIAZATO

ITAJUÍPE - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/03/2011

Preazdo Doutor:
Qual a solução mais prática e economicamente viável para se elevar ligeiramente o Ph ruminal, para dietas ricas em carboidratos solúveis? Li sobre bicarbonato de sódio, calcário calcítico e ionóforos. Existem outras, além da estratégia de se elevar o teor de fibras da dieta? Notei uma depressão no teor de gordura dos animais durante a utilização de um subproduto oriundo da casca do palmito, o qual apresentou in vitro alta digestibilidade da fibra, além de altos teores de açúcares solúveis, que lhe conferem rápida e intensa fermentação.
Grato.