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Na cozinha com a genética

POR OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

PRODUÇÃO

EM 19/10/2007

3 MIN DE LEITURA

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Nos últimos anos, o termo "genética" vem se popularizando rapidamente. Na imprensa, artigos falam de avanços da genética, de engenharia genética, de organismos geneticamente modificados. Para o leigo, o termo ganha matizes de algo perigoso da tecnologia moderna, onde o homem tenta se fazer de Deus. Outras vezes o termo é banalizado, como na pecuária, onde quem quiser pode "fazer genética".

Todo ser vivo tem genética. Até os vírus, que são seres extremamente simples, só são considerados vivos porque têm uma genética comandando sua existência. Os genes são como uma receita para que sejamos como somos. O ambiente é o cozinheiro com sua habilidade e seus temperos pessoais. Da interação entre a receita e o cozinheiro nasce o prato, ou seja, o indivíduo, que é resultado da ação de seus genes e da interferência do ambiente.

Pessoas que criam animais para concursos e exposições têm, além do objetivo de vencer as competições de raça, o de vender reprodutores e matrizes. Para simplificar, ou para impressionar, eles se auto-intitulam "produtores de genética". Tudo bem. Quando se vende um reprodutor ou seu sêmen, vende-se sua genética junto, seus filhos carregarão metade dela, disseminando-a com maior ou menor intensidade na população. Há, porém, um grave deslize aí. O animal "de pista" é, na maioria das vezes, o resultado de uma boa receita, mas que, além disso, passou pelas mãos de um excelente cozinheiro.

O efeito de um ambiente artificial pode mascarar o potencial genético do indivíduo para situações do dia-a-dia. Vejamos: os reprodutores levados às pistas passam por uma superalimentação, por exercícios físicos e, Deus queira que isso não aconteça, por uso de anabolizantes. Ora, seus filhos podem passar pelo mesmo processo, mas é pouco provável que isso seja utilizado por alguém interessado em produzir carne. Quem vai colocar seus cordeiros de abate para fazer musculação e natação?

Nas exposições, apresenta-se para o produtor um prato delicioso, vende-se a receita, mas não o cozinheiro. Nas mãos de um outro cozinheiro, menos habilidoso, a receita falha. O que devemos buscar, quando pensamos em produção, é uma excelente receita, que nas mãos de um cozinheiro mediano, possa dar um prato excelente. Traduzindo: excelente genética, para o ambiente de que dispomos.

Com um produto de alta qualidade poderemos industrializar nossa receita, usando das técnicas de reprodução. As empresas que desenvolvem e utilizam tecnologia de reprodução também adoram se intitular "Fulana Genética". Tem muita gente que acredita que a inseminação artificial, a transferência de embriões e a fertilização in vitro garantem boa genética. Não, as técnicas de reprodução, são técnicas de reprodução: servem para acelerar a multiplicação da genética que estamos usando, seja ela ruim ou boa. Uma receita ruim, numa indústria eficiente, gera milhares e milhares de pratos ruins.

Com esse raciocínio "genético-culinário" acredito ser incorreto chamar os criadores de animais de pista de "produtores de genética". Eles produzem animais de pista, e são muito competentes nisto. A genética, que Deus ou a natureza criou, já está feita. Os geneticistas e os melhoristas conseguem, a duras penas, reconhecer diferenças genéticas entre indivíduos e o que se pode fazer com mais eficiência é alterar as proporções gênicas nas populações, por meio de seleção.

Para que esse trabalho tenha efeito positivo é preciso uma ação coordenada por pessoas que realmente entendam de genética. Aí sim, quem sabe, com a integração dos trabalhos dos geneticistas, dos melhoristas, dos especialistas em reprodução e dos produtores, Deus nos deixe brincar um pouquinho de "fazer genética".

Observação 1: Cheguei até a sugerir para o pessoal do FarmPoint a alteração dos nomes das sessões "Raças e Genética" para "Raças e Concursos de Raças", e da sessão "Melhoramento", para "Melhoramento e Genética", mas os títulos já estão consagrados. Tudo bem. Desde que saibamos do que estamos falando, não há problema com os nomes.

Observação 2: Quando enviei este artigo pela primeira vez para o FarmPoint, a Marina Danés, muito sabiamente, me pediu que fizesse uma série de artigos sobre melhoramento genético para que não parecesse pura agressão. Sugiro a leitura dos artigos anteriores e aguardo críticas e comentários.

Clique aqui para ver os outros artigos de Octávio Rossi Morais.

OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos - Embrapa

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OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 08/06/2009

Pois é Rogério... vai indo a gente fica cansado e começa a não querer mais nem discutir esses assuntos, mas temos que resistir, pois um dia a lógica tem que vencer. Um abraço.
ROGÉRIO CARVALHO DE ABREU LIMA

PONTA GROSSA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 07/06/2009

Prezado Octávio e leitores! Sou inicialmente um apaixonado por cavalos. Segundo, médico veterinário que só pensava em cavalos. Por questões variadas, comecei despretenciosamente a trabalhar com ovelhas até que cheguei ao FarmPoint e tive a gratíssima surpresa de ler seus artigos, dentre outros Dr. Octávio!

Sabe peixe fora d´água? Pois bem, sou um! Nesta linha de raciocínio, um dia um proprietário de cavalos de corrida, sabendo que eu tinha um potro filho de fulano de tal (famoso à época), me questionou sobre o peso do potro. Respondi, 430 kg. Exclamou: nem quero ver! Retribuí: não é boi e sim um cavalo com finalidades atléticas... E nem viu mesmo.

Dá-se que nesta atividade os pobres potros são mais valorizados pelo peso, ou seja, devem apresentar-se obesos à venda (que se faz antes de completarem dois anos, pois começam correr cedo demais, o que já é negativo). Assim, os pobres obesos, são mais valorizados (e não entendo o que os Brasileiros tem com tamanho; o que impressiona é que me parece que em bovinos e etc e tal funciona igual).

Quanta falta de conhecimento, para não dizer outras coisas!

Enfim, congratu-lo de forma emocionada, pois bem sei as mazelas que deve ouvir em seu caminho, como todos aqueles que fogem da maioria e do conceito de normalidade, e agradeço a atenção.

Cordial abraço
Rogério
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 09/05/2008

Ah, ah, ah!!! Pois é Marco Aurélio, estão usando e abusando de termos que desconhecem totalmente. Por isso é que dizem que "tal animal tem genética", como se tudo o que é vivo não tivesse... Um abraço.
MARCO AURÉLIO STEFFANI

MARIÓPOLIS - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/05/2008

Olá, Octávio Morais.
Tenho lido seus artigos e vejo sua postura muito pé-no-chão, muito realista.
O que precisamos é de matrizes e reprodutores que imprimam características desejáveis à sua progênie, em condições normais de exploração, e que permitam ao criador uma sobra de dinheiro no bolso. Só isso!
Agora, um termo absurdo que tenho ouvido é o tal de "acasalamento genético"!!
Pelo amor de Deus!!! Existe, entre os mamíferos, algum acasalamento que não seja genético?

KKKKK!
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 11/01/2008

Obrigado João Ernani, concordamos em gênero, número e grau! Só estou estranhando é que ninguém "da oposição" teve coragem de se contrapor ao meu artigo... Um abraço.
JOÃO ERNANI BARBOZA DUARTE

VACARIA - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 24/12/2007

Muito bom teu artigo, concordo plenamente com o que dizes e, fazem trinta anos que selecionamos animais adaptados ao ambiente, mais feios talvez mas rentáveis.
Cito sempre o exemplo das feiras de bovinos leiteiros com seu concurso de produção onde na verdade deveríamos julgar o animal mais rentável ou, o fato de apenas valorizarmos o animal mais pesado e, se isso for verdade deveremos passar a criar elefantes que são mais pesados e, se não interessa quanto comem.
Na maioria o que esses criadores autointitulados de "vendedores e genética" nada mais são do que eficientes vendedores de comida, como tu dissestes em teu artigo bons cozinheiros. Além disso deveriam ser premiados também com trofeus pelo desempenho como marqueteiros.