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Melhoramento sério, ovinocultura responsável

POR OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

PRODUÇÃO

EM 26/03/2008

5 MIN DE LEITURA

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Em 2006 organizei, em Belo Horizonte, um curso de produção e melhoramento de ovinos de corte. Já mencionei o curso em outros artigos, mas tratou-se de um curso aberto para técnicos e produtores. O curso contou com a participação de professores da Nova Zelândia e do Reino Unido e teve participantes de oito estados brasileiros. O Bruno Santos foi um dos alunos do curso e, aproveitando os contatos daquela época, está passando um período na Nova Zelândia, trabalhando com o Dr.Peter Amer e convivendo com outras feras do melhoramento genético daquele país, e por que não dizer, do mundo.

Estamos freqüentemente nos escrevendo por email e fiquei muito feliz ao receber o relato que transcrevo agora para os leitores do FarmPoint:

"Acabo de voltar da propriedade do Sr. Peter Black. Fiquei simplesmente impressionado com a qualidade dos animais deles. Eles possuem 900 ovelhas Texel registradas na propriedade, e um total de mais de 10 mil animais em toda a fazenda.

Trata-se de um senhor de mais de 80 anos e de sua esposa, que nasceram no meio das ovelhas, e ele é um zootecnista aposentado do AgResearch, empresa de pesquisa da Nova Zelândia. O rebanho Blackdale é o que mais coloca animais nas análises entre rebanhos na Nova Zelândia e nos testes de progênie nacionais, justamente devido ao tipo de animal que eles produzem, que é totalmente diferente da Austrália, Alemanha e Estados Unidos. Tratam-se de animais de ótima estatura, equilibrados, nem altos, nem baixinhos como os holandeses, muito próximos aos franceses, com médias de taxa de nascimento da ordem de 200%. Todos os carneiros vendidos como reprodutores são oriundos de partos duplos e triplos, todas as borregas que são introduzidas no rebanho, todos os anos, também são oriundas de partos duplos e só permanecem no rebanho se tiverem partos duplos na primeira cria, é uma pressão de seleção absurda! Neste rebanho não se usam animais altos e pernaltas, pois não suportam o severo clima, a propriedade fica no extremo Sul da Ilha Sul, onde os ventos são muito fortes e as temperaturas médias no inverno abaixo de zero, com muita neve. Os verões são bem quentes e os animais permanecem 100% do tempo no campo. Nenhum animal recebe concentrado em nenhum momento da vida.

O Texel aqui na NZ é muito popular, e, devido a este fato, muitas linhagens foram definidas, e alguns criadores não se importam com características reprodutivas (uma vez que são considerados terminal sires), porém, criadores como o Mr. Black estão tendo muito sucesso em sua seleção criteriosa para reprodução, crescimento e qualidade de carne. Este ano ele irá vender 800 reprodutores a preços médios de US$1500,00, bem acima da média nacional! Todos os carneiros para coleta de sêmen serão reservas de seu plantel e os cordeiros da última estação de nascimento que ele manterá na fazenda (ou seja os melhores EBVs....).

Hoje eu tive uma verdadeira aula de ovinocultura séria, responsável e lucrativa. Mr. e Ms Black ficaram abismados com as histórias brasileiras a respeito de exposições, preços absurdos e etc.
"

Fiquei feliz por ver que o Bruno está vivenciando aquilo que apregoamos: uma ovinocultura séria, voltada para resultados econômicos da produção. Fiquei triste porque vejo o quão longe estamos de alcançar tal patamar. Ainda outro dia assisti na televisão a mais um record mundial de preço pago por um carneiro, é claro, um carneiro brasileiro. Não quero discutir aqui as condições em que esses records são alcançados, mas o que aqui no Brasil parece uma prova incontestável do sucesso da nossa ovinocultura, lá fora parece um absurdo e é até motivo de chacota.

Muita gente pode criticar a comparação entre Nova Zelândia e Brasil, dizendo que lá os pastos são de muito melhor qualidade e que por isso não é necessário fornecer concentrados e que as ovelhas assim conseguem criar dois cordeiros. Mas se pensarmos nas nossas realidades brasileiras, e elas são muitas, veremos que cada uma tem suas vantagens e desvantagens e que nós não devemos nos fazer de vítima para encobrir nossa incompetência. Temos animais que sobrevivem em situações de extrema penúria de alimentos e ainda assim produzem. Porque não selecionar, dentro dessas raças, animais mais produtivos, sem perder de vista essa rusticidade. Será que alguém já parou para pensar que a ovinocultura e a caprinocultura nordestinas existem há séculos e que, na mão do sertanejo, elas são atividades economicamente viáveis? Quem ganha dinheiro com animais "de pista", a não ser com a venda de reprodutores? Porquê será que a ovinocultura praticada para esses animais não funciona para as condições de pasto? Pelo simples fato de que a genética que vem sendo selecionada não é compatível com a necessidade real do produtor. Já escrevi algumas vezes nesses meus artigos: as principais características a serem selecionadas em ovinos de corte, para as condições do mercado brasileiro, são a prolificidade, a sobrevivência de cordeiros e o ganho de peso dos cordeiros.

Isto não é um "chute" mas resultado de estudos do valor econômico das características. Outro ponto a ser considerado é que o custo de se oferecer 100 gramas por dia de ração comercial para as ovelhas, somente nos períodos de terço final de gestação, e em três meses de lactação, mais a ração dos cordeiros (por volta de 100 gramas por dia por três meses), equivale à metade de todo o custo de alimentação. Estou falando de 100 gramas, não de um quilo, um quilo e meio, como se oferece para animais de pista. Assim me parece que o que faz o Mr.Black é bem razoável para o Brasil: selecionar ovelhas com bom desempenho em regime de pasto, prolíficas e que cuidam bem de seus cordeiros. Por outro lado me parece também razoável a atitude dos outros produtores neozelandeses, que se preocupam em utilizar carneiros terminadores, independente das características maternas da raça. Tudo isso aponta para a seleção de raças maternas e uso de raças paternas terminadoras. A Santa Inês, que é a raça mais numerosa, deveria estar sendo selecionada para raça materna, assim como se deveria multiplicar e selecionar raças como a Morada Nova, Crioula, Somalis. Para imprimir ganho de peso, já existem por aí, bem selecionadas, várias raças exóticas. Mas cá estou eu de novo, sonhando com uma ovinocultura organizada no Brasil. Isso é coisa de neozelandeses, de uruguaios, de franceses, de ingleses, de espanhóis, de escoceses, tudo gente sem juízo.

Ajuizados somos nós, que selecionamos beleza e vendemos caro esperanças vazias.

OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos - Embrapa

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ALISSON DE SOUZA

SÃO DOMINGOS DO NORTE - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 12/10/2012

nao me canso de ler ,e

muito bom .ve gente coesa em um objetivo serio.

OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 09/05/2008

Puxa vida Ananias, assim eu fico até encabulado! Sem dúvida às vezes sou mal compreendido, ou até bem compreendido, mas por pessoas que não gostam do que digo. Felizmente aqui no fórum dos artigos sempre está uma turma "do bem" para dar o seu apoio. Um grande abraço!
CAPATAZ ASSESSORIA RURAL

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL

EM 08/05/2008

Esse é Octávio que eu conheço: sem papas na lingua e não tem medo de falar o que pensa. Daí, às vezes serem mal entendidas as suas palavras, apesar de verdadeiras. E o pior é que certas verdades incomodam muito e muita gente. Até parece que é Aquariano, cujas idéias e "sonhos" somente serão entendidos muitos anos à frente.

Fique certo, caro Octávio: chegará o dia em que a ovinocaprinocultura neste pais será feita de maneira profissional aos moldes como é feita em outros paises que têm nesse segmento da pecuária, um grande gerador de emprego, renda e divisas.
Também, esteja certo que em qualquer segmento, existem bons e maus. Os bons, como Jacó - o primeiro Zootecnista - (Génesis, 30:35), vencerão.

Parabéns por mais este artigo.
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 30/04/2008

Obrigado Fábio. Tenho um compromisso com a ovinocultura e principalmente com os ovinocultores e não acho prudente, nem honesto, ficarmos alisando egos ao invés de colocarmos nossas dificuldades à mostra.
FABIO ROGERIO RIZZI

TAPERA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/04/2008

Bom dia

Espetáculo de artigo! Assim que se faz, .técnico responsável é aquele que não ilude com faláceas seu publico alvo,concordo com todo seu relato espero que mais técnicos falem esta linguagem de verdade e com isto poderemos criar o verdadeiro conceito de ovinocultura rentável,esta sim de "exposição".parabéns
LUIZ CARLOS NUNES DOS SANTOS

SALVADOR - BAHIA - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 17/04/2008

Parabéns aos envolvidos no esclarecimentos. Eu, que decidi cria a Santa Inês para abate (Chapada Diamantina) indo à exposições, vendo animais de alta linhagem (sic) sem conseguir informações íntimas sobre como criar para abate. Existe um vácuo entre as áres, mas as diminuiremos, com certeza. Obrigado.
RONALD PEACH

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 16/04/2008

Prezados amigos,
O artigo de nosso querido pesquisador Otavio não poderia ser mais real e contundente.
Atenciosamente,
Ronald Peach
DAYANE FONSECA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 04/04/2008

Boa Tarde a todos,

Agradeço pelo artigo, ele certamente será mencionado no meu estudo.
Estou realizando um estudo sobre a rentabilidade da criação e seleção de ovinos p.o no norte de Minas Gerais. Peço que se for possível me enviem outros artigos e ou estudos feitos nesta área.

Obrigada,
Dayane Fonseca.
BRUNO FERNANDES SALES SANTOS

PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 30/03/2008

Olá Octávio, Daniel e amigos do Farm Point!


Agradeço pelo artigo, agradeço por ter publicado uma de nossas muitas conversas e por ter tornado públicas as notícias de interesse de todos mas que infelizmente nem todos podem ter acesso...

A cada dia percebo que se um dia lançarmos mão de nossas condições ambientais e mercados, poderemos sem dúvida nenhuma nos tornar um dos grandes produtores mundiais de ovinos. Para isto teríamos que mudar algo fundamental, nossa cultura de produção agropecuária, o que demanda tempo, investimento e vontade...

Talvez um dia, e por isso aqui estamos (técnicos e produtores), consigamos causar esta grande mudança.

Gostaria sinceramente de ver no Brasil a relação de confiança entre a indústria ovina e as pessoas e que todos percebessem a importância que a atividade poderia ter para a economia do nosso Brasil!!
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 26/03/2008

O que dizer desse artigo do grande Octávio?

Não há nada a dizer, porque já está claramente escrito.

A ovinocultura brasileira e, em geral a pecuária, vive em dois mundos paralelos e distorcidos.

Aqui na Bahia, onde o mercado de difusão genética é muito bem difundido e onde as exposições tornam Grandes Campeões animais superalimentados e exercitados que, em algumas ocasiões, não são nem puros e que alcançam preços exorbitantes em leilões, a ovinocultura de corte sofre pela falta de quantidade e qualidade de cordeiros para abate.

Quantos casos de pessoas não conheço que se aventuraram em comprar animais em leilões por preços elevadíssimos e levaram animais impuros, com epididimite, intoxicações latentes ou que nunca produziram uma cria??

Por outro lado, quantos produtores não conheço que penam por não possuirem animais com a qualidade zootécnica necessária para garantir uma boa rentabilidade da atividade??

Nessa realidade de dois mundos, sonho com o dia em que poderemos falar sobre uma "Jacarezinho" ou uma "CFM" na pecuária ovina, como exemplos de seriedade, profissionalismo, competência e compromisso com a ovinocultura produtiva.

Abraços,

Daniel