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Listeriose em ovinos e caprinos

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EM 25/02/2010

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A listeriose é uma enfermidade infecciosa que acomete diversas espécies animais, sendo considerada uma zoonose, pois além dos animais domésticos a doença também pode ser transmitida aos seres humanos.

As bactérias da espécie Listeria correspondem ao agente causador da doença. Segundo Schild (2001) esses microorganismos encontram-se largamente distribuídos na natureza, podendo ser encontrados no solo, plantas, silagem, aguadas, paredes e pisos de instalações, podendo ser isolados inclusive das fezes e secreções nasais de animais doentes e sadios. Em virtude do caráter infeccioso e da susceptibilidade de ovinos e caprinos à doença, o objetivo dessa revisão é abordar os principais aspectos relacionados a epidemiologia, diagnóstico e prevenção da listeriose em pequenos ruminantes.

A doença

A listeriose afeta várias espécies animais, induzindo três formas de manifestação clínica, segundo Rissi et al., (2006) e Schild (2001):

1 - septicemia ou infecção generalizada manifestada pela formação de abscessos em vísceras como fígado e baço, comumente observada em ruminantes, suínos, coelhos e aves recém-nascidas;

2 - aborto, metrite e placentite que ocorrem em bovinos e ovinos;

3 - doença neurológica caracterizada como meningoencefalite, principalmente observada em ovinos, caprinos e bovinos. Geralmente, em caso de surto, apenas uma dessas três formas clínicas se manifesta no rebanho.

A listeriose é causada principalmente pelas bactérias L. monocytogenes e L. ivanovii (esta em menor frequência) em ovinos e caprinos (Figura 1). Segundo Ryser & Marth (2007), os ovinos apresentam uma susceptibilidade 34% maior para a listeriose em relação aos bovinos, evidenciando uma maior suscetibilidade dessa espécie à doença.

A incidência da enfermidade pode ser considerada baixa e esporádica, sobretudo em condições nacionais. Em estudo recente, identificou-se a listeriose como agente causador de cerca de 6% dos casos de doença neurológica em ovinos e caprinos do semi-árido brasileiro (GUEDES et al., 2007).

Figura 1 - Bactérias do gênero Listeria (Cocobacilos) no interior de células de defesa do organismo.(Adaptado de D´ARCE, 2004).



Epidemiologia e fatores predisponentes

A listeriose é uma doença de ocorrência mundial, especialmente em países de clima temperado. Segundo revisões de Rissi et al., (2006), a doença se manifesta nos animais principalmente nos meses de inverno e início da primavera em associação ao consumo de silagem. A silagem de má qualidade (sobretudo àquelas onde ocorreu pouca fermentação, favorecendo a manutenção do pH acima de 5,5, situação comum na silagem da superfície ou borda dos silos onde frequentemente ocorre deterioração aeróbia) fornecem condições ideais para o crescimento e manutenção da Listeria (RADOSTITIS et al., 2002; SCHILD, 2001), favorecendo a disseminação da doença.

Outros fatores nutricionais como a utilização de cama de frango para a nutrição animal (proibida em todo o território nacional em virtude dos riscos de transmissão de encefalopatias aos animais) também predispõe a ocorrência dos surtos da doença. No entanto, a ampla difusão ambiental frequentemente dificulta o diagnóstico e a clara identificação de um determinado surto, devendo-se considerar outras fontes de contaminação além do consumo de silagem.

A infecção por Listeria acontece no momento da ingestão dos alimentos contaminados, quando frequentemente ocorrem pequenos traumatismos na mucosa da boca e da faringe (orofaringe) ou através da penetração direta pelas células intestinais. Quando a infecção ocorre via orofaringe observa-se uma penetração bacteriana ascendente através de nervos (via bainha neural das terminações nervosas do nervo trigêmeo) que conduzem o microorganismo até o cérebro, causando os sinais clínicos de incoordenação motora, andar em círculos, desvio lateral de cabeça (torcicolo) e do corpo, paralisia facial (caída de orelha e pálpebra superior), flacidez do lábio superior que evolui para a dificuldade de apreensão e mastigação dos alimentos (SCHILD, 2001). A morte geralmente ocorre após uma a duas semanas do início das manifestações clínicas (Figura 2).

Figura 2 - Assimetria e paralisia facial, característica de lesão unilateral do nervo trigêmeo em função do quadro de listeriose. *Adaptado de BRUGERE-PICOUX, (2008).



Por outro lado, quando a penetração bacteriana ocorre pela via intestinal, além dos sinais neurológicos (desenvolvimento da meningoencefalite pela chegada de bactérias através do sistema sanguíneo) pode ocorrer o aborto no terço final de gestação provocado por edema seguido de necrose placentária após proliferação uterina, além da possibilidade de infecção generalizada (septicemia), com a formação de abscessos em órgãos como baço, fígado, rins e coração. A listeriose também pode ocasionar mastite clínica e subclínica que geralmente se manifestam em um único quarto do úbere e caracterizam-se, frequentemente, pela baixa responsividade ao tratamento.

Diagnóstico e controle da doença

O diagnóstico da doença é feito pela observação dos sinais clínicos e pela realização de exames laboratoriais de sorologia (pouco sensíveis) ou isolamento dos microorganismos a partir de amostras de fluido espinal, sangue, tecido nervoso, baço, fígado, fluido do abomaso e mecônio dos animais suspeitos.

O tratamento da listeriose é realizado através do uso de antibióticos como tetraciclina ou penicilina, sendo que a Listeria monocytogenes também apresenta susceptibilidade a sulfonamida-trimetropim, ceftiofur e eritromicina. No entanto, a terapêutica geralmente não impede a morte dos animais acometidos já que a Listeria consegue se "esconder" das drogas no interior de outras células do organismo, especialmente no interior do sistema nervoso central (REBHUN et al., 2000).

Frente às dificuldades de tratamento, destaca-se a prevenção como principal medida de controle da doença. Boas práticas de manejo como a limpeza de instalações e de cochos, correta vedação e compactação de silos, oferecimento de silagem de boa qualidade realizando-se a adaptação prévia dos animais antes da introdução da silagem na dieta, representam as principais ações de combate a listeriose.

Em função do potencial zoonótico da doença, preconiza-se a pasteurização do leite previamente ao consumo ou processamento em derivados (representam a principal fonte de infecção para o homem) como a principal medida para a prevenção da listeriose humana (PINTADO et al.,2009).

Referências bibliográficas

BRUGERE-PICOUX, J. Ovine listeriosis, Small Ruminant Research, v.76, p.12-20, 2008


D´ARCE, R. Listeriose, Palestra, Encontro de Clínica de Ruminantes da Faculdade Jaguariúna, 2006.

GUEDES, K.M.R., RIET-CORREA, F., DANTAS, A.F.M. et al. Doenças do sistema nervosa central em caprinos e ovinos no semi-árido. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.27, n.1, p.29-38, 2007.

LOW, J.C., DONACHIE, W. A review of Listeria monocytogenes and listeriosis. Veterinary Journal, v.153, p.9-29, 1997.

PINTADO, C.M.B.S., GRANT, K. A., HALFORD-MAW, R., et al. Association between a case study of asymptomatic ovine listerial mastitis and the contamination of soft cheese and cheese processing environment with Listeria monocytogenes in Portugal. Foodborne Pathogens and Disease, v.6, n.5. p.560-575, 2009.

RADOSTITS, O.M.; GAY, C.C.; BLOOD, D.C. et al. Doenças Causadas por Algas e Fungos. In:___. Clínica Veterinária - Um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e equinos. 9.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A. v.1, p.661-665, 2002.

REBHUN, W.C.; GUARD, C.; RICHARDS, M. Doenças do Gado Leiteiro. 1 ed. São Paulo: Roca, 2000, p.505-509.

RISSI, D.R., RECH, R.R., BARROS, R.R. et al. Forma nervosa da listeriose em caprinos. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.26, n.1, p.14-20, 2006.

RYSER, E. T.; MARTH. E. H. Listeriosis in animals. In: ______ Listeria, listeriosis, and food safety. 3.ed. Boca Raton: Flórida, p.55-84, 2007.

SCHILD, A.L. Listeriose. In:___ RIET-CORREA, F.; SHILD, A.L.; MÉNDEZ, M.C.; LEMOS, R.A.A. Doenças de Ruminantes e Equinos. São Paulo: Varela, 2001. p.288-292.

SCOTT, P.R. Listeriose. In: ____ Manual Merck de Veterinária. 8.ed. São Paulo: Roca, p.392-394, 2001.

ANDRÉ MACIEL CRESPILHO

VetSemen - Primeiro laboratório privado especializado na análise de qualidade do sêmen utilizado em programas de inseminação artificial.

CARMO EMANUEL ALMEIDA BISCARDE

Formado em 2007 pela UFBa; Residente em Fisiopatologia da Reprodução e Obstetrícia pela FMVZ-UNESP-BTU; Mestre em Medicina Veterinária pela FMVZ-Unesp-BTU; Médico Veterinário da Universidade Federal Do Recôncavo da Bahia - UFRB.

VITOR SANTIAGO DE CARVALHO

Médico Veterinário do Hospital Veterinário da UFBA. Mestre em Ciência Animal nos Trópicos

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FERNANDO L. KNIEST

MONTENEGRO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE CORTE

EM 04/09/2012

Tive um surto de listeriose no rebanho de capras e tive a perda de duas capras prenhes.
ANDRÉ MACIEL CRESPILHO

BARUERI - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 26/02/2010

Prezado Prof. Marcio,
Muito obrigado pelas correções.

Atenciosamente,
André
MARCIO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 25/02/2010

O gênero Listeria é bastonete e não cocobacilos como descrito na figura.
ANDRÉ MACIEL CRESPILHO

BARUERI - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/02/2010

Prezado Albano,
Possivelmente seu problema reside na ração ou até mesmo na cama utilizada em seu criatório. Preconiza-se a substituição de ambos como primeira tentativa de controle da doença.
A antibioticoterapia frequentemente traz benefícios (conforme observado também em sua criação) nos casos de surtos de listeriose, sobretudo quando iniciada antes do aparecimento dos sinais clínicos neurológicos, atuando na diminuição dos índices de mortalidade.
Quanto as medidas gerais de higiêne, o ideal seria realizar um "vazio sanitário" das gaiolas ou salas do criatório, realizando a completa desinfecção das instalações antes da introdução de novos animais.
O uso da "vassoura de fogo" representa uma alternativa interessante de desinfecção ambiental para os criatórios que utilizam gaiolas de metal.
Para informações adicionais gostaria de indicar o artigo "LISTERIOSE EM COELHOS DE BIOTÉRIO" (Arq. Inst. Biol., São Paulo, v.69, n.4, p.117-120, out./dez., 2002) disponível on-line, e que trata de um surto de listeriose ocorrido em um biotério público.
Espero que tenha colaborado de alguma forma.

Atenciosamente,
André
MARCIO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 25/02/2010

"espécie" Listeria??
Gênero...
ALBANO JOÃO BATISTA BOHNEN

ARAUCÁRIA - PARANÁ

EM 25/02/2010

Recentemente ocorreu um surto de Listeriose em minha Cabanha de Chinchilas e a maioria dos animais apresentava sinais clínicos, cfe descrito em teu artigo, de incoordenação motora, andar em círculos, desvio lateral de cabeça (torcicolo) e do corpo, paralisia facial (caída de orelha e pálpebra superior), flacidez do lábio superior que evolui para a dificuldade de apreensão e mastigação dos alimentos.
Atraves de exames laboratoriais no centro agrário da UFPR foi confirmado que se tratava de listeriose.
O veterinário da UFPR achou desnecessário entrar com antibióticos e recomendou revisar/melhorar o manejo. Fiz uma limpeza profunda de todo ambiente e utensilhos com água sanitária, porem os animais continuaram a morrer. Então, por conta propria apliquei uma dose de terramicina/LA e consegui evitar mais mortes.
Agora, passados 3 meses, voltaram a morrer novamente alguns animais com os mesmos sintomas. O que voces recomendam?
Os animais recebem ração especial para chinchilas e água. Os dutos de água e os cochinhos são lavados periodicamente com água sanitária. A água é tratada e adiciono mais algumas gotinhas de água sanitária. Resta a ração, será que ela vem contaminada. Para cama do animal utilizo diatomita importada da Argentina.
Obrigado pela atenção.