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Impacto da crise sobre o setor da carne ovina

POR DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

PRODUÇÃO

EM 26/03/2009

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1. Introdução

A crise financeira global que se iniciou em setembro de 2008 tem enfraquecido, naturalmente, as perspectivas sobre a economia em 2009, e o seu efeito sobre o segmento cárneo ovino nos principais países produtores e consumidores já se tornam evidentes, embora ainda seja cedo para avaliar os reais efeitos do desdobramento da crise sobre o setor.

Seguindo a insolvência de vários bancos de investimento e de outras instituições financeiras nos Estados Unidos e União Européia, as condições financeiras mundiais mostram-se bastante limitadas, levando a quedas substanciais no mercado de valores e no influxo de capital para as economias emergentes.

Os indicadores comerciais mais recentes sugerem uma rápida desaceleração da atividade agropecuária nos países onde a indústria ovina tem importância econômica, sobretudo, aqueles que mantêm uma estreita relação comercial com o NAFTA e a UE-27, uma vez que estarão mais vulneráveis aos efeitos da retração da atividade econômica nos respectivos blocos, incluindo outros membros da OECD (Organization for Economic Co-Operation and Development).

Assume-se que o crescimento econômico mundial declinará significativamente em 2009 e como resultado da recente volatilidade do mercado financeiro, a atividade econômica nos principais centros comerciais de carne ovina tende a se contrair negativamente, a exemplo do Reino Unido, Alemanha, França, Estados Unidos, Japão e Nova Zelândia, como mostrado na Tabela 1.

Clique na imagem para ampliá-la.

De acordo com as estimativas da ABARE (Australian Bureau of Agricultural and Resource Economics) mostradas na Tabela 1, todas as economias experimentarão um período de contração econômica em 2009, antes de ocorrer uma recuperação gradativa prevista para se iniciar nos primeiros meses de 2010.

Dessa forma, assume-se que o crescimento econômico mundial cairá 2,8 pontos percentuais para uma taxa ao redor de 0,6%, orquestrado pelos percentuais negativos dos países da OECD. Por outro lado, nas economias emergentes e em desenvolvimento, a expectativa é que o crescimento desacelere nos próximos trimestres, caindo bem abaixo do potencial, antes de voltar a crescer gradualmente no final de 2009.

2. Situação internacional

Austrália e Nova Zelândia são os maiores exportadores mundiais de carne ovina e dentre os seus principais clientes estão países pertencentes aos blocos mais afetados pela crise financeira, ou seja, NAFTA e UE-27, o que tem causado retrações substanciais no consumo e, logo, nas importações.

Esse cenário se agrava ainda mais devido os Estados Unidos, a União Européia e o Japão serem alguns dos mercados de maior valor para a carne ovina, afetando inevitavelmente os resultados econômicos das exportações. Além disso, a capacidade da China, do Oriente Médio e dos próprios mercados domésticos australiano e neozelandês para absorver o volume de carne ovina "excedente" é particularmente limitada.

Embora o consumo de alimentos nas economias da OECD seja relativamente insensível às mudanças de renda, o fato da carne ovina ser a de maior valor para o consumidor pode impactar significativamente na demanda, uma vez que a tendência natural é o aumento da procura por substitutos de menor valor agregado, como a carne bovina, a suína e a de frango. Soma-se a isso, a forte tendência de manutenção da valorização da carne ovina no mercado internacional, em função do fornecimento limitado, o que sustentará os preços do cordeiro em patamares elevados a curto prazo.

Diante desse cenário, as previsões para as exportações de cordeiro da Nova Zelândia assumem uma queda geral de 11% em relação a 2008, enquanto que os embarques da Austrália tendem a cair 13%, com a demanda norte-americana retraindo 24% em relação a 2008. No entanto, e apesar da carta de clientes bastante plural e variada, os dois maiores players no mercado internacional, fatalmente, colherão resultados negativos no presente ano, como o resultado de uma associação significante envolvendo baixa produção de cordeiro, alto valor da carne ovina e limitada capacidade de consumo nos mercados de maior impacto sobre o valor das exportações.

3. Situação doméstica

No sistema agroindustrial brasileiro da carne ovina, os potenciais efeitos diretos da crise financeira mundial envolvem, principalmente, a desaceleração dos investimentos e a falta de crédito no mercado, afetando o capital de giro para algumas empresas importadoras e de frigoríficos do setor.

Ao avaliar as cotações do cordeiro (Gráfico 1) ao longo dos últimos 8 anos, fica evidente o firme processo de valorização da carne ovina no mercado doméstico, apresentando um incremento superior a 83% desde 2001, o que associado com a crise financeira vigente, poderia limitar o consumo, mesmo estando o consumidor urbano de carne ovina concentrado nas classes A, B e C.

Gráfico 1. Evolução do preço do cordeiro, quilo carcaça.



Esse processo de fortalecimento do preço do cordeiro doméstico se mantém atualmente, havendo um aumento médio de 16,6 pontos percentuais no valor do cordeiro no primeiro bimestre (jan/fev) de 2009 em relação ao mesmo período de 2008, de acordo com o Gráfico 2. Dessa forma, a tendência de alta persiste e sustenta os preços em patamares nunca antes vistos para a carne ovina doméstica no mercado interno.

Gráfico 2. Índice bimestral de preço do cordeiro (2008=100).



Embora os preços praticados para o cordeiro brasileiro possam induzir a uma tendência de provável retração no consumo devido ao alto patamar dos preços, ao se analisar os resultados das importações no primeiro bimestre de 2009, é possível observar não apenas um aumento de 28,9% no volume importado, mas também, um incremento de 43,5% no valor das importações, indicando que a demanda doméstica não se retraiu perante a crise atual e o mais importante, que o consumo de carne ovina no mercado interno é firme o suficiente para manter o crescimento mesmo com a forte e continua valorização dos produtos cárneos ovinos importados.

Gráfico 3. Índice bimestral das importações de produtos cárneos ovinos (2008=100).



Embora os efeitos da crise sobre a SAG brasileira da carne ovina ainda não estejam claros ou definidos, o cenário atual sugere que a crise econômica mundial pouco afetará o setor, considerando que a demanda segue crescente mesmo diante do alto preço do cordeiro e da menor disponibilidade de crédito e de capital circulante no mercado.

4. Considerações finais

Espera-se que a recuperação na performance econômica mundial se inicie entre o final de 2009 e início de 2010, com uma tendência de crescimento para a economia global ao redor de 3% em 2010, chegando na casa dos 4,3% em 2011.

No mercado internacional, o comércio deve se retrair entre os principais blocos exportadores e importadores, ou seja, entre a Oceania, NAFTA, UE-27 e Ásia, no entanto, como a Austrália, a Nova Zelândia e a UE-27 passam por uma fase de acentuado ajuste produtivo, os efeitos da crise podem ser um pouco mais severos nesses países.

No mercado doméstico, o setor ovino parece ter sido pouco abalado até o momento pelos efeitos da crise e às suas limitações subsequentes, mantendo-se aquecido e sustentando os preços e a demanda em patamares elevados.

Embora as crises sejam eventos intermitentes em qualquer segmento de mercado e fazerem parte do jogo econômico, as perspectivas para o setor ovino não se modificaram, permanecendo altamente positivas, especialmente para as empresas que conseguem aliar gestão estratégica, organização empresarial e aplicação de tecnologia.

Bibliografia consultada

ABARE. Australian Bureau of Agricultural and Resource Economics. Australian Commodities, v.16, n.1, Canberra: ABARE, 2009. 256p.

MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretária de Defesa Agropecuária - Serviço de Inspeção Federal. Disponível em: . Acesso em: 15 mar. 2009.

MDIC. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Comércio Exterior - ALICE Web. Disponível em: . Acesso em: 15 mar. 2009.

USDA. United States Department of Agriculture. Livestock, Dairy and Poultry Outlook, Washington: USDA, 2009. 19p. (LDP-M-175)

USDA. United States Department of Agriculture. Livestock, Dairy and Poultry Outlook, Washington: USDA, 2009. 26p. (LDP-M-176)

DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

Médico Veterinário, MBA, D.Sc., especializado no sistema agroindustrial da carne ovina. Consultor da Prime ASC - Advanced Sheep Consulting.

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DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 10/07/2009

Olá Bruno,

Primeiramente, obrigado por suas colocações e participação!!

Bem, considerando o cenário internacional e a conjuntura da atividade nos principais países produtores e comercializadores de carne ovina como Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido e Uruguai, o Brasil se encontra em uma situação de contra-posição.

Enquanto nesses países a atividade sofre um ciclo de retração, com redução nos rebanhos, baixa produção de cordeiros, preços pouco atraentes com relação ao aumento nos custos de produção e o desfavorecimento da taxa de câmbio, no Brasil, o que podemos observar ao longo desses últimos 7 anos é um incremento muito forte na demanda doméstica, na produção de carne ovina SIFada, assim como, nas importações, o que em conjunto, tem elevado bastante o consumo doméstico nas capitais e nos grandes centros urbanos do país. Isso tudo com o crescente aumento nas cotações do cordeiro doméstico ou a manutenção dos preços em patamares elevados.

Nesse ponto, o Brasil destoa em muito dos outros países e, analisando as possibilidades potenciais, a tendência a médio e longo prazo é de crescimento regular e firme.

Obrigado mais uma vez pelo comentário e irei considerar sua sugestão!!

Abraços,

Daniel
BRUNO FERNANDES SALES SANTOS

PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 08/07/2009

Olá Daniel,

Parabéns pelo artigo, como sempre com uma visão muito realista e bem embasada.

Gostaria de saber se o relativo conforto com relação à atual conjuntura de mercado e realidade de incremento dos preços, no Brasil, também refletem a atividade como um todo. O fato é que ainda importamos quase 9.000 tons de carne ovina por ano (MIC) ou o equivalente a quase U$ 27 milhões/ano que deixam de irrigar a economia do setor. Assim, o setor gera uma fortuna em dividendos que deixam o país e ainda temos a imensa maioria dos criadores praguejando contra a atividade, pois não conseguem obter retorno.

Ainda gostaria de envolver os chamados animais de "elite" que visivelmente apresentaram um decréscimo enorme em termos de comercialização, valores e etc (infelizmente não temos estatísticas confiáveis). Acredito que este furacão na economia mundial e o fato da boa situação do mercado de carne ovina no Brasil nos permite concluir que realmente compensa investir em uma indústria ovina bem estruturada e bem conduzida por quem realmente entende e está envolvido na cadeia.

Sugiro um artigo a respeito.....

Vamos à luta e parabéns pelo artigo mais uma vez!
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 23/06/2009

Olá Antônio Carlos,

Em geral, fora as variações sazonais características do mercado, o setor se mantém firme e aquecido. Estaremos elaborando uma análise desse primeiro semestre de 2009 no próximo artigo, onde poderemos ter uma visão mais detalhada da situação atual.

Obrigado por sua participação e, em breve, apresentaremos novidades!

Abraços,

Daniel
ANTONIO CARLOS GUIMARAES NOVAES

SANTOS - SÃO PAULO

EM 21/06/2009

Boa noite Daniel,

Gostaria de saber se o setor ovino continua pouco abalado pelos efeitos da crise, mantendo-se aquecido e sustentado os preços e a demanda em patamares elevados, mesmo tendo passado quase quatro meses de sua avaliação inicial, e tendo essa crise mundial se solidificado um pouco mais.

Fico no aguardo,

Antonio Carlos
NATANAEL JOAO DOS SANTOS FILHO

PROPRIETÁRIO DE CÃO/CÃES

EM 11/06/2009

Moro em outro país, no Japão, mas tenho acompanhado o mercado interno no Brasil, em especial as áreas de ovinos e caprinos, e vejo que a situação do Brasil é bem melhor que nos outros países, vejo também que muitos criadores devem se preocupar em melhorar a genética do seu rebanho e se organizar em sistemas de cooperativas, para então ter o seu produto devidamente valorizado no mercado interno. Achei muito interessante a materia, foi muito esclarecedora e que continuem assim nos informando de maneira tão brilhante! obrigado

Abraços
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 20/05/2009

Caros Samuel e Willian,

Muito obrigado por suas colocações!!

Abraços,

Daniel
WILLIAN PEREIRA DA SILVEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 17/05/2009

Análise oportuna e adequada, gostei muito, pois irá me ajudar a dar seguimento na minha analise de mercado, para o plano de negócio em ovinocultura de corte que estou desenvolvendo na faculdade.

Parabéns!
SAMUEL SOUZA

JABOTICABAL - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/05/2009

Caro Daniel;

Acredito que profissionais dedicados às análises de mercado estão cada vez mais escassos, portanto, parabenizo seu trabalho e empenho. É sempre bom contar com informações precisas e atualizadas!
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 30/03/2009

Olá Cyro,

Conheço um pouco sobre os sistemas de produção aí no Rio Grande e sei das dificuldades que são impostas ao setor por conta da sazonalidade da produção, mas há algumas opções para amenizar essas diferenças.

Uma boa fonte para adquirir informações sobre as cotações do cordeiro e de outros produtos agropecuários é o site da EMATER-RS.

Abraços,

Daniel
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 30/03/2009

Olá Gustavo,

Apenas posso lhe agradecer pelas palavras e por acompanhar nossos artigos.

Abraços,

Daniel
CYRO CALOVY FILHO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 27/03/2009

excelente trabalho, Daniel, sou agronomo , apaixonado pela ovinocultura, mas em minha região predomina sistemas antigos de produção extensiva e os preços praticados são bem abaixo do valor real pois estamos na mao dos frigorificos que dominam o setor nao havendo escala de produçao durante todo o ano e sempre falta produto no inverno durante os meses de junho e julho e sobra em dezembro onde os preços tem forte queda e a industria se provalece, gostaria de estabelecer contato e se por acaso nao possui dados a evolução de preços aqui na região sul do Brasil
GUSTAVO ANDRADE ROCHA

NATAL - RIO GRANDE DO NORTE - FRIGORÍFICOS

EM 26/03/2009

Prezado Daniel,

Tenho acompanhado sempre as suas análises e quero deixar os parabéns pela forma inteligente com que você vem escrevendo. Parabéns e continue assim.
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 26/03/2009

Olá Prof. Juan,

Obrigado pelas colocações!

Abraços,

Daniel
JUAN RAMON OLALQUIAGA PEREZ

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 26/03/2009

Análise oportuna e adequada.
Continuem assim para o bem da Ovinocultura nacional.