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Exame andrológico e avaliação da libido

POR MARIA EMILIA FRANCO OLIVEIRA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/04/2009

9 MIN DE LEITURA

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A importância da fertilidade do macho nos programas de reprodução é muito maior do que a de qualquer fêmea isoladamente, já que o macho pode se acasalar com número maior de fêmeas, tanto nos sistemas de monta natural como na inseminação artificial. Para evitar a ocorrência de problemas de subfertilidade ou infertilidade nos machos, que por sua vez, possam comprometer os índices de fertilidade do rebanho, os exames andrológicos se fazem imprescindíveis na seleção dos reprodutores e acompanhamento de seus desempenhos reprodutivos.

O exame andrológico completo fundamenta-se na avaliação de todos os fatores que contribuem para a função reprodutiva normal do macho. Por esse exame podem ser detectadas alterações do desenvolvimento do sistema genital, alterações regressivas, progressivas e inflamatórias nos diversos órgãos, bem como distúrbios na libido e na habilidade de cópula. Essas alterações levam tanto à incapacidade de fecundação como de monta, em vários graus, caracterizando quadros de subfertilidade ou de infertilidade masculina.

É comum observar a procura por essa ferramenta apenas em situações de problemas de fertilidade do rebanho. No entanto, essa avaliação deve fazer parte da rotina, no manejo reprodutivo das propriedades, sendo indicada na determinação da ocorrência de puberdade, na avaliação dos reprodutores antes da estação de monta, nos programas de colheita e conservação de sêmen e ainda, nas relações de comercialização dos reprodutores. Assim, o exame andrológico é indicado para prevenir ou diagnosticar problemas reprodutivos a fim de possibilitar a otimização do uso dos reprodutores.

Na realização da avaliação dos machos (comportamento sexual, exame clínico, exame andrológico, etc.), é de fundamental importância a colaboração de um médico veterinário com confiável qualificação e experiência na área. Para a condução dos exames deve-se adotar um formulário apropriado contendo a identificação completa do médico veterinário responsável, bem como a identificação do animal e do seu proprietário. O formulário deve conter ainda as especificações do exame clínico geral, do exame da libido, do espermiograma propriamente dito e a conclusão dos achados.

O exame clínico deve ser iniciado pela anamnese, que envolve a obtenção de informações a respeito do animal, a razão pela qual este está sendo examinado e os dados relacionados ao rebanho. As informações do período precedente ao exame são importantes, pois, a produção espermática é um processo contínuo e abrange cerca de 60 dias desde o início da espermatogênese até a ejaculação. No exame clínico geral, o animal deverá ser avaliado quanto à normalidade dos diversos sistemas (respiratório, circulatório, nervoso, digestivo e locomotor). O sistema locomotor merece atenção especial, devido sua importância tanto para caminhar em busca de alimento e para procurar por fêmeas em estro, como para efetuar a cópula. Caso seja detectadas alterações nos diversos sistemas, procedimentos específicos devem ser adotados.

Em seguida ao exame clínico geral, o sistema reprodutor deve ser examinado, iniciando-se pela inspeção e palpação dos órgãos genitais externos. O escroto deve ser avaliado quanto sua sensibilidade, mobilidade, temperatura e espessura da pele. Os testículos quanto à presença, forma, simetria, mobilidade, consistência e sensibilidade, devendo-se realizar a biometria, a qual varia de acordo com a idade e raça do animal. Os epidídimos devem estar intimamente aderidos aos testículos e as avaliações devem seguir os mesmos aspectos relacionados aos testículos. Os cordões espermáticos devem ser examinados quanto sua capacidade de termorregulação testicular. Já o prepúcio deve estar livre de aumentos de volume, prolapsos, abscessos, hematomas ou cicatrizes, principalmente que possam comprometer a exposição do pênis. Este último, por sua vez, deve ser examinado em repouso e ainda verificar sua capacidade de ereção pela manipulação da flexura sigmóide ("S" peniano) ou por estímulos à ereção espontânea ou induzida.

A impossibilidade de executar a palpação retal para avaliação dos órgãos genitais internos nos pequenos ruminantes é vencida pela ultrassonografia. Assim, a genitália interna deve ser avaliada quanto sua simetria, forma, volume e integridade do tecido. Esta ferramenta também pode complementar o exame dos testículos por possibilitar a detecção de lesões no parênquima testicular, como fibroses.

Dando continuidade ao exame andrológico completo, a avaliação do comportamento sexual é de fundamental importância, visto que o macho deve estar habilitado a detectar as fêmeas em estro e realizar a cópula completa, demonstrando capacidade de serviço. Neste sentido, o teste da libido possibilita a avaliação do comportamento sexual e pode se basear na criteriosa seqüência de pontuação desenvolvida para bovinos (tabela 1). O interesse sexual pode ser identificado pelos seguintes quesitos: identificação de fêmeas em estro; cheiradas; cabeçadas; lambidas; movimento de Flehmen; movimentos pélvicos e pingados de sêmen ou plasma seminal. Segundo Fonseca (1989), o macho pode ser classificado de acordo com a nota obtida no teste da libido: zero a três - questionável; quatro a seis - bom; sete a oito - muito bom e; nove a dez - excelente ou superior.

Este exame deve ser realizado em curral ou baia frente a um grupo de fêmeas (ex: cinco fêmeas sendo que duas devem estar em estro). O tamanho do curral ou baia deve ser baseado no tamanho do grupo de fêmeas, de modo que os animais possam se movimentar livremente, entretanto, sem que o macho necessite correr excessivamente e comprometa seu desempenho. A interpretação do teste da libido deve ser bastante criteriosa, considerando as condições de meio em que foi realizado, devendo o laudo acompanhar a citação do método utilizado.

Tabela 1. Teste de libido, segundo Osborne (1971), modificado por Chenoweth (1974).



A parte final do exame andrológico é a colheita e a análise de uma amostra representativa de sêmen. A colheita de sêmen pode ser realizada por eletroejaculação ou por vagina artificial. É importante considerar que a colheita por eletroejaculação é de certo modo um método estressante para os pequenos ruminantes e deve ser usada somente em casos de não treinamento do macho a colheita por vagina artificial ou falta de uma fêmea em estro para estimulá-lo. Vale ressaltar ainda, que existe uma grande variação na concentração e volume espermático relacionada ao método de colheita, logo este deve ser referido na ficha do exame.

Após a obtenção da amostra de sêmen, esta deve ser imediatamente avaliada quanto às características físicas. O volume do ejaculado é dependente do método de colheita e não existe valor mínimo ou máximo estabelecido. O aspecto qualitativo e quantitativo pode ser avaliado visualmente pela cor e aspecto. A cor é alterada devido à presença de urina, sangue ou pus; enquanto o aspecto pode ser classificado em aquoso, leitoso, cremoso-fino, cremoso e cremoso espesso. Esta classificação apresenta relação com a concentração espermática.

O turbilhonamento ou motilidade em massa é avaliada em microscópio óptico, com objetiva de 10 ou 20 vezes de aumento. Esta avaliação mede a intensidade de movimentação dos espermatozóides resultante da motilidade individual, do vigor e da concentração espermática. A escala de avaliação varia de zero a cinco, em que zero representa a ausência de movimento de massa e cinco, acentuada movimentação.

A motilidade é uma avaliação subjetiva do percentual de espermatozóides com movimentos progressivos. Esta é realizada em microscópio óptico com objetiva de 10 ou 40 vezes de aumento. O vigor deve ser avaliado concomitantemente, aferindo a intensidade de movimentação dos espermatozóides individualmente. A escala de avaliação também varia de zero a cinco, em que zero representa células paradas e cinco, movimento vigoroso e de alta velocidade.

A concentração espermática é representada pelo número de espermatozóides por unidade de volume ejaculado. O método mais comum é a contagem em câmara de Neubauer em microscópio óptico com objetiva de 10 ou 20 vezes de aumento. A concentração varia em função de fatores extrínsecos (método de coleta, freqüência de cópulas) e intrínsecos (idade, biometria testicular). Esta avaliação pode ainda ser realizada pelo espectrofotômetro, que fundamenta-se no emprego de fotocolorímetro, aparelho que permite medir a quantidade de feixe luminoso que passa por um volume de sêmen diluído em uma proporção estabelecida.

As características morfológicas ou patologias dos espermatozóides seguem uma classificação em defeitos maiores e menores, segundo a origem dos defeitos (tabela 2). Entretanto, para efeito de laudo deverá ser discriminada, individualmente, a incidência das anormalidades encontradas. Esta discriminação permitirá, a qualquer técnico, identificar as anormalidades e fazer sua interpretação própria do laudo. Para este exame é preparado um esfregaço o qual é corado e avaliado em microscopia óptica, sob imersão, com aumento de 1.000 vezes. É indicado complementar este exame, em microscópio com dispositivo de contraste de fase, por preparação úmida, ou ainda, o utilizar métodos de coloração específicos para determinadas partes dos espermatozóides. A técnica(s) utilizada(s) para avaliação da morfologia deverá ser referenciada no laudo técnico.

Tabela 2. Classificação morfológica segundo Blom, 1973.



A análise seminal pode ter seu resultado comprometido por erros na execução da técnica, desse modo, é importante que o técnico avalie essa possibilidade e repita a análise quando achar necessário.

O padrão seminal desejável para efeito de seleção de carneiros ou bodes para monta natural, segundo CBRA (1998) é: motilidade progressiva igual ou superior a 70%; vigor e turbilhonamento igual ou superior a 3 e; total de patologias espermáticas igual ou inferior a 20%. Para sêmen congelado-descongelado, o volume da dose deve ser superior a 0,15 ml; a motilidade progressiva igual ou superior a 30%; vigor e turbilhonamento igual ou superior a 3; patologias espermáticas, defeitos totais igual ou inferior a 20%, sendo os defeitos maiores igual ou inferior a 10% e; o número de espermatozóides com motilidade progressiva deve ser igual ou superior a 40 X 106 por dose.

Ao final do exame andrológico, de posse dos resultados do exame clínico geral, do comportamento sexual (avaliação da libido) e da análise seminal quanto às características físicas e morfológicas, o médico veterinário poderá classificar o macho como apto, inapto ou questionável.

A categoria "apto" ou "satisfatório" é usada para animais que atingirem ou ultrapassarem o limite mínimo recomendado para circunferência escrotal, motilidade e morfologia espermáticas, e não apresentarem qualquer característica física anormal ou razão que possa comprometer seu desempenho reprodutivo.

"Inaptos" ou "insatisfatórios" são aqueles machos que não atingirem o limite mínimo recomendado em uma ou mais características e para os quais é improvável que haja melhora na classificação. Nessa categoria também estão incluídos animais com defeitos genéticos ou problemas irreversíveis que possam comprometer seu uso como reprodutor. Na categoria "questionável", estão incluídos os machos que devem aguardar novos exames. Essa classificação é recomendada para machos imaturos ou que sofrem de um problema transitório que os impede de serem classificados como satisfatórios na época do exame, mas indica que o animal pode melhorar com a idade ou o período convalescente. Também inclui animais em que houve problemas na colheita de sêmen e que apresentam características seminais abaixo ou próximas dos limites mínimos e que podem melhorar em futuras avaliações.

Referências consultadas:

COLÉGIO BRASILEIRO DE REPRODUÇÃO ANIMAL. Manual para exame andrológico e avaliação de sêmen animal. 2a Ed. Belo Horizonte,1998. 49 p.

Barbosa, R. T.; Machado, R.; Bergamaschi, M. A. C. M. Circular Técnica, A importância do exame andrológico em bovinos, nº 41, EMBRAPA Pecuária Sudeste, São Carlos - SP, Dezembro - 2005

Fonseca, V. O. Puberdade, adolescência e maturidade sexual: aspectos histopatológicos e comportamentais. In: VII Congresso Brasileiro de Reprodução Animal, 1989, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: Colégio Brasileiro de Reprodução Animal, p.77-93, 1989.

MARIA EMILIA FRANCO OLIVEIRA

www.mariaemilia.vet.br

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RUDIVAL

EM 31/08/2017

Olá, bom dia. Adquiri um reprodutor Bôer e ao soltar junto a algumas cabras ele não exibiu interesse sexual. Isso teria uma explicação "aceitável" ou já seria preocupante?

Obrigado.
EWERTON HENRIQUE

SOCORRO - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 01/02/2010

No caso de orquiectomia unilateral, quanto o outro testículo compensará na produção de espermatozóides? Abraços
MARIA EMILIA FRANCO OLIVEIRA

JABOTICABAL - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 22/07/2009

Prezado Robert Ferreira Barroso de Carvalho,

O comportamento sexual pode sofrer alteração quando os animais são colocados em condições desfavorais ao seu bem estar. Grupo de machos quando colocados em um mesmo lote podem demonstrar comportamento de brigas e ainda disputa por dominancia, que podem ser marcados por comportamento homossexual.

Seu questionamento está relacionado com outros dois artigos tambem publicados nesse radar técnico: "Como determinar a relação macho:fêmea?" e "Comportamento Sexual - Machos e Fêmeas". Sugiro que dê uma lida.

Agradeço por sua participação.

Estou a disposição para outros questionamentos.
ROBERT FERREIRA BARROSO DECARVALHO

SÃO LUÍS - MARANHÃO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/07/2009

os caprinos quando a relação: fêmea está desproporcional, pode ocorrer comportamento homossexual com os machos. Este comportamento é verificado nos ovinos?
MARIA EMILIA FRANCO OLIVEIRA

JABOTICABAL - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 22/05/2009

Prezado Marcelo Gomes Steiner,

Os macho ovinos apresentam, em geral, boa libido, demonstrada por grande interesse sexual e capacidade de ejacular sucessivas vezes a intervalos relativamente curtos.

O tempo gasto entre montas é bastante variável entre os indivíduos, quando observamos animais que demoram aproximadamente 1 minuto ou até menos, enquanto outros chegam a demorar 20-30 minutos.

Intervalo superior a 30 minutos, desqualifica a libido do animal. Em média, o tempo esperado para o retorno do interesse e nova cobertura é de até 15 minutos. Assim, o tempo total do teste da libido deve ser de 45-60 minutos, sendo possível avaliar, com cuidado, o comportamento sexual dos animais.

Quanto ao tamanho da mangueira para realização do teste, menor seria mais interessante, para evitar o cansaço excessivo do macho, o que comprometeria seu interesse e desempenho sexual.

Agradeço sua participação e coloco-me a disposição para mais esclarecimentos.

Maria Emilia F. Oliveira
MARCELO GOMES STEINER

SANTIAGO - RIO GRANDE DO SUL - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 21/05/2009

Excelente artigo, bastante interessante!

Porém fiquei com duas dúvidas. Para a realização do teste, qual o intervalo de tempo entre as montas ou serviços para a avaliação, ou qual o tempo total do teste?

Segunda, para este mesmo número de animais uma mangueira de 300 m² está de bom tamanho, ou menor seria melhor?