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Entendendo o sistema agroindustrial da carne ovina no Brasil

POR DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

PRODUÇÃO

EM 09/02/2010

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Sistema agroindustrial ou cadeia produtiva pode ser definido como uma rede de interrelações sob diversos e variados níveis entre os agentes ou elementos institucionais que compõem, de alguma forma, o fluxo de produção de um determinado produto final, desde a sua produção primária até seu consumo.

Nesse sentido, os produtos pecuários ovinos fazem parte de uma cadeia de valor que se inicia com a indústria de insumos e termina com o consumidor final, passando pela produção, industrialização e distribuição desses produtos.

A Figura 1 ilustra o sistema agroindustrial (SAG) da carne ovina brasileira, com os seus principais agentes, à montante ou "antes da porteira", responsáveis pela produção de insumos e fatores de produção (máquinas e implementos, tratores, fertilizantes, concentrados, suplementos, vacinas e medicamentos, etc.), no centro ou "dentro da porteira", responsáveis pela produção (animais para abate) e à jusante ou "depois da porteira", incumbidos do processamento, industrialização, distribuição, comercialização e consumo dos produtos.

Figura 1 - SAG da carne ovina brasileira.



Os agentes que atuam no SAG mantêm uma relação controversa, que por um lado, buscam a cooperação objetivando a sobrevivência do sistema, e por outro lado, entram em conflito disputando margens ao longo do processo, mantendo uma situação de interdependência a fim de garantir a competitividade individual no mercado, assim como, a sustentabilidade de todo o sistema.

Setor produtivo e relações de concorrência

O mercado da carne ovina é um mercado de commodity, que se caracteriza por possuir margens estreitas, apesar da carne ovina ser a de maior valor no mercado nacional e internacional, quando comparada às carnes bovina, caprina, suína e de frango, conforme a Tabela 1.


Tabela 1 - Preços médios pagos ao produtor por quilo de peso vivo, 2009.



No entanto, a partir do momento em que o produto avança para a extremidade direita da cadeia ou para o seu ponto final, seu valor agregado aumenta (Figura 1), favorecendo o setor varejista, que apresenta grande poder de coordenação do sistema, uma vez que possui um elevado poder de barganha e as melhores margens, além de se encontrar mais próximo do consumidor, estando mais bem informado quanto às suas preferências.

Por outro lado, ao refazer o percurso para a extremidade esquerda da cadeia, o valor agregado do produto é continuamente reduzido, resultando em um processo de diluição financeira das margens ao longo dos elos, estreitando, assim, os resultados econômicos do setor produtivo.

Nesse sentido, o Gráfico 1 ilustra tal processo de agregação de valor do produto ao longo da cadeia, uma vez que entre o preço pago ao produtor pelo frigorífico e o preço pago pelo consumidor no varejo há uma diferença percentual média nos preços de 163%.

Gráfico 1 - Preços médios do quilo de carcaça pagos ao produtor e no varejo, 2009.



A Figura 2 busca ilustrar as relações de concorrência entre os diversos agentes do SAG, havendo uma alternância entre oligopólios (situação onde há um número pequeno de vendedores para um grande número de compradores) e oligopsônios (situação onde há um grande número de vendedores para um número pequeno de compradores) ao longo da cadeia produtiva.

Figura 2 - Caracterização das relações de concorrência entre os elos do SAG da carne ovina.



Dessa forma, o produtor está localizado em um ponto da cadeia onde é pressionado por oligopólios (indústria de insumos) e oligopsônios (frigoríficos), sendo, naturalmente, o elo mais fraco. Além disso, existe uma tendência natural de concentração de forças em economias de mercado que acomete, em maior ou menor grau, todos os elos da SAG, porém, favorecendo os grandes grupos ou organizações, que tendem a se encontrar "antes" e "depois da porteira", uma vez que o setor de produção é altamente pulverizado e individual, com cerca de 80% dos 13,8 milhões de ovinos que compõem o rebanho nacional estando concentrados em propriedades de até 200 hectares (ha), dentre o qual mais da metade em propriedades com menos de 50 ha.

Porém, a fim de ampliar as suas margens e garantir melhores resultados, o setor produtivo, como o elo central da cadeia, terá de viabilizar um processo de incorporação de tecnologias e de ferramentas de gestão, adotando e aplicando estratégias que adicionem valor à empresa, incrementem seu poder de barganha, maximizem os resultados produtivos e garantam maior rentabilidade.

Indústria de insumos

Neste segmento, nos últimos anos, maior atenção e volume de investimentos têm sido direcionados ao segmento de ovinocultura de corte, o que pode ser traduzido por meio do lançamento, no mercado, de uma variedade cada vez maior de produtos específicos para a espécie ovina, dentre os quais, suplementos nutricionais, medicamentos, vacinas e equipamentos.

Como um elo localizado no ponto inicial da cadeia, a indústria de insumos forma uma exceção nesse cenário. Embora com produtos diversos que apresentam níveis variados de qualidade e tecnologia, além de uma considerável concorrência entre as organizações envolvidas, o setor de insumos, de natureza oligopólica, é um dos poucos, senão o único, que conta com a possibilidade de estabelecer preços para os seus produtos, podendo assim, regular melhor as suas margens.

Indústria frigorifica

Os frigoríficos por sua vez, sofrem forte pressão do segmento varejista e, subsequentemente, pressionam o setor produtivo. No entanto, a agroindústria tem sido eficiente em desenvolver estratégias para aumentar suas margens frente ao varejo e driblar o seu elevado poder de barganha, por meio do fornecimento de uma variedade de cortes especiais, do desenvolvimento de marcas próprias, da parceria com os próprios canais de distribuição, da comercialização direta com os canais de consumo (como restaurantes e churrascarias) e, especialmente, por meio da evolução em logística, tecnologia e estrutura empresarial, incorporando a função do atacadista.

Porém, a sazonalidade da produção associada à baixa escala de produção existente "dentro da porteira" compromete a competitividade deste segmento, ocasionando ociosidade das instalações e aumento dos custos de produção.

Ainda no setor de processamento, vale ressaltar a imensa participação do mercado informal ou clandestino, que está associada à uma rede de relações comerciais existente, principalmente, no interior do país e no meio rural, naturalmente caracterizada pela informalidade no processamento, industrialização, distribuição e comercialização dos produtos pecuários, assim como, à marcada presença do autoconsumo.

O nível de informalidade dentro da SAG da carne ovina doméstica não é inferior a 92%, considerando que em média, atualmente, apenas 7% do total produzido é processado sob condições de SIF (inspeção federal) ou SIE (inspeção estadual) - sob o qual se encontra a grande maioria das plantas frigorificas especializadas.

Varejo

No que se refere à distribuição da carne ovina no mercado interno, a mesma é realizada por meio de açougues e feiras livres, especialmente nas cidades menos urbanizadas do interior do país, e por meio dos super e hipermercados, delicatessens e boutiques de carne, nas capitais e grandes centros urbanos.

Dessa forma, tratam-se de canais com diferentes níveis tecnológicos, sanitários e comerciais, e que suprem a demanda existente em dois tipos distintos e característicos de cadeia produtiva ou sub-cadeia: a formal e a informal (clandestina).

Adicionalmente, muitos desses canais de distribuição, assim como alguns frigoríficos e canais de consumo, atuam na importação de diversos produtos cárneos ovinos (peças sem osso, peças com osso, carcaças, meias-carcaças e animais vivos) a partir de países como Uruguai, Argentina e Chile, objetivando suprir a forte e crescente demanda doméstica, sobretudo urbana.

Como é o elo que se encontra em contato direto com o consumidor, o varejo tem a possibilidade de perceber o nível de aceitação de produtos pelo público, assim como, as tendências e alterações de hábitos de consumo, o que lhe dá grande capacidade de coordenação da cadeia e elevado poder de barganha sobre os outros elos.

Consumidor

O consumidor é o agente direcionador de tendências e mantedor financeiro de todo o sistema agroindustrial, uma vez que, em troca de bens e serviços, o mesmo fornece informação (sobre suas demandas) e capital - os dois principais insumos que dão sustentabilidade a toda a cadeia produtiva.

Dentro do SAG da carne ovina, é possível diferenciar dois perfis de consumidores:

a) o consumidor que tem acesso à carne ovina por meio das feiras livres, açougues, mercados de bairro e pelo autoconsumo, e logo, está inserido na sub-cadeia informal ou clandestina, sendo geralmente pertencente às classes de renda C e D.

b) o consumidor localizado nas capitais e grandes centros urbanos que procura um produto diferenciado com maior conveniência e qualidade organoléptica e sanitária, e que tem acesso ao mesmo via super e hipermercados, delicatessens, boutiques de carne e restaurantes, estando inserido na sub-cadeia formal e que pertence, comumente, às classes de renda A e B.

Assim, o consumidor final é o propulsor de todo o sistema, mantendo o seu fluxo, o seu crescimento e desenvolvimento, de forma que, é no atendimento de suas demandas ou necessidades que as ações dos diversos agentes da cadeia produtiva deverão estar fundamentadas e sincronizadas.

Considerações finais

Embora já tradicional nas regiões Sul e Nordeste, o SAG da carne ovina é uma cadeia relativamente nova nas outras regiões do país e esta passando por um importante e necessário processo de formalização, possuindo um enorme potencial de crescimento horizontal e vertical, desde que o seu desenvolvimento ocorra naturalmente, no ritmo imposto pelo mercado e de acordo com as necessidades e oportunidades de negócio existentes.

Os diversos segmentos da cadeia produtiva ovina devem buscar uma melhor coordenação entre si, assim como, um maior equilíbrio na participação de seus principais agentes, no entanto, na realidade vigente e vindoura, melhores resultados só serão alcançados por meio de gestão estratégica, organização empresarial e aplicação de tecnologia.

Referências bibliográficas

ANDRADE, J.G. Introdução à Administração Rural, Lavras: UFLA/FAEPE, 2000. 75p.

GONÇALVES, A.C.P.; GONÇALVES, R.R.; SANTACRUZ, R.; MATESCO, V.R. Economia Aplicada, 7 ed., Rio de Janeiro: FGV, 2006. 156p.

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Agropecuário 2006 - resultados preliminares, Rio de Janeiro: IBGE, 2007. 146p.

REIS, A.J.; CARVALHO, F.A.P. Comercialização Agrícola no Contexto Agroindustrial, Lavras: UFLA/FAEPE, 1999. 194p.

REIS, R.P. Fundamentos de Economia Aplicada, Lavras: UFLA/FAEPE, 2002. 95p.

ZYLBERSZTAJN, D.; NEVES, M.F. Economia e Gestão dos Negócios Agroalimentares, São Paulo: Pioneira Thomson Learning, p.1-21, 2000.

DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

Médico Veterinário, MBA, D.Sc., especializado no sistema agroindustrial da carne ovina. Consultor da Prime ASC - Advanced Sheep Consulting.

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CESAR AUGUSTO BITTENCOURT DE MEDEIROS

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 24/07/2010

Embora a ovinocultura do RS ocupe um espaço significativo no mercado brasileiro, o sistema agroindustrial apresenta falhas que enfrequecem a cadeia como um todo e principalmente a sustentabilidade da ovinocultura ao longo do tempo. Teu artigo aponta com muita propriedade cada elo desta corrente bem como suas fragilidades. Sou produtor de ovino e junto com mais uma dezena de produtores começamos a discutir nossa atividade visando organiza-la e o artigo vem contribuir de forma exepcional pois vem confirmar pontos identificados por nós e vai mais alem ainda. Devo repassar a todos os participantes do grupo este artigo para fortalecer aida mais o trabalho que estamos iniciando, tornar a atividade da ovinocultura sustentavel e estável.
DANIEL DE ARAÚJO SOUZA

FORTALEZA - CEARÁ

EM 12/02/2010

Olá Nei,

Obrigado pela participação e pelas considerações pertinentes!!!

Abraços,

Daniel
NEI ANTONIO KUKLA

UNIÃO DA VITÓRIA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/02/2010

Parabenizo o autor pelo nível do artigo.
Muito oportuno as últimas palavras do referido artigo, gestão estratégica, organização empresarial e aplicação de tecnologia.
Gestão Estratégica: é preciso haver uma coordenação por parte dos elos, principalmente do produtor que deve ter visão de futuro e saber onde pode chegar e onde ele quer chegar.
Organização Empresarial: sim, a ovinocultura deve ser tocada como uma empresa, pois é uma empresa e precisa de anotações, informações, enfim gestão...
Aplicação de Tecnoclogia: o uso de tecnologias possibilita a maximização dos resultados econômicos para a propriedade.

E, a integração dos elos que envolvem a cadeia produtiva é de vital importância, pois é através do "feedback" entre as partes envolvidas que se poderá chegar a um produto final que atenda os diferentes paladares, e assim, possamos ter resultados satisfatórios para todos: produtor, comércio, consumidores...