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Diarréias "incuráveis" no confinamento

POR VICENTE DE FRANÇA TURINO

E HCOSTA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/01/2009

6 MIN DE LEITURA

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Você já se deparou com um grande surto de diarréia em seu confinamento de cordeiros? Essas diarréias eram fétidas e algumas vezes escuras (com sangue)? E você medicou com antibióticos consagrados, mas que não conseguiram curar o surto?

Cuidado, pois seus animais podem estar com Eimeriose.

Também conhecida como coccidiose (pois seu agente etiológico pertence à ordem Coccidia) a eimeriose é uma doença parasitária causada pelo protozoário do gênero Eimeria spp., sendo responsável por grandes perdas econômicas decorrentes do baixo desenvolvimento e até morte (raramente) de ovinos e caprinos.

O fato de alguns antibióticos não funcionarem para o tratamento é porque a Eimeria spp não é uma bactéria, mas sim um protozoário (parasita), o qual necessita de produtos específicos para combatê-lo.

De forma geral, índice de mortalidade geralmente é baixo. Entretanto, pode ocorrer elevada incidência de óbitos em animais jovens que não tiveram contato prévio com o agente e que foram repentinamente expostos a altas doses infestantes.

Para aqueles que se recuperam, a absorção de nutrientes é prejudicada, pois o parasita causa espoliação da mucosa intestinal, transformando-a em epitélio queratinizado (deficiente na absorção dos nutrientes).

A infecção é mais comum em animais jovens (criados em regime de estabulação ou em sistemas de pastejo com alta lotação), podendo ser adquirida logo após o nascimento (com menos de 4 semanas de idade) através de 3 fontes possíveis:

- coccídios que resistiram em fezes velhas, oriundas de cordeiros que ocuparam o local anteriormente;
- coccídios recentes, eliminados freqüentemente por animais adultos;
- coccídios recentes, eliminados pelos próprios cordeiros.

Animais adultos que apresentaram a doença quando jovens desenvolvem imunidade, entretanto, continuam eliminando oocistos (forma infectante da doença), constituindo uma fonte de infecção permanente.

O sistema de produção utilizado na propriedade é o fator que mais influencia as características da doença. Explorações intensivas e semi-intensivas apresentam maior freqüência da enfermidade, pois a forma de contaminação é através da ingestão dos oocistos, os quais são eliminados pelas fezes e ficam presentes nas pastagens, água ou cochos de alimentação. Portanto, quanto maior a lotação, maior a concentração de oocistos por área.

Os animais acometidos apresentam os seguintes sintomas:

- depressão
- pêlos secos e arrepiados
- sensibilidade abdominal
- febre
- perda de apetite
- diarréia usualmente fétida e com sangue, a qual permanece por vários dias (pode durar até 2 semanas)
- emagrecimento ou diminuição do potencial de ganho de peso

O diagnóstico é baseado nos sintomas, os quais podem ser seguramente confirmados pela contagem de oocistos, através do exame parasitológico de fezes (OPG).

Figura 1. Presença de oocistos de Eimeria spp. em exame parasitológicos de fezes.



Pesquisas na área de nutrição demonstram que cordeiros Santa Inês em confinamento possuem potencial para ganho de peso na faixa de 250 a 300 g/dia. Dois exemplos são os experimentos de Morais et al. (1999) e Susin et al (2000) onde foram conseguidos ganhos de peso de 297 e 268 g/dia, respectivamente.

Outros dois trabalhos com animais de mesma raça e rebanho foram conduzidos por Rocha et al. (2004) e Turino et al. (2007), sendo que, os resultados foram de 227 e 233 g/dia, respectivamente. Os autores de ambos os trabalhos afirmam que o ganho de peso dos cordeiros utilizados nos experimentos provavelmente seriam maiores se não houvesse ocorrido uma infestação por Eimeria sp (controlada através de intensificação da higienização das instalações e administração de droga coccidiostática), pois este parasita danifica a mucosa intestinal, resultando em uma reduzida absorção de nutrientes.

Para elucidar o impacto da eimeriose sobre o desempenho animal, será apresentado na Tabela 1 a média de ganho de peso e conversão alimentar de 60 cordeiros Santa Inês confinados (Turino, dados não publicados).

Estes dados são das pesagens intermediárias do trabalho publicado em 2007 (para a publicação não foram utilizados os dados intermediários).

Tabela 1. Desempenho de cordeiros confinados.



1 = GPD: ganho de peso (gramas/dia); CA: conversão alimentar;
2 = GPD e CA dos animais nos primeiros 28 dias de confinamento;
3 = GPD e CA dos animais entre os dias 28 e 56 de confinamento.

Logo no início do confinamento (período 1) ocorreu um surto de eimeriose (provavelmente devido à diminuição da resistência imunológica dos animais devido ao desmame e também pela não desinfecção das instalações do confinamento). Os animais foram medicados e houve grande controle da higiene das instalações deste ponto (final do período 1) até o encerramento do confinamento.

Observa-se que os cordeiros apresentaram ganho de peso 49,27% superior e conversão alimentar 20,19% menor (mais eficiente) no período 2 (situação em que os animais estavam com a doença controlada).

Em termos econômicos pode-se concluir que animais que possuem eimeriose acarretam prejuízos por aumentarem o custo do ganho de um kg de carne (conversão alimentar mais alta do que animais sadios), além de elevar os custos da propriedade com medicação.

A prevenção é feita por meio da adoção de medidas sanitárias, de manejo e pelo uso preventivo de drogas coccidiotásticas.

São indispensáveis a limpeza e desinfecção das instalações, comedouros e bebedouros.

Os animais devem ser separados de acordo com a idade e, sempre que possível, evitar grandes concentrações em pequenas áreas por longos períodos. Comedouros e bebedouros devem ser colocados de maneira a não se contaminarem com as fezes. A remoção de fezes e camas deve ser feita com freqüência para reduzir a disponibilidade de oocistos no meio ambiente.

O uso de coccidiostáticos na ração dos animais jovens também constitui boa forma de prevenção da enfermidade na fase mais susceptível dos animais.

Você está fazendo um bom controle da coccidiose em sua propriedade?

Para ter certeza de que sua prevenção não tem furos, acompanhe o check-list abaixo e pense no manejo sanitário e preventivo de sua propriedade:

- Meu rebanho criado em pastagem não está com lotação excessiva;
- Meus cochos de alimentação e água no confinamento e meus saleiros (no confinamento ou nos pastos) estão colocados em altura e posição que os animais não consigam defecar dentro deles;
- Nunca forneço qualquer tipo de suplementação (concentrados, volumosos ou minerais) no chão;
- Sempre forneço drogas anticoccidiostáticas na dieta de meus cordeiros em creep-feeding ou em confinamento;
- Faço desinfecção das instalações, dos cochos de alimentação e de água (cresol, amônia quaternária, vassoura de fogo) antes de iniciar meu confinamento;
- Faço higiene do assoalho, cocho de alimentação e água de meu confinamento pelo menos 2 vezes por semana durante a estadia de meus animais;
- Efetuo periodicamente exame parasitológico de fezes em todas as categorias de meu rebanho;
- Efetuo exame parasitológico de fezes antes da entrada de meus animais no confinamento para que eu possa diagnosticar que doença possa acometê-los e, caso necessário, intervir corretamente com medicação preventiva.

Confrontem seus sistemas de produção com as informações mencionadas e encontrem onde está(ão) a(s) falha(s) no controle da enfermidade.

Para finalizar é importante deixar a mensagem que DESINFECÇÃO e HIGIENE são as palavras-chave para aumento de lucro e minimização dos custos do controle da doença.

Referências

BLOOD, D.C.; RADOSTITS, O.M. Clínica Veterinária. 7 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.

MORAIS, J.B.; SUSIN, I.; PIRES, A.V.; OLIVEIRA Jr., R.C. Efeito do uso de diferentes níveis de concentrado em dietas com bagaço de cana-deaçúcar (Saccharum sp L.) hidrolisado sobre o desempenho de cordeiros confinados (Compact disc). In: SIMPÓSIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA USP, 7., Piracicaba, 1999. Anais. Piracicaba: FEALQ, 1999.

ROCHA, M. H. M.; SUSIN, I.; PIRES, A. V.; FERNANDES Jr, J. S.; MENDES, C. Q. Performance of Santa Ines lambs fed diets of variable crude protein levels. Scientia Agrícola, v.61, n.2, p.141-145, 2004.

SUSIN, I.; ROCHA, M.H.M.; PIRES, A.V. Efeito do uso do bagaço de cana-de-açúcar in natura ou hidrolisado sobre o desempenho de cordeiros confinados (Compact disc). In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRAZILEIRA DE ZOOTECNIA, 37., Viçosa, 2000. Anais. Viçosa, 2000.

TURINO, V. F.; SUSIN, I; PIRES, A. V.; MENDES, C. Q.; MORAIS, J. B. Casca de soja na alimentação de cordeiros confinados: desempenho e características da carcaça. Ciência Animal Brasileira, v. 8, n. 3, p. 495-503, jul./set. 2007

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CECÍLIA JOSÉ VERÍSSIMO

NOVA ODESSA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/04/2009

A Unidade de Ovinos do Instituto de Zootecnia recomenda o uso do ionóforo monensina sódica no concentrado fornecido a cordeiros (e que também poderá também ser fornecido às ovelhas lactantes) na proporção de 25 a 40 ppm (gramas/tolnelada), desde o ano 2000 (Rebouças et al., 2001), com muito sucesso no controle da eimeriose em animais confinados.

Rebouças, M. M.; FEDERSONI, I.S.P.; VERÍSSIMO, C. J.; CUNHA, E. A.; BUENO, M. S.; OLIVEIRA, S. M.; SPÓSITO-FILHA, E.; LARA, M. A. C. Estudo da eimeirose ovina - animais criados em sistema intensivo.
MARCELO BARSANTE SANTOS

UBERABA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/04/2009

Excelente materia, muita gente pensa que o grande vilão do nosso setor é apenas a verminose e até desconhecem a Eimeriose ou simplesmente não conhecem ou não sabem como trata-la não dando importancia.

Atenção então quanto a profilaxia e tratamento da eimeirose

Marcelo Barsante - Zootencista - Neo Ovinos Consultoria Ltda
PAULO BASILEU DE OLIVEIRA

NATAL - RIO GRANDE DO NORTE - PESQUISA/ENSINO

EM 12/01/2009

Este artigo é de uma grande importancia para nossa pecuária, principalmente de Caprinos e Ovinos. Parabéns pelo ótimo trabalho.

O nosso estado (RN) possui um dos maioires planteis de ovinos deslanados do país, e nós para podermos desenvolver a nossa pecuária ainda mais, temos o grande auxilio de uma industria de sal mineral. Como sou Médico Veterinário ha tres décadas, tenho acompanhado de perto estes problemas de Eimeriose ou Coccidiose nos rebanhos que não utilizam o coccidiostático.

Temos o sal mineral específico para Caprinos e Ovinos com coccidiostático. Sou consultor de um grande projeto no RN que é a Fazenda São Joaquim do Sr. Bolivar Alverenga de Medeiros, com 6.000 (seis mil animais ovinos), com larga produção de cordeiros nobres, abatidos aos 110 dias com 13 kg de carcaça, sem problemas de diarréias incuráveis como chamou muito bem o Dr. Vicente e a Dra. Heni. em ótimo trabalho desenvolvido na área de sanidade.
GUSTAVO

GOIÂNIA - GOIÁS - FOOD SERVICE

EM 12/01/2009

Excelente artigo.
Lembrando sempre, consulte seu médico veterinário. Ele é a pessoa mais indicada pra elaborar um protocolo sanitária para sua criação.
Obrigado
ZUALDO GRADELA JUNIOR

CATANDUVA - SÃO PAULO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 09/01/2009

òtimo artigo, estamos precisando que mais alertas sobre a coccidiose sejam feitos, uma vez que essa doença traz muito prejuízo à pecuária nacional.
GRANJA SUASSUMÉ

PIEDADE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE CORTE

EM 08/01/2009

O segredo do sucesso não é nada misterioso: cuidados basicos de higiene. Bom artigo, claro, conciso e objetivo.