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Considerações sobre a caprinocultura de corte brasileira

POR SILVIO DORIA DE ALMEIDA RIBEIRO

E ANAMARIA CÂNDIDO RIBEIRO

PRODUÇÃO

EM 29/05/2006

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Os caprinos foram os primeiros animais capazes de produzir alimentos a serem domesticados pelo homem, a cerca de dez mil anos. Durante todo esse tempo, têm acompanhado de perto a evolução da humanidade, fornecendo alimento (leite e carne) e abrigo (pele e pelo). Estão presentes em inúmeros achados arqueológicos, passagens bíblicas, citações mitológicas e expressões folclóricas. Mas, apesar de tudo isso, raras vezes tiveram seu valor devidamente reconhecido.

Com a expansão da raça Boer, o interesse pela caprinocultura de corte tomou proporção jamais vista na caprinocultura de corte mundial. Porém, essa expansão tem estado muito mais associada à venda de animais puros para reprodução do que à produção de carne propriamente dita. Esse fenômeno vem se repetindo no Brasil, e uma verdadeira euforia vem cercando essa atividade.

Há muitas razões concretas para isso: grandes extensões territoriais com condições favoráveis à produção de alimentos e à criação dos caprinos, um rebanho razoavelmente numeroso, uma carne com características que vão ao encontro dos anseios dos consumidores modernos, um rebanho base de um porte razoável, dificuldades nas atividades agropecuárias tradicionais e um grande mercado acompanhado por uma forte demanda internacional que se contrapões a uma baixa oferta são apenas alguns exemplos.

Porém, para o desenvolvimento sustentável da atividade, muitos outros elementos devem ser adicionados à equação. A atividade só irá prosperar se evoluir como um todo, com os diversos elos da cadeia produtiva participando do processo, e se tratada como um agronegócio, com profissionalismo e uma visão empresarial e empreendedora. Esses conceitos vêm transformando as atividades pecuárias de interesse econômico e essa deve ser a tônica da caprinocultura de sucesso.

Quando se trata do "agronegócio da caprinocultura de corte", o objetivo não é necessariamente produzir mais cabritos ou kg de carne por área ou por matriz, mas sim, mais lucro. Logicamente, outros conceitos não devem ser esquecidos, como sustentabilidade do investimento, respeito ao ambiente e ao bem estar animal e responsabilidade social.

Com relação à "cadeia produtiva da caprinocultura de corte", deve estar clara a idéia de que ninguém está sozinho na atividade. A produção de caprinos envolve os fornecedores de insumos, serviços de extensão e pesquisa, abatedouros, açougues, supermercados, restaurantes, curtumes, indústria calçadista e de vestuário, chegando até o consumidor final, entre tantos outros elementos que poderiam aqui ser mencionados.

No meio de tudo isso está o caprinocultor, e talvez seja o segmento menos organizado, que menos tem evoluído, que menos tem se tecnificado, e, em conseqüência disso, o segmento que vem pagando as contas.

Quando se faz uma avaliação mais objetiva do desenvolvimento da atividade, e se buscam números que confirmem a sensação de euforia que se vê nas exposições e nos leilões, o quadro se torna preocupante. O consumo per capita brasileiro de carne de caprinos continua praticamente o mesmo nos últimos 45 anos. Mas, o que está acontecendo, então?

Parte da explicação pode ser dada pela fragilidade das estatísticas disponíveis, pela grande parcela de comercialização "informal" que ainda prevalece nessa atividade e por esse grande boom ser bastante recente, e ainda não ter chegado aos números disponíveis, que muitas vezes são gerados por simulações a partir de dados mais antigos.

Por outro lado, boa parte desse entusiasmo acontece entre os criadores de elite, que são os que participam dos leilões e das exposições, que têm capacidade de investimento e acesso à mídia, e conseguem mostrar para o público em geral as "maravilhas" dessa atividade. Essa visibilidade pode ser benéfica, pelo interesse que desperta, mas a caprinocultura de corte só se consolidará se esse trabalho for acompanhado pelo desenvolvimento da base da cadeia, pelo segmento que faz os animais que serão abatidos e consumidos.

É possível se ter algumas idéias do que fazer comparando o que vem acontecendo com a carne de caprinos e de peru nesses 45 anos. Essa comparação pode parecer estranha em um primeiro momento, mas, se considerado que são duas carnes que não fazem parte da mesa do brasileiro, cuja produção também não é tradicional entre nossos pecuaristas e que são carcaças de tamanhos comparáveis, ela passa a fazer bastante sentido. Na Figura 1 é apresentada a evolução do consumo per capita brasileiro dessas duas carnes, desde 1961 a 2005. Observa-se que em 1961 o consumo da carne caprina era cinco vezes maior do que o da carne de peru, invertendo essa proporção em 2005.


Figura 1. Consumo brasileiro per capita de carne de caprinos e de perus, de 1961 a 2005. Fonte: FAO (2006).

O que explica esse comportamento? Há, basicamente, três explicações:

- Produção: atualmente o peru fica pronto para o abate em muito menos tempo, tem uma maior proporção de peito e coxa e uma melhor conversão alimentar, entre outros fatores - o caprino de hoje é idêntico ao de quarenta e cinco anos atrás, e criado exatamente da mesma forma...

- Cortes e processamento: os frigoríficos que trabalham com peru chegam a ter três dezenas de produtos, desde a ave inteira até os cortes até embutidos como hambúrguer e presunto, passando por cortes como peito, coxa ou asa vendidos separadamente, por exemplo - o "bode" continua a ser comercializado em "bandas" ou, na melhor das hipóteses, em "quartos"...

- Marketing: propagandas nos mais variados veículos de comunicação associadas a orientações e soluções para o melhor preparo da carne de peru fazem com que o consumidor tome conhecimento de sua existência, saiba como e onde adquiri-la e se agrade ao consumir o produto, "sem risco de errar". Quais as formas de divulgação das propriedades da carne caprina e quem já viu campanhas publicitárias abrangentes indicando a melhor forma de prepará-la?

Algumas simulações feitas para a Região Sudeste indicam que, para alcançar o consumo médio mundial per capita de carne caprina, o rebanho dessa região deveria se multiplicar em 40 vezes. Se consideradas as perspectivas do mercado mundial, em especial dos países árabes, que frequentemente sondam a possibilidade de exportação do Brasil, evidencia-se um mercado ainda maior. Mas não se vive de mercado potencial e nem de simulações...

As perspectivas da caprinocultura de corte no Brasil são boas, contudo, maior atenção deve ser dispensada a toda a cadeia produtiva e a atividade precisa ser vista como um agronegócio. A partir do momento em que o caprinocultor se conscientizar disso, vai entender a importância da utilização de tecnologia mais adequada. Vai perceber que ao se reunir em associações e cooperativas ele beneficia o seu vizinho, mas também é beneficiado, e o mesmo vale para seus fornecedores e consumidores. Nesse tema, a álgebra não se confirma: um mais um é mais do que dois...

Como chegar a um novo lugar seguindo pelo mesmo caminho, sem experimentar uma nova estrada?

O caprinocultor precisa fazer a sua parte, se profissionalizando mas, acima de tudo, se organizando e se articulando. Os criadores de elite precisam se envolver com o desenvolvimento das criações comerciais de animais para abate, e todos os setores envolvidos com a caprinocultura de corte têm que participar da discussão e, principalmente, das ações em prol do futuro da atividade. A cadeia produtiva precisa se articular como um todo. Se cada segmento der o seu quinhão de colaboração, todos se beneficiarão e a atividade poderá, de fato, prosperar.

Literatura consultada

FAO - Disponível em: (www.fao.org). Acesso em 10 maio de 2006.

IBGE - Disponível em (www.ibge.gov.br). Acesso em 10 maio de 2006.
RIBEIRO, S.D.A. Caprinocultura: criação racional de caprinos. Nobel: São Paulo, 1997. 318p.

____________________________________
1Silvio Doria de Almeida Ribeiro, engenheiro agrônomo, mestre e doutor em zootecnia, professor da UNIPINHAL e UNIFEOB, consultor da Capritec e caprinocultor.

2Anamaria Cândido Ribeiro, engenheira agrônoma, mestre e doutora em zootecnia, professora da UNIPINHAL, consultora da Capritec e caprinocultora.

SILVIO DORIA DE ALMEIDA RIBEIRO

ANAMARIA CÂNDIDO RIBEIRO

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RODRIGO GREGÓRIO DA SILVA

LIMOEIRO DO NORTE - TOCANTINS - PESQUISA/ENSINO

EM 19/07/2006

Fico feliz quando vejo um comentário como esse a respeito de um assunto que me desperta grande atenção. Não seria diferente vindo desses autores. Para reforçar o exposto, menciono um fato ocorrido com nos no ano de 1999, quando compramos uma publicação, datada do ano de 1977, falando sobre as perspectivas da ovinocaprinocultura.

Ao final, o que foi visto é que nesses últimos 25 anos o que mudou foram as fotos dos animais, as pelagens e a raça da moda. Fico triste quando vejo o tamanho de orelha, ser ou não ser permitido um mancha aqui ou ali, ter ou não chifre, etc e se não for obtido pelo melhoramento, ser obtido pelo corte, tosa, raspagem, pelas aulas de natação ("garantia de aumento do potencial produtivo da carcaça da prole") ou pintura vir a frente de características relevantes em sistemas de produção de verdade.

Concordo com tudo o que foi mencionado no artigo, e fico esperando o dia em que vou ver um produtor, nos leiloes de genética "superior", apresentar resultados além dos ja mencionados (o bicho é cobridor, pesa 130 kg, num tem batoque, esse animal tem preço de xxxxxxxxxxxxx (será que vale?), etc) mas sim que o uso desses animais vai resultar em elevação da produtividade, da rentabilidade do negocio da carne nas fazendas produtoras de carne.

Atenciosamente,

Rodrigo Gregório da Silva
Engº Agrônomo
Mestre em Zootecnia