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Clonagem Animal, mais que uma década de mística

VÁRIOS AUTORES

PRODUÇÃO

EM 29/09/2009

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A partir do meio do século passado, a clonagem animal passou do campo da ficção científica para o da ciência de fato. Experimentos iniciais foram realizados com anfíbios e, quebraram um dogma da biologia do desenvolvimento, de que durante o processo de diferenciação celular, o núcleo destas sofria modificações irreversíveis e que seria impossível produzir um animal clonado a partir de células diferenciadas. Utilizando células intestinais de um girino, foi possível produzir um sapo adulto, demonstrando que as modificações que o núcleo celular sofria durante o processo de diferenciação celular não eram irreversíveis, e este mantinha a informação necessária para produzir um novo animal.

Após a quebra deste dogma, outra questão entrou em pauta: Seria possível produzir clones de mamíferos usando células adultas?

Cerca de quatro décadas depois, no ano de 1997, Ian Wilmut, Keith Campbell e colaboradores do Instituto Roslin, na Escócia, anunciaram o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro clone de um mamífero adulto, utilizando a técnica chamada de Transferência Nuclear de Células Somáticas, ou popularmente Clonagem.

Esta técnica consiste na introdução de uma célula somática de um animal adulto dentro de um oócito (também conhecido como óvulo) do qual o núcleo foi retirado, este oócito reprograma o núcleo contido na célula, tornando o semelhante a um zigoto, um embrião se desenvolve a partir deste zigoto, e após a transferência para o útero de uma fêmea receptora, ou "barriga de aluguel", é produzido um animal idêntico aquele que doou a célula somática para utilizar no processo de clonagem.

Após o nascimento da ovelha Dolly, ocorreu uma revolução na clonagem animal, e outras dezessete espécies de mamíferos já foram clonados até o momento, desde camundongos até primatas não-humanos. Apesar deste sucesso em repetir o experimento, outras inúmeras questões foram levantadas e muitas dúvidas e místicas permanecem na mente das pessoas.

Os animais clonados envelhecem mais rápido? Os animais clonados são seguros para o consumo humano? Os animais clonados são saudáveis? Os animais clonados são idênticos aos originais? Porque clonar um animal? Estão entre as dúvidas mais freqüentes e serão discutidas.

Os animais clonados envelhecem mais rápido?

Esta é sem dúvida a questão mais presente na mente das pessoas. Ainda jovem, com apenas seis anos de idade, a ovelha Dolly começou a sofrer de uma doença pulmonar progressiva, que ocorre em animais com idade avançada. Após o progresso da doença, os pesquisadores decidiram sacrificá-la, e uma pergunta foi feita: os animais clonados de células adultas teriam no nascimento a idade do animal adulto que doou a célula para a clonagem? A resposta é não.

Outros animais clonados que nasceram após a Dolly não apresentaram este envelhecimento precoce, além disso, experimentos posteriores mostraram que os oócitos (óvulos) tem a capacidade de rejuvenescer a célula adulta utilizada como doadora de núcleo, tornando a semelhante ao de um animal jovem. O oócito consegue isto restabelecendo os telômeros ("espécie" de protetor dos cromossomos, que são encurtados a cada ciclo celular), ou seja, em uma célula velha, o comprimento dos telômeros é menor, após a transferência para o oócito este alonga os telômeros e a célula passa a ter um telômero do tamanho de uma célula jovem.

Provavelmente o envelhecimento precoce tenha ocorrido devido aos métodos que os cientistas usaram para cultivar a célula, estes já foram aperfeiçoados, e atualmente não há relatos de envelhecimento precoce em animais clonados. Porém ainda é cedo para responder esta pergunta para todas as espécies, em bovinos e eqüinos mais alguns anos são necessários, visto que o tempo de vida destes animais é maior em relação a outros já analisados como camundongos.

Os animais clonados são seguros para o consumo humano?

Dentre todas as espécies animais clonadas até o momento, muitas são usadas na alimentação humana, como bovinos, ovinos, caprinos, suínos. E é natural que o consumidor tenha receio no consumo destes animais, pois eles são oriundos de um método de reprodução in vitro, ou seja, produzidos no laboratório; embora na natureza tenhamos naturalmente a ocorrência de clones, que são os gêmeos univitelínicos ou idetincos. Tudo que deixa de ser "natural", leva a preocupação.

Alguns têm aversão à clonagem por questões religiosas e/ou filosóficas, os quais devem ser respeitados por sua opção. No entanto, há aqueles que são preocupados com a qualidade da carne/leite oriunda destes animais.

A maneira de assegurar que estes produtos (carne e leite) são seguros para o consumo humano é através da análise destes e comparação com animais oriundos de fertilização natural ou inseminação artificial.

Diversas agências sanitárias, órgãos de inspeção e laboratórios ao redor do mundo já fizeram estas análises, seja alimentando ratos por longos períodos com carne/leite de animais clonados, ou mesmo diretamente no alimento, observando cor, textura, sabor, composição química, propriedades físicas.

Os resultados obtidos mostraram que não há diferença entre a carne/leite de animais clonados e aqueles produzidos por fertilização natural ou inseminação artificial, por isso, são seguros para o consumo humano.

No entanto, cada país vem adotando a sua legislação própria, alguns liberando o consumo de animais clonados, outros apenas o consumo dos filhos destes, enquanto outros exigem que no rótulo dos produtos venha a indicação de que são produtos provenientes ou filhos de clones, o que é correto, pois o consumidor deve estar ciente da procedência dos produtos que consome.

Os animais clonados são saudáveis?

Embora a eficiência da Transferência Nuclear (Clonagem) tenha melhorado significativamente desde o nascimento da Dolly, há ainda relatos de muitas anormalidades nos animais clonados, principalmente na infância destes, levando a altas taxas de morbidade e mortalidade perinatal.

Menos de 10% dos embriões clonados transferidos para o útero de uma receptora desenvolvem se a termo, e a eficiência varia entre 2 a 9% para a produção de animais adultos, observando se na literatura extremos como 0 a 45%.

Concluindo, apesar de a baixa eficiência ser um entrave para o amplo emprego desta técnica, os animais que sobrevivem a este período crítico perinatal, apresentam parâmetros de saúde, peso, fertilidade, comportamentos semelhantes a animais produzidos por fertilização natural ou inseminação artificial. Estas observações de que os animais clonados são saudáveis em idade adulta, encorajará cada vez mais criadores que possuem animais de alto mérito genético ou grande valor sentimental, no caso de animais de estimação, a clonarem seus animais.

Os animais clonados são idênticos aos originais?

Geneticamente sim, fenotipicamente não, apenas muito semelhante. Os gêmeos idênticos humanos, que são clones naturais, com o passar do tempo tornam-se distinguíveis um do outro. O mesmo ocorre com animais clonados, o fenótipo que estes manifestam é decorrente da interação entre o genótipo (carga genética) destes, mais a influência do meio ambiente. Quando se produzem várias cópias de um mesmo animal, estes desenvolvem se em ambientes uterinos diferentes, e estas variações que os animais são expostos durante a gestação, mais as condições do ambiente experimentadas pós nascimento são responsáveis pelas diferenças observadas nestes.

Em animais estas variações são facilmente vistas, em virtude de animais possuírem algumas características como pelagens, formato e implantação de chifre, dentre outras, que comumente diferem entre o animal clonado e o original, fazendo com que algumas pessoas duvidem que aquele animal realmente seja um clone.

Outro ponto importante é o temperamento, apesar de este ser parcialmente herdado nos clones, ele é em grande parte determinado pelo manejo a que o animal é submetido. Esta observação tem uma importância, por exemplo, para criadores que desejam clonar touros de rodeio, e que estes venham a ser como os originais. O intenso cuidado que estes animais clonados recebem no nascimento, sendo às vezes criados com "mamadeira", e posteriormente sendo expostos aos seus tratadores e grande número de pessoas em exposições agropecuárias, faz com que estes tenham um temperamento mais dócil, e acostumados com pessoas, frustrando as expectativas do criador que desejaria, a princípio que este fosse como o original nas arenas.

No entanto, a clonagem pode ser benéfica para donos de animais de rodeio que perderam subitamente seus animais ou deixaram poucas doses de sêmen armazenadas. A clonagem destes animais pode disponibilizar novamente o material genético para a comercialização, ou mesmo para o próprio criador produzir filhos destes touros.

Porque clonar um animal?

A clonagem animal pode ser usada para gerar múltiplas cópias de um animal de elite (genética superior, ou animal melhorador) acelerando o melhoramento genético do rebanho. Também pode ser usada para ressuscitar animais de alto valor que sofreram acidentes ou morreram subitamente, ou mesmo animais de estimação devido ao grande valor sentimental.

Outra importância da clonagem é a preservação de espécies ameaçadas de extinção, ou aquelas em que a reprodução é difícil de ser realizada em cativeiro. Após a produção de algumas cópias estes podem ser reintroduzidos na natureza, e se reproduzirem normalmente restabelecendo a população original.

Para a saúde humana, a clonagem proporciona a produção de proteínas farmacêuticas em animais transgênicos, seja no sangue ou no leite destes. Diversas proteínas de grande impacto para seres humanos estão sendo atualmente produzidas em biorreatores (como são chamados os animais transgênicos que produzem proteínas humanas). Insulina, Hormônio do Crescimento, Albumina, Trombina, Fatores de Coagulação Sanguíneo, Anticorpos que combatem o Câncer, são alguns exemplos. Para se ter uma idéia, apenas algumas vacas transgênicas, dez a quinze, seriam suficientes para produzir toda a insulina que o Brasil necessita para tratar os diabéticos.

A clonagem animal também tem se tornado uma importante ferramenta no laboratório de pesquisa básica, para o estudo da função gênica, "imprinting" genômico, reprogramação da cromatina, regulação do desenvolvimento, bem como muitas áreas científicas relacionadas.

Conclusão

A clonagem animal tem potencial para responder alguns dos maiores mistérios do desenvolvimento humano e de doenças. Também é útil para a saúde humana com a produção de proteínas farmacêuticas ou mesmo o uso de xeno-transplantes (transplante de órgãos de animais para humano), para a preservação de animais em risco de extinção e de animais de grande valor genético.

É necessário delinear experimentos científicos mais racionais para tornar a técnica de clonagem com a eficiência semelhante a fertilização in vitro, para permitir o seu amplo uso na pecuária.

Doze anos se passaram desde o nascimento da ovelha Dolly, muitas questões já foram respondidas, como a mística do envelhecimento precoce, a saúde dos animais clonados, e a segurança da carne e leite para o consumo humano. Entretanto este tempo não foi o suficiente para responder a longa lista de questões e temos muito trabalho pela frente.

Referências Bibliográficas

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Cibelli, J. 2007. A decade of cloning mystique. Science. 316: 990-992.
Echelard, Y. et al. 2009. Production of recombinant albumin by a herd of cloned transgenic cattle. Transgenic Research. 18: 361-376.
Fox, JL. 2008. Cloned animals deemed safe to eat, but labeling issues loom. Nature Biotechnology. 26: 3, 249-250.
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Lanza, R. et al. 2001. Cloned cattle can be healthy and normal. Science. 294: 1893-1894.
Panarace, M. et al. 2007. How healthy are cloned and their progeny: 5 years of field experience. 67: 142-151.
Yamaguchi, M. et al. 2008 A 12-Month feeding study of reproduction/development in rats fed meat/milk powder supplemented diets derived from the progeny of cloned cattle produced by somatic cell nuclear transfer. Journal of Reproduction and Development. 54: 321-334.
Yang, X. et al. 2007. Risk assessment of meat and milk from cloned animals. Nature Biotechnology. 25: 1, 77-83.

JULIANO RODRIGUES SANGALLI

ROBERTA MACHADO FERREIRA

Formada em Medicina Veterinária pela UNESP de Jaboticabal em 2005. Metrado em Reprodução Animal pela mesma Universidade. Atualmente, finalizando o doutorado na USP de SP sob orientação do prof. Dr. Pietro Sampaio Baruselli.

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HENDERSON AYRES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 16/10/2009

Prezado Luiz Antonio de Oliveira

Obrigado pelas colocações.
HENDERSON AYRES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 16/10/2009

Prezado Javier Ortiz Terceros

Obrigado pelos comprimentos.
LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA

TERESÓPOLIS - RIO DE JANEIRO

EM 14/10/2009

Este ainda é um assunto que provoca muitas duvidas!
Parabéns pelo artigo, com certeza vai ajudar esclarecer algumas interroagações que estão presente até mesmo na vida dos "tecnicos"
JAVIER ORTIZ TERCEROS

SANTA CRUZ DE LA SIERRA - SANTA CRUZ - PESQUISA/ENSINO

EM 02/10/2009

Felicitaciones por el excelente articulo.











































HENDERSON AYRES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 02/10/2009

Prezado Humberto de Freitas Tavares

muito obrigdo pelos comentarios.
HUMBERTO DE FREITAS TAVARES

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 01/10/2009

Excelente artigo, responde a muitas de nossas dúvidas, leigos interessados que somos.

Cumprimentos ao autor. Cumprimentos ao BeefPoint.