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Alternativas para uma caprinocultura sustentável

POR CAMILA RAINERI

E AUGUSTO HAUBER GAMEIRO

PRODUÇÃO

EM 31/05/2010

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No artigo deste mês abordamos algumas alternativas e ideias para o pequeno criador de caprinos garantir a viabilidade do seu negócio, inclusive a longo prazo. Tomamos como base três artigos publicados no periódico Small Ruminant Research, volume 89. Esta edição da revista foi dedicada aos tópicos discutidos na 9ª Conferência Internacional sobre Caprinos, realizada no final de 2009 no México, que enfocou principalmente o tema da sustentabilidade na caprinocultura.

Pretendemos posicionar a caprinocultura no contexto da crescente preocupação com a exploração sustentável da atividade agropecuária, destacando as importantes contribuições que cabras e bodes podem oferecer para o tema, bem como os desafios que os caprinocultores devem enfrentar nos próximos anos.

O trabalho de Peacock e Sherman apresentou algumas questões-chave que afetarão cada vez mais a caprinocultura no século 21 e adiante, uma lista de aspectos a serem considerados para se diagnosticar a sustentabilidade de uma criação de caprinos. O artigo de Lu, Gangyi e Kawas apresenta a produção orgânica como uma alternativa para agregar valor a criações menos intensivas. A palestra de Devendra destaca alguns dos desafios a serem enfrentados no futuro.

Primeiramente, é importante definir o termo "sustentabilidade". Desenvolvimento sustentável é uma forma de uso dos recursos disponíveis que objetiva satisfazer as necessidades humanas enquanto se preserva o meio ambiente, para que tais necessidades possam ser satisfeitas não apenas hoje, mas também no futuro. Ou seja, é a forma de desenvolvimento que satisfaz as necessidades atuais sem comprometer a possibilidade das próximas gerações de satisfazer as suas. Assim, a caprinocultura sustentável pode ser definida como a capacidade de produzir cabras e seus produtos para satisfazer as necessidades humanas no presente e no futuro.

Neste sentido, devem ser considerados fatores ambientais (uso da energia, conservação da biodiversidade, manejo do solo e da água, qualidade do ar, etc.), econômicos (políticas de trocas justas, acesso aos mercados, demanda pelos produtos, créditos, financiamentos, etc.) e sociais (fatores culturais, tradições, política, sociedade civil).

Vários acontecimentos e tendências globais podem afetar negativamente ou positivamente os sistemas de produção de caprinos, e os produtores precisam estar atentos. Alguns deles são o aquecimento global, os custos crescentes da energia e dos grãos, o crescimento da população humana e as mudanças de suas dietas, o crescimento dos rebanhos de animais de criação e a degradação ambiental. Como estes fatores podem afetar a caprinocultura? O que torna os criadores de caprinos mais resistentes ou mais sensíveis às oportunidades e desafios que estão surgindo?

Os animais de exploração pecuária, inclusive os caprinos, interagem com o ambiente de diversas formas. Recentemente o impacto negativo das criações sobre o ambiente tem sido enfatizado, muitas vezes de forma errônea e tendenciosa. A maior parte destes danos é causada por produções intensivas nos países desenvolvidos. No entanto, a vasta maioria dos caprinos ao redor do mundo é criada em sistemas extensivos ou semi-intensivos, com impacto ambiental relativamente pequeno.

Estima-se que 1/3 das culturas no planeta são cultivadas para a alimentação dos animais, especialmente dos não ruminantes. O consumo crescente de alimentos de origem animal por parte das populações dos países em desenvolvimento demanda cada vez mais direcionamento da produção de cereais para a pecuária, o que implica no aumento da produção de grãos através do aumento de áreas destinadas para este fim e de ganhos em produtividade.

Para cerca de 100 milhões de pessoas em áreas áridas, e possivelmente um número similar em outras áreas, a criação de animais a pasto é a única forma de sobrevivência possível. Estes animais podem melhorar a cobertura vegetal do solo e favorecer o aumento da biodiversidade através do controle de ervas daninhas e da dispersão de sementes pelas fezes e cascos. O pisoteio racional pode estimular o enraizamento das forragens, melhorar a germinação das sementes e quebrar áreas rígidas do solo.

Por outro lado, altas lotações prolongadas de bovinos e ovinos sem dúvida contribuem para a compactação e erosão do solo, redução da fertilidade e da capacidade de reter água, para o desaparecimento das forrageiras e invasão de plantas daninhas arbustivas e menos palatáveis. Estas são, por sua vez, as preferidas pelos caprinos, que podem ser utilizados em seu controle.

Portanto, um desafio é identificar políticas e tecnologias para explorar os aspectos positivos e minimizar os efeitos negativos do pastejo, de forma que a se conquistar um desenvolvimento equilibrado.

Em relação à água, que tende a se tornar cada vez mais escassa no mundo exigindo um uso mais racional, a produção de caprinos apresenta outra vantagem: os caprinos são uma das espécies que melhor utilizam este elemento. Utilizar a água de regiões áridas e semiáridas para possibilitar a criação de caprinos em sistemas extensivos é completamente racional. O estudo demonstrou que no Quênia, por exemplo, são necessários 500 litros de água para a obtenção de um lucro de 2 dólares a partir da produção de grãos, enquanto são necessários 4 litros de água para produzir os mesmos 2 dólares a partir de leite de cabra.

Modificações no solo como queimadas e remoção de florestas, e preparo para o cultivo e implantação de pastagens respondem por 15% de todas as emissões de dióxido de carbono pelo homem. Todo o resto é devido à queima de combustíveis e processos industriais.

O metano é um gás com um potencial de efeito estufa 20-25 vezes maior que o do dióxido de carbono. A pecuária é responsável por 37% do metano emitido pelas atividades humanas, sendo que cada bovino produz 25 a 118 kg de metano por ano enquanto cada caprino ou ovino produz 5 a 18 kg de metano por ano.

Há uma atenção crescente para o fato de que o efeito estufa, associado à mudança nos padrões de chuvas e à frequência e severidade de secas, enchentes e furacões, vem apresentando efeitos sobre a saúde humana e animal. Alguns exemplos concretos da relação entre as mudanças climáticas e a ocorrência de doenças nos caprinos podem ser citados, especialmente no caso de doenças transmitidas por vetores como insetos e carrapatos.

Doenças como a língua azul e a febre de Rift Valley (RVF) têm se espalhado para áreas antes não afetadas à medida que os invernos mais amenos não matam os vetores como no passado, e as chuvas mais pesadas estimulam a eclosão das larvas de mosquitos infectadas. As mudanças nos regimes de ventos também levam estes mosquitos para novas regiões. As verminoses também chamam atenção neste contexto, já que é sabido que a sobrevivência das larvas de helmintos é bastante afetada pelas condições ambientais.

No ano 2008 o mundo observou pela primeira vez a existência de mais pessoas nas áreas urbanas do que nas rurais. Esta urbanização crescente, aliada ao crescimento dos rendimentos nas sociedades, provoca mudanças nas dietas humanas. A desnutrição começa a ceder espaço a uma alimentação mais equilibrada e, muitas vezes, à obesidade. O consumo de produtos derivados do leite e da carne tem aumentado, e essa demanda crescente estimula a produção.

Neste contexto, preocupações sobre consumo excessivo, danos ambientais, bem-estar animal e outras questões éticas têm dado origem a uma geração inovadora de consumidores e produtores. Esta pode ser uma oportunidade para os produtores de caprinos de sistemas extensivos, que costumam ser ecologicamente sustentáveis, porém de baixo retorno financeiro: o acesso a mercados deste tipo pode ser uma alternativa para agregar valor a estes produtos.

Os autores sugerem também uma lista de características a serem consideradas quando se deseja descobrir o quão sustentável uma determinada propriedade é. Tais características são divididas em ambientais, econômicas, sociais e institucionais.

As características ambientais sugeridas são: origem da forragem fornecida (produzida ou adquirida, e sob quais condições), proporção e origem da energia e da proteína suplementares (preferência por fontes que não competem com a alimentação humana, como os sub-produtos industriais), origem da água, incidência de doenças, proporção das matrizes e reprodutores para reposição originados de criação própria, impacto da atividade na biodiversidade (vegetal e animal) e uso de fontes de energias não-renováveis.

As características econômicas são: tipo do mercado para os animais vivos (rentabilidade e público alvo), tipo de mercado para os produtos (desenvolvimento de novos produtos pode ser uma questão chave) e rentabilidade do sistema (formas de reduzir custos e aumentar a receita).

As características sociais citadas são: tempo de existência da atividade no local, disponibilidade de mão de obra e treinamentos e nível de envolvimento dos caprinos na cultura local. Por fim, as características institucionais são o apoio de instituições de ensino e pesquisa e a existência de associações de criadores.

Outro aspecto, bastante ressaltado por Devendra, é que as tecnologias e informações geradas pelas pesquisas muitas vezes não chegam àqueles que mais precisariam, como os pequenos produtores e pessoas que dependem de algumas cabras para sobreviver. O autor destaca que a produtividade alcançada pela maioria dos rebanhos caprinos no mundo ainda é pequena, devido a práticas nutricionais e de manejo ineficientes, má utilização das raças e tipos nativos de animais e dificuldades sanitárias. Neste sentido, o artigo citado defende a importância da conservação e exploração racional dos recursos genéticos nativos, que muitas vezes correm risco de extinção pela importação maciça de animais de raças exóticas.

Lu, Gangyi e Kawas afirmam que uma alternativa para agregar valor aos produtos do pequeno criador é a produção orgânica. No entanto, os autores destacam que os desafios para atingir este objetivo podem ser grandes, principalmente no que diz respeito ao controle nutricional e sanitário do rebanho, pois muitos produtos como medicamentos, coccidiostáticos e ureia são proibidos em criações orgânicas. Todos os insumos empregados na criação dos animais, inclusive o material utilizado como cama, devem ser orgânicos.

No entanto, diversos estudos e casos reais de sucesso comprovam que é possível produzir caprinos para leite ou carne nos padrões orgânicos, e que muito valor pode ser agregado a estes produtos. Outras vantagens da produção orgânica seriam o maior sequestro de carbono pelo solo, a melhor qualidade da água ingerida pelos animais, aumento da biodiversidade (pois não é permitido o uso de herbicidas ou pesticidas) e geração de empregos e renda em áreas onde as pessoas não possuem outra alternativa senão a utilização de mão de obra familiar, recursos locais e animais de genética nativa e adaptada.

As mudanças pelas quais o planeta passa e deverá passar nos próximos anos são uma realidade e afetam a todos, inclusive aos animais a seus criadores. Como consequências surgem desafios e oportunidades, e devemos estar atentos a estes fenômenos para não sermos pegos desprevenidos. Explorar os aspectos dos caprinos que permitem uma produção menos agressiva ao ambiente pode agregar valor aos produtos e ajudar a garantir que as próximas gerações possam desfrutar de uma melhor qualidade de vida.

Referências bibliográficas

DEVENDRA, C. Concluding synthesis and the future for sustainable goat production. Small Ruminant Research, v. 89, p. 125-130.

LU, C.D., GANGYI, X., KAWAS, J.R. Organic goat production, processing and marketing: opportunities, challenges and outlook. Small Ruminant Research, v. 89, p. 102-109.

PEACOCK, C., SHERMAN, D.M. Sustainable goat production - some global perspectives. Small Ruminant Research, v. 89, p. 70-80.

CAMILA RAINERI

Zootecnista formada pela FZEA/USP, com mestrado pela mesma instituição. Doutoranda pela FMVZ/USP. Responsável Técnica pela Paraíso Ovinos e consultora em Ovinocultura.

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JONAS RODRIGUES

MATO GROSSO DO SUL - TRADER

EM 08/06/2010

Hoje, produzir carne ou leite, sem pensar em sustentabilidade, é algo infundado. Precisamos pensar nisso para dar continuidade às pesquisas e experiências que abordem este tema.