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A produção de ovinos e o melhoramento genético no Brasil - Parte 5

POR BRUNO FERNANDES SALES SANTOS

PRODUÇÃO

EM 24/02/2010

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Neste artigo iremos discutir alguns importantes aspectos a respeito dos cruzamentos entre raças e mesmo entre linhagens de uma mesma raça. Esta ferramenta produtiva é muito aplicada em diversas áreas da produção animal, e amplamente utilizada na indústria ovina em países onde a atividade é estruturada. No Brasil começam a surgir os primeiros movimentos direcionados no sentido de explorar adequadamente a ferramenta dos cruzamentos com o objetivo único e exclusivo de produzir carne ovina de qualidade, com eficiência e adequado retorno econômico.

Cruzamentos entre raças e linhagens

Os cruzamentos envolvem o acasalamento entre diferentes raças, linhagens ou mesmo espécies. As razões para a utilização desta ferramenta podem ser:

1 - Melhorar a eficiência total do sistema de produção através de animais cruzados que tenham elevado mérito genético para diferentes características (princípio de complementaridade).

É comum os rebanhos ovinos serem formados por fêmeas de pequeno ou médio porte, muitas vezes tais animais não possuem raça definida e frequentemente apresentam baixa exigência de manutenção, adaptabilidade e boa aptidão reprodutiva ou habilidade materna. O uso de raças terminais com características complementares como maior tamanho, ganho de peso e melhores características de carcaça, geralmente resultam em sistemas de produção muito mais eficientes e lucrativos, sobretudo se considerarmos os dois grupamentos genéticos isoladamente.

2 - Introduzir uma nova raça ou linhagem.

Em determinadas ocasiões a introdução de uma nova raça demanda a utilização de fêmeas locais em sucessivos cruzamentos com a nova raça ou linhagem que se deseja introduzir. Este processo pode levar alguns anos até que se obtenha uma população adaptada e em quantidade suficiente para poder manter o plantel de maneira sustentável, sobretudo, quanto aos aspectos de variabilidade genética.

3 - Formação de novas raças sintéticas ou compostas.

A criação de novas raças ou grupamentos genéticos geralmente envolve o cruzamento entre duas ou mais raças. Por exemplo, se quatro raças estão envolvidas (A,B,C e D), poderíamos obter o seguinte resultado:



Ao dar sequência nos acasalamentos entre animais com o genótipo ABCD é possível então fixar características desejáveis e que irão compor a nova raça.

Quando duas raças distintas são acasaladas a progênie resultante (chamada geração F1) é relativamente uniforme em termos produtivos. No entanto, ao acasalar machos F1 com fêmeas F1 a progênie resultante é geralmente desuniforme em termos de desempenho e aparência, devido, sobretudo, à segregação e recombinação de genes que ocorre nestas situações. A partir da geração F2, é necessário um profundo trabalho de seleção para características desejáveis através de métodos estatísticos e descarte de animais até que as variações sejam reduzidas e a uniformidade em desempenho e aparência possa caracterizar o novo grupamento genético obtido.

Um dos melhores exemplos deste tipo de trabalho é o da raça Coopworth desenvolvida na Nova Zelândia a partir das raças Border Leicester e Romney, seguido de acasalamentos sucessivos entre as gerações F1 e intenso processo de seleção das progênies obtidas para número de cordeiros nascidos e desmamados, peso ao desmame, peso e qualidade de velo, além de características ligadas à sobrevivência e adaptabilidade. Outros exemplos são os compostos ingleses Meatlinc (Suffolk, Dorset Down, Ile de France, Berrichon Du Cher e Charollais, selecionando animais para alto crescimento e características de carcaça) e ABRO Damline, Neozelandeses HighlanderTM e PrimeraTM, Kelso, Meatmaster, Tefrom, Lamb Supreme, e outros.

É importante ressaltar que em todos os casos os objetivos de seleção sempre são direcionados para características produtivas de interesse econômico.

Também é muito comum a utilização de cruzamentos triplos ou "Tri-cross" em situações onde três raças são utilizadas a fim de manter a heterose ou o vigor híbrido. Na simulação abaixo seguem esquematicamente três raças (ABC).



4 - Introdução de novos genes (variabilidade genética) em populações com número reduzido de animais.

Em muitas raças com populações reduzidas e pouca variabilidade genética os criadores encontram dificuldades em identificar animais não parentes com mérito genético adequado e em número suficiente para sustentar um programa de melhoramento genético. Estas situações são semelhantes aos casos de introdução de novos grupos genéticos, no entanto, o objetivo final é manter a raça original com pequenas proporções de genes oriundos de outras raças.

5 - Introduzir genes únicos para características específicas em raças existentes (introgressão).

Os cruzamentos também são utilizados para a introdução de genes específicos para características desejáveis em determinadas raças ou populações. Um exemplo seria a introgressão do gene Booroola que tem efeito sobre fecundidade. Este gene foi identificado inicialmente na raça Merino e atualmente pode ser encontrado em diversas raças. No Brasil, algumas populações das raças Corriedale e Texel apresentam a incidência deste gene. Em muitos casos é necessário o cruzamento e retrocruzamento de animais carreadores de genes desejáveis a fim de manter a presença dos genes em animais homozigotos ou heterozigotos, o que é fundamental para o manejo prático deste tipo de ferramenta dentro de uma população.

6 - Explorar heterose ou vigor híbrido.

Geralmente quando duas raças são cruzadas existe a expectativa que a progênie resultante apresente desempenho intermediário em relação aos pais. No entanto, comumente a performance dos animais cruzados é melhor do que a expectativa. A vantagem no desempenho obtido em relação ao esperado para o resultado médio dos pais é chamada Heterose ou Vigor Híbrido. A heterose pode ser mensurada como unidade de medida para a característica em questão, ou em porcentagem (%) de incremento no desempenho em relação à média dos pais. Ex. Raça A (NCN = 1.0), Raça B (NCN = 2.0), Cruzamento AB Esperado (NCN = 1.5 ou média A x B). Se o resultado obtido for para AB NCN = 1.6 então teremos uma heterose de 0.1 NCN, ou seja, 6,7%.
OBS: NCN = Número de cordeiros nascidos, média dos últimos três partos.

A seleção entre raças, dentro de raças e as primeiras aplicações do cruzamento entre raças ou linhagens são ferramentas de melhoramento genético que exploram os efeitos genéticos aditivos entre indivíduos ou populações. A heterose ou vigor híbrido é o resultado não-aditivo de ações de genes como resultado de dominância em loci individuais ou epistasia entre diferentes loci, ou ambos. O fato da heterose ser o resultado de efeitos genéticos não-aditivos significa que é muito difícil predizer a quantidade esperada de heterose para as diferentes características. Assim, para um cruzamento específico que produz um resultado expressivo no vigor híbrido, utiliza-se a denominação que tal cruzamento possui habilidade de combinação. Esta ferramenta é geralmente mais expressiva para características que afetam reprodução, sobrevivência e adaptabilidade, e menos expressivas para características como crescimento e produção leiteira. A tabela abaixo ilustra os efeitos de heterose para algumas características.



A utilização de cruzamentos com a exploração da heterose só é realmente justificada se os produtos obtidos forem melhores que a melhor das raças originais para as características desejadas. Assim, qualquer avaliação de cruzamentos como estratégia de melhoramento genético necessita levar em consideração o mérito genético aditivo das raças puras, assim como, o "bônus" não-aditivo que ocorre quando as mesmas são acasaladas. Em outras palavras, deve-se optar por utilizar excelentes exemplares das raças puras a fim de se obter bons resultados nos cruzamentos. Também é fundamental que se mantenha o nível máximo de heterose quando se deseja explorá-la. Ao obtermos a geração F1 a partir de duas raças, estes apresentam o grau de vigor híbrido 1 ou 100%, ao cruzarmos F1 com uma das duas raças iniciais, a progênie resultante irá reduzir o nível de heterose pela metade a cada geração subsequente. A utilização de uma terceira raça para os acasalamentos com F1 pode manter o nível de heterose máxima. Alguns exemplos de características influenciadas pela heterose podem ser o tempo estimado para levantar e mamar após o nascimento, sobrevivência neonatal, crescimento e etc. Estas características podem ser atribuídas a diferentes tipos de heterose, como:

Heterose individual: influenciando a performance com o resultado devido ao fato dos próprios animais serem cruzados.

Heterose maternal: influenciando o desempenho reprodutivo e outras características maternais de fêmeas cruzadas. Neste caso os benefícios são mensurados geralmente na progênie (peso extra de crias ao desmame comparado com animais puros). A heterose materna ocorre como resultado das mães serem cruzadas.

Heterose paterna: influenciando o desempenho reprodutivo de machos cruzados. A heterose paterna ocorre como resultado dos carneiros serem cruzados.

A tabela seguinte mostra alguns exemplos de heterose em características de importância econômica em ovinos. Os valores mostrados são específicos para a combinação das raças em questão.



A figura abaixo ilustra a utilização prática do princípio dos cruzamentos na estrutura da cadeia de produção de ovinos no Reino Unido. É importante ressaltar que no Brasil a estrutura de produção, sobretudo, quanto aos aspectos genéticos ainda são muito incipientes e que seria importante identificar a realidade de cada região geográfica de nosso país e padronizar os sistemas de produção levando em consideração as condições edafo-climáticas das mesmas e, sobretudo, as exigências do mercado com relação aos produtos a serem obtidos.



No próximo artigo será abordado mais detalhadamente o tema Valores Genéticos (VG) e Diferença Esperada na Progênie (DEP), que são as principais ferramentas utilizadas no processo de seleção e melhoramento genético. É importante para os envolvidos na cadeia de produção de ovinos no Brasil que estas ferramentas sejam mais bem utilizadas e que se tornem populares entre criadores e técnicos, a fim de realmente podermos vivenciar uma grande evolução em nossa atividade.

BRUNO FERNANDES SALES SANTOS

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CAIO CÉSAR

VIAMÃO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS DE LEITE

EM 22/04/2014

Bom dia, lendo o artigo fiquei em dúvida sobre a porcentagem final no cruzamento tri-cross. O reprodutor "C" carrega genética pura de sua raça (100%*). Como que cruzado com o animal "AB", sendo este meio sangue, formaria os 33,3% de cada raça pura num produto final? Não seria correto 25% "A", 25% "B" e 50% "C" o resultado final? Grato pelo trabalho e aguardo...

AUREOMAR DA CUNHA DA ROSA

CANGUÇU - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 18/12/2013

MUITO BOM...
ANA CRISTINA DA CRUZ SANTOS

GLÓRIA DE DOURADOS - MATO GROSSO DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 25/05/2010

me explique mais sobre musculatura bovina, Dr. bruno
CAPATAZ ASSESSORIA RURAL

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL

EM 23/04/2010

Caro Dr. Bruno.
Depreende-se que para produzir carne é recomendável, entre outras coisas, o cruzamento entre uma raça "mãe" e uma raça "pai".
Por outro lado, também é recomendável que essas raças - a materna especialmente - possuam características genéticas e zootécnicas (precocidade, prolificidade, fetilidade e resistência parasitária) que favoreçam a atividade produtiva.
Pergunto: os cruzamentos dirigidos seria um dos caminhos para se obter, por exemplo, animais com alto índice de resistência parasitária?
Abraços e parabéns pela matéria!
BRUNO FERNANDES SALES SANTOS

PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 01/03/2010

Prezado Carlos,

No Brasil existem diversas experiências neste sentido. Infelizmente quase a totalidade é de ordem única e exclusivamente prática, ou as de pesquisa não envolvem a parte genética quantitativa propriamente dita. As pesquisas que comparam o desempenho de raças ou seus cruzamentos no Brasil, em geral, não consideram o componente genético no longo prazo ou seus efeitos sobre o resultado e como os mesmos poderiam ser repetidos em condições diferentes daquelas em que o experimento foi realizado.

De maneira prática temos observado que diversos criadores têm utilizado cruzamentos das mais variadas ordens, em geral cruzando reprodutores de raças exóticas especializadas em carne com os animais deslanados e/ou SRD existentes na propriedade. De maneira geral, os resultados são bons até certo ponto com todas as raças, e tendem a piorar à medida que as F1 são cruzadas novamente com animais da mesma raça no sentido do cruzamento absorvente. Assim, a recomendação é sempre definir os objetivos principais da criação, em seguida planejar o trabalho com genética ou cruzamento a ser utilizado (sobretudo nos sistemas de produção de cordeiros de abate), e iniciar a seleção à partir dos dados produtivos do rebanho e se possível com utilização de valores genéticos e índices de seleção para a tomada de decisão sobre quais carneiros utilizar em cada geração e quais fêmeas incorporar ao rebanho.

Raças como Texel, Suffolk, Ile de France, Dorper, Poll Dorset, Hampshire Down e outras vêm apresentando resultados excelentes nos cruzamentos. O importante é salientar que cada uma delas apresenta características específicas e que devem atender à demanda do consumidor ou do cliente a que os cordeiros serão destinados e ainda, terem condições de se adaptar ao ambiente a que serão submetidos, este sem dúvida é um ponto fundamental no planejamento da atividade.
CARLOS OTAVIO LACERDA

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/02/2010

Bruno, muito bom ler seu artigo. Gostaria de ver algumas experiências considerando o melhoramento das raças mais comuns no nosso ambiente: Texel, Hampshire down, Poll dorset, Santa Inês e Ile de France. Você tem alguma evidênca teórica ou prática de melhoramento de cordeiros considerando estas raças? Como melhorar a produção de cordeiros, partindo de uma criação baseada em Poll Dorset e Santa Inês? Ou de Ile de France e Santa Inês?
Qual seria o reprodutor desejável para ter carne de melhor qualidade e cordeiros precoces, partindo, por exemplo, desses "F" !

Abraços