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A produção de ovinos e o melhoramento genético no Brasil - Parte 3

POR BRUNO FERNANDES SALES SANTOS

PRODUÇÃO

EM 04/12/2009

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O Brasil atravessa um momento peculiar em sua história. A crise econômica mundial foi controlada, diversos países iniciam sua recuperação e nunca antes se viu tamanha confiança no potencial de desenvolvimento e crescimento econômico de nosso país. Recentemente os olhos de alguns países estrangeiros estão voltados para a América do Sul focados em um aspecto que diz respeito a todos os leitores do presente artigo, a ovinocultura. É de consenso que os rebanhos mundiais de ovinos estão sendo reduzidos drasticamente devido a diversos fatores, dentre eles competição com outras atividades agrícolas, remuneração inadequada ao produtor (não é o caso do Sudeste e Nordeste brasileiros), dentre outros. Porém, um ponto importante é que os preços pagos pelo mercado ao redor do mundo e a demanda por carne ovina tem crescido consideravelmente. Uma vez que a cadeia produtiva no Brasil está se estruturando, os criadores começam a sentir a importância da produtividade para o resultado econômico de suas operações.

O artigo anterior apresentou aos leitores alguns pontos básicos dos aspectos genéticos que influenciam os animais de produção. O presente artigo trata das estratégias utilizadas para o melhoramento genético, enfocando alguns sistemas correntemente utilizados ao redor do mundo e as características das diferentes estratégias apresentadas.

Por milhares de anos o homem altera características de populações de animais a fim de atingir rebanhos mais voltados para produção de alimentos, fibras, tração e força de trabalho e etc. Nos últimos dois séculos este processo foi muito intensificado, sobretudo, devido ao aumento populacional e maior necessidade de produção de alimentos. Desta maneira, observou-se que animais melhorados geralmente apresentam maior eficiência e menor custo de produção quando comparados a animais não melhorados. Os ganhos genéticos são particularmente válidos, pois são permanentes, ou seja, são cumulativos quando a seleção é contínua e geralmente eficazes sobre o ponto de vista econômico.

Tradicionalmente três estratégias principais vêm sendo utilizadas nos processos de melhoramento genético:

1. Seleção entre raças e linhagens;
2. Seleção dentro de raças e linhagens; (tratada no próximo artigo)
3. Cruzamentos entre raças e linhagens; (tratada no próximo artigo)

Para obter sucesso em qualquer estratégia de seleção é importante ter uma ideia bem estabelecida de quais são as características de interesse economicamente importantes. Então, é lógico optar por mais apropriadas raças ou cruzamentos que possam promover o melhor desempenho para tais características. Além disso, a disponibilidade de informações sobre desempenho (crescimento, qualidade de carne, habilidade reprodutiva e etc.), disponibilidade de estrutura física e financeira, demanda de mercado e preferências pessoais, também são determinantes para a determinação da genética a ser utilizada.

A estrutura dos rebanhos de animais de produção em países onde a ovinocultura é desenvolvida pode ser representada como a conhecida figura abaixo:



Neste modelo esquemático temos os diferentes papéis ou funções bem estabelecidos para cada grupo, de maneira que o fluxo genético percorre o caminho descendente e os aspectos de seleção são priorizados nas camadas superiores (rebanhos elite e multiplicadores) alcançando os rebanhos comerciais por mérito produtivo. Tradicionalmente, grande status tem sido atribuído para animais oficialmente registrados. Em muitos casos estes animais possuem um valor agregado muito superior aos animais não registrados, porém, tal fato não infere que os mesmos possuam alto mérito genético para produção. As associações geralmente efetuam um excelente serviço de manutenção dos livros de registros. Porém, até pouco tempo poucas associações haviam promovido efetivamente o registro de informações de desempenho de seus animais para contribuir com os programas de seleção. A combinação das informações de parentesco (pedigree) com as informações de desempenho produtivo é um dos fatores que possibilitam que as modernas ferramentas de melhoramento genético sejam tão efetivas.

Em um modelo ideal, os fortes sinais do mercado de consumo são projetados de uma camada para a outra, originando uma clara ideia do papel de cada grupo de criadores. Na Nova Zelândia, no início dos anos 60 houve a formação de um grupo de seleção por parte de criadores insatisfeitos com a situação onde os criadores de animais superiores estavam fornecendo animais que atendiam às suas próprias necessidades. Assim, o grupo estabeleceu um programa de seleção cooperativo para produzir seus próprios animais de reposição baseado em dados produtivos e genética que propiciasse aumento no desempenho econômico dos rebanhos. Através de um esquema de identificação dos animais mais produtivos em cada propriedade, um eficiente esquema de escrituração zootécnica e seleção com base em valores genéticos possibilitou a identificação de animais superiores e que foram então fornecidos aos membros do grupo. Este modelo perdura até os dias atuais com grupos de criadores ligados à raças ou a objetivos comuns de produção.



Existe falta de entendimento geral ou ausência de informação a respeito da importância do processo de seleção entre raças, dentro de raças e nos cruzamentos ou raças compostas. Também existe o fator social ou psicológico, onde alguns criadores preferem produzir campeões de exposição ao invés de seguir os sinais claros do mercado consumidor de produtos de origem animal. Algumas vezes a resposta econômica de curto prazo nestas situações pode ser excelente, infelizmente poucos criadores são compensados neste tipo de atividade. O resultado econômico para seleção de características economicamente importantes para o mercado, por sua vez, pode ser muito compensador para um grande número de criadores comuns e que prezam pela eficiência em seus sistemas de produção. Criadores comerciais geralmente se interessam por todas as estratégias de melhoramento, embora no papel de usuários dos animais melhorados e não como melhoradores, o conhecimento das estratégias envolvidas e a informação possibilitam que os produtores tomem as melhores decisões sobre qual ou quais raças, linhagens ou cruzamentos utilizar para obter o melhor resultado e fechar o ciclo que liga a cadeia produtiva.

1. Seleção entre raças e linhagens

Este tipo de estratégia de seleção pode causar rápidas e expressivas mudanças nos rebanhos se houver grandes diferenças genéticas para características de importância econômica entre os rebanhos. No entanto, estas mudanças ocorrem geralmente no primeiro cruzamento, devido ao efeito da heterose ou vigor híbrido, ao contrário do melhoramento imposto pela seleção dentro de uma raça ou linhagem. De qualquer maneira uma vez definidos os objetivos de seleção, é possível sim elevar rapidamente o desempenho de um rebanho à partir do cruzamento entre raças ou linhagens com habilidades específicas.

Se as fêmeas de reposição são produzidas na propriedade, então a composição de todo o rebanho pode ser direcionada gradualmente para uma nova raça ou linhagem, ou ainda estabilizada em certa proporção de ambas a fim de se obter o melhor desempenho produtivo e econômico do rebanho. A tabela a seguir exemplifica a proporção de genes vindos de cada uma das raças ou linhagens (A e B) através de sucessivos cruzamentos. É válido salientar que em geral cada geração de cruzamento divide a proporção da raça ou linhagem original, quando comparada à geração anterior.



O mais importante critério na escolha de determinada raça, linhagem ou cruzamento é que tal escolha seja embasada em dados produtivos objetivos e de importância econômica através de comparações de desempenho em ambiente adequado, ou seja, aquele a que o rebanho é submetido constantemente. Existem alguns exemplos de fracasso quando esta regra é desconsiderada.

A conhecida expressão interação genótipo x ambiente ou interação raça x sistema de produção significa que os genótipos nem sempre apresentam o mesmo desempenho em ambientes diferentes, ou que as vantagens de uma determinada raça ou linhagem podem ser menos significativas ou mesmo mais significativas de acordo com os efeitos ambientais. Assim, um grande avanço no melhoramento genético foi obtido à partir do momento que se iniciaram as comparações de performance de diferentes genótipos (raças, linhagens, cruzamentos ou animais de diferentes mérito genéticos dentro de uma raça) em diferentes condições ambientais (países, sistemas de produção, níveis nutricionais e etc.), auxiliando os criadores a optarem por mais apropriado material genético de acordo com cada situação em particular.

Como exemplo, podemos citar que diversos estudos indicam que raças ovinas de pequeno ou médio tamanho apresentam maior produtividade e lucratividade total em sistemas extensivos de produção, quando comparadas a raças grandes. Porém, raças de grande porte tendem a apresentar melhores resultados em sistemas mais intensivos, sobretudo, com altos níveis nutricionais sendo ofertados. Existem diversas explicações, como: em sistemas extensivos a maior exigência energética para busca de alimento e tolerância à intempéries disponibiliza menor quantidade de energia para crescimento, assim animais de raças de pequeno porte teriam um menor gasto energético para manutenção e apresentariam uma maior disponibilidade de nutrientes para produção. Outra explicação é que raças maiores teriam sofrido uma maior pressão de seleção para características ligadas à produção e com isso perdido determinadas características ligadas à adaptação ao ambiente e tolerância às intempéries, tornando-se mais vulneráveis às mesmas.

Desta maneira, atributos favoráveis em sistemas extensivos de produção (ex. alta capacidade de locomoção, hábitos comportamentais de pastejo, tolerância ao frio e ao calor, resistência à doenças e elevada habilidade materna) podem estar sendo perdidas com o advento de sistemas de produção mais intensivos que possibilitam ao animal suprir facilmente suas necessidades.

Outro critério muito importante no momento de optarmos raças ou linhagens refere-se ao número de animais comparados. As amostras devem ser suficientemente representativas de uma população a fim de promover uma avaliação criteriosa e eficiente. Em outras palavras, a comparação entre raças (para fins produtivos) necessita número suficiente de carneiros e ovelhas, tais animais devem ainda ser avaliados aleatoriamente ou de maneira equilibrar a amostragem em diferentes rebanhos, origens e exemplares. Tal critério é comumente negligenciado, sobretudo, quando da introdução de novas raças onde os critérios comparativos são geralmente simplistas e tendenciosos ou mesmo não objetivos.

Como regra pode-se dizer que quão maior o grau de influência genética para uma característica (ex. maior herdabilidade, proporção de efeito genético aditivo para uma determinada característica), maior o número de reprodutores que deveriam ser utilizados em uma comparação entre genótipos.

A Seleção dentro de raças e linhagens e Cruzamentos entre raças e linhagens, serão abordadas no próximo artigo.

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BRUNO FERNANDES SALES SANTOS

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