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A importância do cruzamento entre ovinos de raças de carne x raça leiteira na produção de cordeiros de corte - Parte II

POR LETIERI GRIEBLER

PRODUÇÃO

EM 01/03/2011

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No primeiro artigo sobre A importância do cruzamento entre ovinos de raças de carne x raça leiteira na produção de cordeiros de corte - Parte I , mostramos os resultados da produção e qualidade do leite de ovelhas (primíparas) F1, originadas do cruzamento entre raças de carne e raça leiteira, assim como o desempenho de seus cordeiros ao pé-da-mãe, mantidos exclusivamente em pastagem cultivada de azevém anual.

No presente artigo iremos mostrar os resultados obtidos no mesmo trabalho quanto aos rendimentos e características das carcaças dos cordeiros provenientes de partos simples e duplos.

O cordeiro é a categoria animal de maior aceitação pelo mercado consumidor, além de apresentar maiores rendimentos econômicos ao produtor. Porém, para que a atividade seja viável e atenda as exigências de mercado, quanto a características de carcaça e qualidade da carne, deve-se buscar animais com menor idade, peso ideal ao abate e maiores rendimentos de carcaça.

Os constituintes básicos da carcaça como os músculos, gordura e ossos apresentam crescimento diferenciado em cada fase de vida do animal, podendo variar conforme a raça, sexo, alimentação entre outros fatores. Conforme a figura 1, o tecido nervoso apresenta crescimento mais precoce e logo cessa o seu crescimento, em seguida o tecido ósseo, o muscular, enquanto que o adiposo é o mais tardio, de acordo com a maturidade fisiológica (Hammond 1960; 1965).

Figura 1 - Ordem de crescimento dos tecidos nos animais.



Com o aumento de peso dos animais, ocorre um crescimento distinto dos tecidos (ósseo, muscular e adiposo). Em animais mais jovens o músculo apresenta crescimento mais acelerado; o tecido adiposo (gordura), componente que em excesso na carcaça desvaloriza o produto, é o constituinte corporal com crescimento acentuado em animais mais maduros, enquanto que o tecido ósseo apresenta menor crescimento em relação aos outros tecidos. Além da idade, outro fator que pode influenciar a deposição de gordura na carcaça, é o sexo; As fêmeas são mais precoces, atingindo a fase de acabamento antes dos machos castrados e por último na deposição de tecido adiposo os machos não castrados.

Bueno et al. (2000), dizem que os rendimentos de carcaça são maiores até uma determinada idade e aumento de peso dos animais. Porém, a deposição excessiva de gordura na carcaça pode influenciar os rendimentos, dando uma falsa ideia de alto rendimento, assim como o desenvolvimento dos componentes do trato gastrointestinal, que podem variar conforme a raças, alimentação, idade, entre outros fatores.

Portanto, o objetivo do experimento nesta segunda parte foi avaliar os rendimentos e características de carcaça dos cordeiros nascidos de parto simples ou duplo, filhos de ovelhas primíparas.

Animais experimentais, avaliações e resultados

No experimento, foram avaliados 24 cordeiros, fêmeas e machos não castrados, filhos de ovelhas F1 (cruzamento entre a raça Lacaune e raças de carne), e reprodutor da raça Suffolk. Os cordeiros foram mantidos com as ovelhas em pastagem cultivada de azevém anual sem uso de suplementação. A cada sete dias desde o início do experimento, os cordeiros eram pesados para a obtenção do ganho médio diário, até alcançarem o peso médio pré-estipulado de abate de 30 kg de peso vivo corporal com jejum.

A condição corporal dos animais e o estado de engorduramento da carcaça, tanto para os cordeiros de parto simples como os duplos, mantiveram-se perto dos padrões de carcaça certificados pelo Conselho Regulador Cordeiro Herval Premium (3,0 a 3,5).

Figura 2 - Avaliação das características de carcaça.



Nas variáveis condição corporal, peso de carcaça quente e rendimento de carcaça quente (RCQ) ou rendimento verdadeiro (tabela 1), houve diferença entre os tipos de parto.

As avaliações na carcaça foram realizadas no dia seguinte ao abate, após a permanência da carcaça por 24 horas em câmara fria, a uma temperatura de 4o C, seguindo as metodologias de Osório et al., (1998). Para a determinação dos rendimentos de carcaça fria (RCF) ou rendimento comercial e índice de quebra ao resfriamento (IQR) obteve-se primeiramente o peso da carcaça fria (PCF), e logo em seguida foram avaliados visualmente a conformação e estado de engorduramento, levando-se em consideração a forma da carcaça como um todo (espessura dos planos musculares e adiposos em relação ao esqueleto), assim como a quantidade e distribuição de gordura de cobertura, renal e pélvica.

As variáveis supracitadas, que diferiram entre os tipos de parto, estão relacionados com a maior disponibilidade de leite para os cordeiros de parto simples e consequentemente com a maior velocidade de crescimento dos mesmos. Outro fator que deve ser lembrado para a superioridade nos rendimentos de carcaça dos cordeiros nascidos de parto simples, é a idade ao abate (71 dias); Visto que, animais jovens são considerados monogástricos funcionais e o desenvolvimento do rúmen irá evoluindo com o tempo.

Os cordeiros de parto duplo tiveram que buscar alimentos sólidos para suprir as suas exigências de crescimento, desenvolvendo o rúmen mais cedo, pois a disponibilidade de leite para estes era em menor quantidade, levando-os a uma idade ao abate de 105 dias e rendimentos de carcaça menores. Azeredo et al. (2006), encontraram resultados semelhantes, com rendimentos de carcaças maiores nos animais de menor idade, sendo o conteúdo gastrointestinal o responsável por estes resultados.

Após a secção da carcaça em duas metades, obteve-se a espessura de gordura, na metade esquerda da carcaça, realizando-se um corte transversal entre a 12a e 13a costelas para a exposição do músculo Longissímus dorsi (figura 3). Pode-se observar na tabela 1, que a espessura de gordura de carcaça foi diferente entre os tipos de parto, característica que está ligada ao índice de quebra ao resfriamento (IQR). As carcaças dos cordeiros de parto duplo apresentaram menor espessura de gordura na carcaça (1,17 mm), e consequentemente obtiveram um maior IQR (3,16%), enquanto que os de parto simples tiveram uma expessura de gordura de 2,15 mm e um IQR de 2,50%. A carcaça deve apresentar uma espessura de gordura bem distribuída e em quantidade suficiente para que não ocorra a perda de líquidos e o escurecimento da carne (oxidação de mioglobina). Segundo Monteiro (2000), a gordura de cobertura e o marmoreio também estão associados ao sabor, suculência e maciez da carne.

Figura 3 - Corte transversal entre a 12a e 13a costelas com exposição do músculo Longissímus dorsi, local de medida da espessura de gordura.



A compacidade da carcaça (kg/cm), é o índice que estima a musculosidade através da relação entre o peso de carcaça fria e o comprimento interno da carcaça (PCF/CIC), esta relação estima objetivamente a conformação da carcaça. Neste trabalho, os cordeiros que foram abatidos mais precocemente (parto simples), tiveram uma compacidade maior que os e parto duplo (tabela 1), resultado que pode ter sido influênciado pela maior disponibilidade de leite aos cordeiros de parto simples e acelerada deposição de tecido muscular por unidade de comprimento.

Tabela 1 - Médias das características da meia carcaça esquerda de cordeiros provenientes de parto simples e duplo.



Na metade direita da carcaça fez-se a separação regional em quatro cortes: pescoço, paleta, costilhar e quarto. A importância desta separação serve para estimar a composição regional de cada corte da carcaça, sendo a paleta dissecada em músculos, gordura e ossos, para a determinação tecidual da carcaça e a diferença destes componentes entre os tratamentos (tipo de parto), assunto que iremos abordar no próximo artigo.

Portanto, as avaliações de características "in vivo" e da carcaça são medidas necessárias para conhecermos o que estamos produzindo e se nosso produto atenderá as exigências do consumidor.

É de exterma importância salientar que estes cordeiros, provenientes de um cruzamento industrial, e filhos de ovelhas primíparas, apresentaram rendimentos satisfatórios, considerando o tempo médio de 88 dias para a terminação destes animais, sem a utilização de qualquer tipo de alimento concentrado. Também vale lembrar que, apesar dos cordeiros de parto duplo terem apresentado menores rendimentos de carcaça em relação aos cordeiros de parto simples e 30 (trinta) dias a mais para a terminação, o ganho em quilogramas de carcaça por ovelhas, foi em média de 10 quilos a mais daquelas que tiveram cordeiros únicos. Diminuindo assim os custos de produção.

Referências bibliográficas

AZEREDO, D. M.; OSÓRIO, M. T. M.; OSÓRIO, J. C. S.; et al. Morfologia in vivo e da carcaça e características produtivas e comerciais em ovinos Corriedale não castrados, castrados e criptorquidas abatidos em diferentes idades. Revista Brasileira Agrociência, Pelotas, v.12, n.2, p. 199-204, 2006.

BUENO, M. S.; CUNHA, E. A.; SANTOS, L. E.; et al. Características de carcaça de cordeiros Suffolk abatidos em diferentes idades. Revista Brasileira de Zootecnia. v.29, n.6, p. 1803-1810, 2000.

HAMMOND, J. 1960. Carne: Producción y tecnologia: conferencias, observaciones. Mesas redondas, s. l. CAFADE. 160p .

HAMMOND, J.1965. Farm animal; their growth breeding and inheritance. London: E. Arnould. 322p.

MONTEIRO, E. M. Influência da gordura em parâmetros sensoriais da carne. In: EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Qualidade da carne e dos produtos cárneos. [S.l.], 2000. p. 7-14. (Documentos, 24).

OSÓRIO, J. C. S. et al. Métodos para avaliação da produção de carne ovina: ´in vivo´, na carcaça e na carne. Pelotas: UFPEL, 1998. 98 p.

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JOSE ROBERIO ALVES DIAS

FORTALEZA - CEARÁ - VAREJO

EM 02/01/2012

PARABENS PELO SEU TRABALHO, POIS VAI AJUDAR MUITOS PRODUTORES PRINCIPALMENTE DO NORDESTE.

POIS COM POUCA TERRA E UM MANEJO CORRETO PODEMOS MELHORAR A PRODUÇÃO DE OVINOS.

LETIERI GRIEBLER

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL - ZOOTECNISTA

EM 31/03/2011

Prezado Márcio Magossi,

Obrigada.

A suplementação energética seria uma boa opção sim, para acelerar a terminação destes cordeiros de parto duplo, principalmente quando as condições em que o desenvolvimento deste animal é menos acelerada.
Porém, o foco principal do nosso estudo é manter os cordeiros junto com as mãe até o abate em pastagem sem suplementação em um menor tempo.
Temos que levar em consideração que os cordeiros de parto duplo não vão ter o mesmo desenvolvimento do que os cordeiros de parto simples, tanto para cordeiros desmamados e não desmamados.

Atenciosamente,
Letieri Griebler
MÁRCIO MAGOSSI

PIRACICABA - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 30/03/2011

Prezada Letieri,

Ótimo trabalho, parabéns.

Uma alternativa, para os cordeiros nascidos em partos múltiplos, seria então, que esses cordeiros recebessem uma suplementação com dieta de alta energia, para maior acúmulo de gordura (tipo um creep feeding)?

Obs.: irei ler atentamente a tese que me recomendou no fórum do outro artigo. Obrigado

Atenciosamente

Márcio
LETIERI GRIEBLER

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL - ZOOTECNISTA

EM 03/03/2011

Prezado Octávio Rossi,

Obrigada.
Com certeza esta é uma linha de pesquisa bem interessante e que devemos seguir trabalhando.
Quanto à continuidade da ordenha destas ovelhas aqui no Lab. de Ovinos, prática que sai do nosso objetivo e linha de pesquisa: Produção e avaliação de carcaças de cordeiros.
Além disso, ainda não poderemos colocar em andamento o aproveitamento deste leite para beneficiamento, pois teríamos que instalar uma central de ordenha, armazenamento e processamento deste leite.
Mas não podemos descartar a possibilidade futuramente, considerando a diversificação da produção ovina atual.
Mais uma vez, muito obrigada pela contribuição.
Abraços,

Letieri.
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 03/03/2011

Belo trabalho! É um indicativo importante da possibilidade de se diversificar a produção ovina: já pensou essas ovelhas ordenhadas após esse período de aleitamento? Continue nessa linha que tem muita coisa boa para sair daí. Parabéns.