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A importância da participação dos produtores nos programas de melhoramento genético

POR CAMILA RAINERI

E AUGUSTO HAUBER GAMEIRO

PRODUÇÃO

EM 30/06/2010

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Dando sequência ao nosso acompanhamento das publicações científicas mais recentes relacionadas à ovinocultura, neste mês apresentamos o trabalho "Participatory definition of breeding objectives and selection indexes for sheep breeding in tradicional systems", publicado no periódico Livestock Science.

O objetivo dos autores foi propor um método para definir quais devem ser os objetivos de seleção de rebanhos, levando em conta interesses e necessidades do produtor, que nem sempre são considerados. O trabalho nasceu da preocupação com os benefícios tangíveis e intangíveis que a ovinocultura traz aos criadores, especialmente aos pequenos e que sobrevivem da atividade. Segundo os autores, as necessidades dos produtores precisam ser incorporadas aos objetivos de seleção dos animais, especialmente quando se trabalha com criadores de subsistência.

O artigo parte dos pressupostos de que é necessário envolver o criador na definição das características a serem selecionadas no rebanho, e de que a realidade deste criador deve ser compreendida pelos melhoristas.

Sistema de produção

O trabalho foi desenvolvido junto a ovinocultores na Etiópia, e foram pesquisados dois sistemas de produção: i) criação exclusiva de ovinos; e ii) associação entre criação de ovinos e cultura da cevada. Os animais nestas criações pertenciam a três raças de rabo largo: Somalis, Menz e Wollo.

Cento e um criadores de cada sistema foram entrevistados individualmente, totalizando 202 participantes. De acordo com suas estratégias de terminação de animais e de colocação dos produtos no mercado, cada sistema de produção foi subdividido em dois grupos: o dos que produziam borregos não terminados e os vendiam a terminadores ou consumidores (S), e o dos que produziam borregos terminados e machos castrados de descarte (S+).

Identificação dos objetivos de seleção

Pediu-se que cada um distribuísse 20 pontos entre sete funções que os ovinos tinham, de forma a ranquear a importância de cada função. As funções consideradas foram: i) fonte periódica/regular de renda; ii) segurança financeira; iii) importância sócio-cultural; iv) fonte de carne; v) fonte de pele; vi) fonte de esterco; e vii) fonte de leite.

A Tabela 01 demonstra o ranqueamento médio de importância das funções para cada sistema de produção.

Tabela 01 - Ranqueamento dos produtores da importância relativa das funções dos ovinos em sistemas de produção misto e exclusivo.



Seis características que influenciavam estas funções foram identificadas: i) adaptação, ii) crescimento/peso, iii) aparência geral (itens que afetam o valor de mercado do animal, como tamanho, conformação, cauda, chifres, cor), iv) reprodução, v) velo e vi) leite.

Mais uma vez, os produtores atribuíram importância a estas características, com base na distribuição de 20 pontos entre elas. O resultado é apresentado na Tabela 02.

Tabela 02 - Notas e ranqueamentos (entre parêntesis) atribuídos pelos produtores às características que eles mais gostariam que fossem melhoradas.



S: produtores de borregos não terminados; S+: produtores e terminadores de borregos e machos castrados.
a Adaptação: representada por tolerância a doenças, secas e frio no sistema ovinos-cevada, e por tolerância a doenças, secas, calor e habilidade de andar longas distâncias no sistema pastoril.
b Ranqueamentos iguais (entre parêntesis) não foram estatisticamente diferentes.
c Aparência geral refere-se a características como tamanho, conformação, cor, chifres e cauda, que influenciam os valores em mercados tradicionais.

Estas características eram muito amplas para serem utilizadas diretamente como objetivos de seleção, portanto foram representadas por outras, mais específicas. Estas puderam ser utilizadas na elaboração dos índices de seleção:

a) Adaptação: contagem fecal de ovos de helmintos (FEC);
b) Crescimento/peso: peso ao ano (YW), peso adulto (MW) e ganho diário durante a terminação (ADG; apenas para os produtores do grupo S+);
c) Aparência geral: perímetro torácico (CG);
d) Reprodução: número de cordeiros desmamados (NLW);
e) Velo: peso de velo sujo (GFW; apenas para o sistema ovinos-cevada); e
f) Leite: produção diária de leite (DMY; apenas para o sistema pastoril).

Índices de seleção para ganho desejado

Os ganhos desejados pelos produtores foram estabelecidos com base nas suas preferências pelas características citadas. Desta forma, foram elaborados índices de seleção com o intuito de melhorar ao máximo as características ranqueadas em primeiro e segundo lugares para os produtores dos grupos S e S+, de cada sistema de produção.

A pesquisa demonstrou alguns dados muito interessantes, como a variação nos interesses dos criadores em função de situações específicas da sua realidade (Tabela 02), como a produção exclusiva ou associada a outras culturas e o produto comercializado pelo criador.

Os autores do estudo ressaltam então a importância de se adaptar os objetivos de seleção a cada situação específica, respeitando suas particularidades. Para eles, isso atribui uma importância enorme à participação do criador nesta decisão.

A compreensão do sistema de produção em que se pretende realizar a seleção e o envolvimento dos produtores na definição dos objetivos de seleção são essenciais para o delineamento de estratégias sustentáveis de criação. Este é especialmente o caso de sistemas de manejo tradicionais, em que se encontram estratégias e objetivos de mercado bastante complexas.

Objetivos intangíveis, como a segurança do produtor em ter os ovinos apenas como "plano B", contam como uma parte maior dos benefícios em se manter os animais em sistemas tradicionais que em sistemas mais tecnificados.

Outro ponto importante destacado no trabalho é a grande diversidade de situações encontradas em regiões em desenvolvimento. Essa diversidade costuma ser resumida a apenas "sistemas mistos" ou "sistemas de pastoreio exclusivo", mas devem ser compreendidas de forma mais profunda por aqueles que se propuserem a contribuir com a melhoria da produtividade ou da satisfação dos produtores.

Ao analisar o estudo percebemos que aqui no Brasil também vivemos situações como estas, inclusive com a demanda por melhoria não apenas das características "produtivas", mas também das adaptativas. Para uma produção pecuária sustentável, necessitamos cada vez mais de um equilíbrio entre estas características. No caso do estudo, os produtores optaram por melhorar as características de resistência a doenças mesmo sendo necessário para tal sacrificar 25-58% do ganho genético em ganho de peso.

Podemos concluir, a partir do artigo, que devemos ter cuidado ao adotar estratégias e índices de seleção "prontos", as famosas "receitas de bolo", pois elas podem não funcionar tão bem em determinada situação. É preciso que produtores e técnicos tenham consciência que cada propriedade possui características próprias, e que os desejos e necessidades dos criadores precisam ser também considerados no momento da definição dos objetivos de seleção.

E mais: um aspecto bastante óbvio, mas que pode passar despercebido é que o melhoramento genético não é algo aplicável apenas para rebanhos grandes, propriedades muito tecnificadas e sistemas de produção modernos. Pequenos produtores podem obter grandes benefícios com o estabelecimento de programas de seleção simples e eficazes em suas propriedades. O segredo é adaptar a ferramenta às particularidades de cada um.

Referências bibliográficas

GIZAWA, S., KOMEN, H., VAN ARENDONK, J.A.M. Participatory definition of breeding objectives and selection indexes for sheep breeding in traditional systems. Livestock Science 128 (2010) 67-74.

CAMILA RAINERI

Zootecnista formada pela FZEA/USP, com mestrado pela mesma instituição. Doutoranda pela FMVZ/USP. Responsável Técnica pela Paraíso Ovinos e consultora em Ovinocultura.

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ARNALDO DANTAS

ARACAJU - SERGIPE - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 30/06/2010

Prezados Camila e Augusto,

Muito interessante o artigo transcrito, bem como as suas observações. No programa de melhoramento da raça Santa Inês, que conduzimos sob a orientação do GMAb- FZEA/USP, chegamos a conclusão semelhante. Assim, desenvolvemos uma ferramenta que denominamos "Construtor de Índices" para que cada produtor ou grupo deles, seja cabanheiro ou produtor comercial, possa personalizar o seu Índice de Seleção.