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A criação de cabras no semiárido: limitações e potencialidades - Parte II

VÁRIOS AUTORES

PRODUÇÃO

EM 14/10/2009

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Mudanças no ambiente e a saúde dos sistemas de criação

Como visto no artigo A criação de cabras no semiárido: limitações e potencialidades - Parte I é sugestivo que na região do cariri da Paraíba tenham ocorrido significativas mudanças no ambiente das propriedades e que estas, muitas vezes, podem comprometer o desempenho dos rebanhos caprinos, pois têm influência direta na capacidade da propriedade produzir pasto suficiente para os animais, mas também de oferecer um ambiente saudável e que garanta o bem estar dos rebanhos, ou seja, as mudanças podem comprometer a capacidade de suporte das propriedades.

Neste segundo artigo será dada ênfase aos aspectos relacionados à saúde dos rebanhos abordando indícios de que algumas práticas de manejo criam ambientes favoráveis à multiplicação de agentes patogênicos e a disseminação de enfermidades.

A redução da área da propriedade associada ao pastejo contínuo e diminuição da biodiversidade também podem comprometer a sanidade dos rebanhos, pois criam ambientes favoráveis ao desenvolvimento de diversas patologias infecto-contagiosas e parasitoses.

Nardelli (2008) estudando a correlação da presença de resíduos de antimicrobianos em amostras de leite de cabra e as possíveis enfermidades existentes nos rebanhos das propriedades, onde esse leite era produzido, identificou que 100% dos casos dos resíduos estavam relacionados à presença de mastite nos rebanhos. E dentre esses casos de mastites uma das causas diagnosticadas foi a incidência da Acalasia Contagiosa dos Ovinos e Caprinos, enfermidade infectocontagiosa de rápida disseminação, causada pelo Mycoplasma Agalactea e caracterizada pela presença de agalaxia, artrite e ceratoconjuntivite (Figuras 1, 2 e 3). Já Nogueira (2003), trabalhando em um município do cariri paraibano, observou que 100% dos caprinocultores afirmaram ser a verminose a enfermidade que mais acomete os rebanhos e traz maiores prejuízos.

Figura 1 - Úbere caprino com mastite e agalaxia, com secreção sanguinolenta



Figura 2 - Cabra com artrite clínica apresentando dor e dificuldade de locomoção



Figura 3 - Cabra com sensibilidade a luz e eliminando secreção ocular



Essas duas enfermidades agalaxia contagiosa e a verminose estão diretamente relacionadas ao manejo e ao ambiente onde são criados os animais.

Ambientes com altas taxas de lotação de animais facilitam a transmissão e disseminação da agalaxia contagiosa no rebanho, que tem como principal via de transmissão o ar expirado de animais doentes. A proximidade entre os animais diminui o tempo de disseminação da enfermidade. A ausência de um ambiente para quarentena foi outro fator encontrado como de risco para a introdução da agalaxia contagiosa, onde os animais adquiridos de feiras e exposições entravam diretamente nos rebanhos.

Além disso, observou-se que os surtos aconteceram no período mais quente do ano, onde os animais passavam a maior parte do tempo confinados e as temperaturas chegavam a atingir 40 ºC, com isso acredita-se que possivelmente o estresse térmico dos animais favoreça ao surgimento dos sinais clínicos em animais infectados. Trabalhos desenvolvidos por Marques (2009) e Assis (2009), com cabras da raça Saanen criadas no sertão paraibano, observaram que os animais apresentavam estresse térmico tanto na sombra como no sol, onde os índices de conforto térmico (ITGU) ambiental estavam bem acima do considerado como zona de conforto para caprinos. Tudo isso mostra que nessa região os animais apresentam estresse térmico, o que pode conduzir a uma queda na imunidade e favorecer ao surgimento das enfermidades.

Condições de altas taxas de lotação e pastejo contínuo contribuem para maior contaminação do ambiente com larvas de parasitas gastrintestinais. A redução da biodiversidade também compromete diretamente relações ecológicas de parasitismo e predação entre as larvas de vida livre e seus inimigos naturais, como fungos e pequenos aracnídeos. Estas duas situações somam-se para criar um ambiente favorável ao desenvolvimento dos vermes e portanto, aumenta a taxa de reinfecção dos animais.

Nginyi, et al. (2001) estudando a epidemiologia de nematódeos gastrintestinais dos pequenos ruminantes e bovinos em pequenas propriedades do Kenya, mostrou que ovinos pastando permanentemente em uma mesma área, tiveram uma carga parasitária significativamente maior que ovinos mantidos sob pastejo rotacionado.

A ausência da vegetação nativa da caatinga contribui para a proliferação da verminose, visto que, esta vegetação é rica em uma diversidade significativa de tipos de taninos e segundo Nguyen, et al (2005) os taninos contidos nas plantas têm efeito positivo no controle das parasitoses gastrintestinais dos caprinos e ovinos.

Figura 4 - Animais pastando em área totalmente degradada



Figura 5 - Animais pastando, constantemente, em pequena área com condições favoráveis ao desenvolvimento da verminose



Figura 6 - Cabra com baixo peso corporal e "edema de barbela" (papeira), indicado pela seta, provocado pela verminose



Uma maior presença de enfermidades resulta em três graves consequências:

a) diminuição da produtividade dos rebanhos;
b) necessidade do maior uso de medicamentos para controlar as enfermidades;
c) presença de resíduos antiparasitário e antimicrobiano nos alimentos produzidos pelos animais;
d) aumento nos gastos na produção.

Em síntese há uma perda geral no desempenho do rebanho e a produção de alimentos inadequados ao consumo.

Gráfico 1 - Percentual da produção mensal em litros de leite de cabra, de uma propriedade, localizada no cariri paraibano, durante o ano de 2007.



Conforme mostra o gráfico 1, o comportamento da produção manteve-se relativamente estável até os meses de maio e junho quando o número de cabras paridas diminuiu. Neste mesmo período o criador começou a comprar cabras em feiras agropecuárias, exposições e de outras fontes. Com esta ação, a produção voltou a crescer, atingindo seu pico no mês de novembro. Durante período de junho à novembro o proprietário continuou comprando animais. Em algum momento, ele comprou cabras com agalaxia contagiosa de maneira que em dezembro todas as suas cabras estavam com sintomas da doenças e ele só produziu leite até a primeira semana de dezembro.

Portanto o criador de cabras precisa selecionar com cuidado as práticas de manejo a serem adotadas em sua propriedade. Para uma boa produção deve-se ter cautela em relação às práticas e tecnologias desenvolvidas em outras regiões, que muitas vezes possuem condições ambientais muito diferentes do semiárido. A adoção de algumas destas práticas sem os referidos cuidados de ajustes podem alterar o ambiente do seu sistema de produção a ponto de criar condições favoráveis ao desenvolvimento de determinadas enfermidades que podem comprometer a saúde e o desempenho dos rebanhos.

Considerações finais

A alta radiação solar, a temperatura elevada e a baixa umidade do ar são características climáticas de regiões que estão sob influência do clima semiárido. Tais características podem ser observadas como influência negativa no bom desempenho das atividades pecuárias, mas também podem ser encaradas como potencialidades, pois estas condições são limitantes ao desenvolvimento de microorganismos que podem provocar doenças nos rebanhos.

Porém, muitas vezes, como mostra o artigo, os criadores constituem sistemas de produção e adotam práticas de manejo que ignoram esta potencialidade do clima semiárido, criando ambientes dentro de seus sistemas de produção que facilitam a reprodução e multiplicação de microrganismos causadores de doenças. Às vezes, sem tomar noção, o produtor cria um ambiente mais favorável ao desenvolvimento dos microorganismos que para seus animais.

Este olhar sobre o ambiente como espaço de multiplicação de agentes invisíveis é de fundamental importância e permite aos produtores trabalharem sob a ótica preventiva, adotando práticas de manejo que diminuam os riscos de seus animais contraírem doenças e com isso não diminuir os riscos de perdas na produtividade além de reduzir os custos com tratamento, intensivo, com produtos químicos.

Ainda como resultado de um ambiente inadequado têm-se a produção de alimentos de origem animal inadequados para o consumo humano, seja pela contaminação com microorganismos do meio ou pela presença de resíduos químicos dos produtos utilizados nos tratamentos das doenças.

Bibliografia

ASSIS, D.Y.C. Respostas fisiológicas de cabras da raça saanen em confinamento, no semiárido paraibano em turnos diferentes. 2009. 22f. Monografia (Graduação em Medicina Veterinária) - Universidade Federal de Campina Grande, Patos.

MARQUES, B.A.A. Efeito dos níveis crescentes de caroço de algodão sobre a produção de leite em cabras da raça saanen no semiárido. 2009. 29f. Monografia (Graduação em Medicina Veterinária) - Universidade Federal de Campina Grande, Patos.

NARDELLI, M.J. Resíduos antimicrobianos e suas causas no leite de cabra in natura produzido em municípios do semiárido paraibano.2008. 117f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária dos Ruminantes e Eqüídeos) - Universidade Federal de Campina Grande, Patos.

NGINYI, J.M.; DUNCAN, J.L.; MELLOR, D.J.: STEAR, M.J.; WANYANGU, S.W.; BAIN, R.K.; GATONGI, P.M. Epidemiology of parasitic gastrointestinal nematode infections of ruminants on smallholder farms in central Kenya. Research in Veterinary Science. v.70, p.33-39, 2001.

NGUYEN, T.M.; BINH, D.V.; ORSKOV, E.R. Effect of foliages containing condensed tannins and on gastrointestinal parasites. Animal Feed Science and Technology. n.121, p. 77-87, 2005.

NOGUEIRA, F. R. B. Fitoterapia e estudo sanitários de caprinos e ovinos criados em sistema familiar. 2003. 47f. Relatório de final de curso (Graduação em Medicina Veterinária) - Universidade Federal de Campina Grande, Patos.


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BONIFÁCIO BENICIO DE SOUZA

Professor Associado - UAMV/CSTR/UFCG, Bolsista de Produtividade do CNPq

FRANCISCO ROSERLÂNDIO BOTÃO NOGUEIRA

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ALRINEI PEREIRA

RIO DE JANEIRO

EM 22/09/2014

tenho uma cabra com quatro anos e esta com diarreia e as quatro patas inchada, já dei repercol liquido oral; terramicina em po mas continua com o mesmo sintoma, come normal e bebe agua.
JAIME DE OLIVEIRA FILHO

ITAPETININGA - SÃO PAULO - OVINOS/CAPRINOS

EM 12/09/2013

Boa noite Jean

  O que vc fala de queixo inchado seria embaixo da mandíbula,se for sua cabra está com anemia devido a verminose,precisa combater rápido para que ela possa se recuperar,de algum vermifugo próprio para cabras.
JEAN DE SOUZA E SILVA

BENTO FERNANDES - RIO GRANDE DO NORTE

EM 12/09/2013

Estou com problema de queixo inchado nos caprinos o q pode ser isto?
ALEXANDRE PEREIRA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 02/11/2012

bom dia, quantas cabras eu posso criar por m2 no sistema rotacinado, com os piquets estão com capim elefante.

JOSÉ CARLOS

VOLTA REDONDA - RIO DE JANEIRO

EM 17/09/2012

Tenho uma cabra, e gostaria de criala da mehor maneira possível, ela esta sendo criada presa  num espaço de 60m².