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A criação de cabras no semiárido: limitações e potencialidades - Parte I

VÁRIOS AUTORES

PRODUÇÃO

EM 16/09/2009

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Manejo e impacto no ambiente

A criação de cabras encontra-se difundida em todo o mundo, graças às potencialidades destes animais, que desenvolveram características peculiares como capacidade de suportar períodos de estiagens, se alimentarem de espécies forrageiras nativas de clima semi-árido e sofrerem menos, influência das condições climáticas sobre a produção, quando comparados a outros ruminantes.

Tais características fizeram destes pequenos ruminantes uma atividade importante no processo de colonização do nordeste brasileiro. Serviam principalmente de alimento para as famílias que moravam nesta região, bem como, geravam renda com a comercialização nas feiras locais (CARON & SABOURIN, 2003). Durante este período os caprinos eram criados de forma extensiva, pastando em grandes áreas de terra, cobertas pela vegetação da caatinga. Porém com o crescimento da população e sucessivas divisões das propriedades foram forçados a ficarem em pequenos espaços. Esta mudança na estrutura das propriedades também provocou mudanças significativas nas práticas de manejo dos animais. Os sistemas extensivos foram evoluindo para semi-extensivo, chegando até a adoção de sistema intensivo, por alguns proprietários, principalmente no período seco do ano (NOGUEIRA, 2007).

Até o início da década de 90, na Paraíba, a criação de cabras foi realizada para a obtenção de carne. O leite era basicamente um alimento utilizado pelas famílias agricultoras e não tinha valor comercial. Uma prova disto é a comparação dos volumes de leite de cabra apresentados nos censos agropecuários de 1980 e 2006, onde se observa um aumento de 228% na produção (IBGE, 2006). Esta evolução ocorre no período após a criação do Programa Leite da Paraíba1, que garantiu a comercialização deste produto a um preço considerado justo. Permitindo as famílias investirem na estruturação de seus sistemas para tornarem-se produtoras de leite de cabra.

A valorização da criação de cabras para produção de leite promoveu mudanças nas estruturas das propriedades e nas estratégias de manejo dos animais. Mudanças refletidas nas práticas do manejo alimentar, reprodutivo e sanitário.

Este artigo objetiva apresentar alguns indicativos nas mudanças ocorridas no ambiente e nas práticas de manejo e alguns de seus impactos, tomando como referência dois municípios localizados nas regiões do Cariri e Médio Sertão, estado da Paraíba.

O aumento do número de animais, com finalidade de aumentar a produção; a intensificação das formas de manejo associadas às pequenas áreas das propriedades está promovendo mudanças significativas no ambiente rural que podem comprometer direta ou indiretamente o bem estar animal.

Figura 1. Instalações inadequadas com grande número de animais em pequena área.



Figura 2. Instalações inadequadas para manejo na ordenha dos animais.



Os efeitos da prática do pastejo intensivo percebidos nos municípios estudados, também são descritos por Zhao et al. (2004) quando monitoraram o pastoreio com alta taxa de lotação de ovinos. Após cinco anos observaram uma redução de 88,0% da cobertura vegetal, 92,6% da altura da cobertura, 98,8% da quantidade de biomassa e 90,8% biomassa das raízes. Foram se formando áreas com pouca ou nenhuma cobertura vegetal, que com o passar do tempo aumentaram em número e tamanho.

Esta redução da diversidade vegetal além de comprometer o funcionamento dos subsistemas de criação, pois reduz em quantidade e qualidade a produção de forragens, também pode está comprometendo o funcionamento do conjunto do sistema de produção. Pois, como explicam Mazoyer & Roudart (1998) a retirada da cobertura vegetal, principalmente das árvores, traz consigo a redução da manta morta e portanto, do teor de húmus disponível, diminuindo a disponibilidade de minerais e a capacidade do solo de reter água, efeito que se acentua quanto mais quente for o clima.

Outra conseqüência direta se dá sobre a estrutura física do solo, em uma área sem cobertura vegetal, a água cai diretamente sobre o solo e escoa sem muitos obstáculos, aumentando sua velocidade de escoamento e diminuindo sua capacidade de infiltração, reduzindo a disponibilidade de água para as raízes das plantas e promovendo a perda de minerais por erosão. Esses sucessivos eventos têm como consequência a incapacidade do sistema manter sua fertilidade global.

Figura 3. O resultado da elevada pressão de pastejo, não há sucessão ecológica.



Considerações finais

É verdade que ocorreram mudanças nas formas de criar caprinos na Paraíba e que estas mudanças geraram impactos positivos (geração de renda e segurança alimentar) mas também, resultam em impactos negativos como os apresentados, acima. Vale destacar as alterações ambientais que estas mudanças provocaram, criando ambientes impróprios para o desenvolvimento eficiente da caprinocultura leiteira.

Neste sentido fazem-se necessárias pesquisas que promovam a produção do conhecimento e geração de tecnologias considerando a trajetória histórico social da atividade para desenvolver sistemas de produção sustentáveis, por meio de: Estocagem de forragem para o período seco, com produção de feno e silagem; Manejo adequado da caatinga, para conservação e ampliação do potencial forrageiro e melhorias nas instalações de forma que facilitem o manejo higiênico sanitário do rebanho, minimizem o estresse térmico e promova o bem estar aos animais, principalmente aos de aptidão leiteira, que sofrem mais influência do ambiente na sua produção.

Figura 4. Estocagem de forragem na forma de feno produzido com pasto nativo.



Figura 5. Estocagem de forragem na forma de silagem produzida com milho, capim e gliricidia.



Figura 6. Criação de banco de proteína com espécies forrageiras adaptadas ao clima.



Figura 7. Sala de ordenha que facilitam o manejo adequado dos animais e a higiene do leite.



Figura 8. Estrutura de ordenha adaptadas por pequenos produtores que facilitam o manejo adequado na retirada do leite das cabras.



Referências

CARON, P.; SABOURIN, E. Camponeses do Sertão: mutações das agriculturas familiares no Nordeste do Brasil. 1ed. Brasil: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, 2003.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEORAFIA E ESTATISTICA - IBGE. Censo agropecuário 2006 resultados preliminares. Rio de Janeiro, 2006. 146p. Disponível em: Acesso em: 05 agosto 2009.

MAZOYER, M.; ROUDART, L. História das agriculturas do mundo: do neolítico à crise contemporânea. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.

NOGUEIRA, F.R.B. Tipologia de sistemas de produção no Semi-árido. 2006. 55f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária dos Ruminantes e Eqüídeos) - Universidade Federal de Campina Grande, Patos.

ZHAO, H.L. et al. Desertification processes due to heavy grazing in sandy rangeland, Inner Mongolia. Journal of Arid Environments, v.62, Issue 2, p.309-319. July, 2005.



1 - O Programa Leite da Paraíba é um programa governamental que atende a 137 municípios Paraibanos e beneficia 120.168 mil famílias, com o recebimento de leite de cabra pasteurizado. Esse programa compra leite de pequenos produtores, que entregam a produção em mini-usinas, 22 no total, e estas por sua vez, pasteurizam, envasam e entregam aos postos de distribuição espalhados por todo estado.

FRANCISCO ROSERLÂNDIO BOTÃO NOGUEIRA

BONIFÁCIO BENICIO DE SOUZA

Professor Associado - UAMV/CSTR/UFCG, Bolsista de Produtividade do CNPq

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PAULO ROBERTO DA SILVA

CATARINA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE LEITE

EM 23/08/2014

Pretendo especializar-me na atividade caprinocultura leiteira de forma sustentável, respeitando o meio ambiente. Porém tenho receio pois em meu município não há ainda exploração dessa atividade apesar de existir aptidão. Apenas o caprino de corte é explorado de forma extensiva. O meu plano é produzir o Leite e vender ou transformá-lo em queijo coalho, como também produzir matrizes e reprodutores, já que minha propriedade dispõe de 110 ha com boa capacidade de produção de forragens para silagem ou fenação e condições hídricas suficientes, aonde já tenho um plantel de 80 animais, entre ovinos e caprinos de corte. Gostaria se possível, receber informação de como proceder para tocar a atividade de forma legal, se há necessidade de: licenças, requisitos sanitários, ambientais, trabalhistas e tributários, pois estou fazendo um curso através do Sebrae  "Negócio Certo Rural" que aborda esta questão.
LUÍS MARCELO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 07/08/2011

Meu nome é Marcelo,sou paraibano e moro em São Paulo,há 21 anos.Meu maior sonho,é ir embora para minha terra criar cabras. mas sou muito inseguro,acho que não vai dar certo.Para isso já tenho algumas economia para comprar um sitio para fazer a criação de cabras.

  A região onde nasci,é o brejo paraibano,Pilões. Será que aquela região é boa para criar cabras? Um grande abraço para todos,muito obrigado.
GERALDO FARIAS BRAZ

CAMPINA GRANDE - PARAIBA

EM 11/05/2011

Como simpatizante de criação de cabras leiteiras, acho importante publicações a respeito do assunto. Tenho muita vontade de dar início a criação de cabras leiteiras, mas sinto dificuldades em encontrar a fonte de oferta de cabras leiteiras, bem como, o mercado consumidor do leite.
GERALDO FARIAS BRAZ

CAMPINA GRANDE - PARAIBA

EM 11/05/2011

Geraldo Farias Braz

Campina Grande - Paraíba - Simpatizante da criação de cabras leiteiras

Como uma alternativa para aumentar a renda dos pequenos proprietários de terra na zona rural, nós vislumbramos como alternativa importante a criação de cabras produtoras de leite, mas para que o processo desenvolva e os resultados sejam crescentes, os órgãos públicos que prestam assistência técnica ao setor rural deveriam incentivar e acompanhar os pequenos criadores, fornecendo apoio e orientando e criando condições favoráveis ao pequeno criador para que ele não desista no meio do caminho por falta de estímulo.
FRANCISCO ROSERLÂNDIO BOTÃO NOGUEIRA

PATOS - PARAIBA - PESQUISA/ENSINO

EM 05/10/2009

Saudações sertanejas!!!

Senhor Gláucio José, ficamos felizes por este artigo ter estimulado suas contribuições. Escrevemos só para dizer que concordamos com seus comentários de que o Senhor Maoelito Vilar é portador conhecimentos técnicos sobre criação de caprinos no semi-árido, valiosos e que podem contribuir para o desenvolvimento da caprinocultura e da bovinocultura... em nossa região. Este transformou a fazenda Carnaúba, no município de Taperoá - PB em um verdadeiro centro de pesquisas e experimentação na criação de caprinos e bovinos no semi-árido.

O artigo também tem como objetivo levantar um debate sobre os sistemas de criação familiares, estes que são na grande maioria os produtores de leite de cabra na Paraíba. Considerando que a estrutura destes sistemas é completamente diferente de sistemas como o composto por seu Manoelito, a começar pelo tamanho das superfícies de terras, bem menores. Faz necessário, ao nosso olhar, um debate sobre estratégias técnicas que possam se ajustar também às especificidades deste tipo de sistemas de produção com disponibilidade de recursos naturais reduzidas.

Esta preocupação é para que possamos contribuir para constituição de sistemas familiares de produção que garantam geração de segurança alimentar e renda para as famílias sem comprometer a recomposição dos recursos naturais.
Como disse o Sr. Rodrigo Gregório (á quem agradecemos pelas contribuições) se não cuidarmos, rápido, corremos o risco de não ter mais caatinga no futuro.

Esta vegetação que ao longo dos anos ofereceu recursos para todo o povo sertanejo.

Publicaremos outros artigos abordando a "problemática" da criação de cabras no semi-árido como forma de promover este tipo de intercâmbio de olhares sobre nosso Nordeste.




RODRIGO GREGÓRIO DA SILVA

LIMOEIRO DO NORTE - TOCANTINS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/09/2009

Quero parabenizar aos autores pelo levantamento desse aspecto (ajuste na utilização da Caatiga) que, ao meu ver, é fundamental.

Penso que os programas de insentivo, de uma maneira geral, assim como os produtores, têm migrado para sistemas que utilizam animais com maior capacidade de sobrevivência em função de uma deterioração do ambiente pastoril dos sertões, sendo isso verificado pelo incapacidade da vegetação nativa fornecer condições satisfatórias à bovinos nos dias atuais, que outrora foi capaz, e que hoje se buscam outras formas de utilização da vegetação que restou.

Ao meu ver, isso denuncia um quadro de estagnação da vegetação com tendência decrescente dos índices de produtividade, podendo ser verificado pelo que foi exposto e pelas atividades que vão sendo descobertas como as "novas alternativas ideais" para um sistema em declínio!

Se caminhar desse maneira, daqui a pouco não teremos vegetação ou teremos que encontrar outro animal que aproveite o que restá após esse ciclo de expoliação!

Parabéns!
GLÁUCIO JOSÉ ARAUJO VAZ

RECIFE - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/09/2009

Muito bem, acho importante a preocupação dos autores com o manejo de cabras leiteiras no Semi-àrido, mais ja faz tempo que se divulga praticas de convivencia com o semi-árido em diversas instituições, os autores deveriam ter feito uma visita ao criatorio Paraibano de Dr. Manoelito, pois e uma verdadeira enciclopedia de produzir na caatinga nordetina.
Abraço
Gláucio Vaz - Caprinocultor