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Sobre Terceirizar

POR PAULO MARTINS

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/05/2015

4 MIN DE LEITURA

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 Terceirização é a polêmica do momento. O tema divide a sociedade. Então, vejamos uma situação concreta, real, do cotidiano. Um casal de classe média quando tem um filho, terminada a licença maternidade, esse filho de poucos meses de vida, indefeso, é entregue aos cuidados de uma creche ou de uma empregada. Portanto, o que esse casal faz é terceirizar sua atividade-fim. Um dos dois, marido ou mulher, certamente cuidaria do filho com mais carinho, atenção e amor. Mas, eles preferem trabalhar e o entregam a terceiros. Eles agem errado? Não! Eles agem racionalmente, beneficiando toda a família e também o indefeso pimpolho. E ainda geram emprego, por consequência.

Uma tendência crescente no segmento de supermercados é terceirizar o setor de comercialização de frutas em suas lojas, entregando esta atividade a uma empresa especializada. Ocorre que nem todas as empresas do ramo de supermercado agem dessa forma, temendo fiscalizações que levam a ações judiciais que questionam esta estratégia. O risco é de um fiscal do ministério do Trabalho entender esta atitude como terceirização da atividade-fim, o que não é amparada na legislação atual. Conheço pelo menos um fato concreto, que acabou inspirando a mim e a outros economistas na condução de uma pesquisa, que visou testar dois modelos de gestão de frutas e verduras em supermercados, ou seja, terceirização versus a gestão hierárquica, em que a própria empresa cuida de comprar e organizar as frutas nas gôndolas. Comparamos as práticas das duas redes de varejo, ou seja, a que terceiriza e a que não terceiriza. A conclusão deste estudo de casos foi clara. Terceirizar esta atividade nas lojas de supermercado leva a ganhos do consumidor, do supermercado, da empresa terceirizada, do empregado e do produtor. Portanto, beneficia a todos os envolvidos.

A teoria econômica explica em que situações há motivação para que ocorra a terceirização. Em essência, as empresas terceirizam atividades quando estas passam pelo menos por três filtros seletivos. O primeiro filtro tem a ver com estratégia. Quando uma atividade do processo produtivo não é considerada estratégica, é possível entregar à outra empresa a responsabilidade de operar pela empresa. Mas, se a atividade é estratégica, não será terceirizada. A coca cola não terceiriza a produção do xarope, base para o refrigerante, pois esta é uma etapa considerada estratégica pela empresa. Tudo o mais, ela terceiriza ou compra no mercado. A definição sobre o que é estratégico depende de cada empresa. Para boa parte, as operações de transporte são terceirizáveis. Mas, para o atacadista Martins e as Casas Bahia, não! Outro exemplo é o setor de publicidade e propaganda. Toda empresa terceiriza este serviço. Já a Ourofino gera tudo dentro da empresa. Desde a propaganda até o design da embalagem de seus produtos. Para a Ourofino, publicidade e propaganda é atividade estratégica!

Vamos para o segundo filtro. Nem todas as atividades consideradas não estratégicas são terceirizáveis. É necessário que a atividade possa ser executada por empresas facilmente contratadas no mercado, que ofereçam o serviço ou o produto necessário de maneira contínua, com a qualidade requerida e com baixos custos de transação, ou seja, baixo risco de se fazer o negócio. Enfim, quando existem empresas disponíveis para executar etapas necessárias ao negócio de uma empresa, quando é fácil e seguro escolher empresas terceirizáveis na execução de serviços ou oferta de produtos, há um forte estímulo à terceirização. Quem vai para as serras gaúchas, onde se produzem vinho e leite de excelente qualidade, passa pelo município de Estrela. Ali a Cervejaria Antárctica tinha uma fábrica e um hotel. Já no município paranaense de Toledo, onde a produção leiteira está em constante crescimento, nos anos oitenta a Sadia tinha abatedouro de frango e suínos e também um belo hotel. Nos dois casos, as empresas citadas tiveram de trazer para suas estruturas hierárquicas de gestão atividades que não são objetos de seus respectivos negócios. Mas, agiram assim pela impossibilidade de contratar esses serviços no mercado, pois a oferta não era no padrão que demandavam.

Já o terceiro e derradeiro filtro está relacionado a custos. Tão logo o mercado proveu serviços de hotelaria dos dois municípios citados, as empresas se desfizeram dos seus hotéis. Portanto, uma atividade é passível de ser terceirizada quando o mercado pode oferecer o produto ou serviços nas condições requisitadas por quem vai adquirir, a um menor custo. Esta visão ajudou a disseminar nas empresas a ideia da montagem de centro de custos, que permite comparar quanto custa internalizar uma etapa do processo produtivo em comparação à contratação desta etapa a terceiros.

O conceito de empresa mudou. No conceito passado, a empresa tinha de ter ativos: sede própria, galpões, máquinas, veículos e equipamentos próprios. Hoje, empresa numa visão moderna tão somente é gestora de um conjunto complexo de contratos. Isso inclui contratos de trabalho, contrato com os fornecedores, com as firmas que são operadoras internas ao seu espaço de produção e contratos com operadores logísticos, que entregam, recebem e prestam serviços pela empresa contratante. Enfim, uma empresa, hoje, é coordenadora da ação de outras empresas. A empresa de canal fechado Sky é isso! Todas as atividades-fim são terceirizadas. Também o seu carro é resultante da terceirização de todas as atividades-fim. Por outro lado, eu gostaria que os hospitais também se organizassem nesse modelo. Eu correria menos riscos!

Essa discussão sobre terceirização é profundamente oportuna para se repensar a organização da atividade de produção leiteira. Mas, isso eu farei no próximo artigo, que vem daqui a alguns dias. Por favor, aguarde!

PAULO MARTINS

Paulo do Carmo Martins - Economista, Doutor em Economia Aplicada (Esalq/USP). Pesquisador da Embrapa Gado de Leite e Professor Associado da Facc/UFJF

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PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/05/2015

Prezado amigo Carlos,

É do sul que virá a mudança de comportamento. Se não for daí, de onde será???????
CARLOS ALBERTO GOMES DE ARAUJO

CARLOS BARBOSA - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/05/2015

Dr. Paulo, parabéns pelas colocações, vejo como alternativa para pecuária leiteira na pequena propriedade principalmente, a terceirização como um potencial para aumento de produtividade e escala de produção. Difícil é quebrar com costumes arraigados pela tradição. Mas já existem iniciativas em nossa região, tímidos mas de sucesso. Um abraço
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/05/2015

Júlia, é isso!

Sair do patrimonialismo e chegar ao Estado Burocrático foi uma conquista, pois despersonalizamos o trato da coisa pública. Somente por isso hoje temos concursos e não apadrinhados na contratação de servidores.

Mas, agora precisamos abandonar a lógica do Estado Burocrático e ir além, em busca do conceito de Estado Gerencial.
JJULIA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 22/05/2015

Excelente texto! Parabéns pela explicação didática, que com certeza serviu para esclarecer muitas dúvidas de quem discute o tema sem nunca tê-lo estudado. O que as pessoas não entendem é que quando o setor produtivo ganha competitividade, a produção e o nível de emprego aumentam, enquanto os preços tendem a cair. No fim todos ganham. Tem gente com medo de que o Estado brasileiro, super eficiente na prestação de seus serviços, perca a qualidade. Pode isso, Arnaldo?
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/05/2015

Olá Moizés,

Obrigado pela mensagem e seus comentários. Penso que o papel do Estado é oferecer bens públicos de qualidade para a sociedade, visando assegurar que as oportunidades sejam as mesmas. A melhor forma de agir nesse sentido é ter, essencialmente uma educação de qualidade. Sou apaixonado pela atividade pública e, embora com convites para atuar no setor privado, não me seduzi.

Terceirização tem a ver com busca de eficiência, regulatório, na relação entre os agentes da sociedade e não propriamente com políticas públicas, efetivamente. Precisamos sair do Estado Burocrático e caminhar para o Estado Gerencial.

Quanto ao filho, que por sinal é a descrição de como atuei na formação dos meus três amados, foquei o ato de gerenciar a criação deles. Filho para mim não é mercadoria. É patrimônio!
MOIZES MARRE

NOVA VENÉCIA - ESPÍRITO SANTO

EM 21/05/2015

Como análise é bom texto, porem, trazendo para a realidade temos que por outros ingredientes como por exemplo qual é o papel do Estado para com sua população em respeito a educação, saúde, transporte..... dentre outros serviços.. O Estado não é uma empresa privada com fins lucrativos, o papel do estado é outro.
A nossa sociedade ainda carece de politicas publicas a serem desenvolvidas e construídas que se terceirizados os serviços públicos não vamos construir nada.
Além de tudo seu Paulo comparar um filho o uma "mercadoria" é distanciar o senso humanitário de nossas próprias proles. Temos outros valores que não são econômicos. a Sociedade brasileira é diferente de tantas outros por preservar esses valores.
Sugestão: nos próximos texto faça uma analise também desse valores, assim poderá contribuir mais.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá João Gomes,

Não conheço o seu caso. Não sei se é regra ou excessão.
JOAO GOMES DE AZEVEDO

MURIAÉ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/05/2015

Boa noite Paulo!
Meu comentário não ficou só em descumprimento de lei, falei também em baixo salario, não fornecimento de EPI, investimento em treinamento, alimentação etc. Claro que os resultados virão más não são duradouro devido a desmotivação.

João Gomes

PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá Roberto,

Obrigado pelo comentário!
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

José, você está à frente desta discussão!
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Concordo, Marcelo!
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Julio,

Leia sobre startups! A prática deles é muito mais do que aqui escrevi
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá Samuel,

Concordo com sua opinião.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Obrigado, Omar. Concordo com sua oinião
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá Geraldo,

Filho realmente não é produto. Mas, sua criação pode ser terceirizado. E isso infelizmente continua nos anos subsequentes. Há pais que não entendem, por exemplo, que escola não substitui, mas complementa, a formação do filho.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Obrigado, Anderson
ANDERSON SANTOS GALVÃO

RIO VERDE - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/05/2015

muito bom conteúdo!
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Obrigada, Juliana.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá Tiago, a terceirização acentua a especialização, base do aumento da produtividade.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá João Gomes, respeito sua visão, até porque é baseada em sua experiência de vida. Mas, o que faz uma empresa descumprir a lei não é a terceirização.
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