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Prevendo 2015?

POR PAULO MARTINS

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/12/2014

6 MIN DE LEITURA

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Este é o primeiro final de ano sem as sempre aguardadas previsões da Mãe Dinah. Ela faleceu em maio deste ano. Ficou famosa por fazer previsões variadas. Mas, ela nunca fez nenhuma previsão sobre o setor lácteo. Por que será? Então, sem bola de cristal e sem jogar tarô ou búzios, no vácuo deixado pela Mãe Dinah, que tal fazermos algumas previsões?

O professor Luiz Carlos Mendonça de Barros é quem, ao meu juízo, melhor sabe ler a conjuntura brasileira, o que é um grande feito. Afinal, somos um país volátil por natureza. Mais que emocionante, nossa economia é sempre um convite à aventura. Pois, aprendi com ele que para analisar a conjuntura econômica de um país específico ou a conjuntura econômica global, não se deve dar muita importância aos noticiários, mas à cotação do ouro. Afinal, ao sentir a menor possibilidade de abalos, o capital se refugia no ouro, a forma mais genuína de garantir reserva de valor, proteção contra instabilidade. Então, a regra é clara. Se as expectativas são favoráveis, o ouro tem baixa cotação. Se o que se espera é a instabilidade, a cotação do ouro sobe em direção às nuvens!

A Figura 1 traduz o comportamento da cotação do ouro nos últimos 40 anos ou 500 meses. Na primeira está o comportamento da cotação nos Estados Unidos e na segunda aqui no Brasil. Perceba que, quando tivemos a famosa crise do petróleo em 1973 e a economia mundial paralisou, o impacto foi imenso, mas nada similar à falência da economia mundial ocorrida em 1980, quando os países perderam efetivamente a capacidade de gerar políticas públicas setoriais.

Agora, veja que, de 1983 a 2003 a cotação do ouro manteve certa estabilidade nos Estados Unidos. Já no Brasil, surgiu um dente, com queda abrupta exatamente quando tivemos o Plano Real. A partir de 1998 a cotação volta a subir ao patamar anterior ao Plano e, depois de 2003, ocorre uma contínua valorização do ouro. Portanto, estamos há onze anos vivendo um período de maior instabilidade, somado a uma volatilidade nas expectativas, traduzida na volatilidade da cotação do ouro.


Figura 1. Cotação do Ouro nos EUA e Brasil, jan/1975 a dez/2014.

Veja agora a Figura 2. Ao longo de 2009, com a eclosão da crise financeira internacional, ocorreu um contínuo aumento no valor do ouro. Quanto mais acentuou a crise, maior foi a valorização até que, a partir de 2012, a cotação começou um movimento no sentido contrário, ou seja, o ouro continuamente foi se desvalorizando, na medida em que a economia americana foi se recuperando. Já no Brasil, a crise de 2009 não levou a um forte impacto no primeiro momento. Mas, no segundo semestre de 2010, próximo das eleições, a cotação do ouro mudou de patamar e não voltou a cair até hoje. Portanto, a conclusão é clara. Nos Estados Unidos as expectativas estão melhorando e o mesmo não ocorre no Brasil.


Figura 2. Cotação do Ouro nos EUA e Brasil, jan/2009 a dez/2014.

Como se déssemos um zoom, pela Figura 3 perceba que, ao longo deste ano, de março para cá a cotação do ouro nos Estados Unidos tem viés de queda, com pequena variação a partir de novembro, quando o presidente Obama sofreu uma derrota nas eleições legislativas e os republicanos passaram a ter maioria na Câmara e no Senado Federal. Já no Brasil, desde setembro o ouro não para de subir. Quando as expectativas são favoráveis, as pessoas tendem a consumir mais. Leite derivados são bens que reagem muito ao comportamento da economia. Quando o cenário é favorável o consumo é aquecido. Quando o cenário é de tensão, de risco, de ouro valorizado, o consumo de lácteos desaquece. Então, fica a pergunta para você responder: em 2015 teremos um mercado mais favorável ou menos? Faça a sua previsão!


Figura 3. Cotação do Ouro nos EUA e Brasil, jan a dez/2014.

A cotação do Dólar frente ao Real é variável fundamental para definir se seremos exportadores ou importadores de leite. Nos últimos anos tivemos a valorização do Real frente ao Dólar. Isso significou o encarecimento de todos os bens e serviços brasileiros em relação aos produtos importados. O resultado foi que, de 2011 para cá acumulamos importações de R$ 1,5 bilhões de leite e derivados. O Gráfico 4, contudo, mostra um fenômeno interessantíssimo. Veja que a menor cotação desta série de valores médios semestrais e em números-índices ocorreu no segundo semestre de 2011. Em outubro o Dólar chegou a ser cotado em R$ 1,50. De lá pra cá houve uma desvalorização do Real em 50%. Não é sem motivo que as importações este ano fecharão em valores quatro vezes menores que em 2011. Agora, é a sua vez: veja que estimei a tendência do comportamento do Real frente ao Dólar, representado pela reta expressa na Figura. Qual é a sua aposta? Teremos Dólar se elevando em relação ao Real em 2015?


Figura 4. Cotação do Dólar frente ao Real em valores médios semestrais, expressos em números-índices. Brasil, 2008 a 2014.

Os principais importadores de leite do mundo são também exportadores de petróleo. Diamante e petróleo carregam a maldição de não diversificarem as economias dos países exportadores. Esses países passam a depender basicamente da receita das exportações desses produtos para adquirir alimentos. Então, quando o preço do petróleo está elevado ocorre crescimento da demanda mundial de leite, que se traduz em elevação de preços internacionais. O inverso é verdadeiro. Na Figura 5 está representado o comportamento dos preços mensais do barril de petróleo a partir de janeiro de 2013. Perceba que desde maio os preços estão despencando, em função da menor demanda chinesa e da entrada do gás de xisto americano como efetiva alternativa energética. No dia 15 de dezembro os preços chegaram a US$ 60,00. Com petróleo em queda a Venezuela, Angola, México, Rússia e países árabes comprarão menos leite? Então, que aposta você faz para o preço internacional do leite para 2015?


Figura 5. Cotação mensal do barril de petróleo em Londres. Jan/2013 a nov/2014. 

Nos últimos anos os preços do milho e principalmente da soja fizeram a alegria dos produtores. Eles receberam bem mais que o custo de produção. Mas, será que isso tem chances fortes de se repetir? A Figura 6 parece mostrar que não. No caso do milho, o soluço atual de preços tem a ver com a entressafra. Então, sua aposta é que a ração complicará ou não os custos de produção em 2015?


Figura 6. Cotação do Preço mensal da soja e do milho Jan/2011 a nov/2014.

Certamente você fez suas previsões, tendo por base essas variáveis básicas e sua experiência. Olhando 2015 daqui, sou levado a imaginar que continuaremos tendo ouro caro no Brasil, ou seja, instabilidade quanto ao futuro da economia. Isso significa que minha aposta é que a demanda por leite em 2015 não crescerá mais que 1,5%. O dólar será a grande proteção do setor, aumentando a competitividade da produção brasileira. Os preços no mercado internacional cairão, o que sempre afeta os preços no Brasil. Mas o impacto no Brasil será menor, em função da desvalorização do Real. A importação manterá o patamar desse ano, pelo menos, com redução dos preços ao produtor. Todavia, a margem do produtor será menos impactada, pela redução dos preços de soja e milho.

Mas, registre e acompanhe: crescerá a internacionalização da indústria. Além disso, fique com uma sugestão: continue a economizar água. Ela fará falta em 2015!

PAULO MARTINS

Doutor em Economia Aplicada. Chefe Geral da Embrapa Gado de Leite e Professor da UFJF.

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SANTILUSA

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/09/2015

Meu amigo,essas previsões, esses artigo vale mais que ouro. Pois curso o ultimo ano em administração e meu trabalho de conclusão de curso tem o seguinte tema: Gestão de Custo da pecuária leiteira na agricultura familiar no município de Santa Isabel GO. Espero receber mais informação.
Parabéns pelo trabalho...
ELVIS LUIS BASSO

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/05/2015

Parabéns pela explanação, mas também gostaria de colocar junto a esse cenário, que o preço pago ao produtor depende muito do mercado interno que passará por enorme dificuldade, com a estagnação do crescimento econômico (recessão técnica), falta de investimentos estrangeiros, juros elevados e aumento de impostos. Não precisa ser a mãe dina para avaliar que teremos um 2015 muito difícil para o setor e talvez um 2016. Tomara que a crise na Russia seja pequena e com a elevação do leite em pó consigamos exportar e ocupar o espaço anterior dos americanos e europeus, pois o que é ruim pode piorar. Também lembro que o custo de fertilizantes e demais produtos com os mesmos componentes subiram de forma expressiva.
CLAUDIR JORGE KUHN

TOLEDO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/05/2015

Achei muito interessante, e bem melhor que as previsões da mãe Dina.
CARLOS ALBERTO T. ZAMBONI

MOCOCA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 20/05/2015

Prezado Dr. Professor Paulo Martins

Parabéns pela Excelente matéria. Ilustrativa e repleta de ensinamentos. Temos que meditar frente às preciosas dicas oferecida nela.
Previsão sobre o setor de Lácteos, certamente a Mãe Dinah não se atreveria, pois certamente não acertaria sequer uma, diante de sua complexidade. Nós profissionais que estamos nesta estrada a mais de 30 anos, nos atrevemos às previsões por força do nosso oficio, mas mesmo assim, qdo somos considerados "os bons" de previsões neste segmento, são quando erramos menos. Vamos nos esforçar mais em 2015 e fazermos o que precisa ser feito. Como disse as ferramentas estão aí.

Saudações.
Zamboni
MARCELO DE REZENDE

LONDRINA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/05/2015

Esse artigo vale ouro! Parabéns Paulo do Carmo! Boas festas, receba um grande abraço da turma da Cooperideal que muito admira seu trabalho.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá Marcelo,

Admiração mútua. Você lidera um time que sabe tirar ouro de leite!
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Pois é Zamboni,

Quando o assunto é leite, prever o passado já é difícil. O futuro, então, é coisa que nenhum vidente ou sensitivo se arrisca...
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Claudir,

Obrigado. Se mais leitores afirmar o mesmo qeu você, mudo de profissão e ocupo o lugar dela...
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Caro Elvis,

Compartilho da sua análise, que traz outras variáveis importantes para a construção do cenário. Contudo, penso que estou mais otimista, pois acredito que 2015 será difícil, mas passaremos por ele em grande estilo.
PATRICIA TERRA SA

ITAJAÍ - SANTA CATARINA

EM 20/05/2015

Excelente seu artigo Paulo do Carmo Martins. Gostaria de compartilhar este otimismo contigo, mas não acredito que o leite estará "blindado" ao triste cenário econômico. Se achar interessante, veja uma entrevista do Sr. Delfim Neto, na impressionante lucidez dos seus 85 anos.
Feliz Natal
Um abraço.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Olá Patrícia,

Admiro Delfim Netto e sua lucidez. Ele tem por hábito ser menos pessimista que a maioria dos analistas. Não vi sua entrevista recentemente. Penso que teremos um ano difícil, mas não será triste ou tétrico. O leite não está blindado. Mas, será mais suave a transição de 2015 para 2016 que se possa imaginar. A carga mais dura acontecerá no primeiro semestre e irá suavizando na medida em que chegarmos ao Natal. Esta análise não considera fenômenos externos extremos, como uma quebradeira russa, por exemplo, que não acredito.
JOSÉ ROBERTO POIATTI

POÇOS DE CALDAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 20/05/2015

Excelente!! Sou seu admirador e também do Mendonça de Barros e vou estar compartilhando este artigo com uma PHD que curte muito esses temas.
Abs,
Poiatti
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Caro Poiatti,

Certamente a PHD acrescentará observações sobre esta análise. Por favor, nos informe a respeito.
JOSÉ CARLOS TEIXEIRA DOS REIS

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/05/2015

Parabéns Dr. Paulo Martins pela qualidade do artigo. EXCELENTE!!!
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Obrigado, José Carlos!
HERMENEGILDO DE ASSIS VILLAÇA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015


Prezado Paulo

Como sempre repito,sem qualidade não chegaremos a lugar algum.

Partabens pelo seu artigo.

Aproveito para desejar - lhe como a seus familiares um santo natal e feliz ano novo.

Do amigo, Hermenegildo.

CLAUDEMIR DE VARGAS

PEJUÇARA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/05/2015

Tudo no Brasil são análises, dentro de um parâmetro, por sinal muito bem analisada. Porém, a análise de receita e despesa, versus lucro vão muito longe desta análise. O setor Leiteiro passa por profundas mudanças. Para o empresário leiteiro não é a melhor opção de lucro. O setor leiteiro, é uma opção em tese lucrativa para pequenas propriedades onde a mão de obra é familiar. Se tomar o preço do adubo, uréia, salários, diesel, medicamentos,serviços de manutenção, todos estão em alta.A margem é quase zero. O 2015, a meu juizo, no primeiro semestre é de arrocho extremo com a fuga de muitos produtores de leite, liquidação de matrizes e redução do plantel. Do segundo semestre em diante, como o negócio beira a extinção, poderá haver uma luz no final do túnel, que dependerá que muitos fatores. Porém , atravessamos um período difícil, que em uma escala de 0 a 10, creio passarmos por por nota, 9,5. Ou seja, segurem-se quem puder. reduza custos se quiser se manter no setor! feliz 2015.
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Caro Claudemir,

Realmente, não é fácil ganhar dinheiro com leite. Também concordo que a produção familiar tem mais facilidade para permanecer na atividade. Farei um artigo proximamente analisando 2014, estimulado pela sua mensagem.

Obrigado por aquecer o debate.
LUIZ AUGUSTO PFAU

CURITIBA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/05/2015

Parabens ,bem texto. Agradeço o apoio que vc deu a Emater-pr neste ano . Esperamos novas parcerias em 2015. Feliz natal
PAULO MARTINS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Caríssimo Pfau,

Parabéns pelo trabalho que a Emater-PR realiza junto aos produtores de leite. Em 2015, estaremos ainda mais próximos. Boas Festas!
MilkPoint AgriPoint