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Pasteurelose em pequenos ruminantes

POR ANDRÉ MACIEL CRESPILHO

E CARMO EMANUEL ALMEIDA BISCARDE

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/03/2010

5 MIN DE LEITURA

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A pasteurelose representa uma importante enfermidade que acomete os pequenos ruminantes, levando a prejuízos econômicos relacionados ao óbito e redução no ganho de peso corporal, além do comprometimento do bem estar animal (ODUGBO et al., 2006).

Os agentes causadores da doença representam as bactérias Mannheimia haemolytica (anteriormente designada como Pasteurella haemolytica) e Pasteurella multocida (MARTIN et al., 1996), microorganismos oportunistas que figuram como os principais responsáveis pela doença do trato respiratório superior de bovinos, ovinos e caprinos em todo o mundo (ZAMRI-SAAD et al., 1996). A Figura 1 ilustra a importância da pasteurelose como causa de pneumonia e mortalidade em cordeiros.

Como naturalmente os diversos sorotipos de Pasteurella e Mannheimia habitam o meio ambiente (incluindo o solo, pastagens, aguadas e instalações) e o sistema respiratório tanto de animais doentes quanto daqueles clinicamente sadios (VIANA et al., 2007), algumas situações predisponentes como os quadros de imunossupressão do hospedeiro (secundária às infecções primárias por vírus ou micoplasma), mudanças de temperatura, elevação de umidade e ventilação deficiente favorecem o estabelecimento do microorganismo e disseminação da doença até o trato respiratório inferior levando aos quadros de pneumonia. Qualquer condição de estresse pode promover uma queda na atividade do sistema imune de cordeiros e cabritos devido à intensa liberação do hormônio cortisol, situação que predispõe aos surtos de pneumonia ou infecção generalizada associada a pasteurelose.

Figura 1 - Frequência dos agentes etiológicos isolados a partir dos pulmões e/ou secreções respiratórias de cordeiros que vieram a óbito com sintomas compatíveis com pneumonia. Mais de 50% dos óbitos atribuídos aos quadros de doença respiratória foram causados pela pasteurelose. Adaptado de Lacasta et al., (2008).



No Brasil a doença atinge um maior número de animais durante os meses chuvosos de fevereiro a março (ARAÚJO et al., 2009), embora Lacasta et al., (2008) não tenham observado a influência significativa da estação do ano e da temperatura ambiental na incidência dos quadros de pneumonia ovina na Espanha. Já para a pasteurelose caprina aponta-se também uma maior ocorrência de casos em países de clima tropical (Purdy & Straus, 1995) durante os meses mais quentes e chuvosos.

Sinais clínicos

Os microorganismos causadores da pasteurelose multiplicam-se rapidamente na nasofaringe e nas tonsilas dos animais susceptíveis após qualquer insulto que comprometa a resistência imunológica animal, havendo uma ampla disseminação por toda mucosa respiratória, podendo atingir até mesmo o epitélio dos alvéolos pulmonares nos casos mais severos (NARAYANAN et al., 2002).

O exame clínico dos animais enfermos frequentemente revela crepitação durante a auscultação da traquéia e pulmões. Clinicamente a dificuldade respiratória e a elevação da temperatura são os principais sinais detectados, assim como a secreção ocular e nasal, congestão de mucosas oculares, tosse intermitente e salivação espumosa que também podem ser observados (ARAÚJO et al., 2009; RADOSTITIS et al., 2002). A pneumonia ou broncopneumonia representam as causas primárias dos óbitos de ovinos e caprinos acometidos pela pasteurelose.

Além da forma pulmonar, a pasteurelose pode-se manifestar na forma septicêmica em cordeiros (infecção generalizada), que geralmente ocorre concomitante com a mastite em ovelhas (ARAÚJO et al., 2009). Em 80% dos quadros de mastite aguda as bactérias do gênero Pasteurella e Mannheimia associam-se a outros agentes como o Staphylococus aureus no desencadeamento da doença (RADOSTITIS et al., 2002).

Quadros de aborto podem ocorrer como condição secundária ao estresse desencadeado pela própria doença (SMITH, 2006), embora a presença de lesões macro e microscópicas nos órgão respiratórios dos fetos abortados (especialmente a formação de nódulos multifocais na cavidade nasal e pulmões) sugerem um efeito direto dos microorganismos na fisiopatologia do aborto.

Novos estudos também apontam os agentes etiológicos da pasteurelose como causadores de patologias nos órgãos reprodutivos de animais adultos. García-Pastora et al., (2009) relataram quadros de aderência e atrofia testicular além da formação de granulomas espermáticos em carneiros infectados pela Pasteurella multocida, e severa epididimite e atrofia testicular em reprodutores acometidos pela Mannheimia haemolytica. Ambos os quadros representam formas menos frequentes de manifestação da pasteurelose levando a infertilidade animal.

Tratamento e Prevenção

Preconizam-se como antibióticos de eleição àqueles pertencentes ao grupo das tetraciclinas, sendo que a Mannheimia haemolytica e a Pasteurella multocida também mostram-se susceptíveis às penicilinas e aos antimicrobianos à base de sulfa, porém esses dois últimos possuem o inconveniente de serem necessárias várias aplicações para que se consiga êxito ao tratamento.

Alguns países dispõe de vacinas para o controle da pasteurelose. No entanto, reporta-se uma grande variabilidade entre os constituintes de cada formulação comercial levando a uma grande variabilidade na eficácia das vacinas como ferramenta de prevenção da doença (MEHMET AKAN et al., 2006).

Nesse contexto, medidas gerais que garantam o bem estar animal como um correto manejo nutricional e sanitário, além da instituição de boas práticas de manejo como limpeza de instalações, baixa lotação animal, estabelecimento de período de quarentena para animais a serem introduzidos no rebanho representam as principais estratégias para evitar os estados de estresse e a supressão imune dos animais. Como cordeiros e cabritos recém nascidos representam a categoria animal mais susceptível aos quadros de pneumonia, atenção especial deve ser dada no manejo sanitário e conforto das instalações no período pós-parto.


Referências bibliográficas

ARAÚJO, M.R, COSTA, M.C, ECCO, R. Ocorrência de pneumonia associada à infecção por Mannheimia haemolytica em ovinos de Minas Gerais. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.29, n. 9, p.719-724, 2009.

AL-TARAZI, Y.H.M.; DAGNALL, G.J.R. Nasal carriage of Pasteurella haemolytica serotypes by sheep and goats in Jordan. Tropical Animal Health and Production, v.29, p.177-179, 1997.

BARBOUR, E. K.; NABBUT, N.H.; HAMADEH, S.K. et al. Bacterial identity and characteristics in healthy and unhealthy respiratory tracts of sheep and calves. Veterinary Research Communication, v.21, p.421-430, 1997.

COLLINS, M.T.; SUÀREZ-GÜÉMES F. Effect of hydrocortisone on circulating lymphocyte numbers and their mitogen-induced blastogenesis in lambs. American Journal of Veterinary Research, v. 46, n. 4, p.836-40, 1985.

GARCÍA-PASTORA, L., BLASCOB, J.M., BARBERÁNA, M. Pasteurellosis as a cause of genital lesions in rams. A descriptive study. Small Ruminant Research, v.87, p.111-115, 2009.

LACASTA, D., FERRERB, L.M., RAMOS, J.J. et al. Influence of climatic factors on the development of pneumonia in lambs. Small Ruminant Research, v.80, p. 28-32, 2008.

MARTIN, W.B. Respiratory infections of sheep. Comparative Immunology, Microbiology and Infectious Disease., v.19, p.171-179, 1996.

NARAYANAN, S.K.; NAGARAJA, T.G.; CHENGAPPA, M.M. et al. Lenkotoxius of
gram-negative bacteria. Veterinary Microbiology, v.84, p.337-356, 2002.

ODUGBO, M.O., ODAMA, L.E., UMOH, J.U. et al. Pasteurella multocida pneumonic infection in sheep: Prevalence, clinical and pathological studies. Small Ruminant Research, v.66, p.273-277, 2006.

PURDY, C.W., STRAUS, D.C. Efficacy of a capsule preparation and ultraviolet-killed Pasteurella haemolytica Al vaccine in goats. Small Ruminant Research, v.15, p.177-186, 1995.

RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C,; BLOOD, D. C.; HINCHCLIFF, K. W. Clínica veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e equinos. 9.ed.Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002. 1737p.

VIANA, L.; GONÇALVES, R.C.; OLIVEIRA FILHO, J.P.; PAES, A.C.; AMORIM, R.M. Ocorrência de Mannheimia haemolytica e de Pasteurella multocida em ovinos sadios e com enfermidade respiratória. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.59, n.6, p.1579-1582, 2007.

SMITH, B.P. Medicina interna de grandes animais. 3.ed. São Paulo: Manole, 2006. 1728p.

ZAMRI-SAAD, M., EFFENDY, A. W. M., MASWATI, M. A., et al. The goat as a model for studies of pneumonic pasteurellosis caused by Pasteurella multocida. British Veterinary Journal, v.152, p.453-458, 1996

ANDRÉ MACIEL CRESPILHO

VetSemen - Primeiro laboratório privado especializado na análise de qualidade do sêmen utilizado em programas de inseminação artificial.

CARMO EMANUEL ALMEIDA BISCARDE

Formado em 2007 pela UFBa; Residente em Fisiopatologia da Reprodução e Obstetrícia pela FMVZ-UNESP-BTU; Mestre em Medicina Veterinária pela FMVZ-Unesp-BTU; Médico Veterinário da Universidade Federal Do Recôncavo da Bahia - UFRB.

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MARCIO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 05/04/2010

Ótimo artigo, e excelentes os comentários.

Os autores estão de parabéns na humildade e na forma como recebem as críticas.

Um grande abraço.
CARMO EMANUEL ALMEIDA BISCARDE

OUTRO - BAHIA

EM 26/03/2010

Olá amigos,
desde já, muito obrigado, Thales, pelas explanações prévias.
Deve-se considerar outros problemas relacionados aos borregos, principalmente nos primeiros dias de vida. Ao nascerem, os animais não possuem um sistema de termo regulação maturo, por isso, ocorrem algumas mortes em animais não estabulados ou estabulados de forma indevida. É necessário, que a instalação seja programada de forma correta para que se evitem ventos excessivos ou molhem com chuva dentro das instalações. Estas intalações devem tornar o ambiente fresco e arejado. Além disto, faz se necessário à limpeza diária e colocação da cal, diminuindo a umidade na instalação. Outra medida que deve ser levada em conta é a prevenção de acidentes como pisoteio dos cordeiros pelos animais maiores, devendo-se dividir os animais em lotes homogêneos. Desde já agradaço aos colegas pela participação. Espero ter sido útil.
Grande Abraço,
Carmo Emanuel Almeida Biscarde
THALES DOS ANJOS DE FARIA VECHIATO

SÃO BERNARDO DO CAMPO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/03/2010

Boa tarde Lívia,

Sou Médico Veterinário, com residência em clínica médica de ruminantes e mestrado em doenças nutricionais e metabólicas de ruminantes, ambos pela FMVZ/USP e já me deparei com diversos casos de morte súbita na qual o diagnóstico final é por pasteurelose, principalmente pela do genero Pasteurella multocida, cuja forma prevalente é a septicêmica. Nestes casos poderia sim ocorrer morte súbita dos animais, em especial das categorias mais jovens no rebanho.

As vacinas protegem os animais das doenças, mas sua eficácia não chega a 100% e por isso que animais vacinados, independente da finalidade e etiologia, podem manifestar o quadro clínico. Recomendo ficar atenta ao tipo de manejo, uma vez que fatores imunossupressores, como nutricional (mudanças bruscas de dietas), biológico (viral e/ou bacteriana), ambiental (alterações de temperatura, etc.) ou manejo (desmama, entra no confinamento, descole, tosquia, etc), podem predispor ao surgimento deste quadro.

Uma outra alternativa de tratamento é uso de florfenicol, pois tantos estes como as tetraciclinas são bacteriostáticos, ou seja, inibem o crescimento e replicação bacteriana. Quando opta-se por antimicrobianos bactericidas, estes matam as bactérias e com isso há liberação de endotoxinas, o que irá agravar a destruição pulmonar.

Animais com quadros respiratórios, em especial pasteurelose, apresentam intensa inflamação pulmonar e com a resolução clinica, podem apresentar redução de desempenho, visto que há intensa consolidação pulmonar (hepatização dos lobos com aspecto de fígado a necropsia). Por isso recomenda-se o uso de antinflamatório em conjunto com a antibioticoterapia, na finalidade de minimizar o risco de consolidação pulmonar.

Aproveita e parabenizo os autores pelas colocações feitas.

Me coloco a disposição.

Forte abraço a todos,
Thales dos Anjos de Faria Vechiato
LIVIA SANTANA

AVARÉ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 25/03/2010

Boa Tarde,

Vacino meu rebanho de ovinos a cada 4 meses e em animais com sintomas de pasteurelose, entro com tratamento com oxitetraciclina.
Gostaria de saber se a mortalidade de cordeiros, sem apresentação de sintomas pré-existentes pode significar casos de pasteurela?
Mesmo vacinando todo o rebanho de matrizes e cordeiros, qual outro meio posso utilizar para diminuir estas mortalidades?

As vacinas de clostridiose e pasteurelose seguem rigorosamente o calendário, realizando-se a cada 6 e 4 meses. Também não possuo problemas de verminose, pois faço controle através de exames mensais de OPG.

Grata,

Lívia Santana
MilkPoint AgriPoint