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O desafio de obter informações sobre preços no SAG de ovinos e caprinos

POR CARINA BARROS

E MARIA ANGELA FERNANDES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/08/2010

6 MIN DE LEITURA

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Temos comentado muito nos nossos artigos sobre preços e custos, enfatizando aspectos teóricos e mostrando resultados práticos obtidos no campo. Diante de todo o cenário é importante pensarmos na questão: informações de preço estão disponíveis no sistema agroindustrial de ovinos e caprinos?

Temos disponível muita informação zootécnica resultante de pesquisas realizadas em diversas instituições que podem ser adotadas para melhoria da produtividade. No entanto, em termos de mercado e comercialização ainda temos muito a estudar. Atualmente, não é fácil conseguirmos obter informações sobre preços. Podemos citar como exemplo a dificuldade de saber quanto os frigoríficos pagam pelos animais e até mesmo por quanto os varejistas revendem, entre outros.

A falta de informação a respeito dos preços praticados é mais evidente por parte do produtor. Não há um canal de comunicação eficiente para esse elo da cadeia e quando se busca individualmente conhecer esses preços há barreiras de informação, tanto por parte dos produtores quanto dos frigoríficos.

A não-existência de informações corretas e suficientes para orientar a decisão dos agentes econômicos limita sua capacidade de agir de modo eficiente, sendo fonte de mau funcionamento dos mercados e perda de bem-estar (LIMA, 2006). Devido a isso temos assimetria de informação, quando um dos agentes tem informações que o outro não tem. Isso significa que um agente pode fazer uso da informação que detém, e não está disponível ao outro agente, para benefício próprio trazendo prejuízo à outra parte. Essa informação imperfeita acarreta em incerteza nas transações entre os elos da cadeia produtiva, além de possibilitar atitudes oportunistas.

Na tentativa de obter mais dados sobre a conduta de frigoríficos que abatem e compram carne ovina e os preços praticados, reduzindo a assimetria, a coordenação horizontal é um caminho. Essa é representada pela organização de agentes do mesmo segmento como as cooperativas, associações e outras organizações formais e informais que buscam negociar melhores condições de comércio com firmas ou reduzem competição dentro do próprio segmento. Organizados, grupos de produtores podem buscar ganhos econômicos por meio do aumento de escala de produção e, com isso, obter barganha junto aos frigoríficos.

Segundo Zylbersztajn (2005), essa coordenação possibilita ganhar em economia de escala, economia de rede, adicionar valor de forma seletiva ou ampliar o potencial de coordenação com a indústria processadora. A organização cooperativa de produtores pode auxiliá-los nas negociações e no fluxo de informações. Algumas iniciativas nesse sentido podem ser observadas em alguns estados como Paraná, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, entre outros.

No entanto, o papel do ambiente organizacional é muito relevante para auxiliar na simetria de informações. As instituições de pesquisa podem contribuir com desenvolvimento de ferramentas que facilitem o fluxo de informação no SAG. Uma instituição importante é a Câmara Setorial, pois essa deve ser formada por representantes de todos os elos da cadeia produtiva para discutir os problemas, propor soluções, encaminhar e cobrar ações dos órgãos competentes. Esse é um canal que o SAG tem para acesso ao Governo e participação nas decisões públicas. Para isso a Câmara Setorial necessita de efetiva participação dos elos da cadeia e ter porta voz experiente e competente. Nos estados de Minas Gerais, Paraná e São Paulo têm sido realizadas diversas reuniões para elaboração de propostas para serem discutidas com órgãos governamentais.

Já o ambiente institucional representado pelo aparato legal pode contribuir para simetria de informações por meio de políticas governamentais para estruturação da cadeia, bem como apoio e reestruturação da extensão rural, pois a presença de técnicos no campo é fonte de informação. Além disso, o Governo pode instituir políticas de financiamento, programas de estruturação do SAG, bem como reduzir alguns impostos e taxas. Algumas Câmaras Setoriais têm levado propostas na tentativa de conseguir isenção de cobrança do PIS/COFINS e redução de alíquotas de ICMS de modo a aumentar o volume de animais abatidos oficialmente e melhorar a competitividade da carne ovina.

Ainda no contexto de informação, nota-se claramente a escassez de dados a respeito de custo de produção. Os produtores na maioria dos casos não têm controle de suas despesas e não detém as informações necessárias para realizar cálculos de custos. Percebe-se algumas tentativas por parte de alguns produtores em fazer seu cálculo de custo, mas acabam fazendo de forma errônea sem considerar todos os fatores de produção. Especialmente os custos implícitos, tais como depreciação, juros e custo de oportunidade, são nitidamente ignorados nos cálculos. Dessa forma, apesar de produzir com eficiência, o produtor não é capaz de avaliar o resultado econômico de sua atividade e acaba se descapitalizando pela falta de informação e controle. Já por parte do frigorífico, esse atua de modo mais empresarial e possui gestores mais preparados para identificar e controlar o custo de produção, no entanto, essa informação é restrita à firma.

Para que o SAG da ovinocultura de corte consiga disponibilizar as informações a respeito de custo de produção, primeiramente há necessidade de identificar esse custo. Os produtores necessitam despertar uma postura mais empresarial e buscar informações a respeito de como organizar os seus dados para posteriormente empregá-los nos cálculos. Isso porque sob o ponto de vista da Teoria da Firma o objetivo é maximizar o lucro. Como saber o lucro sem conhecer o custo? Além disso, o preço norteia a resposta de perguntas importantes. O que produzir? Como produzir? Para quem produzir? E para isso conhecimentos sobre a classificação dos custos é útil.

Entretanto, além desses custos podemos observar a presença de custos de transação definidos pelo ramo da Nova Economia Institucional (Coase, 1937) na Economia dos Custos de Transação (ECT) de Williamson (1985). A ECT aponta que há custos para utilização do sistema econômico, bem como custos contratuais, que não são considerados na Teoria da Firma. O valor de custo fixo, variável, médio e marginal se consegue com dados de dentro da propriedade, enquanto os custos de transação envolvem custos que não são facilmente identificados.

Dessa forma, para o SAG coletar e disponibilizar as informações a respeito de preços e custo de produção devem ser considerados os custos de transação envolvidos. Para isso, muitos dados são necessários e para obtê-los há necessidade de consultas a todos os envolvidos no processo produtivo. E quem pagaria esse custo? Essa é a grande questão. Enquanto muitos criticam a assimetria de informação no SAG poucos agem para melhorar o cenário. Iniciativas são observadas em cooperativas e os produtores arcam com os custos envolvidos para ter informação. Alguns sites também fazem fóruns com produtores buscando preços e publicam esses resultados, entretanto, nem sempre aqueles que respondem o fazem de forma sincera. Também se deve analisar, que além de ter um custo para ter simetria de informações, a assimetria pode ser útil no mercado por permitir comportamento oportunista que favorece algumas firmas. Entretanto, a simetria de informações pode aumentar a eficiência dos elos da cadeia produtiva, já que há interdependência entre eles.

O SAG da ovinocaprinocultura ainda tem muitos desafios para enfrentar. Com informações disponíveis é possível identificar quais as melhores estruturas de governança e estratégias a serem adotadas para garantir competitividade no setor. Assim podem ser resolvidas questões como descontinuidade de oferta, melhoria na qualidade da carne e dificuldade de comercialização, temas muito comentados atualmente.

Agora esperamos que os leitores façam seus comentários sobre suas próprias dificuldades na obtenção de dados sobre preço e custos para darmos continuidade à essa discussão nos próximos artigos com os casos práticos. Não deixem de postar sua experiência!!! Contamos com a colaboração de todos para trabalharmos em conjunto!

Referências Bibliográficas

ZYLBERSZTAJN, D. Papel dos contratos na coordenação agro-industrial: um olhar além dos mercados. XLIII Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural. Anais...Ribeirão Preto, 2005.

WILLIAMSON, Oliver E. The economic institutions of capitalism. London: Free Press, 1985. 450p.

COASE, R. The nature of the firm. Economica, v.4, n.16, Nov., 1937. Coordenação horizontal e vertical como fator de inclusão de agricultores familiares no mercado. In: I Congresso de Administração Unifenas. Disponível em: http://www.unifenas.br/extensao/administracao/icongresso/11.htm.

CARINA BARROS

Médica veterinária
Mestre em Ciências Veterinárias UFPR
Doutora em Nutrição e Produção Animal FMVZ-USP
Pós-doutorado FMVZ-USP
Atuação na avaliação econômica e modelagem

MARIA ANGELA FERNANDES

Médica Veterinária pela UFPR
Doutoranda do Programa de Ciências Veterinárias da UFPR
Integrante do LAPOC - Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos da UFPR

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