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Novos estudos contribuem para desenvolvimento da ovinocultura gaúcha

POR CAMILA RAINERI

E AUGUSTO HAUBER GAMEIRO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/11/2010

8 MIN DE LEITURA

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Entre os dias 25 e 28 de julho deste ano ocorreu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, o 48º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER). As reuniões anuais da SOBER são um importante fórum de discussões entre pesquisadores, técnicos e formuladores de políticas, contribuindo para divulgar o conhecimento sobre o setor rural da economia.

O tema deste ano foi "Tecnologias, Desenvolvimento e Integração Social", refletindo a importância do debate sobre os desafios de se desenvolver novas alternativas tecnológicas para conciliar a produção de alimentos, o desenvolvimento científico, a geração de energia renovável e a preservação ambiental. Trazemos neste artigo uma análise de três trabalhos que discutiram as perspectivas para a ovinocultura laneira gaúcha.

O primeiro deles estudou as relações entre os preços da carne ovina no Rio Grande do Sul e no Uruguai; e entre os preços da lã na Austrália e a carne ovina no RS. Foi a pesquisa de Freitas e Barchet (2010). Considerando a importância e o potencial da cadeia produtiva ovina para o Brasil e, em especial para o Rio Grande do Sul, e os seus dois principais parceiros comerciais, o Uruguai e a Austrália, esperava-se que as oscilações de preços da carne ovina e da lã desses países, respectivamente, afetassem a dinâmica do mercado brasileiro.

O objetivo do trabalho foi verificar se as oscilações nos preços da carne ovina uruguaia, e na lã australiana repercutem nos preços internos recebidos pelos produtores gaúchos, e qual seria a velocidade de transmissão entre estes preços. Os dados utilizados no estudo foram as séries mensais de preços da carne ovina do Rio Grande do Sul e do Uruguai e as séries de preço da lã do Brasil e da Austrália, todas no período de janeiro de 2002 a julho de 2009.

Usando avançados métodos econométricos, os autores concluíram que há transmissão de preços entre estes mercados, ou seja, que os preços da carne ovina do Uruguai e da lã australiana participam, efetivamente, na formação dos preços da carne ovina no RS.

Os resultados apontam que no longo prazo, os preços da carne ovina uruguaia teriam relação negativa com os preços da carne ovina no Rio Grande do Sul, de modo que, uma elevação de 1% no preço da carne ovina uruguaia ocasionaria redução em torno de 0,60% nos preços da carne ovina no Rio Grande do Sul. Esse resultado merece uma análise mais cuidadosa. Apesar dos autores não terem explorado as razões para tal relação, pode-se cogitar que uma maior remuneração aos uruguaios incentivaria o aumento à oferta local de carne ovina e, com isso, em um determinado prazo futuro, haveria reversão nos preços locais e, por conseguinte, maior oferta ao Brasil e queda no preço doméstico da carne ovina. É essa defasagem temporal que os estudiosos chamam de "longo prazo": aquele período necessário para que os mercados se reequilibrem novamente, após um determinado choque inicial.

Já o preço da lã australiana apresentou uma relação positiva com o da carne ovina gaúcha. Assim, é plausível esperar que, no longo prazo, um aumento de preço da lã na Austrália influencie, diretamente, o nível de preços da carne ovina no Rio Grande do Sul. Infere-se com 90% de confiança que uma elevação de 1% no preço da lã australiana incrementaria o preço da carne ovina no Rio Grande do Sul em 0,12%.

Isto torna compreensíveis os efeitos da crise internacional da lã e ratifica a importância do desenvolvimento de estratégias e políticas para a valorização da lã que consequentemente também possa levar a um incremento positivo na carne.
Uma vez identificada a relação entre os preços, procurou-se determinar em quanto tempo as relações estabelecidas retornariam ao equilíbrio após uma alteração qualquer no mercado, um chamado "choque". Verificou-se que após um choque de preços, o preço da carne ovina no RS levaria cerca de 13 meses para voltar ao equilíbrio. A carne ovina uruguaia retornaria ao equilíbrio em menos de um mês, enquanto o preço da lã australiana se ajustaria um pouco mais lentamente que o produto uruguaio, no oitavo mês. Tais resultados sugerem que o mercado uruguaio de carne é bem mais dinâmico que o brasileiro, bem como que o da lã australiana.

O segundo trabalho que analisamos, de Linardakis e Hoff (2010), estudou os padrões de competição para a lã. Seu propósito foi definir quais são as características desejadas atualmente pelo mercado mundial do produto. Sua motivação foi a carência no que diz respeito à criação de vantagens competitivas e estabelecimento de estratégias que possam ser úteis a todos os elos que compõem a cadeia produtiva da lã.

Segundo os autores, ainda existe espaço para o comércio de lãs no mercado internacional, pois grandes compradores de lãs finas como Itália, Alemanha, Japão, China e em menores quantidades, o próprio Brasil, e grandes compradores de lã suja de alta micragem (diâmetro) como Índia e novamente a China, demandam volumosas quantidades anualmente, para suprir a indústria têxtil. O estudo é uma tentativa para auxiliar na recolocação de forma competitiva da ovinocultura de lã gaúcha no cenário internacional, através da delimitação dos padrões competitivos da ovinocultura de lã.

Após a análise dos resultados obtidos, foi possível constatar que os principais padrões de competitividade da ovinocultura de lã com vistas a suprir a indústria têxtil mundial são os seguintes:

a.Alta força de tração da mecha (acima de 16 Newton);
b.Análise do Fator de Conforto que tem a ver diretamente com a curvatura da fibra;
c.Ausência de contaminantes como: juta, polipropileno, fio papel e tintas plásticas;
d.Ausência de queimaduras e pigmentos na lã;
e.Ausência de resíduos químicos (clorados, fosforados e outros);
f.Baixa quantidade de Neps (bolinhas);
g.Baixa variabilidade do diâmetro entre as fibras;
h.Baixo nível de vegetais presente entre as fibras;
i.Bom acondicionamento da lã na esquila;
j.Coloração natural da fibra;
k.Controle de parasitas e de verminoses;
l.Criação de programas que beneficiem aqueles produtores que apresentem um melhor produto;
m.Diâmetro da fibra de até no maximo 24 mu;
n.Divulgação de tecnologias visando atingir o segmento produtor primário;
o.Investimento em tecnologia na confecção do fio com a finalidade de produzir um produto que mantenha intensamente as características naturais da fibra ovina;
p.Investimento em tecnologia na confecção dos tecidos que possam permitir a produção de peças de vestuário com flexibilidade, controle de umidade, elasticidade e resistência entre outras características naturais da fibra ovina;
q.Investimento em tecnologia na propriedade rural com a finalidade de melhorar a genética do rebanho;
r.Longo comprimento da mecha;
s.Maior alinhamento das fibras;
t.Manutenção de um padrão racial do rebanho ovino;
u.Orientação ao produtor de não misturar raças de ovinos com aptidão carne e ovinos com aptidão lã, pois não existe uma definição na fibra e sim uma degeneração;
v.Redução da presença de pêlos junto à fibra;
w.Redução de dejetos produzidos na industrialização;
x.Sistema de classificação e comercialização das lãs com diferentes atributos integrando produtor-indústria com preço de mercado internacional;
y.Utilização de processo mecanizado de tosquia;
z.Utilização de tintas adequadas (que saem na Lavagem) nos ovinos.

O terceiro artigo apresentado no Congresso da SOBER (Marquesan e Maurer, 2010), que abordamos nesta matéria, relatou um estudo de caso no qual a lã não era utilizada pela indústria, mas sim por um grupo de artesãs. O trabalho aborda este tipo de atividade como alternativa ao modelo dominante de organização da produção de lã, e aponta que o trabalho artesanal investigado influenciou na melhora do bem-estar e da saúde das artesãs, contribuindo, mesmo que de modo indireto, para o desenvolvimento sócio-cultural da sua comunidade, além de ampliar as opções de emprego e renda de sua localidade.

Segundo os autores, diante de um cenário de franco e evidente declínio da competitividade da ovinocultura laneira, abre-se o devido espaço para que empreendimentos econômicos de caráter alternativo possam emergir. Mesmo que, porventura, a abrangência de empreendimentos dessa natureza (como o artesanato feito de lã) venha a ficar restrita aos limites de uma dada comunidade, eles podem de alguma forma mitigar os efeitos da crise que se instalou nesse setor nos anos 1990, pelo menos, nas comunidades que ainda estão envolvidas em atividades econômicas relacionadas à cadeia produtiva da lã.

O artigo aponta o artesanato com lã ovina como uma alternativa para utilização da lã menos valorizada, retirada dos animais de dupla aptidão (lã e carne) ou cruzados, que passaram a ser cada vez mais comuns nos campos gaúchos após a crise da lã ocorrida na década de 90. Segundo os autores, apesar de estar longe de representar a única e melhor solução para os problemas do setor, abre uma perspectiva alternativa de ganho econômico (quiçá, socioeconômico), especialmente para aqueles que, de outra forma, já poderiam ter abandonado os laços com a atividade.

Um aspecto interessante no caso deste grupo de artesãs é que elas não detectaram, por elas próprias, esta oportunidade. Daí a importância do envolvimento de entidades públicas na organização e manutenção das configurações alternativas, pois fica evidente a presença, na sociedade, de uma força de trabalho ativa e disposta a fazer algo diferente por suas próprias vidas e de outros, mas que, por diversas razões, não são capazes de detectar meios para tal.

Acreditamos que uma das lições mais importantes que podemos tirar destes três trabalhos é que a ciência pode (e deve!) contribuir para a melhor compreensão e consequente melhor aproveitamento dos mercados e meios produtivos. Neste contexto, podemos encontrar cada vez mais pesquisas relacionadas ao funcionamento da cadeia da lã ovina, com o objetivo de fornecer subsídios para uma revitalização desta indústria, tão importante economicamente e socialmente em nosso país.

Devemos também ter a mente aberta para possíveis alternativas para a produção, processamento e industrialização da lã, assim como para a influência de fatores externos (e fora do nosso controle) sobre estes processos. Desta forma, uma visão holística é cada vez mais importante para a compreensão dos mercados e para a detecção de oportunidades.

Artigos citados

FREITAS, C.A., BARCHET, I. Integração de preços entre o Rio Grande do Sul, Uruguai, Brasil e Austrália (2002 a 2009) nos mercados da carne ovina e da lã. IN: CONGRESSO BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL, 48., 2010. Campo Grande: Anais... Campo Grande: SOBER, 2010.

LINARDAKIS, M.A.M.; HOFF, D.N. Padrões de competitividade da ovinocultura de lã com vistas à indústria têxtil. IN: CONGRESSO BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL, 48., 2010. Campo Grande: Anais... Campo Grande: SOBER, 2010.

MARQUESAN, F.F.S., MAURER, A.M. Novas configurações produtivas no pampa gaúcho: da "lã-commodity" às iniciativas de transformação social a partir do artesanato feito de lã ovina natural. IN: CONGRESSO BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL, 48., 2010. Campo Grande: Anais... Campo Grande: SOBER, 2010.

CAMILA RAINERI

Zootecnista formada pela FZEA/USP, com mestrado pela mesma instituição. Doutoranda pela FMVZ/USP. Responsável Técnica pela Paraíso Ovinos e consultora em Ovinocultura.

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