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Fundamentos do manejo do pastejo - Parte 2

POR FELIPE TONATO

E CARLOS G. S. PEDREIRA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/03/2015

7 MIN DE LEITURA

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O pastejo é o processo de colheita da forragem diretamente pelo animal, sendo o processo básico de alimentação de animais em sistema de produção baseados em pastagens.

Ao longo de várias décadas, notadamente na segunda metade do século XX, universidades e centros de pesquisa no Brasil no mundo dedicaram esforços para entender e aperfeiçoar o controle sobre o processo de pastejo. Apesar disso, para o grande público, inclusive boa parte dos diretamente envolvidos no setor produtivo, muitos dos aspectos relacionados ao manejo ainda são obscuros, desconhecidos ou de entendimento duvidoso.

Você pode ler a primeira parte dessa artigo clicando aqui.

Decidindo sobre a frequência de pastejo

A decisão sobre a duração do intervalo entre pastejos tem sido um dos pontos mais controversos e discutidos em relação ao manejo do pastejo por muitos anos. Isso ocorreu não apenas em função das diferentes recomendações existentes para um mesmo cultivar ou espécie forrageira, fruto de enfoques diferentes nas pesquisas, mas principalmente em razão da discussão secundária sobre qual método de pastejo seria o melhor: lotação intermitente ("pastejo rotativo") ou lotação contínua ("pastejo contínuo).

Mais recentemente, resultados das pesquisas indicam que a discussão entre rotativo ou contínuo tem importância secundária e perdeu sua relevância.

O que tem ficado cada vez mais evidente é que cada método tem suas vantagens e desvantagens, e consequentemente, situações em que serão mais ou menos adequados.

Na lotação continua, que por definição é a que dá ao rebanho acesso irrestrito à toda área da pastagem por um longo período de tempo (uma determinada época do ano ou o ano todo), os animais podem ser mais seletivos no pastejo. A frequência e intensidade em que irão pastejar cada área da pastagem é normalmente o resultado da taxa de lotação praticada. Se a taxa de lotação for baixa, isso gera um pasto mais desuniforme, além de não garantir períodos conhecidos de descanso nas diferentes áreas e porções da pastagem. É importante compreender que a lotação continua é um método de pastejo no qual idealmente deveriam se estabelecer variáveis de monitoramento (por exemplo, a altura do pasto) que deveriam permanecer sempre numa faixa ótima para plantas e animais, o que se consegue variando a taxa de lotação.

Em contraste com essa proposta, o que normalmente se denomina no Brasil como sendo pastejo contínuo, é uma situação em que lotes de animais são alocados a áreas de pasto, sem que haja qualquer monitoramento ou controle do processo de desfolhação, com óbvios prejuízos ao sistema, frequentemente incluindo baixos ganhos por animal e por área, além de comprometer a estabilidade do pasto, ora com excesso, ora com falta de forragem. Sistemas assim são caracterizados por baixa profissionalização e baixa viabilidade.

Quando corretamente conduzidos, no entanto, sistemas de produção que incluem a lotação contínua podem ser altamente produtivos, com potenciais vantagens em relação ao rotativo, incluindo menor necessidade de investimento em infraestrutura e menos trabalho no manejo dos animais, já que não necessita da troca constante de piquetes.

A lotação intermitente, rotativa, ou como é mais comumente denominada no país, pastejo rotacionado (curiosidade: "rotacionado" é uma palavra que não existe), é o método de pastejo que tem sido mais preconizado na atualidade. Para muitos, é considerado sinônimo de intensificação dos sistemas de produção, apesar disso não ser uma verdade absoluta.

O pastejo rotativo é definido pelo fato de que duas ou mais subdivisões das áreas de pastagens, normalmente chamadas piquetes, são alternadas em períodos de ocupação e de descanso, para a rebrotação das plantas. Além da alternância de ocupação e descanso, a principal diferença da lotação rotativa em relação à contínua é o fato de que na rotativa o período de descanso é conhecido e garantido pelo ciclo de pastejo (dias de ocupação + dias de descanso). Na contínua, a frequência com que uma planta ou uma porção do pasto é desfolhada é desconhecida e depende de uma série de fatores, dentre eles o hábito de pastejo dos animais e a taxa de lotação.

Assim como pode ocorrer com a lotação contínua, a rotativa também pode levar à degradação da pastagem por sobre ou subpastejo (Figura 1), o que por vezes tem sido observado no Brasil em função da associação de adubações com a subdivisão das pastagens em "módulos rotacionados”, sem a correta adequação no número de animais para promover o consumo da maior quantidade de forragem acumulada. O pastejo rotativo por si só, não significa intensificação e nem é garantia de melhor manejo da pastagem.


Figura 1. Relação entre oferta de forragem, desempenho animal e a faixa ótima de manejo do pastejo (Adaptado de Mott, 1973).

Quando bem conduzidos, sistemas que adotam lotação intermitente normalmente apresentam maior produtividade (produto animal por área), melhor eficiência de colheita da forragem produzida, melhor manejo dos animais em função das constantes mudanças de piquete, e melhor distribuição de fezes e urina, podendo melhorar a homogeneidade do pasto.

Até recentemente, as recomendações de manejo para lotação intermitente se baseavam em períodos fixos (ou pouco variáveis) de descanso para cada espécie ou cultivar forrageiro (Tabela 1) que, no máximo, variavam entre o período das "águas" e das “secas”. Mais recentemente, critérios baseados na condição do pasto, tem sido propostos com o intuito de padronizar o processo sob o ponto de vista de que o pasto deve ser pastejado sempre que estiver "pronto" (ou seja, com uma determinada altura, área foliar ou grau de interceptação de luz).

Tabela 1. Períodos de descanso tradicionalmente recomendados para algumas das principais espécies de gramíneas forrageiras em uso no Brasil.


Decidindo sobre a intensidade de pastejo

A intensidade de pastejo tem grande impacto sobre produtividade tanto do animal como da pastagem. Para o animal, a intensidade de pastejo determina a quantidade de nutrientes que poderão ser ingeridos, o que determina o seu desempenho produtivo.

Pastejos mais intensos (mais próximos do nível do solo), irão forçar os animais a consumirem maior quantidade de folhas mais velhas e colmos, estruturas com menor concentração de nutrientes e de menor digestibilidade do que as folhas mais novas e os colmos tenros presentes na parte superior da vegetação. Por outro lado, pastejos lenientes (leves), com resíduo mais alto, irão permitir aos animais escolher mais o que consumir (normalmente mais folhas), o que favorece seu desempenho produtivo.

Para a planta forrageira, pastejos mais baixos normalmente resultam em menor quantidade residual de folhas, causando a eliminação de mais pontos de crescimento (meristemas), reduzindo o desenvolvimento radicular, e diminuindo a velocidade de rebrotação da pastagem.

Pastejos com resíduo mais alto, permitem que grande quantidade de meristemas e folhas sobrem após o pastejo, levando a uma recuperação mais rápida da pastagem. No entanto, no médio e longo prazos, em situações extremas, o resíduo de pastejo alto pode causar o envelhecimento e morte excessivos de folhas e colmos não consumidos, com consequente perda de valor nutritivo e prejuízo ao crescimento da pastagem, em função da menor eficiência fisiológica das folhas velhas. O subpastejo também pode levar à degradação das pastagens por favorecer a seletividade dos animais por determinadas espécies, que sendo pastejadas de forma mais frequente, acabam sendo eliminadas, favorecendo outras, de menor aceitabilidade, a dominarem o estande.

Novas abordagens na determinação do manejo do pastejo

Pesquisas desenvolvidas no Brasil nos últimos anos tem proposto um novo enfoque para o manejo do pastejo. Segundo esse novo enfoque, a frequência de pastejo deixa de ser um fator a ser determinado a priori, e passa a ser variável, mudando em função da velocidade de crescimento da pastagem. O fundamento biológico dessa proposta é o fato de que a combinação de fatores ambientais, como CO2, N, água, radiação solar, e temperatura, alteram a taxa de crescimento e desenvolvimento das pastagens, fazendo com que num mesmo intervalo de tempo, em épocas diferentes do ano, a condição estrutural e a produtividade das pastagens sejam diferentes. Assim, o que se busca agora, é uma condição da pastagem (e não mais o calendário) que sirva de indicativo para se iniciar o pastejo num piquete. Essa condição representa o momento a partir do qual não seria mais vantajoso manter o descanso do pasto, pois a partir dali a forragem acumulada seria essencialmente composta de colmos e folhas em envelhecimento (senescência).

De acordo com essa abordagem, é necessário considerar a velocidade de crescimento das plantas, ajustando o momento de entrada dos animais e início do pastejo ao desenvolvimento à condição estrutural da comunidade de plantas, e usando não mais o intervalo de tempo, mas sim uma característica da vegetação, como a altura (a mais comumente usada), como referência de início e fim do pastejo (Tabela 2).

A adoção dessa estratégia de manejo com base na velocidade de desenvolvimento das planta tem demonstrado que não apenas a produtividade de forragem tende a aumentar, como o seu aproveitamento pelo animal, gerando melhores resultados nos sistemas de produção.

Manejo do pastejo, significa portanto exercer controle e monitoramento sobre o processo de colheita da forragem pelos animais. Diferentemente do que se acreditou por muito tempo, intensificar não quer dizer piquetear a área nem aumentar as doses de fertilizante apenas. Requer envolvimento pessoal, desenvolvimento de habilidades e critérios, e tomada de decisão rápida e eficiente, com vistas a otimizar o bom uso daquilo que se produz.

Tabela 2. Alturas de referência para manejo de algumas espécies forrageiras

ARTIGO EXCLUSIVO | Este artigo é de uso exclusivo do MilkPoint, não sendo permitida sua cópia e/ou réplica sem prévia autorização do portal e do(s) autor(es) do artigo.

FELIPE TONATO

Pesquisador da Embrapa

CARLOS G. S. PEDREIRA

Professor do Departamento de Zootecnia da ESALQ-USP, em Piracicaba. Desenvolve pesquisa e leciona disciplinas na área de produção e manejo de pastagens

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OSVALDO FERREIRA DA SILVA

CUIABÁ - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/08/2015

Parabéns pela matéria.Diz um proverbio pantaneiro que o olho do dono é que engorda o boi no pasto. Se realmente o dono não estiver atento para altura correta da entrada e saída de animais do pasto haverá realmente um mau uso da pastagem. Concordo claramente que  o método Voisin, embora antigo, tem as suas vantagens  quando  se aborda o tema:  pastoreio rotacionado.
IRAPOAN SILVA AGUIAR JUNIOR

PORTO FRANCO - MARANHÃO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/03/2015

Aqui no Maranhão temos resultados com Mombaça aos vinte dias, atingindo altura de 1,0 m. O que a matéria, abordou vem de encontro com o que estamos vivenciando, com o Projeto Balde Cheio>  
JOAO GOMES DE AZEVEDO

MURIAÉ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/03/2015

Boa noite Carlos e Felipe!

Solicito a gentileza de informar altura de entrada e de saida do capim BRS PIATÃ, e se devo roçar para homogenizar altura e logo após adubar e qual adubo usar.

Obrigado
OTAVIO HEINZ

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 17/03/2015

"Pesquisas desenvolvidas no Brasil nos últimos anos tem proposto um novo enfoque para o manejo do pastejo. Segundo esse novo enfoque, a frequência de pastejo deixa de ser um fator a ser determinado a priori, e passa a ser variável, mudando em função da velocidade de crescimento da pastagem." Tudo o que André Voisin já dizia desde os anos 50 e que vem sendo aplicado pelos praticantes do pastoreio racional há muito tempo.
HERMENEGILDO DE ASSIS VILLAÇA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 17/03/2015

Muito bom o artigo. Congratulações
WAGNER DOS SANTOS

MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/03/2015

Ótimo artigo, esta de parabéns, mas temos que nos dar conta que não adianta sabermos plantar, adubar, manejar se não conseguirmos conter este animais dentro do pasto... Hoje menos de 1% dos técnicos sabem realmente como fazer e uma cerca elétrica eficiente. ... sabemos que custa até quatro vezes o valor de uma cerca convencional....
MARCUS

NOVA CANAÃ - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/03/2015

Quero saber se tem algum artigo sobre produção de leite em terra com uma inclinação bastante elevação.

Artigo muito bom, parabéns
CELSO DE ALMEIDA GAUDENCIO

LONDRINA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/03/2015

O PRI- Pastoreio Racional Intensivo é mais que rotativo. Sabe-se que depende do conhecimento da produção forrageira/capacidade de suporte nas diferentes estações, adubação inclusive nitrogênio e o ajuste no cálculo da densidade de pastejo na contabilidade aporte e demanda em forragem. No caso do rotativo levando-se em conta somente a altura forrageira, somente é rotativo com maior custo sem ser intensivo ou intensivo frontal. O segredo esta na hora de calculo da densidade de pastejo é calcular o ajuste da densidade de pastejo em cada estação estival, para determinar a verdadeira carga animal e evitar insucesso.
CARLOS G. S. PEDREIRA

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 13/03/2015

Alberto, o ajuste do resíduo é melhor quando feito antes que ele fique demasiadamente alto, "segurando" o pasto até chegar onde se quer.  Mas entendo a sua pergunta.  O resíduo já está mais alto do que você quer.  A roçada vai causar um certo nível de estresse e, sim, perfilhos que estiverem com meristemas mais altos do que 15-20 cm vão morrer.  No entanto a roçada deverá estimular o perfilhamento basal e deverá haver uma substituição das populações de perfilhos por perfilhos novos.  Uma adubação com N (30-50 kg/ha) para ajudar a planta nesse processo é uma boa ideia.

Sobre a sua questão a respeito de valor nutritivo no outono, sugiro contato com o Dr. Bruno Pedreira na EMBRAPA Agrissilvipastoril em Sinop, MT (bruno.pedreira@embrapa.br) para a informação sobre Xaraés, e com a Dra. Patrícia Santos na EMBRAPA Pecuária Sudeste em São Carlos, SP (patricia.santos@embrapa.br) para a informação sobre o Mombaça.  
ALBERTO DUQUE PORTUGAL

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/03/2015

Tenho pastagem de xaraés manejada com entrada aos 50 cm e saída com 20 cm. Vejo que recomenda entrada com 30 cm e saída com 15 a 20 cm. Pela minha experiência, acho que é mais indicado. Pergunto: Pode haver algum prejuízo, com destruição de meristemas, se após o pastejo eu roçar o piquete para que fique com 15 a 20 cm  e adotar estes novos parâmetros?



Gostaria que fizesse um artigo mostrando a curva de digestibilidade e valor nutritivo(proteína) de Mombaça e xarés(forragens tropicais) no período de verão. Minha dúvida maior é qual é o comportamento (digestibilidade e valor nutritivo) no final do verão e início do outono(março, abril), quando ainda se tem massa, mas a resposta animal é menor.
LEONARDO

CARANGOLA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/03/2015

Parabens pelo artigo !

Sobre essas novas abordagens , quando se usa o pasto como o principal alimento a ser fornecido e intesifica ele voce estará  aproveita o maximo de nutrientes que ele ira fornecer aos animais , para isso temos que se basiar em tempos medios de periodo de pastejo(desfolha) , claro que tem algumas especie de gramineas que passam um pouco do tempo de consumo e perdem niveis elevados  de nutrientes , se esse calendario nao for priomordial acho que o manejo ficará mais comprometido .
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