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A dureza do grão de milho pode influenciar seu aproveitamento pelo animal

POR JOSÉ ROBERTO PERES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/04/2001

4 MIN DE LEITURA

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José Roberto Peres

Grande parte dos sistemas de produção de leite na região centro-sul brasileira trabalham com silagem de milho como volumoso principal ou exclusivo. Além disso, nas dietas típicas brasileiras, a principal fonte de carboidrato dos concentrados é o amido do milho. Com isso, normalmente entre 50% e 90% dos carboidratos não fibrosos dessas dietas vêm do milho.

Dietas de vacas em lactação têm normalmente entre 35% e 40% de carboidratos não fibrosos, sendo esta a principal fonte de energia das dietas. Uma vez que o milho é a principal fonte destes carboidratos, a digestibilidade de seus grãos assume importante papel na definição do valor energético das dietas.

Definitivamente, o amido do milho é melhor utilizado quando extensivamente fermentado no rúmen. Existe um duplo benefício na fermentação ruminal do amido: aumento na produção de proteína microbiana e aumento da digestão duodenal do amido como resultado da resposta do pâncreas ao maior suprimento de proteína chegando ao intestino delgado.

O grão de milho pode ser classificado segundo sua dureza. O endosperma do grão (região em que localizam os grânulos de amido) se divide em duas partes de composição semelhante no que diz respeito ao teor de PB e amido, mas totalmente distintas sob o ponto de vista de sua estrutura física, podendo ser vítreo ou poroso. Normalmente, o grão de milho tem os dois tipos de endosperma, e sua proporção é o principal fator de definição da dureza do grão de milho (Philippeau et al, 1999).

Baseado no tipo de endosperma do grão, podem-se dividir os híbridos de milho em duas categorias principais: milho dentado ou macio (predomina o endosperma farináceo ou poroso) ou milho duro ou "flint" (predomina o endosperma vítreo ou duro). Seguem abaixo algumas das principais diferenças dos dois tipos de endosperma:

- O principal fator determinante da estrutura física do endosperma é a ligação dos grânulos de amido com as proteínas do endosperma (zeínas). No endosperma vítreo ocorre abundante presença de matriz protéica aderida (Dombrink-Kurtzman & Bietz, 1993).

- Os grânulos de amido são poligonais e compactos no endosperma vítreo e esféricos e com espaços entre eles no endosperma farináceo (Dombrink-Kurtzman & Bietz, 1993).

- Corpos protéicos são maiores e mais numerosos no endosperma vítreo. Endosperma vítreo tem 3,3 mais #-zeínas que endosperma farináceo(Dombrink-Kurtzman & Bietz, 1993).

- As células são maiores e têm parede celular mais fina na porção farinácea (Dombrink-Kurtzman & Bietz, 1993).

- A matriz protéica no endosperma farináceo é extremamente resistente à colonização por microorganismos (McAllister et al, 1990).

- O teor de PB do grão é independente da textura (Philippeau et al, 1998).

Nos EUA, o milho dentado é muito mais usado e pode ser considerado o milho normal no país. Em uma pesquisa conduzida na universidade do Wisconsin no ano 2000, com mais de 300 híbridos, todos eram dentados, caracterizando a alta prevalência desse tipo de milho no mercado norte-americano. Também na Europa o milho cultivado é tipicamente dentado ou semi-dentado. No Brasil existe uma vasta predominância do milho duro ou vítreo.

Na tabela 1 estão apresentados alguns dados de um trabalho feito na França, em que a MS e o Amido do milho dentado degradam, a nível de rúmen, aproximadamente 1,5 vezes mais rápido que do milho duro.

Tabela 1 - Influência da textura do grão de milho na taxa de degradação e degradabilidade efetiva da MS e do amido

Tabela 1


A tabela 2 mostra o impacto da textura do grão de milho sobre a degradação ruminal do amido. A redução da degradação ruminal alterou o local de degradação, levando maior quantidade de amido à fermentação no intestino grosso. Vale salientar que, como esse dado foi determinado em um experimento com novilhos, em vacas em lactação provavelmente a maior taxa de passagem agrave o problema, reduzindo ainda mais a degradação ruminal e aumentando a fermentação no intestino grosso.

Tabela 2 - Influência da textura do grão de milho na digestibilidade do amido nos vários segmentos do trato gastro-intestinal de novilhos

Tabela 2


As informações acima e a constatação de que o mercado de milho brasileiro vem usando um tipo de milho totalmente diferente do usado nos países líderes em pesquisa com nutrição de ruminantes despertaram o interesse de um grupo de pesquisadores na Universidade Federal de Lavras. Uma linha de pesquisa foi montada em 1997, com o objetivo de caracterizar a textura do milho brasileiro e evidenciar as consequências dessa textura na nutrição de ruminantes.

O trabalho foi, em parte, desenvolvido no Brasil comparando híbridos com extremos de textura e seu resultado em degradação ruminal e digestibilidade total. Um outro experimento foi realizado nos EUA com o objetivo de caracterizar a diferença entre o milho usado no Brasil e o milho norte-americano. Um resumo dos resultados dessas pesquisas serão apresentados em breve no Milkpoint.

Comentário do autor: A diferença de digestibilidade ruminal do milho "duro" produzido no Brasil parece gritante em relação àqueles produzidos em outros países. É preciso que se comece a pensar e discutir este fator, que pode estar limitando nossos sistemas de produção. As pesquisas que vêm sendo realizadas em Lavras certamente permitirão maior entendimento desta questão. Aparentemente as justificativas das empresas que comercializam sementes para a comercialização de variedades "duras" seriam menor necessidade de cuidados na armazenagem (menor ataque de pragas) e menor "quebra" na colheita por deficiências de nossos equipamentos com esta finalidade. Resta saber o que tem maior custo: os problemas de colheita e armazenagem (que podem ser solucionados com tecnologia) ou o menor aproveitamento do alimento pelos animais.

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1 - médico veterinário, doutorando da Universidade Federal de Lavras sob orientação dos Prof. Marcos Neves Pereira (UFLA) e Randy Shaver (EUA). Ele é consultor técnico da Sul de Minas Veterinária, em Lavras, MG e pode ser contatado pelo e-mail: cecorrea@ufla.br

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PEDRO A TASINAFFI

MONTIVIDIU - GOIÁS - DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS (CARNES, LÁCTEOS, CAFÉ)

EM 04/06/2020

Li todo trabalho acima, não tenho conhecimento técnico científico, apenas por
Curiosidade pq trabalho com moagem milho e nessa oportunidade gostaria salientar:
- como armazenador há mais 30 anos, milho classe mole é grande problema pra guardar ... insetos, excesso po, perda qualidade e aspecto dentro outros...NA MOAGEM A SECO OU SEMI ÚMIDO , ateeeeé 50% pode ir pro germe , e germe agrega pouco valor...
MILHO SEMI DURO , mais rendimento processo, germe max 33% , bom aspecto, menos ataque pragas , aceita usinagem em laminadora é bonito nas prateleiras. Podemos definir grosseiramente; um destinado a ração animal outro linha humana
Pedro/ Ouro verde alimentos / Mintividiu/Go
DANILO EDUARDO SEBIM

PÉROLA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/02/2019

O uso de híbridos de grão duro no mercado brasileiro está atrelado principalmente às nossas condições tropicais de cultivo, já que os híbridos de grão mole são de origem subtropical.
SÂMILA ESTEVES DELPRETE

ALEGRE - ESPÍRITO SANTO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/11/2015

Não tem referências bibliográficas.
ROQUE

EM 06/06/2013

EXCELENTE MATÉRIA. PARABÉNS. 



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