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A busca pela viabilidade na caprinocultura leiteira

POR MARCUS VINICUIS DA FONSECA

E CARLOS A. OLIVEIRA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/08/2011

9 MIN DE LEITURA

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A caprinocultura leiteira vem se destacando muito nas últimas duas décadas. Nota-se um aumento expressivo no número de produtores, empresas e consumidores que buscam uma alternativa no agronegócio e consumo de produtos saudáveis.

Muitas pessoas tentam se estabelecer na atividade mas algumas pensam que a caprinocultura leiteira proporciona alta rentabilidade só através do preço de venda do leite esquecendo de trabalhar seus custos de produção e uma série de fatores produtivos.

O produtor deve estabelecer o número de matrizes, a área da propriedade que poderá ser utilizada na produção de volumosos, as instalações adaptadas para o devido local, a categoria animal, o treinamento da mão de obra, as estradas para entrada de insumos e escoamento da produção, a estratégia de compras de insumos dentro do período de safra do produto, ter conhecimento sobre as linhas de crédito rural e além disso é essencial o acompanhamento de um técnico da área para orientar todo processo.

A falta de conhecimento prévio e comprometimento trazem à caprinocultura muitos insucessos. A busca pela sonhada escala de produção e pelo capital de giro na atividade tornam-se hoje os principais fatores a serem considerados como pontos de estrangulamento, lembrando que todos pontos devem ser considerados importantes.

Segundo OLIVEIRA, em uma análise de sensibilidade feita com caprinocultores da região Sudeste utilizando informações do Projeto Gerocabra Rastrear da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, o direcionamento dos trabalhos deverá ter foco no maior número de matrizes paridas, lactações operadas em sua melhor possibilidade produtiva e matrizes gestantes dentro do prazo estipulado pela estratégia reprodutiva.

O sucesso econômico da atividade está relacionado entre outros à alimentação, disponibilidade genética para produção de leite e um bom manejo reprodutivo.

Caso em análise

Em agosto de 2004 iniciou-se a implantação do Projeto Gerocabra Rastrear (2010), em parceria com a Associação de Criadores de Cabras Leiteiras da Zona da Mata Mineira (CAPRIMA) e a Associação Fluminense de Caprinocultores Leiteiros (FLUCAPRI). Os trabalhos tiveram apoio logístico da CCA Laticínios Ltda. (www.caprilat.com.br), empresa principal compradora da produção do grupo de produtores participantes.

O objetivo foi realizar o monitoramento técnico e financeiro dos produtores participantes. O projeto iniciou-se com 29 participantes e no final do ano de 2009 contava com 2 produtores. Os participantes que iniciaram no projeto não significaram a totalidade de associados, pois alguns não reconheceram valor na proposta de monitoramento oferecida. O laticínio chegou a criar remuneração diferenciada para o pagamento do leite aos produtores que participassem do projeto. Ao longo dos mais de cinco anos do projeto, alguns produtores desistiram da atividade.

Outros produtores apesar de continuarem na atividade, consideraram que os compromissos com o projeto frente à remuneração oferecida não valiam a permanência. De forma específica, serão analisados os dados de um dos produtores que permaneceu no projeto, no intuito de visualizar seu desempenho durante o ano de 2008.

Material e Métodos

Os dados referentes ao monitoramento técnico e financeiro analisados foram provenientes de uma propriedade localizada na região da Mata Mineira e seu sistema de produção foi cadastrado no Projeto Gerocabra Rastrear, em agosto de 2004. Foi analisado o período compreendido entre janeiro e dezembro de 2008. O software utilizado pelo projeto foi desenvolvido em programação Visual Basic e banco de dados Access, ambos produtos da Microsoft.

Foram cadastrados todos os animais existentes na produção, assim como os valores dos imobilizados fixos e semi fixos utilizados na criação. Mensalmente eram coletadas as informações relativas as coberturas, parições, controle leiteiro, consumo de medicamentos e alimentos, gastos com mão de obra e demais despesas. O sistema gerava relatórios mensais com informações sobre datas reprodutivas, desempenho zootécnico alcançado, demonstrativo de despesas realizadas no mês, assim como valores referentes às depreciações sobre os valores imobilizados. O valor da terra não foi considerado durante as análises mensais.

O sistema também demonstrava o custo do litro de leite produzido no mês de análise, confrontando-o com a média do custo dos últimos 12 meses. Até dezembro de 2008, haviam sido emitidos 52 relatórios de monitoramento zootécnico e financeiro, ou seja, 52 meses de acompanhamento.

Resultados e Discussão

As informações geradas foram colocadas em forma de gráfico a fim de possibilitar a comparação com o modelo hipotético proposto como ideal. No caso em análise foram acrescentadas duas curvas, sendo elas: o comportamento do custo de produção do leite e o valor pago pelo laticínio ao longo do ano de 2008. No Gráfico 1, é possível visualizar o comportamento da produção mensal de leite, quantidade mensal de matrizes, matrizes em lactação, parições, coberturas e unidades animal.

Gráfico 1 - Desempenhos obtidos do caso em análise.



A proposta do produtor em análise era de realizar a maior parte das coberturas no final do ano, no entanto, os resultados mostraram que apesar de existirem coberturas nesta época, houve um ligeiro aumento no número de coberturas no outono, momento em que a natureza dos animais propicia condições favoráveis e facilita este manejo. Como consequência, as parições ficaram concentradas no final e não no início do inverno, como foi programado inicialmente. Problema como um melhor monitoramento individual das matrizes, no sentido de aguardar a melhor época de cobertura, pode ter sido a principal causa deste descontrole.

A quantidade de unidades animal (UAs), teve pouca variação ao longo do ano, pois o produtor não criava mais todos os animais nascidos na propriedade, inclusive fêmeas. Em termos numéricos a variação de UAs foi em torno de uma unidade, que seria equivalente a sete matrizes adultas. Em um horizonte médio de 104 matrizes no rebanho, esta variação seria equivalente a 6,7% do número de matrizes e 6,0% da quantidade média de UAs.

Em comentário anterior sobre a criação, do que poderia ser chamado de excesso de animais, a simulação de um rebanho hipotético, onde a taxa de descarte era de 12% ao ano, a utilização deste tipo de racionalização demonstrou a possibilidade de diminuir as despesas anuais com concentrado em torno de 6,1%. Como o produtor durante a maior parte do ano não adotou critério regular nos descartes de matrizes, acabando também em elevar, mesmo que em parte do ano, o número de UAs, conclui-se que houve proporcional aumento de suas despesas relativas à aquisição de concentrados.

Com relação ao volume de produção, devido ao tempo médio de lactação observado (264 dias), ser menor do que o tempo esperado (305 dias), houve uma diminuição na produção de leite, provocando o consequente aumento dos custos de produção, já que a curva de lactação pode apresentar diminuição proporcional de volume total de leite, relacionada ao tempo de lactação conseguido, que no caso foi 13,4% menor o tempo de lactação. Quanto ao custo de produção, o Gráfico 1 demonstra queda do custo a partir do aumento da curva de produção, esta é a lógica, já que o custo unitário deverá ser o resultado da despesa total, dividido pelo volume produzido. A diminuição do custo de produção pode não significar a lucratividade da atividade, mas sim a busca de rentabilidade.

No caso, pode ser notado que o custo de produção se manteve acima do preço pago pelo produto nos sete primeiros meses do ano, e em valores abaixo do preço pago nos cinco últimos meses do ano. A resultante da confrontação entre o custo médio anual e o preço médio anual, foi desfavorável ao produtor em 13,9%, ou seja, o produtor conseguiu com o preço pago ao seu produto, pagar a maior parte das despesas diretas ocorridas durante o ano, cerca de 86,1% do total de 91,7% em despesas diretas, já que 8,3% era relativo as depreciações dos imobilizados em instalações e matrizes, restando déficit proporcional a 5,6% das despesas diretas. A princípio, se o produtor tivesse conseguido maior tempo nas lactações, o aumento da produção total de leite alcançada poderia ter suprido o déficit final encontrado.

No Gráfico 2, estão estabelecidas as curvas hipotéticas, do que seria a criação ideal para uma estratégia reprodutiva de um parto por cabra por ano, com concentração de partos para o outono e inverno.

Gráfico 2 - Curva hipotética ideal para o fluxo produtivo durante o ano.



A princípio o fluxo produtivo ideal, depois de determinada a estratégia reprodutiva, deveria manter o número fixo de matrizes e como consequência a quantidade de unidades animal (UA). A estabilidade do número de animais em um sistema produtivo permite o dimensionamento adequado da necessidade de forragem durante todo o ano, a fim de se produzir alimentos forrageiros com disponibilidade e qualidade necessária para atender o nível de exigência do rebanho.

A concentração de coberturas (±75%), para este caso hipotético, se verificaria no final do ano civil, com as parições se concentrando no outono, momento pelo qual se daria a cobertura das matrizes vazias (±25%) remanescentes das coberturas anteriores. O pico de lactação se daria ao final do outono e início do inverno. As matrizes cobertas no outono entrariam em lactação ao final de cada ano, momento pelo qual as matrizes em ciclo forçado estariam em final de lactação.

Considerações finais

A lucratividade da atividade poderia ser alcançada, com base no preço de remuneração do produto estabelecido para o ano de 2008, se o produtor conseguisse estabelecer melhor uniformidade no número de matrizes ao longo do ano, concentração das lactações no início do inverno, permitindo o maior fluxo de produção durante o ano em análise e com duração da lactação de 300 dias.

Outro aspecto que deveria influenciar tanto no volume de produção como na relação custo/benefício da produção, deveria ser a observância da qualidade da alimentação e a proporcionalidade do volume de ração concentrada oferecida para as matrizes em lactação.

Os problemas de viabilidade econômica e financeira da atividade da caprinocultura leiteira é uma realidade nacional. Os problemas gerados pelo mercado são mais complicados de serem explicados e dominados, pois a cada momento o país vive uma nova realidade econômica, onde novos nichos comerciais se abrem e outros se fecham. Mas a falta de rentabilidade do caprinocultor leiteiro é uma constância e não deverá ser apenas a falta de melhores preços pagos ao leite o motivo de inviabilidade da atividade.

O preço do leite pago ao produtor tem influência sobre os resultados da atividade, mas a falta de gerenciamento junto ao processo produtivo poderá ser limitante, a ponto de jamais existir preço do produto que venha viabilizar a atividade. Acreditamos que a sustentabilidade econômica e financeira da atividade deverá ser alcançada, no momento em que os índices zootécnicos estiverem em patamares sustentáveis, e quando a relação custo/benefício for favorável no sentido de fazer frente aos preços praticados pelo mercado.

Vale ressaltar que da mesma forma que péssimos desempenhos zootécnicos em uma criação, jamais conseguirão fazer frente ao mais alto preço pago pelo produto. O preço do produto abaixo dos mínimos custos operacionais também poderão levar a inviabilidade da exploração com adequado desempenho zootécnico. O produtor deverá ter domínio administrativo real da atividade, monitorando sua relação custo/benefício, tomando decisões a curto e médio prazo, e até mesmo encerrando suas atividades, seja por inviabilidade técnica ou comercial.

Referências bibliográficas

BORGES, C.H.P.; BRESSLAU, S. Custo de produção do leite de cabra. In: Anais. V Encontro de Caprinocultores do Sul de Minas e Média Mogiana. CREUPI. Espírito Santo do Pinhal, SP. 2001.

BORGES, C.H.P.; BRESSLAU, S. Produção de leite de cabra em confinamento. In: Anais. VI Seminário Nordestino de Pecuária. Fortaleza, CE. 2002.

FARIA, M.A. Gestão da Caprinocultura. Trabalho de conclusão de curso de Gestão da Informação no Agronegócio. UFJF. Juiz de Fora, MG. 2006.

MARCUS VINICUIS DA FONSECA

Mestre em produção animal, zootecnista , representante DSM/TORTUGA

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PAULO R.C.CORDEIRO

NOVA FRIBURGO - RIO DE JANEIRO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 16/01/2013

Flavio - trabalhamos com a industrialização de leite caprino - Caprilat, com Leites UHT, Leite em Pó e Queijos - e é sempre bom ter conhecimento de outras iniciativas de nucleos de produção e industrialização do leite caprino.


Boa sorte na iniciativa e a disposição para troca de informações.


Paulo
FLÁVIO POSSIDONIO CARNEIRO RAMOS

SÃO DOMINGOS - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/01/2013

Assumimos a pasta da SECRETARIA MUNICIPAL DE AGRICULTURA E MEIO AMBIENTE DE SÃO DOMINGOS-BAHIA ha uma semana e estamos elaborando um projeto denominado OURO BRANCO e, uma das nossas principais metas é baixar o custo de produção do leite caprino. Nosso município, é hoje, o maior produtor de leite de cabra do Estado da Bahia, e por essa razão, estamos voltando as nossas atenções para essa importante cadeia produtiva adotando medidas sustentáveis que venham garantir aos produtores uma maior rentabilidade na atividade leiteira. Estamos inserindo na dieta dos animais, fenos de leguminosas do BIOMA CAATINGA que são excelentes fontes alternativas de proteína bruta, muitas delas chegam a 16% como a CATINGUEIRA(PAU-DE-RATO) e substituem cerca de 60% das fontes convencionais de proteína das rações. Além desse benefício econômico, a utilização dessas espécies na alimentação dos animais, esperamos reduzir o desmatamento da caatinga preservando a vegetação nativa. Em breve, apresentaremos os resultado, em números, desse projeto.
PAULO JOSÉ THEOPHILO GERTNER

LAURO DE FREITAS - BAHIA

EM 01/09/2012

Blz de Matéria! Continuem a produzir artigos como este. Inté....
PAULO R.C.CORDEIRO

NOVA FRIBURGO - RIO DE JANEIRO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 03/08/2011

Marcus e Carlos. Muito bem colocado o assunto de custo de produção com suas principais causas, e o retorno/lucro da atividade caprino leiteira. Não podemos olhar a remuneração do produto (leite ou carne) como unica opção de viabilizar a atividade. Existem pricipalmente nesta atividade os baixos indices zootecnicos e manejo adequado do rebanho. Parabéns. Paulo
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