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Pescar terra adentro

ESPAÇO ABERTO

EM 04/08/2014

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Espalhe: investir em aquicultura, ou criação de peixes em fazendas, gera renda, desenvolvimento social, segurança alimentar e fortalece as exportações. Isso ainda é mais verdadeiro no Brasil, que possui em torno de 12% das reservas de água doce do planeta e ocupa posição de liderança na produção de grãos, indústria cujos subprodutos podem servir como matéria-prima abundante para alimentar peixes.

O potencial aquícola verde-amarelo é evidente e já chamou a atenção do mundo. O banco holandês Rabobank, grande financiador do setor agropecuário mundial, apontou o nosso país como futura potência da aquicultura.

No Brasil já produzimos 640 mil toneladas de peixe em cativeiro. Quem visita os mercados de pescado no Ceará, por exemplo, pode escolher, à beira-mar, entre o camarão capturado no oceano ou aquele criado em fazendas.

O crescimento do mercado para os peixes e camarões criados em tanques tem razões sólidas. Para quem vende, uma vantagem da criação é a constância da oferta. A produção do mar, extrativa, oscila com o clima e com a intensidade da pesca. Para quem compra, o camarão criado em tanques pode custar metade do preço daquele que é pescado.

A aquicultura, no Brasil, é um negócio de R$ 5 bilhões, mobiliza 800 mil profissionais e envolve 3,5 milhões de empregos diretos e indiretos. Entre 2000 e 2009, o consumo anual de peixes de cada brasileiro aumentou 30% e o de carne bovina apenas 10%. Aos poucos, a criação de peixes e de outros organismos da água vem tomando espaço da pesca. Quase a metade dos peixes consumidos no mundo já não vem desta atividade extrativa. O cultivo de peixes e assemelhados, de água doce e salgada, perfaz mais de 43% de toda a produção de pescado no Brasil.

O consumo de pescado cresce em todo o mundo e chegou a 10 kg/habitante/ano no Brasil. Pela primeira vez, a produção de pescado supera a produção de carne bovina. A pesca não é mais capaz de atender sozinha a esse ritmo de crescimento da demanda mundial pela proteína que vem das águas. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) prevê que, em 2030, dois terços dos peixes consumidos no mundo virão das criações.

O Brasil tem condições excelentes para o desenvolvimento da aquicultura. O território nacional tem 5,5 milhões de hectares em lâminas d’água, represadas em hidrelétricas e lagos naturais. O uso de apenas 55 mil hectares (1%) seria suficiente para dobrar a atual produção de pescados.

É negócio de alto rendimento. Na mesma área onde um criador de gado obtém mil quilos de carne, são produzidas 10 toneladas de peixe. É possível produzir em áreas degradadas, como as de extração mineral, em consórcio com outras atividades, inclusive aproveitando nutrientes e efluentes (de suínos, por exemplo). Espécies de peixe nativas como o pirarucu crescem com velocidade surpreendente e têm um couro cobiçado pela indústria da moda.

Na Amazônia, o pirarucu pode alcançar até 10 quilos com um ano de cultivo. O tambaqui rende 80 quilos por metro cúbico em tanques-rede. A africana tilápia, cuja genética tem sido melhorada, no Brasil, nos últimos 40 anos, pode render, em viveiros escavados, 12 toneladas por hectare.

Os benefícios da expansão da aquicultura são múltiplos. Essa dieta de proteínas de alta qualidade vai estar acessível a grande parte da população, pelo aumento da oferta e redução dos preços. A produção em pequenas propriedades pode gerar renda e garantir a segurança alimentar nas regiões mais pobres, sem falar que existe uma avenida de oportunidades com os peixes ornamentais brasileiros, em que os pequenos produtores poderiam se inserir com certeza. Além disso, a domesticação de espécies nativas vai reduzir a pesca, preservando a biodiversidade dos rios, lagos e mar territorial do Brasil.

Por isso, no Brasil, aquicultura é política pública. Em 2009, criou-se o Ministério da Pesca e Aquicultura e um centro de pesquisas, a Embrapa Pesca e Aquicultura, em Tocantins, que forma uma grande rede de pesquisa e inovação, com universidades, órgãos estaduais e o setor privado. Há um Plano Safra de Pesca e Aquicultura em curso e o BNDES já disponibilizou mais de R$ 4 bilhões em créditos aos produtores. Agora, o banco negocia investir R$ 45 milhões num projeto nacional de desenvolvimento de tecnologias pela Embrapa e seus parceiros.

Há um desafio enorme pela frente. Para cada quilo que se deseje aumentar na média de consumo nacional, é preciso produzir mais 200 mil toneladas de pescado por ano. Com conhecimento, políticas públicas e espírito empreendedor o Brasil construiu a bonança dos grãos. Com a mesma receita, certamente pode ousar uma versão moderna do bíblico milagre da multiplicação dos peixes.

O texto é de Maurício Antônio Lopes - Presidente da Embrapa.
 

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