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Estrutura e papéis das organizações do setor lácteo na Austrália

POR AIRTON SPIES

ESPAÇO ABERTO

EM 22/09/2008

5 MIN DE LEITURA

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A competitividade internacional do leite australiano é reconhecida no mundo inteiro e, juntamente com a Nova Zelândia, esse país se caracteriza como um dos grandes atores no mercado global. Dentre os principais atributos da competitividade da Austrália, estão a escala, a alta produtividade e qualidade, a regularidade de oferta e o baixo custo de produção do leite à base de pasto, quando comparado com a Europa e Estados Unidos.

Com aproximadamente nove mil produtores, um rebanho médio de 250 vacas em ordenha por produtor, a Austrália produziu 9,2 bilhões de litros de leite na safra 2007/2008. Essa produção anual já atingiu 11 bilhões de litros, mas foi reduzida em 18% nos últimos 6 anos, devido à severa seca que atingiu o país. Essa crise decorrente da escassez de água também ensinou diversas lições aos produtores, processadores e organizações do setor, que tiveram que repensar e redefinir suas estratégias para reduzir riscos climáticos.

Hoje cada equivalente-homem de trabalho produz cerca de 1 milhão de litros de leite/ano, devido a capacitação, boa organização e simplicidade dos sistemas de produção. O salário médio de um trabalhador na fazenda está em torno de R$ 5 mil/mês.

Há outras características que contribuem para determinar a excelência do leite australiano. O setor conta com diversas organizações que apóiam os produtores e indústrias processadoras, as quais cumprem papéis importantes para buscar e manter a lucratividade e a sustentabilidade de cada elo da cadeia produtiva. Essas organizações podem ser agrupadas em três segmentos:

• Organizações da indústria processadora de leite
- Australian Dairy Products Federation (ADPF)
• Organizações dos produtores de leite - no âmbito político
- 6 associações estaduais de produtores de leite
- A Australian Dairy Farmers Ltd (ADF)
• Organizações que prestam serviços ao setor
- Dairy Australia Ltd (Baseado em Melbourne, administrado por um conselho de 9 membros)

Além dessas organizações existe o Australian Dairy Industry Council (ADIC), que é o órgão máximo de representação do setor, formado por representantes da ADPF e da ADF. A ADF também representa os produtores de leite na National Farmers´ Federation (NFF), que equivale no Brasil à Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Com exceção da Dairy Australia Ltd, as demais são organizações que fazem a representação política do setor junto ao governo e a sociedade.

No Brasil existem organizações similares à maioria das citadas na Austrália, mas não contamos ainda com nada semelhante à Dairy Australia. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, de propriedade e administrada exclusivamente por produtores de leite economicamente ativos, mantidos por estes, através de uma contribuição de 31 centavos de dólar australiano (equivalente a R$ 0,46 em 19 de setembro de 2008) por cada 100 litros de leite vendidos pelo produtor. Essa contribuição é compulsória, definida em lei.

Um aspecto interessante dessa contribuição é que, apesar ser obrigatória, o montante da contribuição é definido pelos produtores, que votam individualmente, a cada 3 a 5 anos sobre o seu tamanho. Toda vez que vai à votação, uma das opções que obrigatoriamente precisa estar na cédula, é "0" (zero centavos). Isso coloca nas mãos dos produtores a opção de continuar pagando ou não e a definição de quanto, sem ter que modificar a lei. Portanto, a Dairy Australia precisa dar resultados positivos para se justificar e se manter perante os produtores, que votam e seu voto tem peso proporcional ao volume de leite que produzem.

O orçamento anual da Dairy Austrália é de aproximadamente 50 milhões de dólares australianos (equivalente a 75 milhões de reais), dos quais 30 milhões são descontados pela indústria do cheque do leite mensal de cada produtor. Outros 15 milhões são da contrapartida do governo australiano, que tem um compromisso com o setor de colocar "dólar-por-dólar" até o limite de 0,5% do valor bruto da produção de leite, o mesmo montante de recursos que os produtores destinam para projetos de pesquisa e desenvolvimento. Outras pequenas receitas completam o orçamento.

O papel e a missão da Dairy Austrália é o de promover o desenvolvimento sustentável do setor lácteo, contribuindo para a promoção genérica do leite e proporcionar serviços que permitam melhorar a imagem do setor perante a sociedade e o mercado. Dentre as atividades, se destacam a administração e financiamento de projetos de pesquisa e desenvolvimento para beneficiar produtores, processadores e a comunidade, desenvolvimento de mercados internacionais, informações sobre o mercado, e principalmente, administrar questões relevantes para o setor e subsidiar as demais organizações de representação política do setor.

Para aplicar os recursos destinados a projetos de pesquisa e desenvolvimento, a Dairy Austrália faz um levantamento de prioridades junto aos produtores de leite. De posse da lista de prioridades, a Dairy Austrália lança editais para contratar a execução de projetos junto a qualquer instituição pública ou privada que tenha competência para pesquisar o problema ou desenvolver projetos para solucioná-los. Pode ser uma universidade, órgãos de pesquisa do governo ou consultores privados. Além de projetos que buscam a sustentabilidade e a rentabilidade dos produtores de leite, são apoiados projetos de pesquisa para a indústria, no nível pré-competitivo.

Todas as organizações trabalham juntas para cumprir seus papéis individuais. Porém o Dairy Austrália, como uma organização de serviços subsidia todas as entidades do setor com informações técnicas, econômicas e de mercado. Com isso, os produtores de leite e as indústrias têm um porta-voz para defender os seus interesses. Exemplos de questões típicas são o meio ambiente e mudanças climáticas, bem estar animal, questões humanas associadas à produção de leite, que a toda hora expõem o setor na mídia.

Projetos voltados à promoção genérica do leite incluem educação para o consumo de leite nas escolas e a semana nacional da prevenção da osteoporose (healty bones week) que busca conscientizar as pessoas de que é preciso consumir pelo menos 3 doses de leite por dia (1 yougurte, 1 fatia de queijo e 1 copo de leite) para ter ossos saudáveis. Projetos técnicos como o "people in dairy" voltado a orientar produtores como lidar e administrar corretamente os trabalhadores na fazenda, e o "cow-time" voltado a reduzir o tempo de ordenha são exemplos de sucesso que melhoram a rentabilidade dos produtores de leite. Com bons resultados, os produtores se mantêm dispostos a contribuir para o fundo, pois enxergam que cada centavo gasto retorna com benefícios maiores que seu custo.

Que lições há no exemplo das organizações australianas para o setor lácteo brasileiro? Fica evidente que os produtores conseguiram tomar em suas mãos as rédeas do setor e transformaram o governo num parceiro, num agente que deve apoiá-los. Mas para que isso acontecesse, os produtores e a indústria tiveram que se organizar, contribuir financeiramente para suas organizações para ter independência e controle sobre seu próprio destino. Hoje o setor lácteo australiano tem porta-voz para cada questão, e quem fala em seu nome não é a mídia, nem os políticos, nem o governo. São os próprios produtores através de suas organizações.

Figura 1. Estrutura das organizações do setor lácteo na Austrália. Fonte: Dairy Australia.


Clique na imagem para ampliá-la.

AIRTON SPIES

Eng Agrônomo, Adm. de Empresas, PhD em Economia dos Recursos Naturais, (UQ, Australia), Mestre Ciências Agrícolas (Univ. Lincoln, Nova Zelândia) pesquisador da Epagri foi Chefe do CEPA e é Secretário Adjunto da Secretaria da Agricultura SC desde 2010

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JOÃO ROBERTO FELIPE

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/09/2008

Caros,

Impossível comparar! Todos sabemos que o maior problema da pecuária leiteira no Brasil é cultural. Somente com melhorias neste sentido vamos conseguir êxito na atividade. Temos que continuar isistindo.
AILTON CÉSAR BARBOSA

SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/09/2008

Bons exemplos de organização no setor de produção de leite não faltam, além é claro de pessoas que tentam descrevê-los - como esse da austrália descrito pelo Airton - para àqueles que ainda não conseguiram achar-se na atividade; o que não é o caso do Brasil.

Por aqui, tudo a mil maravilha: os produtores são os mais funcionais e alfabetizados do mundo, - todos têm curso superior ou pelo menos o segundo grau completo, lêem muito e participam de vários momentos de formação para aprimorar o conhecimento - com isso os mais tecnificados; nossa média por animal é invejável; quem trabalha só com regime de pasto - sem suplementação com volumoso na seca - além de ter o menor custo do mundo, as vacas, não passam e não morrem de fome; pois, há excesso de pasto, devido ao ótimo manejo dispendiado, com ótima adubação, controle de pragas e até irrigação nos momentos de déficit hídrigo; todos os produtores têm rígido programa de melhoramento genético; os funcionários - "pião" - passam por treinamentos contínuos e ganham ótimos salários, fora os direitos trabalhistas, garantidos por força da lei, mais participação na lucratividade no final de cada exercício; a qualidade da água que as vacas bebem, é a mesma que tem dentro da geladeira do seu proprietário; os carrapatos não as atormentam, pois o cuidado no controle desse bicho é rigoroso; mastites! hum, a muito tempo é coisa do passado, comprovado pelos índices de qualidade do leite; sem falar que não há misturas no leite como: moscas e outros objetos contaminantes flutuando no leite e estrume com terra concentrado no fundo do resfriador; quem têm equipamento de ordenha mecânica, devido a rígida manutenção, não se vê a presença de zinabre ou azinhavre - camada de leite que se forma devido a má limpeza - nele; na hora da ordenha ninguém faz uso de tabaco; toda sala de ordenha tem a presença da água com boa qualidade e fossa para coleta e tratamento do esgoto, o que evita a proliferação de insetos transmissores de doenças, etc. Dentro da porteira é assim.

Mas, a indústria também contribui para o sucesso da cadeia: ela não cobra frete do produtor para buscar o leite na propriedade, visto que isso é responsabilidade dela, uma vez que o produtor já fez a parte dele ordenhando e depositando o leite no resfriador; o motorista responsável, marca direitinho a quantidade de leite que ele mediu - já houve casos dos responsáveis pela coleta marcar 50 litros menos para o produtor -; ela não posterga - atrasa - o pagamento; quando a coleta do leite é em latões, se o latão ou tarro - geralmente de 50 litros - é enviado às indústrias com 56 litros por exemplo, elas não marcam 50 litros, porque isso é desonestidade; não reduzem o preço do leite ao produtor sem dar prévio aviso, acompanhado de sérias explicações, devido a sua disciplina, idoneidade e ética empresarial, etc.

A nossa situação é bem diferente da que tem a Austrália e de outros lugares do mundo. Porém, vamos chegar lá. E temos por obrigação de chegar. Ótimo artigo.
WAGNER BESKOW

CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 23/09/2008

Airton,

Acho que a experiência da Austrália, assim como a da NZ, que tu bem conheces, são exemplos de organização e união de esforços centrados em um objetivo comum e um método de trabalho compreendido e aceito por todos, que se torna compromisso uma vez aceito. Aqueles dois países dependem das exportações para sobreviverem (na NZ os lácteos exportados já são 25% do PIB).

O Brasil ainda está brincando de exportar leite, mas muito, muito brevemente teremos nossa "marca" como nação produtora e exportadora. No rítimo que nossos avanços vão, ainda veremos as coisas se inverterem: viraremos referência para AUS e NZ em lácteos em produtividade e rentabilidade. Um dia quem sabe também em qualidade...

Gostaria de te parabenizar pelo artigo e dizer que foi um prazer te conhecer pessoalmente. Aprendemos muito contigo e com os australianos Robert e Nick.

Um abraço,

Wagner Beskow



HELVECIO OLIVEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 23/09/2008

Parabéns pelo artigo Airton.

Acredito sinceramente que os produtores brasileiros caminham nessa direção. Mesmo sabendo que o caminho é longo a força das circunstâncias conduzirá a este fim. Pessoas com suas informações serão sempre ícones que, com generosidade, exercerão papel decisivo.

Um abraço, Helvécio.
MilkPoint AgriPoint