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Brasil leiteiro de Sul a Norte - Minas Gerais

POR ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

ESPAÇO ABERTO

EM 21/07/2014

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Costumo dizer com muito orgulho que nasci ao lado do curral. Foi numa fazenda na Zona da Mata de Minas Gerais (Rio Preto). Lá, durante a minha infância, lidei com vacas de leite todo o tempo, onde aprendi muito sobre a atividade. O leite era a principal fonte de renda que viabilizou criar e formar uma bela família de dez irmãos. Foi em Minas também que, após conhecer a Universidade Federal de Viçosa, troquei a Medicina pela Agronomia, tendo os primeiros contatos com as tecnologias de produção.

Como técnico de campo, trabalhei praticamente em todo o estado, interagindo diretamente com os segmentos da cadeia do leite residindo no Sul de Minas (Três Corações), Norte de Minas (Montes Claros) e Alto Paranaíba (Patrocínio). Na Zona da Mata fui produtor de leite em uma propriedade há 10 km de Coronel Pacheco.

O estado, comprodução de 8,9 bilhões de litros de leite (IBGE, 2012), ocupa com muita vantagem a liderança nacional no ranking, com 27,6% do total produzido. De 2008 a 2012, o crescimento foi o quinto maior do Brasil, com 16%.

Apesar da pujança na sua produção, onde praticamente se produz leite em seus 853 municípios, a produtividade da área ainda tem muito espaço para crescer. Para se ter uma ideia, a França, sétimo maior país produtor de leite no mundo, cujo território tem cerca de 550 mil km2, produz 2,6 vezes mais leite que Minas cuja área é de 586,5 mil km2.

Segundo dados do censo do IBGE de 2006, em Minas são 223.100 estabelecimentos produtores de leite. O tamanho das propriedades é muito variável, mas, em geral, elas têm área “de sobra” para a atividade. São maiores do que as da região sul do Brasil. A intensificação do uso da terra ainda é insuficientemente explorada.

Considerando que cada produtor de leite emprega outras três pessoas, o número de empregos gerados no estado apenas pelo segmento produtor é de cerca de 700mil. Isto ratifica a importância sócio- econômica do setor leiteiro para Minas e para o país. Dados de pesquisa do Prof. Dr. Paulo do Carmo Martins, demonstraram que o setor emprega mais que a indústria de automóvel, calçados, metalurgia e outros setores da economia, além da relevante geração de renda e tributos.

O leite mineiro atualmente está mais presente nas regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. A Zona da Mata e o Sul de Minas já foram mais importantes como regiões produtoras. Por uma série de razões, como o custo elevado da terra, a topografia acidentada e a mão de obra cara, dentre outras, a produção migrou para a região do cerrado mineiro. O Norte, que faz parte da região da SUDENE, também tem produção limitada, principalmente em função da seca. O Vale do Jequitinhonha, que também é seco, é uma região com poucos recursos produtivos. A região Leste tem uma boa produção, mas ainda pouco tecnificada e de elevado número de pequenos produtores. O mapa abaixo, preparado com base nos dados do IBGE de 2012, ilustra como a produção está distribuída nas mesorregiões do estado.

Fonte: IBGE - Pesquisa Pecuária Municipal, 2012

Muito leite produzido em Minas é vendido “in natura” ou como derivados para outros estados. O leite cru refrigerado se destina, principalmente, a São Paulo e Rio de Janeiro. Como produto processado viaja por todo o país, nas mais variadas formas de derivados.

O parque industrial estabelecido é relevante. Nele estão inseridas grandes fábricas de leite em pó, UHT, queijos, produtos refrigerados e manteiga.

O queijo Minas frescal, curado ou padrão, é produzido em grande quantidade. O estado também se destaca na produção de queijos artesanais, como os famosos queijos do Serro e da Serra da Canastra.

Os mestiços de holandês e gir prevalecem nos rebanhos leiteiros de Minas. Mas muitos já são puros de holandês. Também podemos encontrar núcleos importantes de pardo suíço, jersey e gir leiteiro. A Inseminação artificial é uma prática com grande oportunidade de trabalhar a sua massificação. Em contrapartida, muitos rebanhos mineiros já utilizam a tecnologia de embriões sexados, produzidos através da fertilização in vitro (FIV).

A alimentação do rebanho varia muito com a sazonalidade. No estado, o período de chuvas, que acontece a partir da segunda quinzena de setembro, se alterna regularmente com o período de estiagem, que vai de maio a setembro. A região do Norte de Minas é uma exceção onde o período seco, em geral, é mais prolongado. Nas águas, as pastagens tropicais prevalecem como alimento volumoso principal. Neste período, a suplementação de volumosos no cocho é significativamente reduzida. Os pastos são manejados de diferentes formas. Muitos os utilizam extensivamente, outros diferindo o pastejo, e os mais especializados, em sistemas rotacionados. Neste campo há muitas oportunidades de ganhos pela intensificação com técnicas de correção dos solos, adubação, rotação de pastos e, até mesmo, de irrigação.

No período seco a cana corrigida é uma prática bastante difundida no lugar das capineiras de capim elefante, que em razão da dificuldade de manejo para o corte, foram reduzidas e/ou substituídas por canaviais. Ao mesmo tempo, a silagem de milho ou sorgo é muito utilizada na seca, principalmente nos rebanhos mais tecnificados.

O uso de feno é muito restrito a sistemas especializados, sendo utilizado em formulação de ração total ou na cria e recria de fêmeas. As forrageiras de inverno são quase inexistentes.

A suplementação com concentrados é convencional, ao longo de todo o ano, mas ainda sem muitos critérios técnicos. A adequação deste alimento à dieta trata-se de uma boa alternativa para reduzir os custos, já que este é o fator que mais onera a produção.

A produção de leite de Minas é transportada a granel por transportadoras que são remuneradas por km rodado. O uso do reboque (“julieta”) é muito comum no estado, diferentemente dos estados do Sul do Brasil, que são menos frequentes ou até inexistentes, como em Santa Catarina. Este modelo otimiza o transporte impactando em ganhos logísticos para toda a cadeia produtiva.

O estado sempre trabalhou bem o controle sanitário do rebanho. A vacinação contra Brucelose e os exames de Brucelose e Tuberculose são práticas bastante regulares. O Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) sempre foi uma organização muito atuante e com ação forte junto ao setor produtivo.

Com relação à qualidade da matéria prima, muitas têm sido as ações realizadas pela indústria, independentemente, ou em parcerias com o estado e/ou outras instituições do setor, que têm apoiado iniciativas focadas na redução de CBT e CCS. O programa Leite Legal, desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), em parceria com o SEBRAE, é uma destas iniciativas.

Outro ponto importante no que se refere à qualidade, diz respeito aos sólidos totais, que são relativamente bem elevados quando comparados com os estados do Sul ou do Nordeste.

Minas, à exemplo da produção de leite, tem uma história na organização cooperativista. O modelo vem passando por uma intensa profissionalização. Dentre as Centrais estaduais de cooperativas leiteiras do país, a Cooperativa Central dos Produtores Rurais (CCPR), também conhecida pela sua marca Itambé, é uma das poucas que permanecem. Mesmo assim, num formato diferente do convencional. Numa direção de consolidação do setor, a Itambé e Vigor se uniram através da Itambé S/A.

Outra concepção cooperativista surgiu em Minas, com a criação da Central Minas Leite, em 2004. Trata-se deuma organização virtual, que hoje congrega 9 cooperativas e comercializa próximo de 1 milhão de litros de leite com as principais indústrias do país.

Minas Gerais também abriga o Instituto de Laticínios Cândido Tostes (ILCT) da Empresa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), que tem sido a mais importante escola formadora de técnicos para o segmento industrial do país. Na maioria das indústrias de laticínios do Brasil é grande a chance de encontrar um técnico egresso desta Instituição.

Um privilégio concebido ao estado foi a criação do Centro Nacional de Pesquisa Gado de Leite (CNPGL), em 1976. A história desta unidade coincide com meu tempo de vida profissional. Integrei, inclusive, o Comitê Assessor Externo do CNPGL de 2006 a 2009, em duas diferentes gestões da unidade. E durante toda esta trajetória pude acompanhar e desfrutar muito de tantos trabalhos ali realizados em pesquisa e desenvolvimento. Lá, são treinados muitos técnicos, realizadas diversas visitaspor produtorese, de lá, “espalhada” muita tecnologia. A Embrapa tem contribuído para mudar a “cara” do segmento produtor de leite deste país. Depois da Embrapa, certamente a expressão “tirar leite” foi definitivamente substituída por “produzir leite”.

No CNPGL foi criado o Núcleo de Treinamento (NUTRE), que oferece regularmente uma agenda de atividades para Transferência de Tecnologia. Há também a Residência Zootécnica, que precisa ser institucionalizada. Este projeto permite que técnicos recém-formados em escolas agrícolas de ensino médio, façam uma especialização em Bovinocultura de leite no Campo Experimental desta Instituição, durante um ano.

Outro exemplo que surgiu na formação técnica são as Aulas Práticas Integradas de Campo (APICs) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Refere-se a um estágio que permite uma forte interação da academia com o setor produtivo proporcionando aos formandos da Escola de Veterinária uma semana de imersão junto aos produtores das mais variadas regiões, realizando práticas em reprodução, clínica, cirurgia e manejo em geral, com o acompanhamento dos professores.

Uma experiência espetacular foia criação na UFV do Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira na Região de Viçosa (PDPL-RV), através de uma parceria público-privada de sucesso, com o objetivo de formar competências técnicas para o setor leiteiro. O programa, que já completou 26 anos, tem o seu ‘laboratório’na fazenda de produção de leite da Universidade Federal de Viçosa, e nos produtores de leite,no entorno daquela instituição. Os acadêmicos que aspiram a uma carreira no leite saem de Viçosa bem preparados e, em geral, muito bem colocados nos diversos segmentos da cadeia do leite.

O projeto Educampo foi inspirado na experiência do PDPL-RV, por uma iniciativa do SEBRAE-MG.Trata-sede um produto exemplar de assistência técnica e gerencial para o produtor de leite. Embora tenha sido nacionalizado, sua ação está centrada em Minas Gerais, com cerca de 1500 produtores assistidos em grupos pelos técnicos, a maioria deles egressos do PDPL.

Tive a oportunidade de analisar no meu projeto de mestrado (concluído em ago-05), os dados de175 propriedades leiteiras assistidas no período de abril de 2003 a março de 2004 pelo Projeto Educampo. Os estudos mostraram que os produtores, à medida que produziam mais leite por unidade de área utilizada (litros/ha/ano) e com maior produtividade da mão de obra (litros/dia), ganhavam mais dinheiro, depois de deduzido todos os custos.

O programa “Balde Cheio” da Embrapa Pecuária Sudeste, foi uma boa semente plantada no estado por uma iniciativa da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Sistema FAEMG/SENAR) com grande sucesso no desenvolvimento, principalmente, dos pequenos produtores. O programa capacita atualmente mais de 200 técnicos, atendendo continuamente cerca de 2 mil unidades de produção. Ainda no campo da formação tem sido destaque em Minas o REHAGRO – Recursos Humanos do Agronegócio, uma Instituição de Ensino que tem preparado muita gente especializada para atuação no setor.

Não é possível falar de leite no país sem mencionar Minas Gerais. O estado é muito produtivo e oferece excelentes experiências para o setor leiteiro nacional. Apesar dos bons resultados apresentados em produtividade, tecnificação e eficiência, são muitas as oportunidades que se vislumbram em toda a cadeia produtiva. Diminuir a ociosidade do parque fabril estabelecido, intensificar a produção, agregar mais valor ao produto e reduzir os custos logísticos são caminhos que toda a cadeia do leite do estado deve perseguir para a sua sustentabilidade.
 

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ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

A SL Consultoria em Agronegócios é uma empresa criada em agosto de 2014, com sede em Goiânia, tendo a expertise em negócios relacionados com a Cadeia do Leite como seu pilar central. Ela foi projetada pelo seu sócio proprietário, que atuou por 23 ano

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ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/03/2015

Pedro, foi uma satisfação receber seu comentário.

Estou com uma empresa de consultoria com sede em Goiás. Me passa seu e-mail para o souzalimajr@hotmail.com, para que eu te envie o e-book com todos os artigos da serie.

Abraço
PEDRO ARTUR HEPP

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 20/03/2015

Caro Antônio Carlos, quanto tempo que não nos falamos, mas certamente oportunidades irão aparecer. Parabéns pelo excelente artigo, bem como as suas publicações no Milkpoint.



Grande abraço e até qualquer dia.......
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/08/2014

Prezado Antônio Carlos de Souza Lima Júnior: Parabéns pelo excelente artigo. A nomenclatura climática da Zona da Mata/Sul de Minas Gerais, este ano, esta refletindo uma tendência mundial de escassez  de chuva (estamos desde Dezembro de 2013 sem chuva substancial), refletindo uma seca que já dura oito meses. O resultado disso é que as fontes de água estão secando, os pastos não existem mais, viraram palha. O gado sofre com a falta de alimentos e, os que não somos profissionais e fornecemos alimentação no cocho ano inteiro, com volumoso e concentrado, confinando nossos animais, estão tendo enorme dificuldade para manter o rebanho e a produção leiteira.

Um abraço,



GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

ALFA MILK - FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG

=HÁ NOVE ANOS CONFINANDO QUALIDADE=

http://www.fazendasesmaria.com

Facebook: Sesmaria Faz
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 30/07/2014

Edmundo, obrigado pelo comentário.

Boa surpresa e grande satisfação de receber seu e-mail.

Espero poder vê-lo oportunamente em Rio Prêto  ou Vassouras, para falarmos do leite e de outros assuntos.

Grande abraço,
EDMUNDO PEREIRA FURTADO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/07/2014

Parabens Antonio Carlos,Muito boas suas considerações.Sempre que posso volto ao nosso Rio Preto, como irei no próximo dia 16 de agosto dia da barganha e outros eventos. Abs do Edmundo Furtado (Pai da Amarine). PS Estou no sitio em Vassouras, tirando leite de qualidade   rsrs.              
ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/07/2014

Caro Ney,

Obrigado pelos seus comentários.

Muito bom saber que você tem lido os artigos e que esteja aproveitando deles.

Na próxima semana publicarmos sobre RJ e ES e depois retornaremos a serei em 40 dias.

Grande abraço,
LUCIANO MACHADO DE SOUZA LIMA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/07/2014

Parabéns tio Carlos. Do sitio do vovô tomei gosto; da faz da Bolívia aprendi a ´tirar leite;, na EAFB, virei técnico; como o senhor disse, no CNPGL aprendi o conceito de ´produzir leite`. Mesmo assim, preciso aprimorar as tecnologias aplicadas na fazenda, para  alcançar melhores índices acima mencionados.
ROSINEY MARCELO BERNABÉ

COLORADO - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 23/07/2014

Antonio Carlos !

Vejo as suas matérias na MILKPOINT como uma grande fonte de informações para nós leitores onde necessitamos a cada dia.

Com você caro amigo só temos a aprender mais e mais

Um forte abraço e parabéns por todas matéria publicadas.


ANDRÉ GONÇALVES ANDRADE

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 23/07/2014

Parabéns pelo matéria Antônio Carlos!

Chegou a dar saudade das Minas Gerais!
JULIO WALLACE CARDOSO

GOIÂNIA - GOIÁS

EM 22/07/2014

Parabéns ao amigo Antonio Carlos que mostrou nesta matéria a pujança da pecuária leiteira de Minas.