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Brasil leiteiro de Sul a Norte - Goiás

POR ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

ESPAÇO ABERTO

EM 15/09/2014

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O estado de Goiás produziu 3.5 bilhões de litros de leite em 2012, segundo dados do IBGE, ficando em 4° lugar no Ranking Nacional dos estados com 11% da produção nacional. A posição do estado já foi melhor. Em 2000 ocupava o 2° lugar, perdendo apenas para Minas Gerais. Em 2008 caiu para a 3ª posição e em 2009 para a quarta posição, onde permanece até o presente.

São poucas as regiões no mundo que reúnem condições tão boas para a produção de leite como Goiás. A terra que já custa mais, ainda é muito competitiva quando se compara com os estados do Sul e São Paulo. As propriedades leiteiras do estado, cuja área média está em torno de 87 ha, são bastante adequadas para se fazer uma bom projeto para a produção de leite. A condição de clima tropical que favorece a produção de pastos com produtividade elevada é um outro diferencial relevante. A sazonalidade é bem regular com pelo menos seis meses de chuva para produção de volumosos como reserva para a seca.

A fim de nos ajudar a refletir o potencial de produção de leite em Goiás, vamos comparar a produtividade com a Inglaterra, um dos quatro países do Reino Unido. Com apenas 130.395 km2, 2,6 vezes menor que o estado de Goiás, o país produz aproximados 9 bilhões de litros de leite por ano, 2,5 vezes mais leite que Goiás. A produtividade da vaca inglesa que foi, em média, 6.621 litros de leite em 2003 aumentou para 7.535 litros, crescendo 13,8% nesse período. Este contraste retrata o quanto é possível crescer a produção aqui no cerrado brasileiro.

O parque industrial é moderno. São cerca 250 plantas instaladas.

Com uma produção diária média de 9,7 milhões de litros e uma capacidade industrial estimada de 15,5 milhões diários, a indústria leiteira de Goiás é muito ociosa. Estima-se que a ocupação média anual é de apenas 60%, o que eleva muito seus custos fixos.

Apesar da otimização já realizada por parte das indústrias goianas com a desativação de plantas, é vital um aumento da ocupação das fábricas. Este é um arranjo que passa necessariamente pelo aumento de produtividade do produtor.

No estado, cerca de 70.000 produtores de leite abastecem aproximadamente as 250 indústrias leiteiras inspecionadas. O leite informal ainda é bastante representativo.

As oportunidades de melhorias técnicas no segmento primário são muito grandes. Segundo dados do Diagnóstico da Cadeia Produtiva do Leite de Goiás, realizado pelo Sistema Faeg/Senar em 2009, 24,2% possuem ordenhadeira mecânica e apenas 12,8 % deles usam Inseminação Artificial. Ainda, 56% dos produtores faz apenas uma ordenha diária.

Considerando que o n° de produtores são 60.000, a produção média anual por produtor é de 59.105 litros (no diagnóstico a pesquisa revelou que cada um dos 500 produtores entrevistados produziu 89.429 litros). Com esta produção os custos fixos se tornam muito elevados o que reduz muito as margens de lucro da atividade. No estudo da FAEG apurou-se que o capital investido na atividade leiteira é, em média, R$786.594,00. Isto significa que são R$13,30 investidos para cada litro de leite produzido.

O sistema de produção de leite é predominantemente a pasto com suplementação de volumosos à base de cana corrigida e silagem de milho e sorgo. A Brachiaria brizanta e Brachiaria decumbens são os capins mais presentes, ocupando 92% das pastagens. Os pastos não se apresentam, em geral, bem manejados. Viajando pelo estado é possível visualizar o superpastejo com alta degradação. A presença elevada de cupins também compõe a recente paisagem das pastagens.

Segundo o diagnóstico da FAEG a produção de volumosos está estruturada da seguinte forma nas fazendas de leite de Goiás:


A produtividade da terra é baixa. Segundo dados do diagnóstico ela é, em média, de 2102 litros, por hectare. O produtor do menor estrato (até 50 litros) produz apenas 1.486 L/ha. Quando se avalia tecnicamente este índice conclui-se que ele é muito baixo. Apenas uma pequena intensificação, com melhores práticas de manejo e adubação e seleção do rebanho, é possível, facilmente, dobrar esta produtividade. No mesmo estudo os produtores de 500 a 1.000 litros por dia já conseguem 7.115 litros/ha/ano.

A genética do rebanho de leite em Goiás é caracterizada pelos cruzamentos das raças zebuínas com a raça holandesa. O números de vacas leiteiras em 2012, segundo dados do IBGE, foi de 2.692.841, cuja produtividade média anual é de 1.317 litros por ano,quase a metade da vaca gaúcha ou catarinense, que produz 2.400 litros e quase 6 vezes menos que a vaca de leite do Reino Unido, com 7.535 litros.

Segundo o Diagnóstico de 2009 da FAEG, resumido no quadro abaixo, o rebanho da fazenda de leite em Goiás tem, em média, 97 cabeças. Destas, 26 são vacas em lactação, ou seja, apenas 27% dos animais são produtivos. Em rebanhos com elevado nível de eficiência esse índice ultrapassa 45%. A porcentagem de vacas lactantes em relação ao n° de vacas totais é de apenas 59,1%, variando de 55.5% no estrato de 50 a 200 litros a 65,6% no estrato acima de 1.000 litros. Este índice é baixo quando se compara ao que buscamos tecnicamente, de pelo menos 83%. Os rebanhos americanos trabalham com 86%.


A captação do leite é uma área que também oferece grandes oportunidades ao setor. A baixa produtividade da área associada a uma malha de produtores muito dispersa eleva os custos logísticos da coleta do leite. A indústria necessita estudar e exercitar melhor sua área de atuação. Os programas disponíveis no mercado para a otimização logística podem ajudar muito esta ação.

O leite de Goiás como em todo país já apresentou grandes melhoras na sua qualidade. Mas muito trabalho ainda é preciso ser feito. Os sólidos do leite produzido são bons quando comparados a outros estados do país. No entanto, quando a referência são países como a Nova Zelândia, Holanda e Canadá, as oportunidades de ganhos que ainda temos são muito grandes. No que se refere a Contagem Bacteriana Total (CBT) e Contagem Celular Somática (CCS) há muito trabalho ainda para atingirmos níveis de países com pecuária leiteira desenvolvida.

Tanto o produtor quanto a indústria são muito bem representados em Goiás. A Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (FAEG) tem uma atuação muito relevante. Muitas ações têm sido executadas pela Federação voltadas para o desenvolvimento do segmento primário.

O Sindileite de Goiás também é diferenciado no contexto nacional, na representatividade das indústrias. Diversas iniciativas acontecem no estado em prol de toda a cadeia produtiva por esta organização.

Outra fato relevante no setor leiteiro de Goiás, voltado aos interesses do segmento produtor e de toda a cadeia produtiva, foi a criação da Centroleite em 1997. Trata-se de uma organização virtual com a concepção cooperativista, que hoje congrega 15 cooperativas e comercializa próximo de 700 mil litros de leite com as principais indústrias do país.

Entendemos que o arranjo perfeito é o alinhamento destas instituições focadas no mesmo objetivo, norteados pela filosofia do “ganha-ganha”. O Paraná é um bom exemplo onde muitas políticas nasceram deste entendimento, como é o caso do Conseleite Paraná, Programa Empreendedor Rural, o Centro de Treinamento para Pecuaristas (CTP) de Castro e mais recentemente a Aliança com as cadeias do leite do RS e SC.

A produção leiteira goiana com extensas áreas de terra e boas condições de clima, topografia e qualidade dos solos apresenta grandes oportunidades de ganhos. Uma das deficiências do setor passa pela falta de assistência técnica e gerencial dos produtores, que ainda são muito extrativistas.

Os dados do Diagnóstico da FAEG são alarmantes quando se trata deste capítulo. Quando se lê que 51,8% dos produtores entrevistados não foram visitados por nenhum técnico no ano anterior ao estudo, todos nós inseridos na cadeia produtiva, devemos ficar incomodados. Este quadro é ainda mais crítico quando ficamos sabendo que 82,8% não recebiam uma assistência continuada. É igualmente ruim quando se constata que na temática da capacitação oferecida aos produtores, o gerenciamento da propriedade, contempla apenas 7,7% dos assuntos.

O estado não tem sido o melhor exemplo quando se trata da assistência técnica aos produtores de leite. O ressurgimento da Emater foi uma ação positiva mas as ações focadas ao setor podem ser melhoradas. Os estados da região Sul do Brasil, como já comentamos em artigos anteriores, têm cumprido melhor este papel.

No que se refere a assistência técnica privada o projeto iniciado no estado norteado por uma parceria da FAEG, SENAR e SEBRAE, com o Sindileite tem uma boa perspectiva para repor este vazio.

O projeto surgiu em 2011, quando os seguimentos envolvidos na cadeia láctea no Estado de Goiás se reuniram e discutiram como poderiam alavancar a produção de leite. Dentre outras prioridades como o desenvolvimento dos produtores, estava também o projeto da venda financiada de touros de raça leiteira, visando a melhoria genética do rebanho.

Com isso, o Sindileite através de suas filiadas e parceiros, pretende dar uma nova dinâmica à produção de leite no Estado e uma maior motivação aos produtores, levando a eles novos conhecimentos e assistência técnica e gerencial.

Há ainda outras iniciativas muito positivas, como o NATA, da Nestlé, o Procampo, do Laticínio Piracanjuba e, o Programa Balde Cheio, promovido no estado pelo sistema FAEG/SENAR.

As ações de apoio, desenvolvidas pelo SENAR AR/GO, SEBRAE, especialmente no que se refere a capacitação dos produtores e seus trabalhadores são muito importantes. Mais recentemente a implementação do “Programa Empreendedor Rural” (PER), fruto de uma parceria destas duas instituições, e com excelentes resultados no Paraná, também vão agregar muito à cadeia do leite no estado.

Um bom exemplo de Goiás foi a organização dos municípios da região Oeste do Estado em torno da criação do Arranjo Produtivo Local (APL Lácteo) que inicialmente contemplou 12 municípios em torno de São Luís dos Montes Belos. O conceito é perfeito já que as ações passaram a ser focadas e com muita sinergia. Muitas foram as conquistas deste APL, como o Curso de Bovinocultura de Leite, o Laticínio Escola, o Curso de Tecnólogo de Laticínios na UEG, dentre tantos outros.

Nesta análise vimos que o estado reúne fortalezas, fraquezas e praticamente, sem ameaças, apresenta grandes oportunidades. Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro que são deficitários podem absorver tudo que Goiás vier a produzir e exportar.

Com ganhos de produtividade e logísticos pela intensificação da produção o estado, que hoje produz um dos leites mais caros do país, tem todas as condições para permanecer entre os mais competitivos.

A indústria tem que fazer o seu “dever de casa” e melhorar seus processos de gestão.

O desenvolvimento do produtor, que está apenas começando, tem que decolar “com muita força”, através de uma sinergia robusta entre os segmentos da cadeia produtiva.
 

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ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA LIMA JR.

A SL Consultoria em Agronegócios é uma empresa criada em agosto de 2014, com sede em Goiânia, tendo a expertise em negócios relacionados com a Cadeia do Leite como seu pilar central. Ela foi projetada pelo seu sócio proprietário, que atuou por 23 ano

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RODOLFO CLÍMACO

BOM JESUS - SANTA CATARINA - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 16/09/2014

Parabéns Antônio!

Mais um ótimo artigo!

Realmente o aumento da produtividade é o caminho a ser seguido.

Grande abraço.
ADVANILDO GONÇALVES

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/09/2014

Parabéns Antonio Carlos de Souza Lima Jr.



Por muito tempo se esperou que o produtor abrisse a porteira e a mente para ter o apoio de um técnico e com isso realmente ver os lucros da produção de leite de qualidade e tudo isso reflete nas industrias por ter uma matéria prima de qualidade.



Novamente, Parabéns pela matéria, e continuamos na luta árdua para ajudar aos produtores do ouro branco e ao estado que apesar do crescimento da área para agricultura tem um grande potencial para novamente assumir as primeiras posições no ranking em produção de leite.



Forte abraço.
RICARDO ARANTES

GOIÂNIA - GOIÁS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 15/09/2014

Parabéns amigo Antônio Carlos! Tenho visto tudo o que você relata em sua matéria. E realmente, o trabalho a ser feito, ainda, é grande. Porém muito prazeroso, não é mesmo?

Um forte abraço.