Neste estágio, severas alterações metabólicas, fisiológicas e anatômicas ocorrem na vaca parturiente, favorecendo a ocorrência de diversos distúrbios patológicos que podem, além de prejudicar a eficiência produtiva da futura lactação, reduzir o desempenho reprodutivo e aumentar a taxa de descarte. Uma pesquisa realizada em rebanhos leiteiros do município de Arapoti, estado do Paraná, mostrou que 53% das vacas descartadas deixaram seus rebanhos nos primeiros três meses de lactação.
A maioria das doenças infecciosas e desordens metabólicas, como a hipocalcemia, cetose, retenção de placenta, metrite, mastite e deslocamento de abomaso ocorrem neste período.
As doenças metabólicas podem, em parte, serem causadas por um desbalanço ou deficiência de nutrientes, ou pela depressão no consumo de alimentos antes do parto, resultando em um balanço nutricional negativo. Para suprir esta demanda de nutrientes, o animal deverá mobilizar suas reservas corporais. A consequência desta mobilização é a produção de alguns metabólitos, que em elevadas concentrações podem ser prejudiciais ao animal, contribuindo para a ocorrência das doenças metabólicas citadas anteriormente.
Entretanto, a maioria das alterações metabólicas ocorre de forma subclínica, ou seja, sem que o animal manifeste algum sinal clínico. O maior problema destas é a diminuição de 10 a 30% da produtividade, mesmo estando aparentemente saudáveis, sem que o proprietário ou o médico veterinário notem qualquer anormalidade.
Desta forma, torna-se importante o uso de tecnologias para monitorar a saúde das vacas no período de transição, objetivando prevenir, diagnosticar e tratar estes problemas subclínicos, evitando ou reduzindo as perdas na produção leiteira.
O perfil metabólico é um conjunto de exames sanguíneos que permite quantificar a concentração dos metabólitos provenientes da mobilização de tecidos corporais e com isso realizar o monitoramento da adequação das vacas às exigências crescentes de energia, proteína e minerais. Além disso, o perfil metabólico permite o diagnóstico de transtornos metabólicos, de deficiências nutricionais, como preventivo de transtornos subclínicos, além da pesquisa de problemas de saúde e do desempenho produtivo de um rebanho.
Além deste, outra forma de monitoramento, mais simples, de fácil obtenção e baixo custo, é o exame de leite e urina com reagentes colorimétricos, na forma de pó ou fitas, sendo facilmente encontradas em lojas especializadas. Esse exame, considerado como qualitativo por não demonstrar a concentração exata dos metabólitos circulantes, permite diagnosticar problemas clínicos em indivíduos suspeitos e, com isso, também corrigir erros de manejo alimentar e de ambiente.
O acompanhamento da qualidade do período de transição de vacas leiteiras pela realização de exames metabólicos pode ser individual ou geral do rebanho. O objetivo do exame individual é identificar as vacas com risco para doenças e com isso evitar ou atenuar o problema clínico, e no caso do exame do rebanho, pode-se avaliar a eficiência do manejo realizado com a detecção precoce dos problemas existentes.
Diversos parâmetros metabólicos séricos podem ser avaliados, entretanto, apenas dois são realmente importantes ferramentas clínicas para medição do status nutricional e da adaptação ao balanço energético negativo de vacas leiteiras durante o período periparto. São eles os ácidos graxos não-esterificados (AGNE) e o beta-hidroxibutirato (BHBA).
Os AGNE, ou ácidos graxos livres, são metabólitos oriundos da quebra de moléculas de triglicerídeos (gordura) das reservas corporais, com o objetivo de fornecer a energia deficitária durante o balanço energético negativo. Assim, a concentração plasmática de AGNE é frequentemente uma chave clínica para avaliar a intensidade de mobilização das reservas de gordura corporal em vacas leiteiras durante o período periparturiente.
Os AGNE podem ser utilizados de três formas pela vaca leiteira: 1) convertidos diretamente em energia (melhor alternativa), 2) convertidos em corpos cetônicos pelo fígado (menos desejável) e 3) armazenados como gordura no fígado (pior alternativa, pois leva ao fígado gorduroso).
Portanto o BHBA (beta-hidroxibutirato) é um dos principais corpos cetônicos produzidos pelo fígado e quando em altas concentrações no organismo (quadro clínico conhecido como cetose) reduzem o consumo alimentar e por consequência a produção de leite, sendo, portanto um indicador da adaptação da vaca ao balanço energético negativo.
Devido à grande demanda nos dias que antecedem o parto (formação do feto e colostro) e pela alta demanda no início da lactação, o mineral cálcio (Ca) também pode ser monitorado na primeira semana da lactação.
Certamente a determinação sanguínea exata destes metabólitos é uma excelente forma de monitoramento nutricional e clínico de rebanhos, no entanto, por ser um exame laboratorial, para sua realização é necessário equipamento bioquímico e reagente específico para cada metabólito. Por estes motivos, o exame de perfil metabólico ainda não é um exame de rotina utilizado em propriedades leiteiras devido principalmente ao custo dos reagentes, maior manejo dos animais, necessidade de colheita, armazenamento e transporte do sangue até o laboratório, além do custo para a realização do exame.
Estas limitações são relevantes, mas não devem impedir o monitoramento de vacas leiteiras recém-paridas, já que as perdas econômicas associadas às enfermidades metabólicas deste período são muito mais expressivas. Além disso, dados epidemiológicos e observações de campo mostram que a incidência combinada destas enfermidades tipicamente chega a 50% de todas as vacas parindo em fazendas norte-americanas. Em outras palavras, a cada duas vacas parindo numa típica propriedade norte-americana, normalmente uma vai ser acometida de uma desordem no período pós-parto. Dados preliminares em dois grandes rebanhos leiteiros do Paraná mostraram incidências similares.
Ressalta-se ainda que existem formas mais simples, de fácil realização e de baixo custo para o monitoramento do rebanho. Dentre elas citam-se os exames colorimétricos com fitas reagentes e reagentes em pó para análise de corpos cetônicos na urina e leite que podem ser realizados na própria fazenda, rapidamente, sem prejudicar o manejo rotineiro dos animais.
Conclusões
A avaliação do perfil metabólico sanguíneo, levando em conta as características do rebanho e o estado fisiológico dos animais, oferece uma importante ferramenta para detectar a tempo alguns distúrbios metabólicos, muitas vezes presentes em forma subclínica, que afetam a saúde, a fertilidade e a capacidade produtiva dos rebanhos.
Um eficiente período de transição determina a rentabilidade da vaca durante toda a lactação, assim como limitações nutricionais ou no manejo durante este período podem impedir o alcance da máxima produtividade leiteira.
Métodos eficientes e de baixo custo para análise de metabólitos, podendo ser usados de forma rotineira em fazendas leiteiras auxiliariam no monitoramento da qualidade dos manejos e consequentemente no controle e prevenção de problemas clínicos durante o período de transição, proporcionando melhor saúde e produtividade às vacas.
Em um próximo artigo iremos compartilhar com os leitores do MilkPoint os principais resultados de um experimento conduzido em duas grandes leiterias paranaenses, onde se utilizou o perfil metabólico no monitoramento de vacas leiteiras recém-paridas.
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Paulo Braga
Bauru - São Paulo - Produção de leite (de vaca)
postado em 09/11/2009
Quando voces falam o periodo de transição entre 3 semanas antes do parto e 3 semanas após o parto a vaca deve ser bem tratada com concentrado além do capim de mombaça? O que seria a quantidade correta em consumir energia?
Neste periodo pode ser fornecido a vontade o sal mineral ou é prejudicial?