Conforme foi abordado no último artigo, existem algumas hipóteses que buscam esclarecer a relação entre a incidência das afecções de casco e os índices reprodutivos do rebanho. Algumas destas hipóteses são semelhantes às mencionadas pelo trabalho da Universidade de Tennessee, associadas à mastite e abordada no artigo anterior a esta série.
A primeira hipótese envolve a laminite, que é uma síndrome na qual ocorrem eventos em cascata, com a liberação de histamina e endotoxinas. Pesquisadores da Universidade de Cornell descreveram que a etiopatogenia da laminite está associada à acidose ruminal e que a severidade dos efeitos em cascata advinda da acidose depende da intensidade e duração do insulto causador.
A redução do pH ruminal, conjuntamente com a morte de bactérias gram negativas e a liberação de endotoxinas, ocasiona a liberação de histamina, que irá alterar a vaso constrição e dilatação. Esta alteração por sua vez, irá ocasionar uma forte pressão no córium laminar do casco, resultando em edema, formação de trombo, necrose e ruptura de vasos na região do córium.
Tais eventos ocasionam a aparência edemaciada e avermelhada do casco acometido com a laminite. Vários pesquisadores da área alegam que esta hipótese tem fundamento, já que o período de transição entre o pré e pós-parto é caracterizado por drásticas mudanças fisiológicas, nutricionais e metabólicas. Dietas no pré-parto baixas em energia e dietas no pós-parto altas em carboidratos solúveis são fatores estatisticamente relacionados com altas incidências de hematomas de sola e com baixa qualidade do tecido córneo.
Logo, se as lesões podais estão relacionadas com a acidose rumenal subclínica, a liberação de endotoxina oriunda da lise de bactérias Gram negativas pode ser um elo entre a fisiopatologia da laminite e da alteração folicular na fase de formação dos cistos ovarianos. Algumas pesquisas já relataram que a sucessiva liberação de endotoxina durante a fase folicular influencia a função luteal, atrasa a liberação das ondas de LH e induz a formação de folículos ovarianos persistentes em vacas leiteiras.
O segundo mecanismo que poderia elucidar esta associação é o fato das lesões podais serem fonte de dor e estresse, que por sua vez, causam altos níveis de catecolaminas e glucocorticóides. O estresse induz também as glândulas adrenais a liberarem progesterona. O aumento do ACTH e o leve aumento da progesterona têm sido associado com o atraso ou a inibição do GnRH e/ou dos picos de LH e com a alteração da atividade folicular, podendo induzir a formação de folículos ovarianos persistentes.
A terceira hipótese estaria associada com o fato da claudicação afetar o comportamento do animal, fazendo com a vaca permaneça mais tempo em decúbito, reduzindo o contato social e a ingestão de matéria seca. Com esta conduta, os animais acometidos perdem peso e, no caso das vacas no pós-parto, é agravada a situação do balanço energético negativo. O balanço energético negativo é causador de um efeito inibitório no desenvolvimento do folículo ovariano. Vacas magras ou perdendo peso possuem menores pulsos de LH ou menores concentrações de IGF-1. Além destes fatores, os folículos dominantes que ocorrem durante a fase de balanço energético negativo necessitam de mais tempo e uma maior dimensão para alcançar os níveis de estrógeno suficientes para induzir o processo de ovulação.
Não se sabe se estes três mecanismos estão agindo conjuntamente, mas sabe-se que todas as três alternativas são passíveis nos animais acometidos com afecções podais. Sem dúvida, devido a sua relevância e, sobretudo, devido à sua complexidade o tema merece ser mais estudado e avaliado em diferentes ensaios e por diferentes pesquisadores. Mas a principal mensagem que deve permanecer, enquanto estas associações (casco, mastite, reprodução) não são profundamente e inúmeras vezes estudadas, é que estamos trabalhando com animais altamente especializados e sensíveis, não se pode achar que as patologias estão separadas como uma ciência exata, um distúrbio estará sempre ligado a outro e os eventos ocorrerão num moto contínuo. A prevenção e um manejo que vise o bem estar animal serão sempre a chave para uma boa produtividade.
Fonte:
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Associação entre as afecções de casco e a reprodução - parte 2
Publicado por: Renata de Oliveira Souza Dias
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Renata de Oliveira Souza Dias
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