Fechar
Receba nossa newsletter

É só se cadastrar! Você recebe em primeira mão os links para todo o conteúdo publicado, além de outras novidades, diretamente em seu e-mail. E é de graça.

Você está em: Radar Técnico > Reprodução

Doenças uterinas em vacas de leite - Parte 2

Por Ricarda Maria dos Santos e José Luiz Moraes Vasconcelos
postado em 04/08/2010

2 comentários
Aumentar tamanho do texto Diminuir tamanho do texto Imprimir conteúdo da página

 

Este texto é parte da palestra apresentada por José Eduardo Portela Santos, no XIV Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2010.

Para ler a primeira parte desse artigo, clique aqui.

Febre Pós-Parto

Cerca de 10 a 45% das vacas de leite de alta produção apresentam pelo menos um dia de febre (temperatura retal > 39,5 ºC) nas primeiras duas semanas pós-parto. Em muitos desses casos, a febre não está associada com nenhuma outra alteração clínica (Cerri et al., 2009). É provavelmente por esse motivo que o diagnóstico de febre nos primeiros 10 dias pós-parto tem baixa correlação com infecção bacteriana uterina (Sheldon et al., 2004a). No estudo de Sheldon e colaboradores (2004a), cerca de 56% das vacas com febre também apresentavam infecção uterina.

Overton et al. (2003) observaram que o tratamento de vacas multíparas com 1,5 g de ceftuifur de forma sistêmica com base na detecção de febre nos primeiros 3 dias pós-parto tiveram menor risco de incidência de metrite pós-parto, mas o mesmo não foi observado para vacas primíparas. É possível que o uso de antimicrobianos com base apenas na detecção de febre seja, até certo ponto, desnecessário. Obviamente, quando a febre está associada a alterações clínicas do animal, então a terapia antimicrobiana e uso de antitérmicos podem ser benéficos.

Inflamações e Infecções Uterinas

Há diversas formas de doença uterina que envolvem infecções e inflamações das diferentes camadas do útero. Dentre elas estão a metrite puerperal aguda, metrite, endometrite clínica, endometrite subclínica, e a piometra.

Metrite Puerperal Aguda

Esta doença é resultante de severa inflamação do endométrio e miométrio, podendo afetar até a serosa uterina (Bondurant, 1999). Algumas vacas com metrite acabam sucumbindo muitas vezes por complicações da doença como perfuração uterina e peritonite.

Geralmente ela ocorre nas primeiras 2 semanas pós-parto com cerca de 50% dos casos são diagnosticados nos primeiros 7 dias pós-parto. Ela é caracterizada por descarga uterina fétida de coloração avermelhada ou amarronzada, e de aspecto aquoso com debris de tecidos. O útero está flácido e sem as ranhuras e tônus característico da vaca com involução adequada. Quando há sintomatologia sistêmica, como febre e falta de apetite, a doença é classificada como metrite puerperal ou metrite aguda. Neste caso, a vaca pode apresentar sintomas de septicemia e corre até mesmo risco de vida.

A metrite em geral afeta entre 5 a 30% das vacas de leite de alta produção, com uma incidência muito inferior em vacas em sistema de pastejo. Primíparas são mais susceptíveis à doença que multíparas provavelmente devido ao maior risco de distocia.

A contaminação uterina por bactérias patogênicas gram negativas e anaeróbias predomina nas vacas com metrite. Como praticamente toda vaca pós-parto apresenta contaminação bacteriana no útero (Sheldon et al. 2006; Sheldon, 2004), apenas aquelas que não conseguem controlar o crescimento bacteriano acabam desenvolvendo a doença. É por isso que o sistema imunológico se torna o pivô deste processo. Acredita-se que em vacas imunocompetentes, a contaminação bacteriana, apesar de presente, acaba sendo controlada pela ação da resposta imune inata do útero. Isso previne a proliferação de bactérias como a Escherichia coli, Fusobacterium necrophorum, e Prevotella SP.

Quando a contaminação uterina supera os mecanismos de defesa uterino, então a doença se desenvolve. Acredita-se que a colonização bacteriana inicial por E. coli e outros é importante para o aparecimento de bactérias Gram + como o Arcanobacterium pyogenes, principal causador de doença uterina após a segunda semana pós-parto e agente etiológico das endometrites e piometras.

Há inúmeros fatores de risco para metrite, entre eles a distocia, natimorto, hipocalcemia, parto gemelar, e retenção de placenta. Além destes, o nascimento de bezerros machos, por causa do seu maior tamanho, também está associado com maior risco de metrite. Dentre todos estes, o mais importante é a retenção de placenta. Recentemente, foi demonstrado que a redução na ingestão de alimento nas últimas semanas de gestação foram associados com o risco de metrite ou com aumento na severidade da doença (Huzzey et al., 2007; Urton et al., 2005).

Acredita-se que mudanças no comportamento alimentar e na ingestão de MS acabem acarretando em redução na competência imunológica e aumentando o risco de doenças uterinas (Hamon et al., 2006; Kim et al., 2005). Apesar da associação entre redução na ingestão de MS e redução em algumas medidas da resposta imune inata e aumento no risco de metrite (Hammon et al., 2006), dados recentes de vacas induzidas a desenvolver balanço negativo de energia durante o meio da lactação mostrou poucas alterações nos parâmetros de imunidade inata (Moyes et al., 2009). Apesar de o estudo descartar efeito na resposta imunológica inata quando vacas são submetidas a um balanço energético negativo, ele foi conduzido com vacas em meio de lactação e, talvez, com resposta distinta das vacas em início de lactação que estão em risco de desenvolver metrite.

De maneira geral, o diagnóstico de metrite em vacas de leite resulta em perdas de produção de leite, aumento no risco de descarte e, sem dúvida, em piora no desempenho reprodutivo.

O tratamento da metrite pós parto envolve o uso de antibióticos ou de maneira sistêmica ou local, uso de antipiréticos, e terapia de suporte para controlar a hipocalcemia, hipoglicemia, e re-hidratar a vaca.

A resposta ao tratamento com antibióticos é, de maneira geral, positiva e o tipo de antibiótico utilizado parece não ser decisivo. Smith et al. (1998) utilizou três terapias distintas para o tratamento de vacas com metrite puerperal. A primeira foi o uso de 22.000 UI de penicilina procaína/kg durante 5 dias na forma i.m. O segundo grupo foi tratado com injeção i.m. de 22.000 UI de penicilina procaína/kg durante 5 dias e mais 6 g de oxitetraciclina intrauterina nos dias 1, 3 e 5. O terceiro grupo recebeu 2,2 mg de ceftiofur/kg de peso vivo por 5 dias.

A figura 1 mostra a resposta em temperatura retal durante os cinco dias de tratamento. De maneira geral, não houve diferença na recuperação clínica das vacas e os autores concluíram que a resposta foi favorável com as três terapias utilizadas.


Figura 1. Temperatura retal de vacas diagnosticadas com metrite puerperal e tratadas com injeção i.m. de 22.000 UI de penicilina procaína/kg durante 5 dias (●; n=17); injeção i.m. de 22.000 UI de penicilina procaína/kg durante 5 dias e 6 g de oxitetraciclina intrauterina nos dias 1, 3 e 5 (▲; n=17); ou 2,2 mg de ceftiofur/kg de peso vivo por 5 dias (; n=17) (Smith et al., 1998).

De maneira geral, as vacas acometidas por metrite seja ela puerperal ou não, apresentam desconforto, dor, anorexia, e é consenso geral que esses animais necessitam de tratamento. O uso de ceftiofur em dosagem de 1 mg/kg de peso vivo resulta em concentrações de derivativos de ceftiofur nos tecidos uterinos que excedem a concentração inibitória mínima eficaz contra >90% das E. coli, F. necrophorum e A. pyogenes (Drillich et al., 2006c; Sheldon et al., 2004b), os principais agentes causadores de metrite.

De fato, ensaios de campo indicam que o uso de ceftiofur durante 3 a 5 dias é eficaz no tratamento de metrites puerperais (Tabela 2; Chenault et al., 2004; Drillich et al., 2001; Smith et al., 1998). Por outro lado, o uso de 5 g clortetraciclina na forma de bolus intrauterino a cada 3 a 4 d por 4 tratamentos melhorou o desempenho reprodutivo de primíparas e multíparas com metrite (Goshen e Shpigel, 2006; Tabela 2).

O uso de anti-inflamatórios associados aos antibióticos é comum na terapia de vacas com metrite. Drillich et al. (2007) avaliou a eficácia de um único tratamento com 2,2 mg de flunixin meglumine/kg de peso vivo no primeiro dia de tratamento de vacas com metrite e recebendo 1 mg/kg de ceftiofur. A proporção de vacas com febre nos dias 1, 3 e 6 após o tratamento e a prevalência de endometrite clínica nos dias 20 ± 2 e 34 ± 2 pós-parto não foi alterada pelo uso de anti-inflamatório. Da mesma forma, o desempenho reprodutivo das vacas não se beneficiou do uso de flunixin meglumine (Tabela 2).

Tabela 2. Eficácia de diferentes terapias para metrite puerperal em vacas de leite.

Clique na imagem para ampliá-la.

Avalie esse conteúdo: (5 estrelas)

Comentários

Lucas Antonio do Amaral Spadano

Gouvêa - Minas Gerais - Produção de leite
postado em 07/08/2010

Parabéns Dra. Ricarda e Dr. José Luiz. tanto a parte 1 quanto a parte 2 são extremamente importantes e o melhor, vocês utilizaram nos textos uma linguagem clara, acessível e didática, de forma que o entendimento tornou-se fácil para todos. Com certeza muita gente já perdeu animais valiosos pelas razões abordadas, sem ter noção do que estava acontecendo. Muito esclarecedor.
Aproveitando, gostaria de sugerir a continuação, com a abordagem dos temas prolapso vaginal e prolapso uterino, pessoalmente, gostaria muito se fosse possível e imagino que outros tantos também.
Obrigado, parabéns de novo.
Lucas Spadano

Cristiano Martins Ferreira

Divinópolis - Minas Gerais - Produção de leite
postado em 27/12/2010

Olá Dra Ricarda e Dr José Luiz,
Eu assisti a palestra do José Eduardo em Uberlândia, e a respeito das terapias com antimicrobianos ele comentou sobre o uso de oxitetraciclina LA, na dose de 10 ml por kg de PV (comumente usada no campo), que nesta dosagem não atingimos a concentração inibitória mínima contra as principais bactérias causadoras da metrite tendo como cosequência uma inefici~encia no tratamento. Porém como veterinário de campo tenho usado muito esta terapia e com resultados positivos (no que diz respeito aos sintomas clinicos) não tenho numeros com relação a taxa de concepção a 1ª IA nem com relação ao periodo de serviço gostaria de saber, se for possível a opinião de vocês com relação a este tratamento e se existem mais trabalhos testando ao tratamento acima citado.
Desde já agradeço a atenção dos senhores.

Quer receber os próximos comentários desse artigo em seu e-mail?

Receber os próximos comentários em meu e-mail

Envie seu comentário:

3000 caracteres restantes


Enviar comentário
Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

Copyright © 2000 - 2014 AgriPoint Consultoria Ltda. - Todos os direitos reservados

O conteúdo deste site não pode ser copiado, reproduzido ou transmitido sem o consentimento expresso da AgriPoint.

Consulte nossa Política de privacidade